fbpx

 
O Conselho Nacional de Igrejas Cristãs do Brasil (CONIC) fará, nos dias 28 e 29 de maio, o seminário Diversidade reconciliada na mesa comum. O tema proposto para essa atividade está baseado em Efésios 2.14: “...É Ele, com efeito que é a nossa paz ... destruiu o muro da separação: o ódio”. No dia 30, conforme programação abaixo, terá início a Assembleia Geral. O Centro de Formação Sagrada Família, em São Paulo, sediará o encontro.
 
Seminário
 
O evento contará com a presença de Kelli Monfort, que conduzirá um painel sobre Diversidades irreconciliadas – análise do atual contexto de polarização, violência e intolerância. Kelli é pedagoga, mestre e doutora em Ciências Sociais pela Unesp. Outra presença confirmada é a de Daniel Souza, doutor em Teologia pela UMEP. Daniel fará o segundo painel: a fé em Jesus Cristo aponta para a reconciliação. Os dois painéis serão na terça-feira, dia 28.
 
Na quarta-feira, 29, as atividades começam em grande estilo: o pastor luterano Walter Altmann, doutor em teologia e ex-moderador do Conselho Mundial de Igrejas (CMI) falará sobre Espiritualidade - A reconciliação interrompida: resgate histórico dos documentos sobre hospitalidade eucarística e os limites para a prática. Sua apresentação será seguida do trabalho em grupo – revendo imaginários: o outro como ameaça.
 
Assembleia
 
Às 14h do dia 29, após encerramento do seminário, terá início a Assembleia. Na pauta, entre outros assuntos, está a eleição da nova diretoria do CONIC. Confira, a seguir, a programação completa.
 
 

 
 
“Aos poderosos eu vou pregar que a injustiça é contra Deus e a vil miséria insulta aos céus” (João Dias de Araújo)
 
Por: Cláudio Márcio R. da Silva*
 
Cresci em uma família com valores cristãos participando da igreja Batista durante minha infância, adolescência e início de juventude na cidade serrana do Recôncavo baiano, isto é, Muritiba. Aos dezenove anos fui estudar no Seminário Teológico Batista do Nordeste em Feira de Santana-BA e, naquele momento, não tinha noção que iria mudar minha forma de ler o mundo. Assim sendo, o curso de teologia me ampliou os horizontes e comecei a desconfiar (por exemplo) do silêncio, por parte das instituições batistas, sobre a vida e obra do Rev. Martin Luther King Jr. Isso me parecia no mínimo estranho, não? 
 
Ainda no seminário tive o prazer de ser aluno do saudoso Rev. João Dias de Araújo, o que modificaria completamente minha maneira de pensar a vida e o meu fazer teológico. Coloquei os pés no chão e passei a compreender que minha fé em Jesus de Nazaré precisava proporcionar respostas e/ou possíveis caminhos alternativos para sujeitos sociais com uma vida esmagada e moída por um modelo econômico que insiste em nos coisificar e nos excluir através de relações sociais desiguais, racistas, machistas, homofóbicas em tom de “igualdade” de oportunidades para se construir os sonhos e a vida cotidianamente. 
 
Bem! Após alguns desencantos com alguns paradigmas batistas e uma aproximação de textos, testemunhos e companheirismo, João Dias se tornou não “apenas” um professor, mas, um amigo e tutor eclesiástico. Logo, ao sair do seminário não mais como batista, fui acolhido e, após os rituais institucionais, tornei-me Rev. da Igreja Presbiteriana Unida do Brasil (IPU). O que isso tem a ver com o ecumenismo? Na minha experiência, definitivamente, tudo!
 
Através de inúmeros encontros e experiências fui me encontrando cada vez mais com católicos, luteranos, anglicanos, batistas etc., ali, essa descoberta do outro como cristão foi maravilhosa. Ora, é relevante assinalar isso pelo fato de que “Deus não era batista”, não é também da “IPU”. Na realidade, percebi, como diria Desmond Tutu, que “Deus não é cristão”. Encontrar naqueles e naquelas do caminho a face do Cristo de Deus foi uma descoberta encantadora.
 
 A reflexão no campo das ciências sociais também me abriu os olhos. Se já não era mais o mesmo, agora pensava a fé e minhas relações sociais de uma outra perspectiva. Com efeito, na antropologia, o encontro com o outro gera uma espécie de espanto, isto é, o outro em sua alteridade cultural e existencial. Esse encontro com o outro na história foi marcado por muitas injustiças sociais e docilidade de corpos, pois, se o outro não possuía alma, tudo podia ser feito ao seu corpo, assim, processos de colonização e cristianização se confundiram e um projeto civilizacional europeu, machista, hétero, branco se estabeleceu na América Latina e em partes do continente Africano. Um projeto extremamente violento onde se derramou muito sangue. Por isso, para se produzir teologia aqui, não se pode fugir deste contexto.
 
