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Nesse momento de crise temos de valorizar a resistência, diz D. Zanoni

 
O arcebispo de Feira de Santana (BA), Dom Zanoni Demettino Castro, e bispo referencial da Pastoral Afro-Brasileira, no Convento São Francisco, na região central de São Paulo, que o povo brasileiro não pode perder a esperança, pois essa é a identidade e missão do cristão. “O lobo e o cordeiro comerão juntos e a criança de colo não vai ter medo de bichos, de cobra venenosa, porque um Menino nasceu para nós, um Filho nos foi dado. Como dizia o profeta Isaías, o povo andava nas trevas e viu uma grande luz. A bota do capataz, que pisa e massacra, e toda veste serão devoradas pelas chamas. Essa é a esperança, apesar do tempo difícil, de negação da vida, de fechamento da pluralidade, de uma mentalidade fascista presente no nosso meio, de negação da ciência, da democracia e da luta pela humanidade. Creio que é nesse momento de crise que devemos valorizar a resistência”, exortou D. Zanoni. Ele foi o presidente da Santa Missa, que teve como concelebrantes os bispos Dom Antônio Wagner da Silva, de Guarapuava (PR), e Dom Eduardo Viera dos Santos, de São Paulo.
 
Os três bispos se juntaram a padres e diáconos negros de diferentes dioceses brasileiras para participarem da 29ª Assembleia Geral do Instituto Mariama. Presentes na Celebração Eucarística estavam o guardião do Convento São Francisco, Frei Mário Tagliari; o presidente da Educafro, Frei David Raimundo dos Santos; e representantes da Pastoral Afro de diversas Paróquias de São Paulo. A liturgia foi animada pelas “Pastoras do Rosário”, um grupo musical conhecido da Comunidade do Rosário dos Homens Pretos do bairro Penha de França.
 
Segundo o arcebispo de Feira de Santana, presbíteros, diáconos e bispos assumem sua negritude com orgulho e compromisso e refletem sobre a Missão Evangelizadora da Igreja, tendo presente a vida concreta do povo, sobretudo o povo negro. “Como bispos e presbíteros negros, nos perguntamos sobre a maneira eficaz de sermos fiéis ao mandato evangelizador do Mestre Jesus”, explicou D. Zanoni, que fez a primeira conferência deste dia do Encontro partindo dos documentos das Conferências Episcopais e, sobretudo, a partir do ensinamento do Papa Francisco. O Pe. Benedito Ferraro, Professor Emérito da PUC, Campinas, enfocou o tema central sobre o ponto de vista cristológico.
 
Segundo D. Zanoni, ser cristão é acreditar que essa profecia, esse desejo de vida, de partilha, de solidariedade, não somente do povo de Israel mas de todas as nações, “realiza-se no caminho de Jesus, naquele que passou a vida fazendo o bem, naquele que não teve preconceito para com o estrangeiro, naquele que não quis impor a lei sobre as costas das pessoas, que amou sem impor condição”, acrescentou.
 
Comentando a parábola do joio e do trigo, lida no Evangelho desta Missa, o Arcebispo disse que a tentação é logo separar o joio do trigo. “Mas o ensinamento de Jesus nos aponta para uma realidade futura nova: o julgamento. Talvez nós tenhamos essa dificuldade de enfrentar, no momento, tanta diversidade e desrespeito à vida”, observou, lamentando a situação das comunidades indígenas com o atentado no Amapá, a morte “desses irmãos” no presídio Pará, a realidade de sofrimento que vive o povo brasileiro, o crescimento assustador do extermínio da juventude negra. “Nós vivemos nesse mundo de crise e como podemos plasmar uma nova sociedade? Quem vai construir um novo céu uma nota terra? O céu não vem pronto. Exige de nós uma resposta. E aqui está, meus irmãos e irmãs, a nossa missão como protagonistas dessa realidade, como nos ensina a Conferência de Aparecida: Sujeitos da gestação de um mundo novo de paz e de justiça”, assinalou. Para D. Zanoni, não são os youtubers, os jogadores milionários, os donos do mercado, aqueles que detêm a riqueza e o poder, que vão plasmar esse novo céu, mas “a nossa pertença à Igreja, que não é uma construção de pedra, uma ONG, nem somente a hierarquia, mas a comunidade daqueles que acreditam em Jesus, que diz que ‘o Espírito do Senhor está sobre mim porque Ele me ungiu para dar uma notícia boa aos pobres, libertar os prisioneiros, curar os doentes, recuperar a vista aos cegos’”. Essa é a missão da Igreja, enfatizou o Arcebispo.
 
