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Inácio Lemke: um luterano a presidir o CONIC

 
Em maio deste ano, o CONIC ganhou uma nova diretoria. Com a mudança nos quadros de comando do Conselho, quem assumiu a presidência foi o Pr. Inácio Lemke. Esse catarinense de Jaraguá do Sul, casado com Margit Elfriede Lemke, com quem tem dois filhos, Thobias e Mathias, ficará à frente do CONIC até 2022.
 
Inácio é formado em Teologia pela Faculdade de Teologia – FACTEOL, atual EST, em São Leopoldo / RS, da Igreja Evangélica de Confissão Luterana no Brasil – IECLB, (1974 a 1980); entre janeiro a dezembro de 1977 foi estudante intercambista no Evang. Luth. Missions und Diasporaseminar em Neuendettelsau, Alemanha.
 
A seguir, confira o relato que ele escreveu especialmente para o nosso site! 
 
“Em 1981 fui enviado pela IECLB, juntamente com uma equipe de trabalho, integrada por enfermeira, médico, técnico agrícola e minha esposa, para a Região de Rolim de Moura, RO. Como Pastor, coube-me a missão de coordenar a equipe, além da responsabilidade dos trabalhos pastorais junto às famílias luteranas, era acolher os migrantes que estavam procurando novo espaço de vida.
 
As caravanas de migrantes eram constituídas em sua maioria por pessoas pobres, muito pobres, vindo sobre tudo dos Estados do Nordeste, do Sudeste (Espírito Santo e Minas Gerais e São Paulo) e do Sul (Paraná).
 
A casa pastoral tornou-se rapidamente uma casa de convivência, para a equipe de trabalho, bem como para estagiárias, estagiários; também uma casa de acolhida e passagem para pessoas que precisavam de cuidados de saúde, gestantes, pessoas acometidas de malária ou outras doenças típicas da Região Amazônica. Acolhíamos as pessoas que aguardavam vagas nos hospitais, ou as que esperavam para retornar às moradas que muitas vezes eram alcançadas após longas caminhas pelas linhas e picadas.
 
A casa também era espaço de troca de experiência e sonhos com os dois Padres Espiritanos irlandeses e três Irmãs Combonianas, duas italianas e uma brasileira. A realidade local, com seus desafios que muitas vezes pareciam insuperáveis, nos uniam e fortaleciam nossos sonhos, transformando-os em realidades de gestos de solidariedade. Partilhávamos alegrias comuns, vendo as famílias receberem seus lotes de terra, cultivar, plantar e colherem os frutos dos seus trabalhos. Também acompanhamos a fundação dos Sindicatos dos Trabalhadores Rurais, a criação das Associações de Ajuda Mútua e outras melhorias.
 
Outro referencial em minha caminhada de igreja ecumênica foi o trabalho junto à Comissão Pastoral da Terra – CPT. Em Rondônia, a CPT nasce a partir da necessidade social de abandono em que se encontravam a população local. Já em 1978 surge a CPT/RO em harmonia ecumênica, envolvendo leigos/as e clérigos/as da IECLB e Igreja Católica Apostólica Romana (ICAR). Por uma decisão coletiva de lideranças, acompanhei os trabalhos da CPT/RO. Em 1985 fui eleito Vice-Presidente da CPT Nacional, juntamente com o Bispo Dom José Gomes, de Chapecó/SC. Tempo abençoado pela convivência ecumênica prática.
 
Em 1987 a CPT/RO solicita minha cedência junto à IECLB para assumir a coordenação regional de Rondônia, bem como acompanhar o Grande Regional Noroeste do Brasil que integrava os Estados do Acre, Amazonas, Mato Grosso, Rondônia e Roraima. Assim, pude conhecer a realidade amazônica nua e crua com as suas grandes diferenças etnoculturais. Assessorar e acompanhar as pessoas, os movimentos e grupos em suas diferenças eram desafio diário. Anunciar e levar esperança junto aos mais pobres era uma das metas na convivência. Ao mesmo tempo em que experimentava muita alegria neste trabalho, também aumentavam os riscos e as ameaças constantes. Assim, em março de 1992, minha família e eu aceitamos o desafio de aceitar um convite que veio da Igreja Evangélica Luterana da Baviera, Alemanha, onde fui incluído numa equipe de trabalho no Kirchlicher Endwicklungsdienst – KED – Bayern. 
 