De fato, minhas mudanças foram e são lentas, no entanto, necessárias para que fosse possível combinar mística, reflexão e compromisso social. Acredite, perdi muitas noites de sono cheio de crises, suspeitas, medos e inquietações. Entretanto, quando se é “Surpreendido pela Graça de Deus” como diria o Richard Shaull, não se pode calar-se. Não se pode fugir do mutirão do Reino de Deus. É preciso colocar-se no caminho como cristão em defesa da vida em sua diversidade. Aprender a respeitar, conviver, discordar e abraçar aqueles e aquelas com quem encontramos na jornada nunca foi fácil, porém, necessário. Não somos iguais! Não precisamos ser! É preciso garantir o direito a diversidade! O outro em suas diferenças gera em mim identidades de quem eu sou. É um processo de “humanização” mútuo que se estabelece no encontro.
 
É importante salientar que não há receita pronta e minha experiência não é o padrão a ser seguido. Abalizei aqui como um testemunho de abertura para saber ouvir o outro em seus (des)encantos. Suspeito, que um desafio para liderança das igrejas hoje é a capacidade de escuta, pois, o outro traz nas suas vivências, seus saberes, seus sabores, seus anseios, seus medos e suas possibilidades de existir. Todavia, é preciso perguntar: quem é definitivamente este outro? Quem pode existir em nossa sociedade?
 
O negro é o outro? Se sim, qual a razão de receber oitenta tiros? A mulher é a outra? Se sim, qual a razão de tantas agressões, assédios, objetificação e feminicídio? O gay é o outro? Se sim, qual a razão de ser tratado como doente e ou animalizado? Qual a razão da violência de extermínio da população LGBTs? A indígena é a outra? Se sim, onde estão suas terras? Onde estão as terras dos quilombolas? Qual o outro que cabe na minha alteridade? 
 
É possível que alguém ainda não tenha entendido o tom do texto e questione: o que isso tem haver com a Semana de Oração pela Unidade Cristã (SOUC) 2019? Vejamos! No período de 2 a 9 de junho, com o tema inspirado em Deuteronômio, "Procurarás a justiça, nada além da justiça" (Dt 16.11-20), ocorrerá a Semana de Oração pela Unidade Cristã (SOUC). Ora, é um grande desafio e também uma grande oportunidade de fortalecer e amadurecer nossa fé cristã, uma vez que, tanto devemos buscar a unidade (João 17:21) quanto precisamos ter fome e sede de justiça (Mateus 5.6).
 
Queremos unidade na diversidade, assim, cada um(a) pode chegar e contribuir com essa experiência humanizadora da SOUC. O tema da justiça escolhido para ser trabalhado é oportuno em nossa sociedade cheia de desigualdades sociais que marginaliza, estigmatiza e exclui os menos favorecidos economicamente. Ora, essa é apenas uma desigualdade, pois, há ainda a geográfica, a étnico-racial, a linguagem, o gênero e a sexualidade. Temas e questões por vezes encaradas como tabu para alguns e por outros desnecessários de serem refletidos e debatidos.
 
Com efeito, precisamos nos sentar na mesa para conversar, pois, parece que perdemos essa capacidade. Temos uma nação dividida que disputa sentidos e narrativas de poder para hierarquizar e homogeneizar as relações contemporâneas, isto é, o grande desafio que a SOUC problematiza e denuncia ao mesmo tempo é que os cristãos precisam efetivamente se comprometer com a justiça. É preciso superar orgulhos e reconhecer equívocos e se aproximar cada vez mais da proposta do Reino revelado em Jesus de Nazaré.
 
Sabe-se que o problema não é discordar do ponto de vista do outro, todavia, é extremamente perigoso quando um grupo se entende portador da verdade ou único capaz de fazer a interpretação da Bíblia. Essa instrumentalização do texto sagrado para manipular, dominar, “imbecilizar”, é, de fato, preocupante. Demonizar o diferente e em nome de Deus é reivindicar uma santidade que não produz mudança social alguma.
 
Acredito que o grande convite da SOUC é para que cada cristão e cada cristã se arrependam de suas práticas injustas e que juntos assumamos o grande mutirão da justiça como meta de uma espiritualidade diaconal e dialogal em defesa da vida em sua multiplicidade.  Como sugere a canção Povo Novo do Zé Vicente “Quando o espírito de Deus soprou. O mundo inteiro se iluminou. A esperança na terra brotou. E o povo novo deu-se as mãos e caminhou. Lutar e crer, vencer a dor, louvar ao criador! Justiça e paz hão de reinar e viva o amor!”
 
