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Justiça, Justiça – Reflexão enviada pelo Pastor Dr. Rudolf von Sinner

 
“Procurarás a justiça, nada além da justiça” (Dt 16,20)
Semana de Oração pela Unidade Cristã 2019
 
Pastor Dr. Rudolf von Sinner*
 
Justiça, Justiça
 
Todos os dias clamamos pela justiça – diante da pobreza, da violência, ou diante da simplória e irritante divisão da sociedade entre (supostos) “vencedores” e “perdedores”, como se fosse a única responsabilidade de cada qual estar de um ou de outro lado! Pensamos inicialmente na justiça do juiz, seja na vara criminal – contra a tão comum impunidade – seja na vara civil – assegurando que cada um(a) recebe o que lhe é devido. A balança formada pela cruz no cartaz da cartilha da presente Semana de Oração pela Unidade Cristã indica este aspecto: igualdade perante a lei, aplicação correta desta, não utilizando duas medidas diferentes conforme melhor convem (Dt 25,13). De fato, o texto de Deuteronômio promove isto: os juízes e escribas devem exercer a “com justiça sua jurisdição sobre o povo” (Dt 16,18), sem aceitar presentes como propina nem corromper o direito. Jurisdição (em hebraico mishpat) deve ser exercida com justiça (em hebraico zædæq), ou seja: o processo correto, diante da comunidade, deve garantir a cada lesado seu status de “justo” e restabelecer a “justiça” como situação. Justiça, portanto, no sentido bíblico, é mais do que jurisdição ou um processo perante o juiz, é o bem-estar da própria comunidade. 
 
É isto que traz outro detalhe do cartaz da campanha deste ano, da autoria da jovem Mariana da Silva Souza de Belo Horizonte/MG que, no último dia do prazo, como nos conta, fez o desenho que veio a ser a proposta vencedora no concurso do CONIC. Vemos duas pessoas, em toda diferença de gênero, de cor e de status social. Uma segura o globo, o mundo, a realidade, diante do qual se proclama a partir da Bíblia segurada pela outra pessoa a Palavra de Deus, o Evangelho, em anúncio da esperança e da justiça, mas também em denúncia do desespero e da injustiça. Também as cores de arco-íris que irradiam da cruz valorizam, além da igualdade representada pela balança, a diversidade. Olhando para a cruz como o fazem as duas pessoas, estabelece e restabelece-se justiça. No último versículo do texto base (Dt 16,20), o texto hebraico usa duas vezes a palvra zædæq. Como vimos, esta palavra indica menos a jurisdição do que a necessidade do estabelecer e restabelecer, quando rompida ou prejudicada, de uma relação entre duas pessoas no meio da comunidade como um todo. Este tipo de justiça implica, portanto, também aquilo que hoje muitas vezes se chama de “reconhecimento”: reconhecer o direito da pessoa de existir, de ser, inclusive de ser diferente, sem negar-lhe o status de igualdade às demais pessoas enquanto pessoa humana. Antes, este status deve ser garantido e, quando rompido, restabelecido. 
 
O aspecto da diversidade me parece também sublinhado pelo contexto do versículo sobre a justiça: no meio de três festas ligadas à libertação do povo de Deus da escravidão do Egito. Esta experiência deve fazer com que as pessoas libertadas lembrem-se do seu status anterior, valorizem o novo e estendam esta liberdade e este reconhecimento às pessoas marginalizadas – sempre de novo, assim também em nosso texto, além da família e dos que pertencem à casa são invocados especificamente migrantes, órfãos e viúvas, todos grupos altamente vulneráveis. Como pode alguém negar às demais pessoas aquilo que também não conquistou pela própria força, mas, assim o entende o texto, recebeu como bênçãos e alegrias do próprio Deus? Por isto, todas e todos devem apresentar oferendas a Deus, em gratidão pelas bênçãos recebidas. Observe-se que não é o inverso que ocorre: investe-se oferenda para receber de Deus. Esta seria a lógica comum da nossa economia capitalista e da competição, essa onde os “vencedores” devem se sobressair e os “perdedores” são culpados, eles próprios, por sucumbirem. Não assim em nosso texto: primeiro se recebe bênção de Deus, e em seguida se oferece gratidão por ela. “Justiça”, neste sentido, engloba relacionamento, solidariedade, dádiva e gratidão, no meio da comunidade junto à família e às pessoas vulneráveis.
 
Unidade na diversidade
 
Já vimos no texto bíblico e no cartaz que por ele se orientou o destaque dado à diversidade. Importa lembrar que um dos preconceitos mais comuns que se ouve a respeito do ecumenismo é que almejaria jogar todas as diferentes igrejas num só caldeirão e cozinhar um sopão unificado. Quem costuma cozinhar sabe que uma sopa na qual se joga, indiscriminadamente, tudo que se encontra por aí na cozinha nunca será gostosa. Já por isso não pode ser um objetivo interessante: unificação que não enxerga, discute e aprende com as diferenças, mas as nivela, não vale a pena ser perseguida. Torna o mundo “chato”, feito plano, sem nada de destaque para evocar curiosidade, inovação, aprendizagem, alegria. Para evocar novamente a metáfora da sopa: tal sopa não rende coisa gostosa.
 
