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A coragem da não conformidade, por causa do Evangelho

 
Em maio de 1218, mais de 30 mil soldados cristãos desembarcavam diante da “chave do Egito”, a cidade islâmica de Damieta. Um dos objetivos era econômico: Damieta era um importante entreposto comercial, bem mais importante do que a arruinada Jerusalém. Mas os cruzados queriam também atrair a atenção do Sultão e enfraquecer as tropas islâmicas que se ocupavam com a Síria, para poder retomar Jerusalém. Afinal este era, ao menos oficialmente, o objetivo das Cruzadas. Os muçulmanos eram comandados pelo Sultão Al-Malik Al-Kamil, sobrinho do legendário Saladino.
 
Nesta exposição vamos nos ocupar do contexto histórico, que marcou o encontro de Francisco com o sultão. Na celebração dos 800 anos deste célebre acontecimento, certamente seremos brindados com excelentes reflexões de especialistas na várias áreas do saber, da espiritualidade, do franciscanismo, da eclesiologia, da missão. O conhecimento do contexto histórico, das ideologias e interesses em jogo, pode nos ajudar a entender o quanto o gesto de Francisco foi ousado, revolucionário até, diante da mentalidade dominante de seu tempo.
 
A convivência possível entre cristãos e muçulmanos
 
A relação entre muçulmanos e cristãos que viviam nos seus territórios era muito mais complexa do que podemos imaginar. Nos combates, tropas cristãs e muçulmanas não se diferenciavam pela ferocidade e violência, principalmente nas celebrações das vitórias, em se tratando de destruição, saques, estupros, assassinatos de prisioneiros, mas também de inocentes, crianças, mulheres, idosos. Em tempos de trégua, no entanto, havia uma convivência possível. Aos cristãos era permitida a residência em terras muçulmanas, bem como aos judeus, desde que se respeitassem algumas regras: não fazer proselitismo, não expor símbolos cristãos externos nos edifícios, pagar regularmente uma taxa. Não era muito diferente do modo como os cristãos tratavam os muçulmanos que viviam em seus territórios. A visita aos lugares santos, mesmo em tempos de dominação islâmica, era permitida aos cristãos. Ao longo das oito cruzadas, interesses comerciais e econômicos foram se sobrepondo ao ódio. Cristãos e muçulmanos, nobres e plebeus encontraram meios possíveis de convivência pacífica.
 
A imagem de cristãos sendo duramente perseguidos e torturados por terríveis infiéis, de um sultão sanguinário, a “besta fera”, o inimigo a ser destroçado, responsável por todas as mazelas da humanidade, não corresponde totalmente à realidade. Ao contrário, durante as Cruzadas encontramos histórias de mútuo respeito, colaboração e até entreajuda entre as partes adversárias. No desenrolar-se do conflito, Tratados de Paz permitiam o comércio entre as partes em litígio. Em 1215, quando no IV Concílio do Latrão se convocava mais uma Cruzada, três mil mercadores italianos se encontravam no Egito, negociando com os muçulmanos. O Sultão Saladino (1174-1193) passou à história como um dos mais respeitosos líderes islâmicos deste período01. Quando soube que o Rei Ricardo Coração de Leão, seu adversário, havia sido ferido, ofereceu-lhe seu médico particular. Como o rei também perdera seu cavalo, Saladino enviou-lhe de presente dois cavalos árabes, além de comida e frutas frescas. O pai de Al-kamil (1218-1238), o Sultão Al-Adil (1200-1218), também manteve boas relações diplomáticas com Ricardo, que chegou a oferecer sua irmã como esposa ao Sultão. Quando tinha onze anos, o futuro Sultão do Egito, Al-Kamil, foi cingido como cavaleiro, em Acre, por Ricardo, com um cinto e uma espada, como sinal de boa vontade e respeito nas negociações de paz. Segundo os estudiosos, Al-Kamil era um homem culto, que admirava a cultura ocidental, tolerante para com os cristãos. Bernardo, o Tesoureiro, na sua Crônica das Cruzadas, relatando o encontro de Francisco com o Sultão, afirma que Al-Kamil era um homem “inclinado à doçura, e o escutou com bondade”02.
 
