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COP24: não se trata mais de recursos e sim de maturidade moral

 
Acabo de voltar da Conferência das Nações Unidas sobre Mudanças Climáticas, na Polônia.
 
O relato é de Joan Chittister,  irmã beneditina de Erie, Pensilvânia, publicado por National Catholic Reporter, 13-12-2018. A tradução é de Victor D. Thiesen.
 
Eis o texto.
 
Há quase 50 anos, mais precisamente em 1973, durante a Guerra Árabe-Israelense, a Organização dos Países Exportadores de Petróleo (OPEP) impôs um embargo às exportações de petróleo para os Estados Unidos em retaliação ao apoio dos norte-americanos a Israel. Tais fatos revelaram ao mundo o lado sombrio das virtudes da economia moderna. Todas as coisas têm fim, até mesmo petróleo que atua como o motor da produtividade. Cientistas estimam que, na atual taxa de extração, restam cerca de 53,3 anos de petróleo no planeta. Destes, pelo menos 80% estão concentrados nos países da OPEP.
 
Anos atrás o Ocidente se deparou com um confronto direto com o que mais tarde seria visto como nossa primeira experiência séria da escassez de recursos. Ninguém entrou em pânico. Eu ouvi um homem no banco do avião atrás de mim dizer: "Escassez de petróleo? Não há escassez de petróleo! E mesmo que haja, eles apenas vão para um laboratório e inventam algo para tomar seu lugar. Até lá, isso não passa de uma desculpa para aumentar o preço da gasolina novamente".
 
Poucos americanos acreditavam na finitude dos recursos naturais e um número menor ainda acredita no real efeito da mudança climática na vida cotidiana atualmente, apesar de termos anos de dados científicos provando o contrário. Fazemos nós mesmos acreditar que devemos continuar nesse ritmo, pois negócios são negócios. Fazemos a nós mesmos de bobos ao argumentar que vacas emitem mais metano do que humanos.
 
Dizemos que a regulação das emissões de carbono prejudica a indústria. A terra sempre seca por falta de água, mas inundações e incêndios consertam o equilíbrio da natureza à medida que avançamos, insistimos. E os cientistas continuam a nos alertar. E assim, o mundo como o conhecemos “morre” por falta de cuidado.
 
Por quase 25 anos, as conferências do clima das Nações Unidas têm tentado educar o mundo para a vulnerabilidade da ordem natural e incentivar a colaboração global nas questões sobre mudanças climáticas. Cada uma dessas 24 assembleias apresentou muitos dados sobre tendências crescentes que indicam a perda das espécies que compõem nossa diversidade.
 
No entanto, poucos americanos se sentem genuinamente motivados pelo assunto. O presidente Donald Trump prometeu "tornar a América grande novamente". Por outro lado, pode simplesmente olhar para uma câmera e ignorar o recente anúncio de mudança climática que ocorreu durante seu próprio governo, dizendo um simples "Não acredito".
 
Diante de dados científicos que afirmam termos apenas 12 anos para poder intervir na tendência ao desastre ecológico, três grupos correm contra o tempo para serem ouvidos sobre o tema da mudança climática. Todos se reuniram nas últimas semanas e o objetivo é fazer com que o cidadão americano entenda cada grupo.
 
O primeiro é a COP24, a mais recente das 24 reuniões internacionais sobre mudanças climáticas, com a presença de 25 a 30 mil pessoas registradas para esta conferência na Polônia. São grupos políticos, de educadores, ativistas e planejadores corporativos, cuja presença é apenas um sinal de seu compromisso com as implicações da sustentabilidade e da mudança climática.
 
Pelo menos metade deles, como indica suas mochilas e camisetas, tem menos de 50 anos de idade. Eles estão lutando para salvar um mundo onde a desertificação já está a caminho, a água potável está secando a cada dia, e os combustíveis fósseis estão sufocando o oxigênio da atmosfera.
 