*Cláudio Márcio é reverendo da Igreja Presbiteriana Unida (IPU) de Muritiba (cidade serrana do Recôncavo da Bahia)
 
Foto: Pixabay
 

 
Joinville (SC) recebeu, no dia 15 de maio, o seminário de preparação para a Semana de Oração pela Unidade Cristã (SOUC), edição 2019. O evento foi realizado na sede do Centro dos Direitos Humanos Maria Graça Bráz. Na ocasião, a Comissão Ecumênica da cidade entregou o texto-base para todas as pessoas presentes.
 
Este ano, a SOUC começa no dia 2 de junho e encerra no dia 9 de junho.
 
Os temas de cada dia refletem a busca do povo opirmido por justiça. 
 
SUBSÍDIOS
 
Para adquirir os cadernos da SOUC que irão subsidiar as celebrações, basta encaminhar e-mail para Este endereço de email está sendo protegido de spambots. Você precisa do JavaScript ativado para vê-lo. com o número de cadernos que deseja. É importante que no e-mail estejam informações como CNPJ ou CPF de quem encomenda e endereço para emissão de boleto bancário. O boleto será emitido para pedidos acima de 10 cadernos. Quem desejar menos de 10 cadernos terá que realizar depósito bancário na conta:
 
Banco Bradesco
Agência: 0606-8
Conta Poupança: 112.888-4
 
O preço do caderno é R$ 5,00 (a unidade). Neste valor estão inclusos frete e despesas com Correios. A cada dez cadernos encomendados será enviado um cartaz da Semana. O cartaz também ficará liberado para download aqui neste link (em JPG - média resolução), ou neste link (em PDF - melhor resolução).

 
Em editorial publicado neste sábado, 18 de maio, o Estadão, um dos principais jornais do País, manifestou preocupação com uma mensagem distribuída pelo presidente Bolsonaro via WhatsApp. “O presidente Jair Bolsonaro considera impossível governar o Brasil respeitando as instituições democráticas, especialmente o Congresso. Em sua visão, essas instituições estão tomadas por corporações – que ele não tem brio para nomear – que inviabilizam a administração pública, situação que abre caminho para uma ‘ruptura institucional irreversível’”, aponta o texto.
 
Confira a íntegra do editorial:
 
A ameaça de Bolsonaro
 
O presidente Jair Bolsonaro considera impossível governar o Brasil respeitando as instituições democráticas, especialmente o Congresso. Em sua visão, essas instituições estão tomadas por corporações – que ele não tem brio para nomear – que inviabilizam a administração pública, situação que abre caminho para uma “ruptura institucional irreversível” – conforme afirma em texto que fez circular por WhatsApp ontem, corroborando-o integralmente, como se ele próprio o tivesse escrito.
 
Ao compartilhar o texto, qualificando-o de “leitura obrigatória” para “quem se preocupa em se antecipar aos fatos”, Bolsonaro expressou de maneira clara que, sendo incapaz de garantir a governabilidade pela via democrática – por meio de articulação política com o Congresso legitimamente eleito –, considera natural e até inevitável a ocorrência de uma “ruptura”.
 
Não é de hoje que o presidente se mostra inclinado a soluções autoritárias. Depois da posse, Bolsonaro mais de uma vez manifestou desconforto com a necessidade de lançar-se a negociações políticas para fazer avançar a agenda governista no Congresso. Confundindo deliberadamente o diálogo com deputados e senadores com corrupção, o presidente na verdade preparava terreno para desqualificar os políticos e a própria política – atitude nada surpreendente para quem passou quase três décadas como parlamentar medíocre a ofender adversários e a louvar a ditadura militar. Não por acaso, o próprio Congresso parece ter desistido de esperar que Bolsonaro se esforce para dialogar e resolveu tocar por conta própria a agenda de reformas.
 
Desde sua posse como presidente, Bolsonaro vem demonstrando um chocante despreparo para o exercício do cargo, mas o problema podia ser contornado com a escolha de ministros competentes. Com exceção de um punhado de assessores que realmente parecem saber o que fazem, porém, o governo está apinhado de sabujos cuja única função ali parece ser a de confirmar os devaneios do presidente, dos filhos deste e de um ex-astrólogo que serve a todos eles de guru, dando a fantasias conspiratórias ares de realidade.
 