As fake news medievais sobre cristãos e muçulmanos
 
 
Para que a cruzada tivesse sucesso, para que as arrecadações fossem suficientes para bancar todos os custos, para que pessoas bem situadas na vida deixassem seu lar, sua família e se arriscassem na guerra, era preciso haver uma forte motivação. Fazendo uma comparação com um recurso muito utilizado na atualidade para espalhar notícias falsas e criar opinião, podemos dizer que, parte da propaganda para promover as cruzadas, eram verdadeiras fake news, em função de interesses e ideologias. A ignorância e o medo do desconhecido sempre foram instrumentos de dominação e controle.
 
Essa mentalidade de terror, de medo, e, consequentemente, de necessidade urgente de eliminação do mal, representado pelo islã, foi sendo incrementada pelos teólogos medievais em defesa da “Guerra Santa”. Para São Bernardo de Claraval (1090-1153), grande propagandista das Cruzadas, que escreveu a Regra dos Templários, a Cruzada era uma guerra contra a injustiça feita a Deus e à sua Igreja, pelos infiéis. O cruzado que matava em batalha não era culpado por seu pecado, pois estava combatendo a injustiça sob o comando de Deus, através de seu Vigário na terra, o Papa03.
 
Também afirmava que a morte em batalha era um verdadeiro martírio, melhor do que a vitória. Para Bernardo, quem matava um muçulmano na guerra, “não matava um homem, mas o demônio”.
 
Do mesmo modo, “não cometia um homicídio, mas um malecídio (non homicida, sed… malicida), e pode ser considerado um carrasco autorizado por Cristo contra o malvado: mata em plena consciência, e morre tranquilo; morrendo, se salva; matando, o faz por Cristo” 04. Papa Inocêncio III, numa de suas cartas convocando as Cruzadas, a Quia Maior, comparava o Islã à besta do Apocalipse: “Esperamos ver chegar em breve o fim desta besta, cujo número, segundo o Livro do Apocalipse de São João, corresponde a 666…”05.
 
A manutenção e difusão desta imagem distorcida tinha um objetivo: as Cruzadas, surgidas para “libertar Jerusalém”, aos poucos foram se revelando uma verdadeira empresa comercial, lucrativa para alguns poucos poderosos, e uma forma de expansão de poder territorial e de status. O papa Inocêncio III, que convocara a IV e a V Cruzada, tinha como ideal para a Igreja a “Plenitudo Potestatis”, o máximo do poder. Ora, o islã, bem como os vários movimentos heréticos, contra os quais também foram organizadas Cruzadas, eram uma ameaça a este poder, principalmente na Terra Santa, onde o Senhor se encarnara e realizara a salvação. Imbuídos da urgência desta “Guerra Santa”, a maioria dos soldados empenhava-se devotamente, e, em nome de Deus, arriscava sua vida pelo “Negotium Crucis”.
 
Para a realização da V Cruzada, o papa Inocêncio III criou uma das mais bem preparadas campanhas de propaganda de que se tem notícia na história da Idade Média. Os melhores pregadores eram enviados a todos os cantos da Europa. Nas igrejas, nas feiras, nas vilas, nos torneios, nos castelos, os pregadores, bispos, monges, mendicantes (depois de 1230), eram engajados no anúncio da Cruzada, em sermões, procissões, missas. Menestréis compunham músicas e poemas, incitando os homens a demonstrar sua fé, coragem e virilidade para combater os infiéis06. Vários privilégios eram oferecidos a quem se dispunha a “abraçar a cruz”: a proteção de seus bens e propriedades, o perdão de dívidas, principalmente se devidas a judeus, a possibilidade de se desligar de votos, juramentos e promessas já feitos, o perdão dos pecados, a indulgência plenária. Estes privilégios eram estendidos a quem não podia ir às Cruzadas, mas ajudava os cruzados. Muitos eram motivados por verdadeira e sincera devoção, outros se engajavam por aventura, por falta de perspectiva de vida, por causa da pobreza, na ilusão de ganhos e riqueza.
 
