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Um dia após o lançamento da Campanha da Fraternidade 2019, com o tema “Fraternidade e Políticas Públicas”, a Arquidiocese de Curitiba lançou sua primeira ação concreta relacionada à Campanha: um edital para apoiar projetos sociais que tenham a proposta de combater a exclusão social e que possam ajudar a promover a participação cidadã na efetivação de políticas públicas. 
 
Os projetos sociais podem ser de grupos de natureza pastoral, vinculados a paróquias ou de organizações não governamentais. O valor máximo de apoio de cada projeto será de R$ 12.000,00 e o prazo para inscrição será até 3 de maio deste ano.
 
O edital é fruto do Fundo Diocesano de Solidariedade (FDS), mantido com as doações realizadas pelos fiéis católicos durante a coleta nas missas do Domingo de Ramos - que neste ano será no dia 14 de abril. É lançado anualmente para apoiar financeiramente projetos que tenham relação com a Campanha da Fraternidade. No ano de 2018, vinte e cinco projetos sociais foram contemplados pelo FDS na Arquidiocese de Curitiba e o recurso total destinado chegou a aproximadamente R$ 185 mil.
 
O edital pode ser acessado no site www.arquidiocesedecuritiba.org.br.
 
Foto: Pixabay

 
Numa sociedade historicamente injusta com as mulheres, onde vemos casos de violência doméstica se multiplicando, essa passagem de Efésios, capítulo 5 é, muitas vezes, referência para a legitimação à opressão do homem sobre a mulher. No entanto, um olhar atento para esse texto da escritura evidencia que tal conselho era condicional. É necessário, portanto, levantar algumas suspeitas sobre ele quando se tem por base o conjunto do Evangelho. 
 
Quando a carta aos Efésios foi escrita, a bíblia (como a conhecemos hoje) ainda estava sendo formada, portanto, é importante que este texto da bíblia não seja isolado do seu contexto e, muito menos, do conjunto do Evangelho. 
 
A carta em questão nasceu dentro de um contexto patriarcal. O patriarcado é um sistema social e cultural em que poucos homens têm poder sobre mulheres, crianças, escravos e povo colonizado. Naquele contexto, portanto, compreendia-se a família a partir de uma lógica hierárquica, na qual o homem era tido como o chefe da família ou do clã. No entanto, a pergunta a ser feita é se nas experiências das primeiras comunidades cristãs esta lógica era mantida ou se eram vividas experiências em que as mulheres eram lideranças e protagonistas. 
 
Se lermos outras cartas paulinas, identificaremos que nas igrejas fundadas por Paulo as mulheres ensinavam, profetizavam, dirigiam a oração e tinham postos de autoridade. Lembremos de Priscila (At 18:26); as filhas de Felipe (At 21:8-9); as profetizas de Corinto (11:2-16); e de Febe (Rm 16:1-2). 
 
A tensão entre compreensões diferentes de sociedade e igreja também existia no período bíblico. Por um lado, havia grupos e lideranças que queriam manter a ordem hierárquica e a submissão das mulheres ao sistema patriarcal. Por outro, vemos experiências totalmente novas, em que mulheres e homens exerciam seus papéis de liderança em igualdade. 
 
É exatamente por isso que Efésios 5 precisa ser lido em um contexto amplo. Neste sentido, não é possível aceitar que se utilize esta passagem ou qualquer outro texto bíblico para impor o silêncio e a submissão das mulheres. Não é vontade de Deus que mulheres sejam submetidas a situações de violência e silenciamento.
 
As mulheres são imagem e semelhança de Deus (Gn 1:31). Deus se alegra quando as mulheres nascem (Sl 127:3), assim como os homens.
 
Como Cristo amou a igreja
 
Logo que fala sobre submissão da esposa, o mesmo capítulo diz: “maridos, amai vossas mulheres, como também Cristo amou a igreja, e a si mesmo se entregou por ela” (Ef 5:25). Os homens cristãos precisam amar suas esposas assim como Cristo amou a igreja. Está claro! A proposta de Jesus talvez possa ser vista como um incentivo para que o homem viva uma nova experiência de masculinidade: uma masculinidade que não se baseia no uso do poder e da força, mas no amor e nas relações de igualdade. 
 
