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SOUC 2019: teólogas luteranas refletem sobre a unidade cristã

 
No terceiro dia de celebrações da Semana de Oração pela Unidade Cristã (SOUC) em Curitiba-PR, as teólogas e ministras candidatas ao ministério pastoral na Igreja Evangélica de Confissão Luterana no Brasil (IECLB), Camila Laís Karsten e Roana Clara Gums, conduziram a pregação. De maneira ilustrativa, motivaram a comunidade a refletir sobre unidade e diversidade a partir da genealogia de Jesus apresentada no texto bíblico próprio do dia, Mateus 1,1-7.
 
Confira:
 
"Todos nós, alguma vez em nossa vida, montamos uma árvore genealógica, certo? Quem aqui já montou e tem a sua árvore genealógica? Montar uma árvore genealógica não é algo fácil, temos que colocar no papel ou em um arquivo, os dados de toda a nossa família. Às vezes é preciso buscar por mais informações, pesquisar mais e isso não é algo simples. Pelo menos para mim não foi, pois minha família é muito grande. E quando colocamos todos os nomes das pessoas de nossa família num papel, ou num arquivo, vamos pensando em cada pessoa que compõem nossa família. 
 
Família não se escolhe, não é mesmo? Aceitamos e convivemos com essas pessoas, pois elas têm laços conosco. Mas será isso mesmo? Bom, pelo menos é assim que deveria ser. Só que não é o que vemos nos dias de hoje. Famílias estão brigadas, destruídas, sem nenhum diálogo. O motivo? Os mais diversos. Talvez questões financeiras, desrespeito com determinadas opiniões, política. Enfim, família não se escolhe!  
 
Existem vários “tipos” de famílias, pode ser que sua família seja pequena ou grande, como a minha. Sua família pode estar unida, ou brigada. Pode ser que sua família está separada geograficamente, mas unida pelo sentimento de pertencer a uma família. Sua família pode estar próxima geograficamente, mas ninguém se vê e muito menos se fala. Família eh, família ah, família... diz a letra da música dos Titãs. 
 
No texto do evangelho que fala sobre a genealogia de Jesus, temos vários nomes citados. Em uma primeira olhada ao texto nos parece tudo “normal”, são apenas os nomes das pessoas que compõem a família de Jesus. Mas se olharmos com mais atenção a estes nomes podemos perceber que Jesus também não teve uma família perfeita. Em sua genealogia, não encontramos apenas nomes de Reis e pessoas poderosas, pelo contrário, no relato de Mateus encontramos na genealogia de Jesus nomes de mulheres, que na época nem eram consideradas dignas de serem citadas, também nomes de pessoas pecadoras (Rei Davi), pessoas estrangeiras (Rute e Raabe), pessoas simples e humildes, assim como vocês e eu. 
 
Ao citar os nomes de todas essas pessoas, Mateus quer nos mostrar que no plano de salvação de Deus todas as pessoas, com suas mais diversas características, estão incluídas. Não pode faltar nenhuma pessoa. Toda a humanidade é parte da grande família de Cristo, e cada um de nós está incluído e incluída em seu plano de salvação, independente do que somos, temos e/ou de onde viemos.  
 
A árvore genealógica de Jesus é diversa, com pessoas de todos os tipos, mas todas inclusas no plano de salvação de Deus! Nossa árvore genealógica familiar, de cada um e cada uma, também representa a diversidade da criação de Deus. 
 
Nós, cristãos e cristãs do século 21, também fazemos parte de uma árvore genealógica bonita e diversa. Somos de uma mesma família, a família de Deus. A partir de Jesus Cristo nos tornamos irmãos e irmãs que comungam de uma mesma fé. Juntos e juntas formamos a árvore genealógica da Igreja de Cristo no mundo.  
 
Nossa árvore também é diversa, tanto quanto era a da própria descendência de Jesus. Fazem parte dela diversas igrejas que creem em Deus e em Jesus Cristo. Tantas são as igrejas, muitos são os jeitos de ser e de celebrar o amor de Deus. Mas todas têm algo em comum que as une, o alicerce sob o qual estão constituídas: a fé em Jesus Cristo!
 
Em Cristo há diversidade, mas há também unidade naquilo que é o principal, o fundamento de nossa fé. Nesta Semana de Oração pela Unidade Cristã 2019, algumas igrejas se reúnem para expressar que são parte de uma mesma família e para rogar pelo dom da unidade, presente em Cristo, mas ofuscado por nossas divisões.  
 
Aqui no Brasil, igrejas-membro do Conselho Nacional de Igrejas Cristãs se reúnem para celebrar e orar pela unidade. A Igreja Católica Apostólica Romana, Igreja Episcopal Anglicana do Brasil, Aliança de Batistas do Brasil, Igreja Evangélica de Confissão Luterana no Brasil, Igreja Sírian Ortodoxa de Antioquia e a Igreja Presbiteriana Unida, que celebram esta Semana de Oração pela Unidade Cristã (SOUC), representam os muitos e diversos frutos que compõe a árvore da Igreja de Cristo.  
 