Francisco e o sultão
 
Francisco de Assis havia tentado ir ao Oriente duas vezes, sem sucesso, em 1212 e entre 1213 e 1215. No dia 24 de junho de 1219, junto com frei Iluminado, finalmente embarcou para o Egito. As tropas da Quinta Cruzada estavam já há um ano nas areias do Delta do Nilo, assediando Damieta. Francisco chegou provavelmente em agosto de 1219. As tropas estavam se preparando para um grande ataque. Alguns cronistas relatam os fatos presenciados e vividos por Francisco a partir deste momento. Tomás de Celano descreve os preparativos e o envolvimento de Francisco07. Sabendo da batalha, Francisco disse a frei Iluminado que “o Senhor lhe havia revelado” que os cristãos não iriam se sair bem. Disse também que temia dizer isso abertamente aos cruzados e ser considerado louco. Mas também sentia que não podia se calar, em nome da própria consciência. O que fazer? Frei Iluminado lhe aconselhou dizer o que pensava. Francisco tentou alertar os cruzados, mas não foi ouvido. O ataque aconteceu, e o resultado foi trágico: os sarracenos levaram a melhor, com muitos cristãos mortos ou aprisionados. Seguiu-se um tempo de negociações. O sultão enviou uma proposta de paz: os muçulmanos entregariam a cidade de Jerusalém, que era o objetivo da Cruzada, com uma soma em dinheiro para sua reconstrução, além de outros castelos nas vizinhanças. Também entregariam a relíquia da verdadeira cruz, desaparecida desde a tomada de Jerusalém por Saladino08. Em troca, os cristãos abandonariam o Egito. Embora alguns achassem a proposta tentadora, esta foi rejeitada, principalmente pela oposição do Cardeal Pelágio, legado papal e primeiro responsável pela Cruzada, pelos italianos, que viam em Damieta muito mais possibilidades de lucro do que em Jerusalém, e a maior parte dos clérigos, os templários e os hospitaleiros. Foi provavelmente neste período de negociações que Francisco entrou no campo inimigo.
 
Vários autores e cronistas, da Ordem e de fora dela, se ocuparam do encontro entre Francisco e Al-Kamil. Cada um acrescenta um detalhe, traz uma nova informação, que nos permite ter um quadro, se não exato, ao menos aproximado do que de fato aconteceu. Um dos textos mais confiáveis, segundo os especialistas, é um texto da Crônica de Ernoul, um cronista que viveu a maior parte de sua vida no Oriente09. Segundo este relato, dois clérigos chegados ao campo de batalha pediram permissão ao Cardeal Pelágio para atravessar a linha de combate e irem pregar ao Sultão. Diante da negativa do Cardeal, estes insistiram tanto que o prelado acabou cedendo, dizendo que eles podiam ir, mas sem a sua licença. No acampamento muçulmano, levados diante do Sultão, este perguntou se queriam se tornar muçulmanos ou se eram mensageiros. Responderam que jamais seriam muçulmanos, mas que iam como mensageiros de Deus, para levar a Deus a alma do Sultão. “E é por isso que viemos a vós. Se vós quiserdes ouvir-nos e escutar-nos, nós vos mostraremos com correta argumentação – diante dos mais sábios da vossa terra, se vós os mandardes (chamar) – que vossa lei é falsa”. Acrescentaram que, se diante dos sábios não pudessem mostrar que a lei do Sultão era falsa, este poderia mandar-lhes cortar a cabeça. Tendo chamado os sábios, eles se recusaram a discutir com os dois, ordenando ao Sultão que lhes cortasse a cabeça10. O Sultão se dirigiu aos dois, dizendo que, embora os sábios ordenassem que ele deveria lhes cortar a cabeça, ele não faria isso, “porque vos daria má recompensa pelo fato de que vós conscientemente vos aventurastes a morrer para entregar minha alma a Deus”. Depois os convidou a morar com eles. Os dois disseram que desejavam voltar ao acampamento. Antes de se despedir, o Sultão lhes ofereceu presentes, ouro, prata e grande quantidade de tecidos de seda. Os dois recusaram, dizendo que o que para eles era mais valioso era a alma do Sultão com o Senhor, que não podiam ter. Pediram apenas algo para comer, e alimentados retornaram são e salvos ao acampamento.
 