Submissão 
 
Exigir submissão da mulher ou de qualquer outra pessoa com base em um único versículo significa manipular a mensagem bíblica. 
 
Lembremos das passagens que negam veementemente qualquer tipo de submissão entre homem e mulher, como por exemplo: “não há judeu nem grego; não há servo nem livre; não há homem nem mulher; porque todos vós sois um em Cristo Jesus” (Gl 3:28). 
 
É bom reconhecer também que somos todas e todos, mulheres e homens, geração eleita e povo adquirido de Cristo (I Pe 2:5-9). O sacrifício de Jesus na cruz não foi 60% para os homens e 40% para as mulheres. Não há base bíblica para afirmar isso. Ao contrário, Ele se entregou para a redenção de todos, igualmente (1 Tm 2:6, Gl 1:4, Jo 3:16-17).
 
Harmonizar ou entender a submissão
 
O texto nos provoca a reflexão sobre as transformações necessárias para que relações de igualdade, companheirismo entre mulheres e homens sejam possíveis. Não é submissão que se quer, mas amor e respeito.  Essa lógica encontra respaldo em várias passagens, mas especialmente nesta aqui: “mas todo aquele que quiser entre vós fazer-se grande seja vosso serviçal; E, qualquer que entre vós quiser ser o primeiro, seja vosso servo; Bem como o Filho do homem não veio para ser servido, mas para servir” (Mateus 20:26-28).
 
Deus não quer que as relações entre casais seja de “um fala e o outro obedece”. Deus mesmo reprovou a dominação de uma pessoa para com a outra quando disse: “Vocês sabem que os governantes das nações as dominam, e as pessoas importantes exercem poder sobre elas” (Mt 20:25) – arrematando logo em seguida com a seguinte orientação – “Não será assim entre vós” (Mt 20:26).
 
Portanto, de agora em diante, quando você ouvir por aí esse papo de que as mulheres precisam ser submissas, suspeite e pergunte: se Deus é amor, porque Deus seria favorável à dominação de gênero? Se você desejar, pode imprimir esse artigo e compartilhar com quem pensa assim. Convide amigos e amigas para uma conversa aberta sobre o tema. Muitas injustiças têm sido perpetradas em função de interpretações bíblicas realizadas fora de contexto e com o interesse de manter relações de poder desiguais. A letra mata (2 Cor 3:6). E mata de verdade. Quantas não são as irmãs que, mesmo diante de um casamento opressor, ficam quietas e se resignam na condição de submissas “por que a bíblia diz que deve ser assim” e porque a liderança religiosa de sua comunidade de fé a orienta a aguentar a relação de dominação pelo bem da família? Muitas acabam mortas pelos companheiros (leia A igreja e a violência doméstica contra as mulheres).
 
Texto fora de contexto é pretexto para opressão. Vamos sempre nos atentar ao conselho que diz: “Porque virá tempo em que não suportarão a sã doutrina; mas, tendo comichão nos ouvidos, amontoarão para si doutores conforme as suas próprias concupiscências; E desviarão os ouvidos da verdade, voltando às fábulas” (2 Tm 4:3-4).
 
“Mas tu, sê sóbrio em tudo” (2 Tm 4:5).
 

 
A Campanha da Fraternidade (CF 2019) acaba de ser lançada oficialmente pelo Presidente da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB), Cardeal Dom Sérgio da Rocha, que estava acompanhado na cerimônia pelo secretário-geral da CNBB, dom Leonardo Steiner, e a procuradora-geral da República, Raquel Dodge. Além deles, também foram convidados para o ato Geniberto Paiva Campos, médico cardiologista do Observatório do Distrito Federal; Gilberto Vieira dos Santos, secretário-adjunto do Conselho Indigenista Missionário (Cimi); e Vânia Lúcia Ferreira Leite, membro da Pastoral da Criança e do Conselho Nacional de Saúde.
 