O segundo grupo, uma força-tarefa chamada American Legislative Exchange Council (ALEC), também estava em sessão. Este, por sua vez, não estava na Polônia para a reunião da ONU. Em vez disso, teve uma reunião privada em um hotel em Washington, DC. Eles são legisladores estaduais e lobistas corporativos, cujo compromisso é encaminhar leis para o Congresso dos Estados Unidos que bloqueará os programas de mudança climática. Esse grupo atua de forma profissional e apoia a eliminação dos benefícios fiscais para a fabricação de veículos elétricos e endossa a agenda de combustíveis fósseis de Trump.
 
Bem-vindo ao mundo moderno, onde os opostos estão conflitando diante de quase todas as questões importantes da Terra. Vivemos, em outras palavras, num momento de mudanças constantes.
 
Andar pelos corredores da COP 24 é o mesmo sentir a energia humana por trás das preocupações. Esta geração mais jovem vê seu futuro através do filtro da destruição que está por vir. Durante toda sua juventude eles passam tentando alertar o mundo de sua própria morte. Organizam grupos para agir, para pressionar os que resistem, para introduzir um novo estilo de vida, mais vital, de reciclagem, sustentabilidade e compromisso corporativo para um mundo livre de poluição.
 
Confesso que tenho a sensação de que a própria COP24 também indica um tipo de ativismo climático que é totalmente diferente de todos as COPs anteriores, diferente das propostas anteriores.
 
As COPs anteriores, como bem me lembro, eram grandes pavilhões cheios de exposições. Havia ferramentas para professores em todos os níveis, protótipos de tecnologia destinados a medir, converter e reduzir os tipos de energia, e amostras de produtos projetados para mudar a maneira como a pessoa comum lidava com a vida.
 
Havia também vendedores que encorajavam as pessoas a abandonar copos de isopor e canudos de plástico, e economizar energia usando a lã para se aquecer no inverno.
 
Essas preocupações ainda persistem. Ninguém aqui realmente acredita que tais projetos pessoais, por melhores que sejam, possam realmente salvar uma sociedade decidida a destruir o amanhã.
 
Consequentemente, talvez as apresentações tenham assumido um tom diferente em outro grupo de pessoas que participaram da COP24.
 
Em vez de se concentrar em projetos externos, há um movimento para reconhecer o impacto de atitudes internas em toda uma série de perigos, como o fogo, as enchentes, a perda de biodiversidade que sustenta a vida, a fome em grande escala, a imigração, a pobreza e o desemprego.
 
O terceiro grupo que provoca questionamentos sobre a mudança climática nos dias de hoje são líderes religiosos, guias espirituais e filósofos. Segundo eles, nada pode acontecer no mundo à nossa volta antes que aconteça dentro de nós mesmos - o que está além do dinheiro e poder. Estes defendem que devemos sempre querer um mundo pacífico.
 
Em nosso grupo, a Iniciativa das Mulheres pela Paz Global, uma professora budista, uma praticante Sufi, uma evangélica americana, uma índia americana, um swami hindu, uma acadêmica védica e eu mesma, uma freira católica. Direcionamos nossas ideias àqueles que acreditam no desenvolvimento espiritual como a chave para o desenvolvimento humano e a necessidade de entender que estamos aqui para concluir o trabalho da criação e não consumi-lo.
 
Nós, como sociedade, devemos reencontrar o caminho correto da sabedoria, buscando valores para sermos seres humanos melhores e levarmos uma vida digna e moral. Devemos entender o que nos conecta uns com os outros e como podemos viver em harmonia na terra. Caso contrário, não haverá salvação para o planeta.
 
No final do dia, nós simplesmente precisamos decidir que tipo de pessoa queremos ser num mundo aflito. Até lá, duvido que repetir todos os dados científicos possa nos levar adiante. Vão dizer: “Eu não acredito.”
 
Foto: COP24 / Euractiv