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Joinville debate imigrantes, refugiados, fundamentalismo e xenofobia

 
Joinville foi sede, nos dias 21 e 22 de março, de mais uma oficina ligada ao projeto sobre “Imigrantes e Refugiados – Desafios da Casa Comum”. O evento, sediado na Católica de Santa Catarina, foi organizado na cidade pela equipe de articulação na cidade, que é composta por igrejas e organizações: o Centro dos Direitos Humanos de Joinville, Igreja Episcopal Anglicana do Brasil (IEAB), o Conselho Inter religioso para Estudo e Reflexão (CIER), Exército da Salvação (ES), Sínodo Norte Catarinense, Católica de Santa Catarina e Centro de Estudos Bíblicos (CEBI) e idealizado pelo Conselho Nacional de Igrejas Cristãs (CONIC) e o Fórum Ecumênico (FE ACT Brasil Aliança). 
 
A abertura foi realizada por uma das articuladoras do projeto, a jornalista Lizandra Carpes, que explicou a importância do evento e contou que a cidade foi escolhida pelo CONIC por ser rota comum dos imigrantes que chegam a procura de emprego e pela acentuada manifestação de xenofobia relatada por pessoas que trabalham com pessoas imigrantes na cidade. Ela ressaltou também as políticas nacionais e internacionais de xenofobia e racismo como construção de muros, centro de concentração para crianças e pessoas que morrem a deriva nos oceanos sem que países abram suas fronteiras para a acolhida. “Quem criou fronteiras tão cruéis?”, questionou. 
 
 
Após a abertura, foi realizada uma homenagem às vítimas de xenofobia e racismo pelo mundo e uma reflexão a partir dos elementos essenciais a vida: água, terra, ar, fogo e sal. Elementos estes que na simplicidade e gratuidade deveriam servir de exemplo para a humanidade. Este momento foi conduzido pela Josiany Rodrigues (ES), Damaris Martins (ES) e Nilo Silva Junior (IEAB). 
 
O segundo momento do encontro foram as falas da teóloga Valeria Vilhena, mestra em Ciências da Religião e doutora em Educação e História Cultural, e Henrique Vieira professor, cientista social, historiador, teólogo, pastor e ator. A mediação da mesa foi feita pela secretária geral do CONIC, Romi Bencke.
 
 
Valéria fez uma reflexão sobre sua participação no movimento feminino Evangélicas pela Igualdade de Gênero (EIG) e ressaltou a falta de representatividade de mulheres no congresso. “O movimento pentecostal tem como base mulheres pobres e negras, nosso feminismo vai dialogar com essas mulheres”, pontuou. A teóloga ainda abordou o fundamentalismo atual, contou que se vê em muitas igrejas a criação de um inimigo e o uso da imagem de Deus como um general. Ainda fez relação da problemática dos slogans da campanha do presidente eleito no Brasil, “Brasil acima de tudo, Deus acima de todos”, que teve ampla aceitação por parte dos evangélicos neopentecostais. 
 
Antes de iniciar a fala do pastor Henrique Vieira houve uma apresentação cultural realizada por imigrantes haitianos. Eles apresentaram uma canção com muita alegria e carisma que trazia a mensagem de gratidão. A apresentação artística envolveu os participantes e trouxe a reflexão da importância do multiculturalismo tanto para os brasileiros como para os imigrantes. 
 
 
Pastor da Igreja Batista “O Caminho”, Henrique Vieira dividiu sua fala em três partes. Começou explicando sobre o fundamentalismo: “Existe, no fundamentalismo, uma convicção de uma verdade histórica”, pontuou. Com isso, segundo o pastor, se exclui a realidade humana, a autocritica e dúvida. Para Henrique, o maior exemplo disso é o movimento “bíblia sim, constituição não”, e a aversão que o líder deste movimento tem pelas discussões do mundo moderno, como a imigração, debate de gênero entre outros.
 
Henrique ainda explicou quem em Barra Mansa, município do Rio de Janeiro, um decreto municipal obrigou a oração do pai nosso em escolas. “Considero isso do ponto de vista laico, um absurdo, porque essa oração não é universal, tendo em vista que nem todas as religiões são cristãs”, ressaltou. Para o pastor, apesar de o decreto ter caído, isso é só o começo para uma doutrinação fundamentalista. Para ele o fundamentalismo não aceita o debate, e por isso não quer discutir o que é cultural ou não. “Esse discurso esvazia a mente, cria um ideal de família, sexualidade e atitude sem debater”, afirma. 
 
Por fim, o pastor relativizou a passagem do bom samaritano do evangelho citando Martin Luther King. “O sacerdote que não parou na passagem do bom samaritano até poderia querer ajudar o homem caído, mas ele pode ter tido medo... e esse fosse uma emboscada? O bom samaritano parou e ajudou”, Henrique questionou: e se o samaritano não tivesse ajudado? E se não ajudarmos o próximo?
 
No segundo dia, Emanuely Gestal da Silva, agente de proteção no Centro de Referência de Atendimento ao Imigrante em Santa Catariana (Crai), explicou a nova lei da imigração brasileira, que tira o peso do imigrante como “um inimigo” e melhora os processos de regularização. Lembra que o antigo estatuto do estrangeiro tinha como objetivo proteger o território e hoje tem caráter humanitário. Apesar de a mudança ser boa, no entanto, há algumas contradições, como a multa cobrada por dia no caso de um imigrante estar irregular no país. “O valor da multa hoje é de R$ 100,00 por dia, podendo chegar assim a valores altíssimos”, explicou a agente. Emanuely ainda comentou sobre a dificuldade de regularizar venezuelanos e haitianos, já que esses países não tem relação com o Mercosul.
 
No período da tarde houve uma dinâmica, uma espécie de “jogo” que colocou os participantes da oficina em experiências da vida real vividas por várias pessoas imigrantes. A vivência demonstrou os problemas diários como a violência, a falta de dinheiro, os coiotes, o estupro e abuso sexual contra mulheres. A dinâmica foi uma forma de exercitar a empatia e a compaixão, uma vez que faz com que as pessoas conheçam histórias reais de graves violações de direitos humanos. 
 
Texto: Lizandra Carpes
Fotos: Diego Mhas