O texto que Bolsonaro divulgou – recomendando que fosse passado adiante – diz que “bastaram cinco meses de um governo atípico, ‘sem jeito’ com o Congresso e de comunicação amadora para nos mostrar que o Brasil nunca foi, e talvez nunca será, governado de acordo com o interesse dos eleitores”. Segundo o texto, o presidente “não aprovou nada, só tentou e fracassou” porque “a agenda de Bolsonaro não é do interesse de praticamente nenhuma corporação”. Nas atuais circunstâncias, “a continuar tudo como está, as corporações vão comandar o governo Bolsonaro na marra” – e, “na hipótese mais provável”, diz o texto, “o governo será desidratado até morrer de inanição, com vitória para as corporações”. Mas diz também que é “claramente possível” que o País fique “ingovernável”, igualando-se à Venezuela. Aí entraria a tal “ruptura institucional” de que fala o texto chancelado por Bolsonaro – que o usou para ilustrar o risco que diz correr de ser assassinado pelo “sistema”.
 
Isso é claramente uma ameaça à Nação. Conforme se considere o estado psicológico de Bolsonaro e de seus filhos, a ameaça pode ser o tsunami de uma renúncia ou o tsunami de um golpe de Estado em preparação. Pois o presidente não apenas distribuiu o texto, como mandou seu porta-voz dizer que, embora esteja “colocando todo o meu esforço para governar o Brasil”, a “mudança na forma de governar não agrada àqueles grupos que no passado se beneficiavam das relações pouco republicanas”. Em seguida, fez um apelo às ruas: “Quero contar com a sociedade para juntos revertermos essa situação” – e já no próximo dia 26 está prevista a realização de uma manifestação bolsonarista, contra ministros do Supremo Tribunal Federal e a favor do pacote anticrime do ministro da Justiça, Sergio Moro.
 
Ao “contar com a sociedade” para enfrentar o “sistema”, Bolsonaro repete o roteiro de outros governantes que, despreparados para a vida democrática – em que a vontade do presidente é limitada por freios e contrapesos institucionais –, flertaram com golpes em nome da “salvação” nacional. Se tudo isso não passar de mais um devaneio, já será bastante ruim para um país que mergulha cada vez mais na crise, que tem seu fulcro não nas misteriosas “corporações” – as suas “forças ocultas” –, mas na incapacidade do presidente de governar.
 
Fonte: Estadão
Foto: AFP/Arquivos
 

 
Tudo o que diz respeito à fé tem muito da vivência de cada fiel. A relação que as pessoas têm com Aquele em quem depositam sua fé deve-se fortemente a uma síntese da religião experimentada (a que lhes foi transmitida e foi aprendida) com o jeito de ser, a formação social, cultural, a história de vida de cada uma, desejos e necessidades.
 
Por isso somos o tempo todo confrontados com diferentes formas de se relacionar e de falar sobre o mesmo Deus. No caso dos cristãos, e, particularmente, dos evangélicos (sobre os quais esta coluna dedica espaço às quartas-feiras), já existe uma significativa diversidade de grupos originários da Reforma Protestante. E por mais que haja doutrinas, tratados teológicos, orientação de bispos e presidentes de igrejas, líderes e personalidades afins, as pessoas realizam mesmo é uma síntese do que recebem como regras de fé com aquilo que sua consciência e seus afetos (o que lhes afeta – ou não), bem como as necessidades, também orienta na vida.
 
Daí termos evangélicos reconhecidos como conservadores, alinhados com a agenda da direita política. E também há aqueles do mesmo segmento cristão evangélico caracterizados como progressistas, libertários, alinhados com a justiça social e a cidadania.
 
Historicamente, dada a teologia e a cultura construída pelos missionários estadunidenses que trouxeram para o Brasil a fé protestante (evangélica) no século 19, este grupo é majoritariamente identificado como conservador, nos costumes e na relação com a sociedade. Desde então, estes traços de conservadorismo foram provocadores do isolamento cultural dos evangélicos (o que foi parcialmente rompido pela cultura gospel, das mídias e do mercado). Foram motivadores também da constituição de celebridades do segmento, cuja mentalidade é fechada e reativa a avanços sociais, especialmente aqueles relacionados à liberdade dos corpos e à pluralidade de ideias. E foram responsáveis tanto pelo silêncio frente às injustiças sociais, ou pelo assistencialismo que as mantêm, quanto pelo apoio aos promotores destas mesmas iniquidades.
 
