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Sínodo para a Amazônia: entrevista com o cardeal Claudio Hummes

 
“Sem a Amazônia, o mundo não sobreviverá. O futuro está em jogo.” E sobre o próximo Sínodo: defesa da Criação e evangelização dos povos indígenas são aspectos interligados.
 
A reportagem é de Stefania Falasca, publicada por Avvenire, 21-03-2019. A tradução é de Moisés Sbardelotto.
 
“A Amazônia diz respeito a todos: lá está em jogo o futuro do planeta e da humanidade. Sem a Amazônia, o mundo não sobreviverá. Nunca como hoje os povos originários amazônicos e todo o seu território estiveram tão gravemente ameaçados.”
 
O cardeal Claudio Hummes, presidente da Rede Eclesial Pan-Amazônica (Repam), denunciou veementemente o neocolonialismo feroz e predatório que invade e destrói esse patrimônio de biodiversidade e expulsa e massacra os seus povos.
 
Enquanto se realiza em Washington o encontro na Georgetown University, o cardeal brasileiro quis explicar ao Avvenire por que a Amazônia é um teste decisivo para a Igreja.
 
Eis a entrevista.
 
O senhor foi bispo de São Paulo, que fica longe da Amazônia. Como acabou se ocupando dela?
 
A Laudato si’ mudou muito o horizonte das coisas para mim. Ela me abriu os olhos para uma visão nova. Também sobre as responsabilidades da Igreja pelo cuidado da casa comum, pela salvaguarda de toda a criação a partir da fé, de Jesus Cristo. A Igreja tem o dever de cuidar do ambiente, como uma mãe cuida do seu filho. Mas o alerta nesse sentido já havia começado desde antes.
 
Quando?
 
Em Aparecida, o então arcebispo Bergoglio me disse que tinha ficado impressionado com o modo como os bispos brasileiros da região amazônica falavam dos desafios da Igreja naquele grave contexto, e isso o havia despertado sobre o que significava a Amazônia. Depois, em 2013, quando ele veio ao Rio de Janeiro para a Jornada Mundial da Juventude, no discurso aos bispos brasileiros, ele disse que a Amazônia representava um teste decisivo para a Igreja.
 
O que significa que é um teste decisivo para a Igreja?
 
Significa que não podemos perder a Amazônia, não podemos errar ali como Igreja. É um banco de provas. É necessário que ela forme um clero autóctone e seja corajosa ao encontrar novas condições para ter um rosto amazônico. Em síntese, que assuma o compromisso de iniciar um processo de conversão missionária e pastoral, encarnada e inculturada nas culturas da região, portanto, intercultural, já que muitas culturas diferentes convivem no território.
 
Dois temas, portanto, estão na pauta do Sínodo: ecologia e presença da Igreja na região...
 
Não são dois, é um só! Não existe separação entre nós e a natureza. Tudo está interligado. O grito da natureza e o grito dos pobres são o mesmo e único grito. Por isso, não existem duas crises separadas, uma social e uma ambiental. Existe apenas uma única e complexa crise socioambiental. Consequentemente, não se pode separar o cuidado dos pobres do cuidado da casa comum. As soluções, portanto, exigem uma abordagem integral para combater a pobreza, para restaurar a dignidade dos excluídos e, simultaneamente, cuidar da natureza.
 
Qual é, em suma, o principal objetivo do Sínodo?
 
A evangelização encarnada na cultura dos povos indígenas em uma perspectiva de ecologia integral. O Sínodo para a Amazônia promoverá a inculturação da fé cristã nas culturas dos povos indígenas do território, porque devemos reconhecer que, até agora, fez-se muito pouco nesse sentido. Depois de 400 anos de evangelização, não conseguimos fazer com que nascesse lá uma Igreja inculturada. Até agora, a Igreja defendeu os direitos humanos dos índios, mas devemos dar mais um passo, devemos ir rumo a uma Igreja indígena: isto é, ajudar no nascimento de uma Igreja que expresse plenamente a fé na sua cultura, na sua própria identidade, e, por isso, os índios serão os interlocutores privilegiados.
 
A Igreja universal, assim, será chamada a abordar a diversidade e a necessidade de inculturação...
 
A Igreja não pode ser igual em toda a parte. O papa falou da necessidade de inculturação nas diversas culturas locais: “Cristo também se encarnou em uma cultura, o judaísmo e, a partir disso, Ele mesmo se ofereceu como novidade para todos os povos. Na história da Igreja, o cristianismo não dispõe de um único modelo cultural. Pela inculturação, a Igreja introduz os povos com as suas culturas na sua própria comunidade, porque cada cultura oferece formas e valores positivos que podem enriquecer o modo como o Evangelho é pregado, compreendido e vivido. Uma cultura só não é capaz de nos mostrar toda a riqueza de Cristo e da sua mensagem”.
 
Mas como uma Igreja indígena pode nascer a partir de um Sínodo?
 
Uma Igreja indígena não é feita por decreto. E certamente nem mesmo com um Sínodo. Mas isso pode abrir o caminho para um processo rumo a uma Igreja finalmente inculturada.
 
Portanto, os ministérios também serão repensados...
 
O ponto é como estar a serviço dessa comunidade. Os ministérios certamente devem ser pensados a partir dessa comunidade específica, da sua cultura, da sua identidade, da sua história. Se falamos de uma Igreja que deve se inculturar, os seus ministérios também devem se inculturar. Não se pode implantar de fora, sem que se passe por dentro do processo de inculturação. No Sínodo, portanto, discutiremos sobre isso para o contexto específico da Amazônia. Não é um Sínodo para rediscutir os ministérios da Igreja.
 
O que o senhor espera desse Sínodo?
 
Queira o Céu que essa conversão missionária e pastoral seja realizada pela Igreja no mundo inteiro. O processo que o Sínodo para a Amazônia pode pôr em marcha nessa perspectiva poderá ajudar a Igreja inteira a mergulhar em cada realidade, respeitando e valorizando a riqueza da diversidade e das peculiaridades culturais de cada povo e, ao mesmo tempo, assumir a responsabilidade de acorrer ao grito dos pobres, assim como ao da casa comum, cuidando deles, porque tudo é uno e interdependente. Só assim a Igreja cumpre a sua missão universal. A grandeza desse Sínodo está toda aí.
 
Fonte: IHU Unisinos