A presença de Francisco em Damieta também foi testemunhada pelo bispo de Acre, Jacques de Vitry, personagem de destaque no cenário político e eclesial de então. Crítico dos abusos da Igreja, empenhado na reforma, conhecia bem os movimentos religiosos de seu tempo. Era um grande entusiasta da Cruzada, da qual era também pregador. Participou de toda a V Cruzada, desde a chegada a Damieta até a partida. Como testemunha qualificada, escreveu, em 1220, sobre a presença de Francisco no acampamento, e sua ida ao Sultão: “quando veio ao nosso exército inflamado pelo zelo da fé, não teve medo de ir ao exército dos nossos inimigos; e como durante muitos dias tivesse pregado a Palavra do Senhor aos sarracenos e tivesse tido pouco proveito, então o Sultão, rei do Egito, pediu-lhe que em segredo que suplicasse ao Senhor por ele para que, por inspiração divina, aderisse à Religião que mais agrada a Deus”11. Para Jacques de Vitry Francisco teve “pouco proveito” em sua missão.
 
Certamente, o bispo de Acre, movendo-se no espírito de “guerra santa”, de submissão do inimigo a qualquer custo, não foi capaz de perceber, naquele momento, a grandeza e a originalidade do gesto de Francisco, e o alcance que tal gesto teria para a história. De qualquer modo, sua opinião muda, quando cita novamente Francisco e seus frades, na sua “Historia Occidentalis”, escrita entre 1223 e 122512. O prelado afirma que Francisco, “homem simples e iletrado”, levado a “tal excesso de ebriedade e fervor de espírito… dirigiu-se intrépido e munido com o escudo da fé” ao encontro do Sultão, que ele chama de “cruel animal”. Jacques afirma ainda que o Sultão, “por alguns dias o ouviu muito atentamente pregar a si e aos seus a fé em Cristo”. Mas, temendo que alguns de seu exército passassem ao exército dos cristãos, “convertidos ao Senhor pela eficácia da palavra dele”, o mandou “com segurança e reverência” de volta ao acampamento cruzado, com o seguinte pedido: “Reza por mim, para que Deus se digne revelar-me a lei e a fé que mais lhe agrada”13. Vitry conclui seu comentário sobre o evento afirmando: “Os sarracenos ouvem de bom grado os mencionados frades menores todo o tempo que pregam sobre a fé em Cristo e a doutrina evangélica”.
 
O episódio é narrado muito sucintamente por Celano na primeira biografia de Francisco14. Na Segunda, como já acenamos, ele nos fornece informações preciosas, mas sem fazer nenhuma referência ao encontro com o Sultão. Boaventura e outros autores, no geral se mantêm na linha da hagiografia. Basta citar aqui o episódio em que relatam o ordálio (a prova de fogo), ou a crueldade dos sarracenos quando recebem Francisco15. Na verdade, na medida em que os fatos vão se distanciando nos anos, os detalhes vão se tornando cada vez mais ricos e sugestivos. Sem nos aprofundarmos na análise, podemos suscintamente dizer que Francisco foi recebido pelo Sultão, ficou alguns dias com ele, e foi mandado de volta são e salvo. Sobre o que conversaram? Não sabemos, mas certamente o Evangelho e a experiência religiosa de ambos esteve no centro das conversações.
 