Dom Sérgio recordou a mensagem do Papa Francisco para a Campanha da Fraternidade, que pode ser lida aqui, e disse que um dos principais objetivos é contribuir para o conhecimento da importância do tema e promover uma participação maior na elaboração de políticas públicas nos diversos âmbitos da vida social (saúde, educação, segurança pública, meio ambiente, etc.) temas já trabalhados em anos anteriores.
 
Dom Sérgio explicou que é importante refletir sobre o tema por meio de encontros de formação, palestras, debates e rodas de conversa. Há diversos modos de participar da vida política, muito além da militância em partidos políticos, como participação em conselhos paritários, em audiências públicas, em movimentos sociais e tantas outras iniciativas de cidadania responsável.
 
Missão profética
 
O Presidente da CNBB também afirmou que “as políticas públicas devem assegurar e efetivar direitos fundamentais da população, a começar dos mais pobres e vulneráveis. O bem dos pequenos e fragilizados é critério para assegurar se a política está efetivamente a serviço do bem comum. Os pobres e excluídos não podem ser esquecidos; ao contrário, devem ser considerados com especial atenção e elaboração de políticas públicas“.
 
Mais uma vez, a Igreja não pretende oferecer soluções técnicas para os problemas sociais, nem se deixa guiar por ideologias ou partidos. Cumpre a sua missão profética nas condições concretas da história, oferecendo aquilo que tem de mais precioso: a luz da fé, a Palavra de Deus, os valores do Evangelho. “A Igreja oferece critérios, princípios, valores éticos, a serem acolhidos na ação político partidária e demais iniciativas no âmbito político, tendo como grandes fontes a Palavra de Deus e a Doutrina Social da Igreja”, disse.
 
Sociedade
 
O presidente da CNBB fez a seguinte constatação: “A Campanha da Fraternidade tem repercutido não apenas no interior das comunidades católicas, mas também nos diversos ambientes da sociedade. Pela sua natureza, ela sempre vai muito além da Igreja Católica. Tem contado, cada vez mais, com a participação de muitas entidades da sociedade civil, de escolas, de outras igrejas cristãs e de órgãos públicos. A Campanha exige ações comunitárias, além das iniciativas pessoais. Exige sempre com muito diálogo, reflexão e ação conjunta, especialmente para desenvolver o tema das políticas públicas. A construção de políticas públicas deve ser tarefa coletiva numa sociedade democrática e participativa“.
 
Fonte: CNBB
Foto: Reprodução

 
O mês de fevereiro foi bastante efusivo para a liderança da Igreja Sírian Ortodoxa de Antioquia (ISOA); assim como o início de março. As atividades patriarcais incluíram desde encontro ecumênico – com representantes de outras igrejas cristãs – até momentos inter-religiosos. Confira, a seguir, detalhes de como foram essas atividades. Com informações de Aniss Sowmy.
 
22 de fevereiro
 
O patriarca Mor Afrem II recebeu a delegação da Federação Luterana Mundial no Patriarcado em Bab Tuma, Damasco na Síria. A delegação era chefiada pelo bispo emérito da Igreja Luterana na Jordânia e Terra Santa, dom Munir Yunnan. Na oportunidade, eles discutiram a situação na Síria com relação à ajuda aos cristãos necessitados.
 
 
 
26 de fevereiro
 
O patriarca recebeu a visita de Miguel Porto Parga, embaixador de Cuba para a Síria e a Jordânia. A reunião entre os dois foi, também, no Patriarcado em Bab Tuma, Damasco.
 
 
28 de fevereiro
 
Nesta data, o líder ortodoxo esteve reunido com o arcebispo da ISOA em Cochin, na Índia, para discutir assuntos específicos da Igreja naquele país.
 
 
4 de março
 
O patriarca convidou a Delegação Nacional de Reconciliação de Homs, na Síria, para uma discussão sobre a situação síria, em especial em Homs, Hama e cercanias onde nossa Igreja tem um grande número de fiéis. Mor Afrem elogiou os esforços da Delegação em espalhar a cultura do amor e da tolerância na região. A comitiva era chefiada pelo Xeique Issam Al Masri, diretor de doações de Homs, e por Mohammad Khadour, presidente da Câmara de Turismo da Síria.
 