Entretanto, nesta história também há grupos minoritários, com mentalidade aberta e progressista, que, orientados pelos mesmos princípios religiosos, fazem uma leitura da fé que os move a andar na contramão da tendência conservadora. Promovem uma caminhada de interação com a sociedade, com as suas demandas por justiça e paz, pela defesa de direitos. Estes grupos estão presentes desde a chegada dos missionários ao país em organizações e movimentos, nas mais diferentes frentes, contra a pobreza, contra o racismo, pelas mulheres, pelos povos indígenas, pela/os LGBT+, pela juventude, pelo estado de direito, para citar algumas.
 
Estas posturas diferentes mostram como a mesma fé, o mesmo batismo, a mesma Bíblia levam a leituras e compromissos sociais e políticos distintos, porque, no fim das contas (a síntese sobre a qual falei acima) são a vivência, a consciência, as necessidades e a sensibilidade humana que as determinam.
 
Uma pessoa evangélica que concorda que a população deve receber armas para eliminar quem a ameaça, ou que a polícia pode dar tiros aleatórios do alto sobre uma favela, não faz isto por conta da doutrina cristã, uma vez que esta é pela paz com justiça e contra a pena de morte. A defesa deste tipo de política dá-se pelas afinidades pessoais com tal proposta, por vezes sob orientação de líderes religiosos ou políticos. São as histórias de vida e a formação baseadas na cultura da violência que orientam a fé nesse sentido.
 
Da mesma forma, o extenso número de evangélicos que ocuparam as ruas neste 15 de maio contra a deformação da Previdência Social e contra a destruição da educação pública, promovidas pelo governo federal, o fizeram pela fé baseada em uma formação e uma história de vida na direção da justiça, dos direitos e da paz.
 
Quem está certo? Não é fácil julgar a partir dos nossos próprios valores. Quem tender a uma postura conservadora, dirá que é esta a correta. Quem tem afeição por princípios democráticos e libertários afirmará ser esta a dimensão correta.
 
No entanto, se formos “terrivelmente cristãos”, independentemente de doutrinas ou regras denominacionais, existe um parâmetro de julgamento, afirmado desde os primórdios da era cristã. Ele é orientado pelo apóstolo Paulo, quando escreve um dos textos mais antigos do Novo Testamento da Bíblia, dirigido à igreja da Galácia: “É bom ser sempre zeloso pelo bem e não apenas quando estou presente convosco, meus filhos, por quem, de novo, sofro as dores de parto, até ser Cristo formado em vós…” (Gálatas 4.18-19). Tomar a forma de Cristo: este é o grande e forte desafio colocado aos cristãos no passado e no presente.
 
Tomar a forma de Cristo é assumir as posturas de Jesus de Nazaré, o Cristo, o Messias, razão da fé dos cristãos. Este que foi todo amor, misericórdia, paz, respeito, inclusão, despojamento, inconformismo e indignação frente à exclusão de iguais e às injustiças sociais do seu tempo e lugar. Foi julgado e morto por religiosos justamente por isto. Eis aí um parâmetro acima de qualquer doutrinação ou discurso de celebridades e lideranças para se definir rumos a tomar no Brasil 2019.
 
Texto: Magali do Nascimento Cunha (para a Carta Capital)
Foto: FOTOARENA/ESTADÃO CONTEÚDO - CLAUDIO CAPUCHO

 
O Conselho de Igrejas para Estudo e Reflexão (CIER) promoveu, nos dias 6 e 7 de maio, no Centro de Eventos Rodeio Doze, Santa Catarina, o seminário: “Procurarás a justiça, nada além da justiça”. O objetivo foi refletir o tema da Semana de Oração pela Unidade Cristã (SOUC), edição 2019, e motivar as Igrejas para a realização da SOUC.
 
Padre Raul Kestring, 1º tesoureiro do CIER, na Celebração de Abertura, em sua Homilia, ressaltou a importância do testemunho fraterno, em Cristo, como sinal de unidade e de luta pela justiça e pela paz.
 
Pastor Inácio Lemke, presidente do CIER, por sua vez, apresentou a SOUC, leu a carta do CONIC sobre a atividade, e incentivou as Igrejas a realizarem Semana de forma participativa, inclusive fazendo a oferta solidária em favor do ecumenismo.
 
 
Ao todo, 36 pessoas participaram, representando as seguintes igrejas: Evangélica de Confissão Luterana no Brasil – IECLB; Católica Apostólica Romana – ICAR e Evangélica Luterana do Brasil – IELB.
 
“A excelente assessoria da pastora Romi Bencke, secretária-geral do CONIC, envolveu os participantes na reflexão do tema e nos encaminhamentos. Faço um especial agradecimento por sua significativa presença e testemunho”, declarou o pastor Inácio Lemke, presidente do CIER. 
 