Para D. Zanoni, a tentação é querer trabalhar só para os bons. “Esse não presta, aquele não tem jeito. Temos que perceber que o Espírito de Deus age não somente na nossa estrutura, na nossa organização, mas onde existe a paz, o amor, a fraternidade, a preocupação com a pessoa humana e que o critério da salvação não se limita ao espaço religioso”, disse, recordando que Jesus ensina ser solidário com os irmãos necessitados: ‘Vinde benditos de meu Pai, pois eu estava com fome e me destes de comer; eu estava com sede e me destes de beber; eu era estrangeiro e me recebestes em casa; eu estava nu e me vestistes; eu estava doente e cuidastes de mim; eu estava na prisão e fostes me visitar’.
 
Dom Zanoni contou que participou recentemente de um encontro de jovens, a maioria de negros, e que teve como tema: “Negritude e Resistência”. “Isso é importante perceber a caminhada e resistência. Nós somos chamados, como um povo negro, a sermos protagonistas da gestação de um novo mundo”, reforçou.
 
DESIGUALDADE ENTRE POPULAÇÃO NEGRA E POPULAÇÃO BRANCA
 
Segundo D. Zanoni, citando o papa João Paulo II, há mais de trinta anos, os ricos estão cada vez mais ricos às custas dos pobres e os pobres cada vez mais pobres. “E essa realidade só se agravou. Tem crescido por demais a desigualdade. E a nossa preocupação é quando se prioriza políticas de endeusamento do lucro  e se esquece das pessoas. E à Igreja – creio que é sua missão – cabe aliar-se e se comprometer com toda a luta que resgate a vida das pessoas, que restaure vidas, que gere ações afirmativas. Creio que esse é o caminho, justamente com o povo negro, com a juventude negra, com esse povo que passou 300 anos de escravidão, esse crime de lesa humanidade. É aquilo que o Papa Francisco tem insistido: Precisamos pensar uma nova economia, uma nova ordem mundial de solidariedade e paz”, ressaltou.
 
Segundo dados do IBGE, 53% da população brasileira é formada por negros e negras, sendo que 70% dessa população vive na extrema pobreza. “A população negra tem três vezes mais o número de assassinatos entre os jovens negros. Somos a terceira população carcerária, onde a maioria é de negros. São consequências da escravidão que não restaurou, não repartiu a riqueza”, lamenta D. Zanoni, lembrando que a Pastoral Afro, assim como a Pastoral Carcerária, têm como missão ser cuidadores e zeladores, como o Bom Pastor. “Então, evangelizar, como nos ensina o Papa Paulo Vi, não é oferecer um verniz superficial, mas ter presente a concretude da vida.  Estar bem presente com  seus sonhos, suas alegrias, suas expectativas, suas angústias, dores, mas sobretudo a esperança. A Pastoral Afro tem que estar presente em toda a ação da Igreja de maneira transversal”, indicou.
 
A população negra também sofre, hoje também, com a intolerância religiosa. Segundo dados da Comissão de Combate à Intolerância Religiosa do Rio de Janeiro, o número de ataques contra religiões de matizes africanas subiu 70% no Estado. “Nós, de fato, observamos uma demonização das coisas do negro. Da religião do negro. Por que só a cultura dos nórdicos, a cultura europeia, é tida como boa? Um franciscano que foi meu professor, Hugo Fragoso, perguntava por que na liturgia se pode tocar os órgãos que se tocavam nos cabarés europeus, e não pode tocar os atabaques? Hoje, nós percebemos essa intolerância, esse racismo, essa visão distorcida da fé e do cristianismo. A compreensão da evangelização passa necessariamente pelo encontro com outro, pela valorização da pessoa humana. Não há referência outra que não seja Jesus. Ele não teve preconceito para com o estrangeiro, sentou-se com a samaritana, passou a vida fazendo o bem, amou sem condição. Então, essa intolerância é a negação da fé cristã e do cristianismo”, lamentou. “Assumir a concretude da vida do nosso povo, a realidade sofrida da nossa gente, é o grande desafio da ação evangelizadora da Igreja neste mundo pluralista e secularizado”, completou.
 
A Associação de Bispos, Presbíteros e Diáconos Negros se constitui como sociedade civil de direito privado, de âmbito nacional, sem fins não econômicos e sem vínculos político-partidários. O Instituto foi criado há 29 anos e nasceu a partir da necessidade de recuperar as tradições, a religiosidade, a fé cristã vivida e celebrada na comunidade negra.
 
Fonte: Franciscanos
Foto: Reprodução