Tendo retornado do encontro, Francisco permaneceu até novembro de 1219 no acampamento, quando finalmente Damieta foi tomada. Francisco pode testemunhar, mais uma vez, toda a crueldade e violência da guerra. Segundo o cronista Eráclio, Francisco “vendo que o mal e o pecado começavam a crescer entre os cristãos, partiu muito amargurado”16. Depois de passar um tempo na Síria, tendo recebido notícias de que a Ordem estava em “grande confusão”, retornou à Itália.
 
A viagem de Francisco ao Oriente marcou profundamente sua vida. Contra o senso comum, que considerava os muçulmanos infiéis demoníacos, Francisco pouco ou nada podia fazer. Mas ele deixa transparecer, nos seus escritos e na organização da Ordem, alguns aspectos desta marcante experiência17. Em janeiro de 1220, cinco frades eram martirizados no Marrocos, pelos sarracenos. Na Regra Não Bulada, cuja elaboração chega a termo por volta de 1221, logo após o retorno de Francisco do Oriente, no Capítulo XVI, sobre “Os que vão para o meio dos Sarracenos e outros infiéis”, Francisco determina que “não litiguem nem porfiem, mas sejam submissos a toda criatura humana por causa de Deus”18. Não litigar, nem porfiar: evitar discussões e brigas. Tais determinações devem ser lidas à luz da experiência de Francisco, que respeitosamente foi ao sultão, e respeitosamente foi recebido por ele. Mas também se contrapõe ao relato do martírio dos cinco frades, que foram mortos depois de insistirem em desrespeitar o islamismo e insultar o próprio Maomé, em terras muçulmanas e na presença do próprio Sultão do Marrocos. Embora a atitude dos cinco frades estivesse em sintonia com o pensar da Igreja de então, e com o modo de se compreender a relação com o islã, não era este o tipo de missão em que Francisco acreditava e propunha para seus frades.
 
Em dois escritos, redigidos quase imediatamente após sua volta do Egito (1220), Francisco faz um pedido que deixa clara a influência do costume islâmico de chamar os fiéis às cinco orações diárias, pelo muezim: na Carta aos Governantes dos Povos: “E presteis tanta honra ao Senhor no meio do povo a vós confiado que, todas as tardes, seja anunciado por um pregoeiro ou por outro sinal, para que o povo renda louvores e graças ao Senhor Deus Onipotente”19; na Carta aos Custódios (Primeira Recensão): “E de tal modo anuncieis e pregueis a todas as pessoas sobre o louvor dele que, a toda hora e quando soarem os sinos, sempre sejam dados, por todo o povo, louvores e graças ao Deus onipotente por toda a terra”20.
 