 
OFERTA
 
A oferta da SOUC simboliza o comprometimento das pessoas com o ecumenismo. É uma forma concreta de mostrar que acreditamos realmente na unidade dos cristãos (João 17:21). Os frutos das ofertas doadas ao longo da Semana são distribuídos, anualmente, da seguinte maneira: 40% para a representação regional do CONIC (onde houver), que é destinado a subsidiar reuniões e atividades ecumênicas locais, e 60% para o CONIC Nacional, para projetos de maior alcance.
 
Vale lembrar que a oferta faz parte da celebração, logo, reserve um momento da liturgia para realizá-la. É um momento de gratidão pelas coisas boas que recebemos de Deus. Ofertas também poderão ser recolhidas nos encontros temáticos, durante a Semana.
 
Conta para depósito da coleta:
 
Banco Bradesco
Agência: 0606-8
Conta Poupança: 112.888-4
Sempre que possível, faça depósito identificado: CNPJ: 00.721.266/0001-23.
 

 
Cidade Tiradentes é um daqueles bairros bem afastados do Centro de São Paulo. Você anda, anda, anda e nunca chega. E quando chega, o clima parece, por vezes, com aquelas cidadezinhas de interior. Muita gente circulando nas ruas, muitas casas, comércios, serviços.
 
Um deles é o CEDESB – Estação do Saber, antigo Centro da Juventude. Lá, mais de 100 pessoas, em sua maioria jovens e adolescentes, participam de cursos de capacitação nas áreas de administração e recursos humanos. A turma da manhã é bem diversa. Adultos, idosos, adolescentes, jovens. A turma da tarde, por conta do horário, é basicamente formada por adolescentes.
 
Há cerca de 7 quilômetros dali, fica a Escola Estadual Professor Guerra Junqueiro, em Guaianazes. O trajeto de carro, entre os dois lugares é de 20 minutos. De transporte público, mais de 1 hora. Um lugar também repleto de juventude.
 
E há mais ou menos 10 quilômetros de Guaianazes está o espaço da organização de jovens São Mateus em Movimento, no bairro de São Miguel, também na zona leste de São Paulo.
 
Bairros vizinhos, com uma população de perfil parecido e com muitos dos mesmos problemas na falta de planejamento de políticas públicas. Além disso, o que mais essas regiões têm em comum? Uma juventude com vontade de ser, de aprender, absorver, se descobrir e descobrir um mundo cheio de possibilidades.
 
São nestes espaços que as oficinas do projeto Prevenção Sem Fronteiras*, parceria de KOINONIA com o Programa Municipal de DST/ Aids de São Paulo, vem atuando desde abril de 2018. O objetivo não é “levar conhecimento” sobre as questões de direitos humanos, prevenção e sexualidade, e sim construir junto pontes de diálogo e trocar experiências de aprendizado com a juventude.
 
Para Beatriz Barbosa, 14 anos e aluna da E. E. Guerra Junqueiro, “a gente tem que saber nossos direitos na sociedade agora que estamos na nossa adolescência, para quando chegarmos à idade adulta sabermos respeitar o direito do próximo é saber lutar pelos nossos. Uma pessoa tem o direito de sair na rua sem ser assediada ou atacada pelas outras pessoas. Todos temos os mesmos direito não importa se é gay, lésbica e etc.”
 
A metodologia das oficinas engloba temas como participação juvenil, direitos humanos, intolerância religiosa, comunicação, prevenção e sexualidade. E além dos momentos de roda de conversa, são realizados momentos práticos de dinâmica como, por exemplo, o jogo Prevenidas Game, um jogo de tabuleiro humano sobre prevenção.
 
E Mariane Cardoso, de 15 anos e também aluna acrescenta: “Eu achei muito legal o jogo da prevenção, muitas vezes a gente não tem uma abertura para falar em casa sobre o assunto, temos vergonha. É legal conversar sobre isso para a gente saber o que fazer”.
 
Fonte: Koinonia
Foto: Reprodução

 
O Conselho Nacional de Igrejas Cristãs do Brasil (CONIC), juntamente com a Coordenadoria Ecumênica de Serviço (CESE) e com a Cáritas Brasileira iniciaram, no começo de maio, uma campanha em todos os estados contra a Reforma da Previdência. O ponto alto desta ação é hoje, 14 de maio, quando será realizada, em várias cidades, a Vigília Nacional contra a Reforma da Previdência (clique aqui e saiba mais).
 
Você pode mobilizar grupos aí em sua igreja ou comunidade de fé, na família, no sindicato, na universidade ou mesmo em seu bairro para protestar contra mais este retrocesso social que está sendo orquestrado pelo Governo Federal. 
 
