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EcoSchool 2018 – É tempo de reconciliação com a Pacha Mama

 
Por Natália Blanco*
 
No dia 1 de novembro havia se passado 3 dias do resultado das eleições presidenciais no Brasil e eu estava indo pra San Salvador (capital de El Salvador, um país de cerca de 21 mil km² de extensão. O estado de São Paulo, no Brasil, onde vivo, tem cerca de 248 mil km²). Estava a caminho da EcoEscuela “Água, Alimentación y Justicia Climática” do Conselho Mundial de Igrejas em parceria com o escritório da ACT Aliança para a América Latina, e outras organizações parceiras.
 
Fui decidida a desligar de tudo que vinha pensando/passando no meu país. Mas como o “vento sopra onde quer” (na linguagem ecumênica), fui surpreendida.
 
Bem, falar sobre água, alimentação e justiça climática sob por meio de uma perspectiva teológica é bastante desafiador. Porque quando nós, como pessoas e organizações, instituições baseadas na fé, nos comprometemos com os valores de justiça do reino nossas responsabilidades se multiplicam.
 
Logo no primeiro dia da EcoEscuela escutamos Ángel María Ibarra Turcios, vice ministro do Meio Ambiente e Recursos Naturais do governo de El Salvador, que nos apresentou o contexto do país em relação aos temas de água, clima e alimentação, frente aos abusos praticados por grandes corporações, na privatização de recursos naturais e completa despreocupação com as vidas que ali habitam.
 
“Este ano El Salvador enfrentou a maior seca dos últimos 40 anos, prejudicando abastecimento de água, alimentos, energia. Enquanto isso sabemos que 6 empresas transnacionais controlam o mercado mundial”, afirma Ibarra. Famílias de baixa renda sofrem com a escassez de água. Mil litros de água potável custam cerca de cinco dólares no país.
 
O ser humano se divorciou da Mãe Terra, nossa Pacha Mama. Precisamos lembrar que somos seres vivos, somos parte e dependemos dela Oiukumene significa isso, casa comum.
 
É preciso romper com as lógicas colonizadoras, que se tratando das igrejas cristãs, são muito presentes ainda hoje na América Latina, e nos voltarmos para aprender com aqueles e aquelas que sempre cuidaram desta terra sagrada. Habitar a casa comum, oikoumene, nos proporciona uma chance de nos reconciliarmos com a criação e aprender com os conhecimentos milenares dos povos originários que resistem. Dessa forma uma ruptura radical com os padrões de consumo e de produção impostos pelo sistema imperialista é possível.
 
Ouvimos movimentos como a Via Campesina, e sua trajetória de resistência na defesa da terra e produção agroecológica. Os desafios do Foro Del Agua de El Salvador, e como movimento conseguiu unir diferentes movimentos sociais, como o ARA (nome) a Kawoq, movimento de ecofeministas, todos juntos na luta pela água como um direito humano inegociável.
 
“Nós temos defendido nosso corpo, terra e território. E fazemos um trabalho de incidência para formação e sensibilização das comunidades. Estamos como mulheres defensoras, lutando ao lado de todo movimento nacional aqui em El Salvador por meio da Aliança Nacional Contra a Privatização, um movimento forte que tem ganhado força frente a ameaça da privatização da água” contou Sara Garcia, Ecofeminista do movimento Kawoq e integrante do Foto Del Agua de El Salvador.
 
“El água no se vende, se cuida y se defende!”
 
 
É tempo de reunir forças e resgatar esperanças
 
Seria muito difícil escolher um único momento marcante de toda a experiência durante estes 12 dias porque muito mais que as reflexões teóricas e práticas, com excelentes especialistas, exposições técnicas e discussões em grupo acerca desses três temas; pude ver como aprendemos no encontro com outrxs.
 
A escuta, a troca, os questionamentos, o “confronto” de realidades. E no meio desse confronto, reconciliação. E a partir de todo aprendizado também pudemos planificar ações para atuarmos regionalmente em nossos países, comunidades e organizações.
 
Também ouvimos relatos de resistência como o poema da companheira Patrícia Morales sobre Dom Oscar Romero, canonizado recentemente pelo Papa Franciscco  e defensor dos mais pobres e oprimidos. Romero foi voz profética durante um período tenebroso da história do país e morreu assassinado enquanto presidia a Santa Missa, no dia 24 de março de 1980, por um atirador de elite do exército de El Salvador.
 