Depois da reunião, a ISOA ofereceu um almoço aos presentes e convidou todos a conhecerem o complexo patriarcal de Maraat Sednaya, em especial o Altar dos Mártires do Genocídio de 1915-1925, conhecido como SAYFO; a Gruta de Nossa Senhora do Cinturão; as dependências do Auditório Santo Afrem; a Casa dos Anjos Pequeninos (orfanato); a fábrica de remédios Melkart; o Mosteiro da Santa Cruz e a Universidade Siríaca de Antioquia.
 

 
Representantes entidades da sociedade civil, sindicatos, professores e professoras, estudantes, agricultores e organizações campesinas, profissionais liberais, voluntários oriundos de diversas trajetórias e religiosos se uniram para distribuir, no dia 27 de fevereiro, 1,5 mil almoços gratuitos na região central de Goiânia. O ato, denominado como “banquetaço”, foi um protesto contra a extinção do Conselho Nacional de Segurança Alimentar e Nutricional (Consea). No cardápio, elaborado por chefs e nutricionistas, havia pratos como galinhada, feijão, farofa e salada.
 
A paróquia Anglicana de São Felipe, ligada à Diocese Anglicana de Brasília (DAB), marcou presença.
 
A seguir, confira o relato encaminhado pelo ministro leigo Rodrigo Gonçalves:
 
Recriado no ano de 2003, o Conselho Nacional de Segurança Alimentar e Nutricional (CONSEA) constituiu-se como “espaço institucional para o controle social e participação da sociedade na formulação, monitoramento e avaliação de políticas públicas de segurança alimentar e nutricional, com vistas a promover a realização progressiva do Direito Humano à Alimentação Adequada”. Competia-lhe propor à Câmara Interministerial de Segurança Alimentar e Nutricional as diretrizes e prioridades da polícia nacional de segurança alimentar e nutricional. Participou da formulação de importantíssimas políticas públicas como a Política Nacional de Agroecologia e Produção Orgânica, Programa de Aquisição de Alimentos, a garantia da compra de produtos oriundos da agricultura familiar na Política Nacional de Alimentação Escolar, teve um papel crucial na criação da Emenda Constitucional 64 que instituiu o Direito Humano à Alimentação Adequada na Carta Magna, acompanhava o debate público sobre o controle na regulamentação de agrotóxicos no Brasil.
 
O tempo verbal está no pretérito. Por meio da Medida Provisória nº 870, lançada no primeiro dia de mandato do atual governo federal – o que indica ser algo do núcleo programático do mandatário, já aspirado pelas forças que compõem seu governo – o Consea e demais conselhos vinculados à Presidência da República, foram extintos. Um sinal inequívoco de recusa de princípios democráticos de participação da sociedade civil organizada no ciclo de políticas públicas ou, mais ainda, de mesmo um diálogo ou escuta com a mesma. Leva as atribuições do Consea para um opaco gabinete do Ministério da Cidadania e fragiliza a institucionalidade e exigibilidade relativo às políticas públicas.
 
Esta ação fatídica ocorre num contexto em que, no ano precedente – 2018, mais de 500 programas federais não tiveram dotação orçamentária. Neste esteio de cortes em políticas sociais, vulnerabilidade da institucionalidade reivindicativa de direitos sociais e trabalhistas dos trabalhadores e trabalhadoras, agrava-se a insegurança alimentar no Brasil. Em 2017 a FAO/ONU apresentava o crescimento das situações de fome no Brasil e que, em contrapartida, 22,3% da população com mais de 18 anos estava em obesidade, o que não pode ser interpretado como uma “supernutrição” mas, em muitos casos, indica dificuldades de suprir as necessidades nutricionais compensadas com acesso a alimentos calóricos mas deficientes. Ainda, de 2017 a 2018, o Brasil caiu 13 colocações no Índice Global da Fome de acordo com a Ação Agrária Alemã (Welthungerhilfe), a entidade irlandesa Concern Worldwide e com o Instituto Internacional de Investigação sobre Políticas Alimentares (IFPRI), quedando-se em 31° lugar entre 119 países. Estes dados consolidam quatro indicadores: subnutrição, caquexia infantil (grau de extremo enfraquecimento e emagrecimento), atraso no crescimento e mortalidade infantil.
 