Conclusão
 
Diante da mentalidade dominante no mundo cruzado, e da situação em que se encontravam os soldados em Damieta, o gesto de Francisco aparenta ser um gesto de loucura. Sem dúvida, ele e seu companheiro correram risco de vida. Os relatos mais verossímeis deixam claro que estiveram bem perto de ser decapitados. É evidente que Francisco não foi a Damieta com o intuito de opor-se à Cruzada. Seu objetivo era o mesmo dos cruzados. Como os cruzados, e como todo cristão medieval, Francisco queria liberar os lugares santos da presença islâmica. Mas sua estratégia era diferente. Como bem destacam os biógrafos, o martírio estava no horizonte de possibilidades de Francisco, mas não era a única alternativa. Para Francisco, mais importante do que o martírio, era o anúncio do Evangelho e a promoção da paz. Francisco não acreditava na guerra. Da juventude certamente lhe ficaram impressas na alma as terríveis imagens da batalha em Perúgia, onde acabara preso, e onde muitos de seus colegas foram mortos. Francisco era, sobretudo, o homem do Evangelho, da paz, do diálogo, da cortesia. Embora vivesse neste contexto de demonização do islamismo, e fosse fiel à Igreja, Francisco é capaz de pensar e agir diferente. E o faz mesmo correndo o risco de ser considerado louco e até herege. Mas o anúncio do Evangelho e a possibilidade da paz valem o risco. Por isso, ele rompe as barreiras e vai ao encontro do Sultão. O Sultão, por sua vez, por tradição familiar, era aberto ao diálogo, como já vimos. Francisco e o companheiro só não foram decapitados por que ele, em sua benevolência, explicitamente se negou a seguir a lei islâmica. Francisco se dispõe a conhecê-lo pessoalmente, e ao mesmo tempo dá-se a conhecer por ele. Ao decidir encontrá-lo em seu território, Francisco arrisca a vida, mas também utiliza-se de um artifício infalível: faz-se hóspede do Sultão, colocando-se livremente em suas mãos, totalmente despojado de poder, como menor. E a hospitalidade é sagrada para um muçulmano. Francisco foi ao encontro do Sultão usando não as armas dos cruzados, mas a arma da palavra, da pregação e, principalmente, sua própria pessoa. Ele não entendia árabe, e o Sultão provavelmente entendesse pouco de italiano ou latim. Mas as palavras são o que menos importa aqui. Entre estes dois, tão diferentes culturalmente, dá-se um verdadeiro encontro, encontro de corações e almas nobres, que gera conhecimento e afinidade. Quando se conhecem pessoalmente, as barreiras e preconceitos são quebrados, os temores, fruto da ignorância, desaparecem. Deste breve encontro de poucos dias, baseado no respeito mútuo e na abertura ao diálogo, novas possibilidades de relacionamentos se abrem, novos horizontes se descortinam, e continuam a inspirar encontros e diálogos, oitocentos anos depois.
 
Bibliografia:
 
  • Fontes Franciscanas e Clarianas, Tradução de Celso Márcio Teixeira, Vozes, Petrópolis 2004.
  • Gobry, Ivan, O século de Bernardo. Cîteaux e Clairvaux (secolo XII), Città Nuova, Roma 1998.
  • La Musica dei Crociati, Bettina Hoffmann, Modo Antiquo, Italia, 2000.
  • Oliveira, Ênio Marcos de, Francisco de Assis e o Islã: a vida segundo a forma do Santo Evangelho e a Minoridade como caminho para o diálogo inter-religioso, Universidade Federal de Juiz de Fora, Instituto de Ciências Humanas e Sociais, Programa de Pós-Graduação em Ciências da Religião, Juiz de Fora, 2014.
  • Rosset, Paul, História das Cruzadas, Zahar Editores, RJ 1980. 
  • Tyerman Christopher, A Guerra de Deus, Vol. II, Imago, RJ 2006.
  • Vaiani, Cesare, Storia e teologia dell’esperienza spirituale di Francesco d’Assisi, Edizione Biblioteca Francescana, Milano 2015. 
  • Arquivos eletrônicos
  • https://en.wikipedia.org/wiki/Al-Kamil#cite_note-14. Acessado no dia 14 de março de 2019. 
  • http://www.ofsliguria.it/wp-content/uploads/2017/09/Cronache-e-altre-testimonianze-non-francescane-1.pdf. Acessado no dia 14 de março de 2019.
  • https://thejosias.com/2015/03/17/st-bernard-and-the-theology-of-crusade/#_ftn46, acessado em 13 de março de 2019.
 