1992, lembrando os 500 Anos da Conquista das Américas, quando na Europa se levanta a pergunta: “quem descobre ou conquista quem”? – Na instituição trabalhamos o tema através de uma exposição de painéis com textos, fotografias, gráficos, vídeos e filmes, com o título “O BRASIL – Eu ouvi o clamor do meu povo”. 
 
Cooperei com trabalhos no KED Bayern até setembro de 1999, quando construí muitas pontes entre comunidades, grupos e ONG na Alemanha, Europa, Brasil, América Latina. Tive a oportunidade fazer uma viagem de serviço para Moçambique... sempre tecendo ligações solidárias entre iniciativas religiosas, políticas ou grupos autônomos. Alguns destes contatos persistem até os dias atuais.
 
Retornando ao Brasil, novamente assumi trabalhos pastorais em Minas Gerais, Teófilo Otoni (outubro de 1999 a abril de 2001) e em Santa Catarina, Rio das Antas (2001 a dezembro de 2009). Em 2010 fui eleito para Pastor Sinodal no Sínodo Norte Catarinense, cargo que exerci até final de 2018. No período de 2014 a 2018 também fui eleito em Concílio para o exercício de Pastor 2º Vice-Presidente da IECLB.
 
Assim que cheguei em Santa Catarina passei a acompanhar os trabalhos do Conselho de Igrejas para Estudos e Reflexão – CIER e, assim, também fui me envolvendo com o CONIC. Na gestão passada, exerci a Vice-Presidência juntamente com Dom Flávio Irala, da Igreja Episcopal Anglicana do Brasil (IEAB).
 
Viver o ecumenismo hoje para mim é encontrar o outro, a outra pessoa ou instituição pelo caminho, descobrir o que nos une, mas ao mesmo tempo respeitar as nossas diferenças. Para isso é preciso desenvolver um grande sentimento de amor pelo outro/outra sem impor condições pré-estabelecidas. Um sentimento de “vamos caminhar juntos”, sem já de antemão impor nossas regras. Vamos encontrar um caminho comum de convivência.
 
Penso que o CONIC deve proporcionar espaços de diálogo e estar aberto para receber também outras igrejas cristãs que queiram caminhar juntas. Assumir o compromisso que Jesus de Nazaré ensina na caminhada com seus discípulos e discípulas. Sobretudo a prática do amor junto às pessoas mais pobres e excluídas: “Amai-vos uns aos outros, assim como eu os amei” (Ev. Jo. 13.34). Como representantes de igrejas comprometidas com o evangelho de Jesus Cristo não podemos entrar na onda do ódio, da destruição da criação que Deus nos confia como filhas e filhos a seu serviço nesta terra. Cabe-nos, sim, denunciar toda violência que é praticada, seja contra humanos, seja contra a criação. 
 
Ser presidente do CONIC foi e sempre será de muita responsabilidade diante das igrejas-membro, diante dos nossos parceiros, diante da sociedade e, sobretudo, de Deus. Recebi essa eleição com temor e tremor, consciente da responsabilidade. Diante de toda conjuntura que envolve o país hoje é preciso denunciar o mal com todas as suas mazelas e anunciar a esperança aos desalentados novamente. E é nesse sentido que o CONIC sente-se desafiado a não perder o equilíbrio, diante de tudo que vimos e ouvimos, não podemos nos calar. Precisamos ser a voz que pode fazer a diferença neste deserto que, por hora, passa o povo brasileiro; uma voz compromissada com a vida e vida em abundância para todos e todas (Ev. Jo. 10.10).
 
Para me equilibrar, cultivo como hobby um pequeno quintal, com horta, flores, árvores com liberdade de pássaros. É um pequeno espaço acolhedor para a diversidade da vida e pessoas diferentes. 
 
Onde fica isso? Em Pomerode, SC.
 
Caso alguém queira conhecer, será bem-vindo. E sempre sem preconceitos.