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Mensagem da Igreja Sirian Ortodoxa de Antioquia a respeito da Quaresma

 
ÉDITO PATRIARCAL PARA A QUARESMA DE 2019
 
EM NOME DO PODEROSO, AUTO EXISTENTE,
SEMPIETERNO DE NECESSÁRIA EXISTENCIA,
IGNATIUS, PATRIARCA DA SANTA CÁTEDRA DE ANTIOQUIA 
E DE TODO O ORIENTE,
SUMO PONTÍFICE DA IGREJA UNIVERSAL SIRIAN ORTODOXA, 
AFREM II.
 
Estendemos nossas bênçãos apostólicas, orações benevolentes e saudações aos nossos irmãos, Sua Beatitude Mor Baselios Thomas I, Católico (Maferiono) da Índia e Suas Eminências os Metropolitas; nossos filhos espirituais os reverendíssimos cura epíscopos, padres, monges, freiras, diáconos e diaconisas, e a todo o povo Sirian Ortodoxo em todo o mundo. A Divina Providencia vos envolva através da intercessão da Virgem Maria, Mãe de Deus, São Pedro o chefe dos apóstolos e todos os santos e mártires, amém.
 
“Quem os praticar e ensinar, será considerado grande no Reino do Céu.”
(Mateus 5: 19)
 
I – Introdução – A Igreja, o Novo Povo de Deus.
 
Amados em Cristo, abrigada na misericórdia do Deus Todo Poderoso, medita sobre o Sermão da Montanha, aguardando o Noivo que virá com a aliança eterna afim de noivá-la para si. Ela lembra Moisés quando descia do Monte Sinai carregando em suas mãos a Lei escrita em dois tabletes de pedra e chamando o povo hebreu para ser o povo escolhido de Deus. O povo “cabeça-dura” (Êxodo 32: 9) não esperou Moisés retornar, ao invés, começaram a cantar e dançar diante do bezerro que fizeram para eles mesmos um deus. A Igreja, por outro lado, veio a ser o novo povo de Deus adorando o Senhor Crucificado para que Ele a torne digna da Sua Graça em ser a Sua Noiva, “Uma Igreja gloriosa, sem mancha nem ruga ou qualquer outro defeito, mas santa e imaculada” (Efésios 5: 27). Ali, no Monte das Beatitudes, a Igreja recebe do seu Noivo os ensinamentos divinos de forma completa, pois, Ele não veio para destruir, mas para cumprir (cf. Mateus 5: 17). Lá também, o Senhor ordena-lhe dizendo: “portanto, quem desobedecer a um só destes mandamentos por menor que seja, e ensinar os outros a fazer o mesmo será considerado o menor no Reino do Céu. Por outro lado, quem os praticar e ensinar, será considerado grande no Reino do Céu” (Mateus 5: 19). Assim Ele a convoca para a missão celestial em duas dimensões: ensinar e servir.
 
II - À Igreja são confiados os Ensinamentos Autênticos
 
À Igreja, o corpo de Cristo e templo do Espírito Santo é confiada a preservação da fé e sua transmissão através das gerações, pois, lá na montanha, os onze discípulos adoraram o Senhor ressuscitado e foram instruídos: “vão e façam com que todos os povos se tornem meus discípulos, batizando-os em nome do Pai, e do Filho e do Espírito Santo; e, ensinando-os a observar tudo o que ordenei a vocês. Eis que eu estarei com vocês todos os dias, até o fim do mundo” (Mateus 28: 18 – 20).
 
Depois do envio do Consolador – o Espírito da Unidade pelo Filho (cf. João 15: 26), os discípulos seguiram adiante levando o Evangelho, as boas novas, para os confins da terra, como diz o salmo: “a toda a terra chegou o seu eco, aos confins do mundo a sua linguagem” (Salmo 19: 5). A Santa Igreja confirma isto no hino litúrgico entoado antes da leitura dos Atos dos Apóstolos na Santa Eucaristia: Xlihe gbayo dextadar men Aloho l´holmo kule... traduzindo, “os apóstolos escolhidos que Deus manda para todo o mundo, foram adiante pregando as boas novas do Filho entre as nações até os confins do mundo; pregaram o Reino do Céu dizendo, abençoados são os crentes”.
 