Estes dias em que nos reunimos como uma só comunidade ecumênica, ou seja, a união de diversas igrejas que se entendem como habitantes de uma mesma “Casa Comum”, o mundo em que vivemos, querem ser momentos de relembrar que, embora diversos, somos frutos de uma mesma árvore – somos um só corpo, a Igreja de Cristo.  
 
Mas há algo a mais além desta árvore chamada Igreja de Cristo. Esta árvore, podemos assim dizer, se encontra plantada no mundo e faz parte da bela criação de Deus. Compartilha o espaço com as demais pessoas (também as não cristãs), com os animais, com a natureza. Este cenário nos mostra que dá força criativa de Deus surge uma diversidade maior ainda em tudo que Ele criou e que dentro desta grandiosa criação somos uma pequena, mas importante parte.   
 
Com tamanha diversidade na Criação, como é possível promover uma UNIDADE?  
 
Iniciativas como a SOUC são de grande importância para os tempos em que estamos vivendo.  
 
Palavras como individualismo, preconceito, discriminação, exclusão e ódio fazem parte de nosso contexto e contribuem para um mundo dividido e polarizado. Em nosso país, em especial, temos vivido tempos de ódio e divisão por razões políticas, econômicas, sociais, étnicas e culturais. A diversidade de ideias tem sido algo para justificar a divisão, impedindo a unidade.  
 
Pessoas cristãs não estão fora do grupo de pessoas que promovem divisões. Fundamentalismo e o conservadorismo religioso têm sido o motivo de propagação de ações discriminatórias, de exclusão e de ataques de ódio contra aquilo e aqueles e aquelas que são diferentes. A diversidade tem sido motivo de perseguição.  
 
A nossa Casa Comum está em risco por causa do nosso estilo de vida, formas de organização, nossos valores. A criação passa por agonia por causa dos interesses de poucos a cima do bem comum. A sobrevivência da Casa Comum está colocada em risco.
 
Diante deste cenário: Como viver o plano de Salvação de Deus na Casa Comum? 
 
Apesar da realidade difícil que vivemos, o salmo de hoje e também a história da salvação de Deus em Jesus nos lembram que o desejo de Deus não é de destruição, divisão, injustiça. Nos diz o Salmista: “O Senhor é benevolente e misericordioso com todos” (Sl 145.8). Bondade e misericórdia são as expressões do amor de Deus que vai além das fronteiras de etnias, culturas, raças, gêneros, condição social e de sexualidade e até de religiões. Este amor nos alcança e quer ser por nós propagado em palavras e ações que busquem promover a unidade, o respeito, comunhão entre as pessoas num país tão diverso, colorido e plural como o nosso Brasil.
 
O versículo que é tema e motivação da SOUC 2019 nos lembra do nosso papel, enquanto igrejas, diante do cenário em que vivemos: “Procurarás a justiça, nada além da justiça. ” Temos na arte de nosso cartaz um desenho muito belo feito por Mariana da Silva Souza, de Belo Horizonte, que retrata muito bem essas palavras. Temos na Cruz representada uma balança, símbolo da justiça. De cada lado, duas pessoas diferentes, segurando em suas mãos uma bíblia e o mundo. Esta figura nos inspira a pensar sobre a diversidade da Criação, sobre a igualdade de cada ser diante de Deus, e sobre nosso papel enquanto igreja no mundo de promover a justiça a todas as pessoas.  
 
 “Justiça a partir da unidade na diversidade”, este é o tema central, proposto pelas igrejas na Indonésia. Nossa tarefa é colocar em prática tudo aquilo que aprendemos dos exemplos de Jesus Cristo, ou seja, colocar em prática nossa solidariedade, empatia, misericórdia e amor. Esta é a tarefa de cada um e cada uma de nós. O senhor é bom para com todos! Nós também devemos ser.  
 
Que o Espírito Santo nos ajude para que a justiça da graça de Deus subverta a justiça humana. Que a justiça de Deus chegue onde a justiça humana é falha. E assim, que possamos seguir esperançosos por um mundo melhor, confiando que a nossa Casa Comum esteja também disponível para as gerações futuras. Se isso for nosso desejo verdadeiro necessitamos, com certa urgência, recuperar o espírito da coletividade, da solidariedade, da empatia e a compreensão de que nós, seres humanos, somos apenas uma pequena parte da grande criação do nosso bondoso e misericordioso Deus.
 
Queremos encerrar nossa mensagem com um pequeno poema com o título: “Jesus não tem mãos” Ani Johnson Flint, que diz:  
 
Cristo não tem mãos, só as nossas mãos para realizar o seu trabalho hoje.
Ele não tem pés, só os nossos pés para conduzir pessoas em seu caminho.
Ele não tem lábios, só os nossos lábios para contar às pessoas sobre sua morte.
Ele não tem ajuda, só a nossa ajuda para levar pessoas até ele. 
Nós somos a única Bíblia que o povo ainda lê.
Nós somos para os pecadores o evangelho, para os zombadores a confissão de fé.
Nós somos a última mensagem de Deus, escrita em palavras e ações.
 
Que Deus nos ajude para que sejamos as mãos, os pés e os lábios de Cristo neste mundo. Amém."
 
Foto: Pixabay