Já unidade que se deixa enriquecer pela diversidade, se deixa desafiar e ouve, pela voz da outra pessoa, também cristã, o chamado do Espírito Santo para aprofundar sua própria fé em sua tradição, esta sim vale a pena ser buscada. O cristianismo é, desde seus primórdios, uma religião bastante diversa: nasce no seio do judaísmo, acolhe os chamados “gentios” e supera fronteiras para construir pontes entre várias culturas – sem nivelar, “achatar” as diferenças. Na festa do pentecostes, final da Semana de Oração pela Unidade Cristã no hemisfério sul, lembramos que, 50 dias (em grego, pentecostē) após a páscoa, desceu o Espírito Santo sobre os discípulos e todos os povos os ouviram falar em sua própria língua. Ao inverso de Babel, quando foi confundida a língua para que ninguém se entenda e o ser humano abandone sua pretensão de ser como Deus, no Pentecostes todos entenderam. A comunicação fluiu bem. Logo o Evangelho se espalhou pelo Levante (hoje Chipre, Israel, Jordânia, Líbano, Palestina e Síria), a Ásia Menor (hoje Anatólia) e o norte da África, sendo traduzido para muitas línguas. Com as comunidades espalhadas, longe uma da outra, começou o primeiro Ensino à Distância da história pelas cartas que o apóstolo Paulo enviou para exortar e fortalecer as jovens comunidades. Não podia ser diferente do que, dentro das próprias comunidades e também em movimentos diversos que se articularam entre elas, surgissem divergências e conflitos. Viver a diferença na unidade é nada fácil. Mas, quando bem-sucedido o mútuo aprendizado, mesmo passando por debates e conflitos, nos faz compreender melhor a nós mesmos, às outras pessoas e ao Evangelho. 
 
Este desafio vive o povo da Indonésia diariamente. Foram cristãos daquele país que prepararam o material para a Semana deste ano, que por sua vez foi traduzida e adaptada pelo CONIC-MG para o contexto brasileiro. A Indonésia tem 265 milhões de habitantes num território que engloba nada menos do que 17 mil ilhas, mais de mil grupos étnicos e mais de setecentas línguas locais. A grande maioria se confessa de religião muçulmana. As pessoas cristãs somam cerca de 10% da população. Em toda esta diversidade procura-se viver o lema Bhineka Tunggal Ika, unidade na diversidade. É algo sempre frágil e precário, mas uma convicção que dá identidade à nação: crê-se num único Deus, numa humanidade justa e civilizada, na unidade do país, na democracia representativa conduzida por sabedoria e consenso e na justiça social para todas e todos – são os cinco pilares da nação chamados de Pancasila. Constantemente ameaçado por vulcões, terremotos e tsunamis, circuncidado por pouca terra e muito mar, além dos conflitos que possam surgir no meio de tanta diferença, o país persiste em meio a toda vulnerabilidade e persegue o projeto da unidade na diversidade.
 
Sinais de parceria
 
O estabelecimento e restabelecimento da justiça como solidariedade e reconhecimento, a constante construção e reconstrução da unidade na diversidade se faz por vários caminhos, entre eles a partilha pessoal e espiritual, mas também material. Vale recordar que ainda antes do II Concílio Vaticano, o teólogo luterano francês Oscar Cullmann (1902-1999) sugerira uma coleta ecumênica mútua: Os católicos romanos fariam uma coleta para os protestantes e vice-versa. Ainda hoje soa revolucionário – como vamos fazer uma coleta uns pelos outros quando já mal arrecadamos o suficiente para nossa comunidade? Cullmann recorreu à carta de Paulo aos Gálatas 2,10, onde se descreve resultado do acordo entre Pedro e Paulo: “e, quando conheceram a graça que me foi dada, Tiago, Cefas e João, que eram reputados colunas, me estenderam, a mim e a Barnabé, a destra de comunhão [koinonia], a fim de que nós fôssemos para os gentios, e eles, para a circuncisão; recomendando-nos somente que nos lembrássemos dos pobres, o que também me esforcei por fazer.” O fato de a igreja primitiva separar-se em duas missões não significa ruptura da comunhão (koinonia), antes é uma concentração necessária em tarefas diferentes. Como sinal visível da comunhão concorda-se em manter uma coleta (comum) para os pobres. A partir desta lembrança bíblica, Cullmann sugeriu que um sacrifício mútuo sem intenção proselitista, mas num espírito fraterno, ajudaria na construção de um clima de confiança. Ele esperava que esta proposta não fosse mais “a proposta do Prof. Cullmann”, mas que seja abraçada por irmãos e irmãs dos dois lados, mesmo concedendo que possa levar muito tempo. Muito tempo passou desde 1958, quando a proposta foi feita originalmente, e o ecumenismo cresceu em muitos aspectos. O desafio da coleta permanece. Ao longo da Semana de Oração pela Unidade dos Cristão temos a oportunidade de colocar este sonho em prática, fortalecendo o ecumenismo através do CONIC nacional, quem recebe 60% do valor arrecadado, e do MOVEC aqui em Curitiba, quem recebe 40%. Faço orações que a Semana de 2019 significará, para muitos, uma cooperação cada vez mais firme entre as igrejas para que estas possam garantir, internamente e na sociedade mais ampla, a justiça da qual fala nosso lema, e somente a justiça – nada além dela.
 
*Pastor Rudolf é natural de Basiléia/Suíça. Doutor e Livre-Docente em Teologia. Pastor da Igreja Evangélica de Confissão Luterana no Brasil. De 2003-19 foi professor de Teologia Sistemática, Ecumenismo e Diálogo Inter-Religioso na Faculdades EST em São Leopoldo/RS; desde 2019 é professor adjunto de Teologia Sistemática na Pontifícia Universidade Católica do Paraná, em Curitiba/PR.
 
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