Realmente o ensino autêntico é recebido exclusivamente da Santa Igreja. Isto é o que São Paulo deixa bastante claro: “maldito aquele que anuncia a vocês um evangelho diferente daquele que anunciamos, ainda que sejamos nós mesmos ou algum anjo do céu” (Gálatas 1: 8). Além disso, desde que Cristo assegurou aos seus discípulos que não só estaria com eles, mas, também, com todos aqueles que creram no Seu Nome por causa deles até o fim dos tempos (cf. Mateus 28: 20); e, como é necessário garantir a continuidade do ministério apostólico na Igreja preservando a fé, os apóstolos tinham de escolher bispos para sucede-los e tomar conta da Igreja de Deus (cf. I Timóteo 3: 5) e, escolher entre os anciãos padres e diáconos para assisti-los.
 
III – O Bispo – o mestre da Igreja
 
“Onde o bispo estiver, lá estará a Igreja, assim como onde Cristo estiver lá estará a Igreja universal”. Com esta afirmação na sua carta ao povo de Esmirna (capítulo 8), Santo Inácio (Ignatius) de Antioquia, o segundo sucessor de São Pedro e terceiro patriarca de Antioquia define a estrutura das relações entre o bispo e sua congregação. Ele instrui o rebanho a reunir-se em torno do bispo juntamente com seus padres e diáconos. Santo Inácio enfatiza a responsabilidade confiada ao bispo garantindo que “nenhum homem fará qualquer coisa vinculada à Igreja sem o bispo” (ibid.)
 
São Paulo o apóstolo, diz o seguinte sobre o bispo: “o bispo deve ser irrepreensível, como ministro de Deus, não arrogante... fiel à fé verdadeira, conforme o ensinamento transmitido, que seja capaz de aconselhar segundo a sã doutrina e também de refutar quando a contradizem” (Tito 1: 7 – 9). De fato, São Paulo sabe muito bem que o ensinamento e pregação do bispo não pode ser eficiente se ele mesmo não for firme na palavra da verdade e experiente na sua própria vida. Como um mestre da Igreja, o bispo deve conhecer Cristo e experiênciado o poder da Sua ressurreição e ainda, seu companheiro nos Seus sofrimentos; ele deve pregar isto convocando seus paroquianos a aprender do Bom Mestre (cf. Filipenses 3: 10). Em verdade o bispo e o padre não podem ser mestres nem modelo para os fiéis exceto através de boas ações e sendo um bom exemplo, pois, “o homem bom tira coisas boas do bom tesouro do seu coração” (Lucas 6: 45).
 
IV – Ensino e Trabalho (préstimos)
 
Nosso Senhor Jesus Cristo chama a Igreja, todos, clero e laicato, a ensinar e servir, expressando seu amor ao Senhor e revelando sua fé nEle que opera através do amor (cf. Gálatas 5: 6). De fato, a Igreja aprende do seu Mestre e O segue, pois, Ele é o Mestre Divino Bom que “percorreu todas as cidades e vilarejos ensinando nas suas sinagogas, pregando a Boa Nova do Reino e curando todo tipo de doença e enfermidade do povo” (Mateus 9: 35). Apesar de todas as tribulações, perseguições e rejeições. Ele tinha uma resposta clara: “Meu Pai continua trabalhando até agora e Eu também trabalho” (João 5: 17). Assim a Igreja é chamada a viver o Reino do Céu na Terra, onde cada fiel é chamado a ser um discípulo do Senhor, e, um mestre e guardião dos Seus mandamentos, porque “quem os praticar e ensinar, será considerado grande no Reino do Céu” (Mateus 5: 19). Todos os préstimos ou trabalhos da nossa Igreja devem conduzir ao crescimento da Igreja e a realização do Reino de Deus entre o nosso povo.
 
Meus amados, este ano celebramos o quinquagésimo (50) aniversário da partida de dois arcebispos que estão entre os discípulos do Divino Mestre que ensinaram e trabalharam na Sua vindima: Mor Filoxinos Youhanon Dolabani, arcebispo de Mardin e Mor Gregorios Boulos Behnam, arcebispo de Bagdá (+ 1969 – 2019) de saudosa memória.
 
V – MOR FILOXINOS YOUHANON DOLABANI: Modelo de Ministro Apostólico
 
Mor Filoxinos Youhanon Dolabani nasceu em Mardin em 1885, levou uma vida monástica adorando o Senhor, asceta viveu em pobreza.
 
