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Esperar com esperança: Dr. Rowan Williams

 
O presidente do Conselho da Christian Aid e ex Arcebispo da Cantuária Dr. Rowan Williams (foto acima) esteve no Brasil no mês de setembro. Como parte de sua visita, compartilhou a reflexão que segue em uma reunião com lideranças religiosas e movimentos sociais no dia 25 de setembro. 
 
Carta de São Paulo aos Romanos (Rm 8,19-25)
 
Eu sei que, atualmente, há neste país muita expectativa, espera, em receio e anseio. O mesmo é o caso no meu país, nos Estados Unidos, no mundo inteiro. Mas Paulo diz que, abaixo da superfície, onde quer que olhemos, alguma coisa está quase saindo, alguma coisa está ativa. E quando nós, como pessoas de fé, unimos nossas forças com esta esperança e energia em torno de nós, o Espírito de Deus está presente. 
 
Paulo diz que o Espírito dá testemunho ao nosso espírito, o Espírito faz eco ao nosso espírito, une-se a ele. Assim olhamos em nossa volta e estamos vendo um mundo onde alguma coisa está por acontecer. E penso que Paulo propõe que haja dois lados neste grande evento que está por acontecer. 
 
Primeiro: olhamos para o nosso próximo, olhamos para o mundo, e estamos vendo algo novo. Estamos vendo a Glória de Deus abaixo da superfície, à espera de sair. Quando estamos do lado das pessoas que têm uma vida vulnerável, que vivem em pobreza, estamos do lado delas porque estamos vendo nelas o mistério da imagem de Deus. Estamos vendo nelas a profundidade da liberdade e da dignidade e da possibilidade tantas vezes enterradas pela opressão e injustiça do mundo. 
 
Ontem à tarde, quando visitamos projetos aqui em São Paulo, tivemos uma sensação muito forte de ver neles possibilidades, dignidade, orgulho. Também, quando olhamos para o mundo natural em torno de nós, podemos ver que bem-estar, justiça e generosidade são possíveis quando vivemos em harmonia com ele. Quando aprendermos a viver com o mundo assim como ele é, o mundo será suficiente para todos nós.
 
Quando tentamos agarrar, possuir os elementos do mundo em torno de nós, tornamos o mundo menos do que ele é, e também tornamos a nós mesmos menos do que somos. À minha frente estou vendo uma bandeira que diz “Água e energia não são mercadoria”, elas não deveriam ser vendidas. Quando tratamos estas coisas como se fossem mercadorias, tratamos a nós mesmos como se fôssemos coisas a serem compradas e vendidas. Mas quando olhamos para debaixo da superfície e quando olhamos para dentro da profundeza da realidade em torno de nós, da realidade humana, da realidade da natureza, o Espírito está presente, e algo é des-coberto – é como se nascesse uma fonte de água. 
 
Este é um lado da revelação, é a des-coberta da possibilidade das pessoas e coisas em torno de nós. O outro lado é que somos revelados para nós mesmos. Somos filhos e filhas de Deus, somos chamados/as para sermos pessoas que transformam. Do mesmo modo como o véu é tirado do mundo em torno de nós, o véu também é tirado dos nossos próprios corações. O mundo está à espera por você e por mim, para crescer e entrar nesta nova possibilidade, nesta generosidade, na compaixão que temos como pessoas de fé e como filhos e filhas de Deus.
 
Por isso creio que este trecho da Carta aos Romanos nos dá a visão que pode nos sustentar em nosso trabalho pela justiça. Ele nos diz que podemos confiar no fato de que o Espírito de Deus está ativo no mundo em torno de nós. E ele nos diz que podemos confiar na dádiva do espírito que Deus nos deu. 
 
Assim, como diz Paulo, “a criação inteira geme e sofre as dores de parto” (8,22). A Criação está à espera, e também nós estamos à espera. A Criação geme em frustração, e também nós gememos em frustração. Mas o início da mudança já chegou. Por isso conseguimos ver que o mundo poderia ser diferente, que é possível, para nós enquanto seres humanos, viver uns com os outros em justiça e amor. E à medida que isso acontecer, descobrimos que podemos viver em justiça com o próprio mundo.
 
Paulo diz que o Espírito está no coração do nosso gemer e do nosso anseio e da nossa espera. Quando sentimos frustração no nosso anseio e dificuldade da nossa luta, isso nos diz de uma maneira estranha que o Espírito está ativo. Não é o momento para o desespero, é o momento para a esperança, se o Espírito realmente estiver ativo. 
 
Por isso me parece: se nós como fiéis cristãos não podemos viver do testemunho da nossa esperança, então deveríamos simplesmente deitar e dormir. Isso não quer dizer que acreditamos sermos a solução para os problemas de todo mundo. Não somos chamados para sermos “salvadores brancos”, não somos chamados para resolver os problemas de todo mundo e alcançar uma situação perfeita. Mas o Espírito dentro de nós diz que as coisas poderiam ser diferentes. E nós podemos fazer a diferença que somente nós podemos fazer.
 
Para mim pessoalmente é muito importante neste trecho que ele, como eu já disse no início, une a visão da justiça humana e a visão da justiça ambiental. Assim ele nos diz: quando o espírito de Jesus Cristo está reconciliado com Deus, nós estamos reconciliados com a própria Criação e entre nós. E dia após dia, procuramos reavivar em nossa oração aquele senso de esperança que já existe em torno de nós. E, como diz Paulo: “Estamos à espera com anseio e paciência”. Obrigado. 
 
Fonte: Christian Aid
Tradução: Monika Ottermann