Além destes números, o impacto da precarização do quadro de políticas sociais e de segurança alimentar e nutricional impacta famílias campesinas, suas possibilidades de comercialização de obtenção de renda, a economia de pequenos municípios, a rede socioassistencial beneficiada por alimentos dos agricultores familiares, a saúde de milhões de brasileiros (relaciona-se aos parâmetros ideológicos destas ações o fato de que, em média, este governo já liberou a autorização para uso e comercialização de mais de um agrotóxico por dia, incluindo com alto nível de toxicidade).
 
A sociedade civil não assiste impassivelmente. Em 27 de fevereiro realizou atos de reivindicação de justiça, democracia e direitos em todo o Brasil, numa ação batizada de “Banquetaço”, amalgamada no eixo do clamor pelo restabelecimento do CONSEA e para que o parlamento derrube a MP 870. O evento central do ato político foi a doação de refeições preparadas por cozinheiros voluntários em pontos centrais da cidade.
 
Em Goiânia, entidades da sociedade civil, sindicatos, professores e professoras, estudantes, agricultores e organizações campesinas, profissionais liberais, voluntários oriundos de diversas trajetórias construíram uma ampla ação organizada. Foi realizada uma Audiência Pública na Assembleia Legislativa pautando a trajetória histórica do SISAN e do CONSEA, denunciando os impactos que a MP acarreta. Um cortejo com carro de som e batucada promovida pelo Desencuca, coletivo em prol de direitos para a saúde mental e política humanizada de cuidados com o sofrimento psíquico, fez reverberar a pauta para a sociedade goiana chamando a atenção para as questões relacionadas. Culminou no ato do Banquetaço numa região central em frente ao histórico Grande Hotel, com mais de 1500 pratos distribuídos, também com opção vegetariana, uso de plantas alimentícias não-convencionais (PANCS), adquiridos essencialmente de agricultores familiares e produções orgânicas.
 
A problemática foi socializada com a população transeunte, predominantemente pessoas que trabalham pelo Centro, mas incluindo também aposentados, aposentadas, pessoas em situação de rua. Um abaixo-assinado circulou contra a MP 870 e a recepção por parte dos cidadãos e cidadãs foi altamente positiva, com agradáveis manifestações de apreço e prazer pela refeição compartilhada.
 
A Paróquia Anglicana de São Felipe marcou presença, no espírito da dimensão profética e diaconal da missão Na orientação sobre a ética de partilha, de partido para com os oprimidos e explorados, integrando a esfera da refeição em comum como ato espiritual simbólico para o que Jesus apontava diante do significado do Reinado de Deus. Vivenciamos assim a acolhida do carinho divino no enraizamento fraternal com os desafios da história e da sede de justiça.
 
Rodrigo Gonçalves é ministro leigo na Paróquia São Felipe, em Goiânia/GO.
 
Foto: Mídia Ninja

 
A instrumentalização da fé, da figura de Deus e de símbolos religiosos como imagens e personagens da Bíblia está em alta no Brasil.
 
Coisa antiga, o uso da fé com vistas à realização de objetivos pessoais ou de grupos, com base em projetos econômicos e/ou políticos, ganha força numa atmosfera social presente e muitos se movem cada vez mais pela emoção.
 
Tais respostas são conteúdo farto da cultura da autoajuda. Ela se encontra na ampla oferta de cursos e palestras presenciais e midiatizadas, dos modernamente denominados “coaches”.
 
Tanto dentro quanto fora dos espaços religiosos, o indivíduo, com o seu poder e esforço próprios, é quem “determina” e faz acontecer ou que faz Deus agir.
 
Nesta lógica intimista e individualista soma-se o descarte do que desagrada ou se tem aversão. Seja um produto, ainda que recém-comprado, sejam relacionamentos digitais, que com um clique estão bloqueados ou excluídos, seja o participante do reality show, seja quem vive, pensa ou age diferentemente. Somos todos convidados a descartar, excluir, eliminar, e nosso problema com a coisa ou o outro está resolvido.
 