Veja aqui o Roteiro proposto para a Vigília.
 
Nós queremos divulgar a sua manifestação
 
Se você deseja que compartilhar sua contrariedade com a Reforma, poste uma foto com a hashtag #EuNãoAceitoEssaReformaDaPrevidência
 
Vamos mostrar que somos RESISTÊNCIA!
 
Artes e argumentos para usar nas redes sociais
 
Com a proposta do governo para a Reforma da Previdência haverá redução do valor da Pensões por morte: o companheiro ou a companheira da pessoa que faleceu terá seu benefício reduzido para 60%. Apenas se houver dependentes, acrescenta-se 10% por dependente. O único caso em que o companheiro ou a companheira da pessoa que faleceu poderá ser de 100% da pensão é se a morte foi causada por atividades do trabalho.
 
Também haverá redução de até 80% no caso de benefícios acumulados: se uma pessoa recebe uma aposentadoria e passar a receber uma pensão, por exemplo, ela terá de escolher o benefício de maior valor, e sofrer uma redução de até 80% nos demais.
 
 
Se a atual proposta da Reforma da Previdência for aprovada, os idosos, maiores de 60 anos, que estão abaixo da linha da pobreza, terão o Benefício de Prestação Continuada (BPC) reduzidos a R$ 400,00. Somente a partir dos 70 anos é que eles terão o benefício aumentado para um salário mínimo. Só que, atenção: para ter acesso ao benefício, esta pessoa idosa não poderá ter patrimônio superior a R$ 98 mil. Isso quer dizer que, se ela tiver uma pequena casa poderá perder o benefício.
 
 
A atual proposta de Reforma da Previdência prevê a redução para 60% da aposentadoria por incapacidade permanente. Esse percentual só será maior para aquele(a) trabalhador(a) que ficou inválido(a) se este trabalhador ou trabalhadora tiver contribuído por mais de 20 anos. Nesse caso, eleva-se 2% por ano de contribuição. O benefício somente será de 100% no caso de invalidez causada por acidente de trabalho.
 
 
A Previdência Social é patrimônio do povo brasileiro. Ela é uma das maiores políticas de distribuição de renda do mundo. Atende as necessidades tanto das pessoas da cidade quanto do campo. A destruição da Previdência Social Pública e Universal significará um grande retrocesso social e econômico. Haverá maior concentração de renda e um alto empobrecimento da população. Éric Gil, economista e mestre em Ciência Política pela Universidade Federal do Paraná, diz: “É urgente o combate a esta reforma previdenciária”. Vamos defender a previdência pública solidária e universal.
 
 
Estudo elaborado por um grupo de trabalho no Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (https://bit.ly/304Hafu) aponta consequências negativas da Reforma para as mulheres. 
 
"Estimamos que cerca de 47% das atuais contribuintes não conseguirão se aposentar, em geral as mais precarizadas, aumentando fortemente a demanda por BPC (benefício de prestação continuada)", diz o estudo. "Eles sabem disso. Por isso mesmo, estão desvinculando o BPC do salário mínimo", conclui uma das pesquisadoras.
 
Podemos afirmar, sem medo, que a atual proposta de Reforma da Previdência é contra a vida das mulheres.
 
 
Com a Reforma da Previdência poderemos ver o fim das aposentadorias especiais para algumas categorias, como professores(as), bombeiros civis, vigilantes, entre outras que exercem atividades desgastantes e/ou de alto risco. Para estas pessoas, será exigida idade mínima de 60 anos e tempo de contribuição de 30 anos. 
 
 
Estima-se que a atual proposta da Reforma da Previdência reduza em mais de 70% as chances de um trabalhador rural se aposentar. Pela proposta do governo, o trabalhador rural passaria a ter uma contribuição individual, no lugar da contribuição sobre a venda, garantido pelo Artigo 195 da Constituição.
 
A Reforma da Previdência também aumenta para 65 anos a idade mínima para aposentadoria. Atualmente, a idade é de 60 anos para os homens e 55 para as mulheres. Esta mudança desconsidera a realidade de trabalho dos camponeses e das camponesas: 80% dos homens e 70% das mulheres começam a trabalhar no campo com menos de 14 anos.
 
 
A proposta de Reforma da Previdência que o atual governo quer implantar no Brasil deu errado em todos os países que adotaram a mesma receita, piorando a situação econômica e causando profunda instabilidade política. O setor financeiro ganha e o trabalhador perde com a Reforma da Previdência. Dos 30 países que privatizaram a previdência, 18 deles voltaram atrás. Se não foi bom para eles, não é bom para nós também.
 