Confiou-se lhe muitos ministérios de mestrados e administração da Igreja. Era conhecido por cuidar dos órfãos, pobres e necessitados. Em 1933 o Patriarca Mor Ignatius Afrem I, Barsoum, de saudosa memória indicou-o para vigário patriarcal da diocese de Mardin, Mosteiro de Santo Ananias (Deir Zaafaran) e cercanias. Em 1947 consagrou-o Arcebispo de Mardin. O novo arcebispo desempenhou seu episcopado e obrigações pastorais fiel e diligentemente, tornando-se um modelo de santidade e virtude em tempos que os fiéis viviam as atrocidades das duas guerras mundiais. Escreveu vários livros sem negligenciar a vida asceta que tinha iniciado ainda jovem. Ele morreu em 1969 deixando um legado de mais de cinquenta livros em Siríaco, árabe e turco.
 
VI – MOR GREGORIOS BOULOS BEHNAM: Modelo de Mestre Apostólico
 
Mor Gregorios Boulos Behnam nasceu em Karakosh no Iraque em 1916, estudou teologia e filosofia; foi indicado responsável da Escola Teológica Santo Afrem em Mosul em 1945 onde se formaram diversos futuros prelados e padres da Igreja. Interessava-se pela educação e publicou dois jornais, “Al Mashriq” – O Oriente, e, “Lisan Al Mashriq” – A Língua do Oriente, nos quais publicou diversos artigos importantes de literatura, filosofia, teologia e história. Em 1951 o Patriarca Mor Ignatius Afrem I de saudosa memória conferiu-lhe o título de “Malfono” – Mestre – por defender a tese intitulada: “Psicologia nas obras do filósofo siríaco Mor Severios Moises Bar Kifo (+903 dC). No ano seguinte o Patriarca Afrem I consagrou-o bispo de Mosul. Em 1959 recebeu uma bolsa do Seminário da União Teológica em Nova York (EUA) onde permaneceu por um ano acadêmico.
 
Na sua volta ao Iraque, visitou várias bibliotecas bem como instituições acadêmicas e religiosas em diferentes países ocidentais. Em 1960 foi indicado Arcebispo de Bagdá, tornando-se o primeiro arcebispo de Bagdá desde o colapso da diocese no século treze. Faleceu em 1969 deixando um grande número de publicações no campo da história, literatura siríaca, teologia e filosofia.
 
Quando lembramos destas proeminentes figuras siríacas do vigésimo século, nós recomendamos a todos vocês oferecer orações e divinas liturgias por suas memórias. Também lembramos suas vidas e as circunstâncias em que viveram, pois, são muito semelhantes às condições em que vivemos hoje. Lembrando suas vidas e a boa luta que lutaram, encorajamos vocês a seguir os seus passos.
 
Pedimos ao Senhor Deus que nos conceda as virtudes e dádivas espirituais conferidas a eles de modo que todos nós sejamos ornamentados com sabedoria e zelo para que nossas Igrejas e países possam viver em paz especialmente no sofrido Oriente Médio. 
 
E, ainda, enquanto celebramos os dois grandes arcebispos Youhanon Dolabani e Boulos Behnam oramos, também, pelo retorno seguro dos nossos dois amados arcebispos de Alepo, Síria, sequestrados, Youhanon Ibrahim e Boulos Yazigi.
 
VI – Conclusão
 
No início da Quaresma, meditamos o chamado da Igreja, o servo do Evangelho da palavra e ação, oramos ao Senhor com o Mestre da Igreja, Santo Afrem o Siríaco dizendo: “Aloho hab yiulfono laino drohem yiulfono; uál rabo dmalef xafir h´bidoi rabo bmalkutho” traduzindo, Deus dê o conhecimento a quem ama a sabedoria e ao que bem ensina fazei-o grande no Teu Reino.
 
O Senhor aceite o vosso jejum, arrependimento, orações e caridade. Que Ele vos faça dignos de se alegrar na Festa da Sua Ressurreição, gozar de boa saúde espiritual, corpo e mente. Que Ele tenha misericórdia dos fiéis que partiram, pela intercessão da Virgem Maria a Mãe de Deus, São Pedro o líder dos apóstolos e todos os mártires e santos e,
 
Pai nosso...
 
Emitido em nosso Patriarcado, Damasco
Em 1 de março de 2019
Quinto ano do nosso Patriarcado
 
Tradução: Aniss Ibrahim Sowmy