No que diz respeito à fé religiosa, sai fortalecida a compreensão de que deus (com minúsculas propositalmente) age a partir do que os fiéis desejam que aconteça (a confissão positiva, a determinação do “tá amarrado” ou “deus no controle”).
 
É neste sentido que deus se torna o aniquilador do Mal que se materializa em tudo aquilo que desagrada e provoca aversão aos fiéis. Esta lógica tem sido insistentemente orientada a partir de lideranças que as propagam nas mídias tradicionais e digitais, por pregações, talk shows e músicas gospel.
 
Não à toa nos deparamos com gente identificada como cristã que apoia políticas de segurança pública baseadas na eliminação de seres humanos (livre porte de armas, uso de drones para “acertar na cabeça”, pena de morte por lei ou pela liberação para policiais matarem). Ações humanizantes que incluam e recuperem infratores não cabem nesta compreensão de fé.
 
Não por acaso identificamos católicos e evangélicos, lideranças ou simples participantes, que criam e/ou propagam conteúdo falso e mentiroso em pregações religiosas ou mídias sociais.
 
Em nome da lógica da fé imediatista, individualista e aniquiladora de inimigos, mente-se e apoia-se quem mente. A mentira é considerada apenas um meio que justifica a defesa de deus, ameaçado pelas diferenças. O que importa é levar a aversão adiante.
 
Dias atrás meu marido alertou um evangélico, com formação superior, com quem se relaciona no Facebook, sobre um conteúdo comprovadamente falso, mentiroso, que havia publicado. Com paciência mostrou a verdade no caso e convidou o conhecido a apagar a postagem. A resposta foi: “É mentira, mas o pessoal tem que saber disto”. Não parece incrível?!
 
Não é gratuito encontrarmos católicos e evangélicos dos mais diferentes perfis celebrarem que o ex-deputado Jean Willys tenha que sair em autoexílio após receber ameaças de morte ou que afirmem que deus matou o jornalista Ricardo Boechat numa queda de helicóptero.
 
Na lógica da aniquilação do que provoca aversão e ódio, tanto Willys quanto Boechat merecem morrer, pois são considerados inimigos de deus, ao se colocarem criticamente contra práticas ou lideranças religiosas. Diferenças não cabem nesta compreensão.
 
Com esta forma de interpretar o mundo, a religião se torna a resposta ao desejo de se eliminar os desafetos, os diferentes, os considerados impuros e limpar o mundo para a realização do que é certo e puro.
 
Os pecados do fanatismo
 
O israelense, escritor e ativista pela paz com justiça entre Israel e Palestina, Amós Oz, falecido em dezembro passado, sempre afirmou que a aversão é um dos componentes do fanatismo.
 
Ele alertava que hoje em dia fala-se muito dos pecados do ódio, mas seria muito melhor e mais correto usar a expressão “os pecados do fanatismo”.
 
Para Oz, vivemos uma onda de ódio ao outro, ao que pensa e age diferente, que é um fanatismo crescente. Fanáticos mentem e/ou desejam o mal a outros porque só conseguem enxergar a sua própria verdade, construída para justificar a sua aversão.
 
É visível no presente uma onda de fanáticos na religião e na política. Alguns se encontram nas duas frentes.
 
Para quem instrumentaliza Deus com o seu fanatismo, vale lembrar a palavra do profeta Isaías na Bíblia: “… Os meus pensamentos não são os pensamentos de vocês nem os seus caminhos são os meus caminhos, diz o Senhor. Assim como os céus são mais altos do que a terra, também os meus caminhos são mais altos do que os seus caminhos e os meus pensamentos mais altos do que os seus pensamentos” (58.8-9).
 
Deus não pode ser feito à nossa imagem e semelhança. Deus é maior e mais do que tudo o que somos e temos. A humanidade de Deus, materializada em Jesus de Nazaré, referência dos cristãos, que foi todo amor, misericórdia, paz, respeito, inclusão, despojamento, acaba incomodando muita gente.
 
Preferem um deus autoritário, dominador, general de exércitos que confere lauréis e castigos… Que bom que Jesus mostrou que esse deus não existe.
 
Fonte: Carta Capital
Imagem: Reprodução / Pixabay