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Achou que ecumenismo e diálogo inter-religioso são a mesma coisa?

 
É regra: todos os anos, a Igreja Católica envia uma mensagem aos muçulmanos pelo mês do Ramadã, outra aos budistas pela festa do Vesakh e uma terceira aos hindus pela festa do Deepavali. Quem assina os textos é o presidente do Pontifício Conselho para o Diálogo Inter-Religioso, o organismo da Cúria Romana dedicado às relações da Igreja Católica com outras religiões.
 
Em outra sala do mesmo prédio, na Via della Conciliazione, número 5, em Roma, outro organismo da Cúria tem, entre outras, a tarefa de coordenar comissões de diálogo bilateral com ortodoxos, luteranos, batistas, anglicanos, metodistas e menonitas. É o Pontifício Conselho para a Promoção da Unidade dos Cristãos.
 
Esses dois organismos – ou dicastérios, como são chamados organismos da Cúria Romana como esses – têm missões diferentes. Um faz diálogo inter-religioso e o outro faz ecumenismo. Embora essas duas realidades tenham a ver com diálogo, compreensão, amizade e tolerância, não são sinônimas: os interlocutores são diferentes, e os objetivos também.
 
A confusão entre os termos costuma ser consequência de uma confusão anterior: falar de religiões, no plural, quando queremos na verdade nos referir às diferentes denominações cristãs. O cristianismo é uma só religião. Portanto, o diálogo entre luteranos e católicos ou entre anglicanos e ortodoxos não é inter-religioso. Essas relações são chamadas de ecumênicas.
 
Objetivos 
 
Os proponentes do diálogo inter-religioso não têm como objetivo a fusão entre as religiões ou qualquer coisa parecida: o objetivo do diálogo é a busca de compreensão mútua entre as religiões e a sua cooperação em vista da paz e da justiça. O objetivo do ecumenismo é caminhar pela unidade visível, de testemunho comum, entre cristãos (mais adiante será explicado em que sentido tal unidade é entendida).
 
O Conselho Mundial de Igrejas (CMI), fundado em 1948 e que reúne hoje 350 igrejas, se define como “uma comunidade de igrejas a caminho da unidade visível em uma fé e uma comunhão eucarística”.
 
Do ponto de vista da Igreja Católica – que não é membro pleno do CMI –, o mais importante documento eclesial sobre o assunto – o decreto Unitatis redintegratio, do Concílio Vaticano II (1962-1965) – afirma que um dos principais propósitos do concílio foi “promover a restauração da unidade entre todos os cristãos”.
 
Bento XVI, por exemplo, defendeu que “a meta do ecumenismo é a unidade visível entre os cristãos divididos” – e no início do seu pontificado, em 2005, disse assumir “como compromisso primário o de trabalhar sem poupar energias na reconstituição da plena e visível unidade de todos os seguidores de Cristo” e estar “disposto a fazer tudo o que estiver em seu poder para promover a fundamental causa do ecumenismo”.
 
De fato, a passagem bíblica que é mais comumente relacionada com o ecumenismo é um trecho da oração de Jesus ao Pai durante a última ceia no Evangelho de João (17, 21): “Não rogo somente por estes, mas também por aqueles que pela sua palavra hão de crer em mim; para que todos sejam um, como tu, Pai, és em mim e eu em ti; que também eles sejam um em nós, para que o mundo creia que tu me enviaste”. A unidade, assim, fica relacionada com a credibilidade do testemunho cristão.
 
Unidade como?
 
Para a maior parte das igrejas envolvidas com o ecumenismo, essa plena unidade não significa bater tudo no liquidificador para dar origem a uma nova igreja unificada. Também não significa incorporar ou submeter umas igrejas a outras, nem “converter” todos os cristãos a uma das igrejas existentes.
 
A título de exemplo, o papa Francisco já deixou claro que a unidade entre os cristãos não é “uniformidade” nem “absorção”. “Procurar suprimir tal diversidade significa ir contra o Espírito Santo, que age enriquecendo a comunidade dos crentes com uma variedade de dons”, afirmou, dizendo ainda que “a unidade dos cristãos não comporta um ecumenismo ‘de marcha atrás’, pelo qual se deveria renegar a própria história de fé; nem sequer tolera o proselitismo, que aliás é um veneno para o caminho ecumênico”.
 
O patriarca ecumênico[1] de Constantinopla Bartolomeu I, por sua vez, ressaltou: “Na medida em que uma igreja reconhece que outra igreja é uma fonte de graça santa e um guia que conduz à salvação, os esforços destinados a afastar os fiéis de uma igreja para que eles possam se unir a outra são inaceitáveis, sendo inconsistentes com o reconhecimento acima mencionado. Cada igreja local não é concorrente das outras igrejas locais, mas é um só corpo com elas e deseja a vida de unidade em Cristo, a restauração do que foi perturbado no passado e não a absorção da outra”.
 
No âmbito ecumênico, é comum usar a expressão “diversidade reconciliada” para falar desse modelo. A Federação Luterana Mundial o descreve como “um caminho para a unidade que não implica automaticamente a rendição de tradições confessionais e identidades confessionais” e em que “não há nenhum encobrimento sobre as diferenças. Tampouco as diferenças são simplesmente preservadas e mantidas inalteradas. Pelo contrário, elas perdem seu caráter divisivo e se reconciliam entre si”.
 
Assim, a unidade plena entre os cristãos respeitará a diversidade interna do cristianismo – e será grata pelo mútuo enriquecimento que ela possibilita.
 
[1] Nesse título, “ecumênico” tem outro significado, mais literal e também mais parecido com aquele que aparece na expressão “concílio ecumênico”. “Ecumenismo” vem do grego οἰκουμένη (oikouméne), que quer dizer “terra habitada”. No título do patriarca de Constantinopla, indica que ele é o primaz da comunhão ortodoxa. Embora cada uma das 14 igrejas ortodoxas seja autônoma, o patriarca de Constantinopla ocupa honorificamente a primeira posição entre os hierarcas de cada uma delas. Na ideia de concílio ecumênico, está a noção de uma assembleia que reúne bispos do mundo todo.
 
Artigo originalmente publicado pela Gazeta do Povo, com adaptações
Fotos: Reprodução