Patrícia recitou seu poema durante a visita que realizamos pela casa onde o Monsenhor viveu na capital. Com a voz carregada de emoção e os olhos marejados pelas recordações daquele tempo:
 
Sucedió un Domingo de Ramos
 
Voy a contar una historia
Algo que pasó de verdad
Todavía vive en mi memoria
Lo sucedido en Catedral…
 
En Catedral comenzó su jornada
En Catedral alzó su voz
Catedral es ahora su última morada
A Catedral llega el pueblo
Con su dolor
 
El 24 de marzo lo asesinaron
El 30 era su funeral
Fue un domingo, Domingo de Ramos,
Domingo de luto
en Catedral
….
Era inevitable
Aquel mar de gente era inevitable
¿Cómo contener a un pueblo herido
por la pérdida de un hijo?
¿Cómo se controla un cuerpo
cuando le amputan un miembro?
 
El dolor era grande
Siempre duele que se derrame la sangre
Siempre que muere un hijo
Llora la madre
 
Era inevitable.
 
Y ellos lo sabían
los cobardes lo sabían
y tenían miedo…
 
Aquel mar de gente
había venido desde lejos
 
Desde Aguilares
Desde Chalate
Desde Cojute
Desde San Pedro
 
Desde todos los rincones
de nuestro suelo
llegaron hombres, mujeres y niños,
jóvenes y viejos
sacerdotes, religiosas,
intelectuales y reporteros
 
Hermanos de otros países
se unieron a nuestro duelo
acompañando el lamento
de nuestro pueblo
 
Aquel mar de gente
inundaba el centro
desbordaba las plazas
las aceras, las calles,
el templo
 
Largas filas de manifestantes
venían desfilando
desde el Parque
su jornada era de luto
pero también de combate
denunciando y condenando
las masacres
 
Al frente de las filas
iban los obreros
y con el puño en alto
y en silencio
rindieron homenaje
a Monseñor Romero
 
Los aplausos rompieron el silencio
Al ver llegar tan dignamente
Aquella manifestación
De dolor sincero
 
La gente reunida
solidariamente
compartía aquel día
Un riesgo evidente
La rabia de los perros
Esa rabia de muerte
No soportó
nuestro gesto valiente
 
Su cobardía hizo
Estallar una bomba
Y surgir la ráfaga
Y otra bomba
Y otra bomba
 
El horror se regó
Y comenzó la estampida
y entre el humo y los gritos
la gente caía
 
La multitud corrió desesperadamente
Gritando
Temblando
Llorando
Rezando
 
Aquel mar de gente
Estaba en agonía
Nuevamente
Le asestaban una herida
 
Decenas de muertos
Fue la respuesta
De los golpes, la asfixia,
Y la balacera
 
Las calles quedaron vacías
Solo el dolor vagaba en las esquinas
 
En medio de la plaza
Esta imagen se prendió en mis pupilas:
Una montaña de pañuelos,
Zapatos, carteras,
Y las palmas esperando
Su agua bendita
..…
Mientras tanto
Monseñor Romero
Quedó en su ataúd
Ya no hubo entierro
Y desde algún lugar
Fue mudo testigo
De la masacre de aquel domingo
….
Los guardias y soldados
No escucharon su llamado
Oyeron la voz de su amo
Cobardemente
Ordenando dar muerte
La mañana de aquel
Domingo de Ramos
 
Patrícia Morales
(San Salvador, Semana Santa de 1980, escrito a mis 17 años)
 
E como disse lá em cima que “o vento sopra onde quer”, eu não consegui me desligar de tudo que vinha passando. Não é novidade, a eleição no Brasil foi noticiada no mundo inteiro. As notícias sobre como denominações evangélicas se apropriaram de um discurso de ódio para colocar em prática um projeto de poder correram.
 
E no dia que fui surpreendida pela imagem do “ninguém solta a mão de ninguém” durante o momento de reflexão em grupo, entendi o luto pelo qual estava passando sem perceber (como o querido amigo Dario disse).
 
Mas ao mesmo tempo que sofri, vivi na prática isso de ninguém soltar a minha mão. Pude sentir as mãos, os ombros, os choros, as palavras e o carinho. É no encontro com o outrx que nós nos encontramos, Cristo nos ensina isso.
 
E neste espírito de reconciliação comigo mesma, meus companheiros e companheiras, é que retorno com forças e esperanças para contribuir regionalmente na luta em defesa da criação e tudo que a envolve.
 
Obs1.: A chamada EcoSchool, é um esfuerzo conjunto de los programas de agua (Red Ecuménica del Agua) la Alianza Ecumenica de Incidencia (EAA) y el programa de Justicia Económica y Climática del Consejo Mundial de Iglesias (CMI) junto con el Programa de Eco Justicia Global de la FUMEC (WSCF), ACT Alianza ALC, Christian Aid, la Federación Luterana Mundial y la Universidad Luterana Salvadoreña, contando con el apoyo de Iglesia Evangélica Luterana en América (ELCA) y la organización InFaith
 
Obs2.: Pacha Mama – divindade máxima que representa a Mãe Terra, presente em diversas nas culturas indígenas dos povos originários latinoamericanos.
 
*Natália Blanco é metodista e comunicadora em KOINONIA Presença Ecumênica e Serviço