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Cristãos palestinos são contra a transferência da embaixada brasileira

 
A segunda-feira (28/01) foi de agenda cheia para as lideranças de igrejas brasileiras e palestinas reunidas em Brasília. Encontro com autoridades, reuniões estratégicas e um momento de bate-papo na Comunidade Luterana da Asa Sul foram algumas das ações. Na pauta, um assunto chamou mais a atenção: a tão anunciada mudança da embaixada brasileira em Israel, que hoje fica em Tel Aviv e, de acordo com o novo governo, pode ser transferida para Jerusalém.
 
A delegação de cristãos palestinos chegou ao Brasil na quinta-feira (24/01). Desde então, eles têm destacado que a mudança do status de Jerusalém para um só povo traz um imenso risco para a comunidade de cristãos palestinos, que reúne milhares de habitantes em Jerusalém, e que em sua maioria habitam a histórica e milenar Jerusalém Oriental, de maioria árabe palestina.
 
 
“Nós viemos principalmente para falar de paz e somos representantes de todas as igrejas de Jerusalém”, disse à Agência de Notícias Brasil-Árabe (ANBA) o padre Ibrahim Faltas, franciscano de Jerusalém, secretário-geral da organização Custódia da Terra Santa e líder da delegação. “Falaremos também sobre encontrar uma solução para Jerusalém, pois é um problema que já dura 70 anos, entre palestinos e israelenses, e pedimos ao povo brasileiro que ajude neste processo pelo bem de todos os povos do Oriente Médio e de todo o mundo”, destacou Faltas.
 
O pastor Jack Sara, que dirige a Faculdade da Bíblia de Belém, afirmou em entrevista à imprensa que um dos objetivos da vinda deles ao Brasil foi informar comunidades evangélicas brasileiras sobre a realidade da Palestina. “Sou evangélico e dirijo um seminário para treinamento de pastores em Belém e Nazaré. Vim falar com a comunidade evangélica aqui sobre nossa presença na Palestina, pois muitos não sabem nem que existimos”, disse. Para Jack, existem no Brasil denominações evangélicas “que têm um ponto de vista teológico e político que algumas vezes é destrutivo”, referindo-se a quem defende a segregação de Jerusalém como capital de Israel.
 
Brasília
 
Na capital federal, um dos compromissos foi na Comunidade Luterana da Asa Sul. Eles foram recepcionados pelo CONIC – Conselho Nacional de Igrejas Cristãs do Brasil, na pessoa da secretária-geral Romi Bencke, e pelo pastor daquela comunidade, Carlos Alberto Radinz.
 
No encontro, as lideranças religiosas palestinas e brasileiras falaram sobre como a ocupação israelense na região e a violência constante impacta na vida de cristãos e cristãs palestinos. “Os integrantes da delegação destacaram o alto índice de imigração de cristãos palestinos em função da violência. Um dado que expressa o sentimento de que a região não tem apresentado alternativas para os moradores é que, hoje, 55% dos jovens querem deixar o país”, disse Romi. 
 
Atualmente, 1% da população da Palestina é cristã. No entanto, o impacto da presença cristã na região é alto. Por exemplo, 30% de escolas e hospitais são mantidos por organizações cristãs. 
 
Diplomacia brasileira
 
Os irmãos palestinos chamaram a atenção do relevante papel que a diplomacia brasileira desempenhou ao longo dos anos naquela região, sempre reconhecendo os dois Estados e até tempos recentes não se pronunciando ou tendo atitude hostil em relação aos palestinos. 
 
 
Eles também destacaram a necessidade de superar o pensamento que Jerusalém foi escolhida para um único povo. “Se reconhecemos que Deus escolheu apenas um povo” – argumentaram – “o outro povo pensa que Deus não o escolheu”. O desafio maior está em somar esforços para que todos construam uma Jerusalém segura e acolhedora para todas as tradições e povos.  
 
Peregrinações e teologia
 
Sobre as peregrinações a Jerusalém, a comitiva frisou que elas não deveriam focar unicamente nos monumentos e locais arqueológicos, mas também no convívio com a população local para que todos os peregrinos possam saber como é o dia-a-dia na região. A ideia é reforçar um protagonismo profético no sentido de que as vozes do povo palestino possam ser ouvidas. 
 
No âmbito teológico, os membros da delegação foram unânimes em destacar que os teólogos e teólogas da Palestina têm elaborado uma teologia e hermenêutica bíblicas contextual. Neste sentido, reafirmando que a bíblia não é um livro de ocupação, mas de libertação. 
 
“A reunião foi um momento muito importante por vários motivos. Em especial, porque foi a primeira vez que se conseguiu reunir lideranças cristãs palestinas e brasileiras para falar temas que desafiam. É nossa tarefa nos envolvermos em processos de paz. A cidade de Jerusalém é simbólica e importante para as três religiões do livro: Judaísmo, Cristianismo e Islã. Esta pluralidade religiosa é a beleza que caracteriza a cidade. Neste sentido, fazer da cidade um símbolo de coexistência pacífica entre religiões é um desafio que temos que assumir”, concluiu Romi.  
 
Ao final do encontro em Brasília, o CONIC foi presenteado com uma cruz artesanal feita por cristãos palestinos. Cada participante da reunião também recebeu uma pequena a cruz artesanal. 
  
Embaixada e economia
 
Além de complicações no Oriente Médio, para o Brasil, a mudança de embaixada traria inúmeros prejuízos econômicos. Não por acaso, até a bancada ruralista tem trabalhado fortemente para dissuadir o governo dessa medida tão ideológica – quanto é a mudança da embaixada.
 
Só para se ter uma ideia da dimensão dos prejuízos, os países árabes são o 5º principal destino de produtos brasileiros. Hoje, o Brasil também é o maior produtor e exportador mundial de carne halal – procedimento em que os animais são abatidos de acordo com normas e preceitos do islamismo. Falando em nações muçulmanas, nosso comércio passa da casa dos US$ 22 bilhões ao ano. E a balança é favorável ao Brasil em US$ 8,8 bilhões, já que exportamos mais do que importamos. Com o Irã, outro grande parceiro comercial – destino de 6% das nossas exportações – as relações também podem azedar. Por outro lado, o as transações comerciais com Israel representam menos que 1% da fatia do comércio exterior brasileiro. E o Brasil compra mais do que vende. Em 2018, por exemplo, a balança comercial com Israel fechou com déficit de US$ 847,8 milhões.
 
Comunidade internacional
 
Vale lembrar que a comunidade internacional não reconhece Jerusalém como capital de Israel.
 
Prova concreta disso é que a maioria das embaixadas está em Tel Aviv, entre elas a brasileira.  
 
Fotos: Elianildo Nascimento