01 –  Al-Adil (1200-1218), pai de Al-Kamil (1218-1238), Sultão do Egito, era irmão mais novo de Saladino.
02 – http://www.ofsliguria.it/wp-content/uploads/2017/09/Cronache-e-altre-testimonianze-non-francescane-1.pdf. Acessado no dia 14 de março de 2019. Na avaliação dos fatos históricos todos os dados (e lados) precisam ser analisados nos seus prós e contras. E dentro de seu contexto. Ao lado deste possível comportamento benévolo para com os cristãos, a guerra exigia do Sultão que agisse com toda a ferocidade de um chefe militar. Basta dizer que, no auge do conflito, ele ofereceu uma moeda de ouro para quem lhe trouxesse uma cabeça de cristão. Diz-se que alguns trouxeram-lhe 50 cabeças de uma vez.
03 – Gobry, Ivan, O século de Bernardo. Cîteaux e Clairvaux (secolo XII), Città Nuova, Roma 1998, 313-317.
04 – https://thejosias.com/2015/03/17/st-bernard-and-the-theology-of-crusade/#_ftn46, acessado em 13 de março de 2019.
05 – Infelizmente alguns acontecimentos recentes nos mostram que esta visão sobre os muçulmanos ainda persiste em alguns ambientes no Ocidente. Por outro lado, a visão que os muçulmanos tinham dos Ocidentais também não era das mais lisonjeiras: um povo exótico e distante, economicamente atrasado, fanáticos religiosos, dispostos a matar todos os que se opunham ao seu credo. 
06 – Veja-se a exemplo a edição de dois cd’s, com músicas do tempo das Cruzadas: La Musica dei Crociati, Bettina Hoffmann, Modo Antiquo, Italia, 2000.
07 – Fontes Franciscanas e Clarianas, Segunda Vida de Celano, IV, 30, p. 320-321, Tradução de Celso Márcio Teixeira, Vozes, Petrópolis 2004. Chama a atenção o fato de que Celano não faz nenhuma referência ao encontro com o Sultão.
08 – Na verdade, o Sultão não ofereceu tudo de uma vez. A proposta de paz foi sendo aprimorada ao longo das negociações, mas sempre recusada pelos cristãos.
09 – Fontes Franciscanas e Clarianas, Crônica de Ernoul, p. 1428-1431. O cronista não dá nome aos frades, e os identifica como “clérigos”.
10 – Ter as cabeças cortadas era o destino de todos os prisioneiros, cristãos e muçulmanos. Os templários se divertiam, lançando as catapultas cheias de cabeças de muçulmanos através das muralhas de Damieta. Os muçulmanos faziam o mesmo com os cristãos. Este nível de violência que marcava a relação entre as partes em conflito mostra que o momento não era propício a conversas sobre conversão!
11 – Fontes Franciscanas e Clarianas, Carta escrita de Damieta, em fevereiro ou março de 1220, p. 1423. Em 1216 Jacques de Vitry já havia escrito uma carta onde citava os frades menores. 
12 – Idem, 1423-1427.
13 – Alguns estudiosos sugerem que Francisco teria sido confundido com uma espécie de “sufi”, típico místico islâmico, que se dedica à recitação, meditação e prática do corão. Al-Kamil apoiou a difusão de centros sufis durante seu sultanato. No Egito e na Síria, os muçulmanos conheciam a tradição religiosa dos monges e eremitas.
14 – Fontes Franciscanas e Clarianas, Primeira Vida, XX, 57, 238-239.
15 – No tempo em que ocorreram os fatos, a prática do ordálio era considerada heresia.
16 – http://www.ofsliguria.it/wp-content/uploads/2017/09/Cronache-e-altre-testimonianze-non-francescane-1.pdf. Acessado no dia 14 de março de 2019.
17 – Citaremos apenas alguns aspectos onde aparecem a influência do islã sobre Francisco. Sobre isto, veja-se a Tese de Doutorado: Francisco de Assis e o Islã: a vida segundo a forma do Santo Evangelho e a Minoridade como caminho para o diálogo inter-religioso, Ênio Marcos de Oliveira, Universidade Federal de Juiz de Fora, Instituto de Ciências Humanas e Sociais, Programa de Pós-Graduação em Ciências da Religião, Juiz de Fora, 2014.
18 – Fontes Franciscanas e Clarianas, Regra não Bulada, 176.
19 – Idem, Carta aos Governantes dos Povos, p. 126.
20 – Ibidem, Carta aos Custódios (Primeira Recensão), p. 110.
 
Fonte: Franciscanos
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