 
A atual proposta da Reforma da Previdência prevê o adiamento da Aposentadoria: os homens poderão se aposentar aos 65 anos e as mulheres aos 62. No entanto, a Reforma da Previdência está cheia de gatilhos que elevarão essa idade mínima para muito além disso.
 
Veja:
 
Exige mais tempo de contribuição: No mínimo 20 anos (INSS), inclusive para trabalhadores e trabalhadoras rurais, ou 25 anos para servidores públicos. No entanto, aquela pessoa que não quiser perder muito ao se aposentar terá que contribuir por 40 anos!
 
Essa combinação de idade mínima avançada e contribuição mínima de até 40 anos significa o fim do direito à aposentadoria para aquelas pessoas afetadas pela informalidade e pelo desemprego, entre as pessoas se sobressaem as mulheres.
 
Prevê regras de Transição inaceitáveis: exige 35/30 anos de contribuição, e mais a Regra 86/96, que, em 2033, passa a ser 105/100. Isso quer dizer que a soma da idade e do tempo de contribuição do homem terá que dar 105, e da mulher 100!
 

 
O debate sobre previdência sempre suscita paixões e ideologias. No afã de ganhar no grito, vários números são jogados de maneira distorcida e desonesta. Abaixo são elencados alguns pingos nos is.
 
É preciso reconhecer que os gastos previdenciários vêm crescendo acima da variação do PIB desde 1997 e essa trajetória não é sustentável. Além disso, é verdade que a partir de 2024 haverá um aumento da população dependente derivada da ampliação da expectativa de vida e do envelhecimento populacional. Também é fato que gastamos mais em previdência do que alguns países que possuem mais idosos do que há aqui.
 
Entretanto, diz a Constituição que cabe ao Estado uma parte do financiamento da previdência, o que não é uma peculiaridade do Brasil. França, Alemanha, Bélgica, Espanha e Portugal, por exemplo, têm contribuições estatais muito superiores ao Brasil para financiar a previdência. Atualmente, a União entra com aproximadamente 22% da despesa. Essa fatia passa de 50% na Suécia, na Irlanda, na Dinamarca e no Reino Unido.
 
Não é honesto que nos documentos oficiais do governo sobre a reforma esteja o resultado negativo atual para justificá-la. Desde 2015, o País está em um período de recessão ou estagnação econômica, isso quer dizer que as receitas fiscais e previdenciárias caíram muito, ao passo que despesas, como seguro-desemprego, aumentaram. São fatores conjunturais e o debate sobre previdência deve ser de longo prazo.
 
Há que considerar que atualmente 30% das receitas da União são desvinculadas. Parte delas é para financiar a previdência e está sendo distribuída para outros fins. Adicionalmente, no governo Dilma, o executivo enviou propostas de desonerações e o Congresso Nacional as ampliou a diversos setores, o que contribuiu para a redução das receitas previdenciárias. Tal fato torna ainda mais desonesto o debate a partir do quadro atual da previdência, que apresenta números muito ruins.
 
Parte da desonestidade no discurso oficial diz respeito aos argumentos sobre os servidores públicos. O Regime Próprio de Previdência Social (RPPS), de fato, foi origem de ampliação de desigualdades e garantia de privilégios. Entretanto, já houve seis alterações constitucionais na previdência desde 1988. Em 2003, aqueles servidores públicos que recebem acima do teto do INSS, passaram a contribuir perpetuamente com uma alíquota de 11%, mesmo após a aposentaria (E.C 41/03). Essa contribuição foi fundamental para corrigir distorções, além de gerar receitas para a União. As propostas de ampliação desta alíquota para 14% e o estabelecimento de alíquotas progressivas são razoáveis. Além disso, os servidores públicos federais que entraram após 2003 não se aposentam com a integralidade de seus salários e não há mais paridade entre os servidores ativos e inativos. Dessa forma, é falsa a afirmação que acabarão com a integralidade.
 
Já os servidores de todos os poderes que ingressaram após 2012, com exceção dos militares, estão limitados ao teto do INSS, tal qual o setor privado (E.C. 70/2012). Isso é válido inclusive para Ministros do STF. Caso queiram obter uma aposentadoria maior, devem contribuir separadamente. Essa última alteração, ocorrida no governo Dilma, foi muito relevante no sentido de equalizar os regimes previdenciários no Brasil.
 
Dessa maneira, há um ajuste de longo prazo em curso na previdência dos servidores públicos e a despesa desses em percentual do PIB é declinante desde 2003. A partir de 2024 alguns resultados mais expressivos devem aparecer, haja vista que a parcela de servidores que se aposentaram no sistema antigo vai diminuir. No que toca aos estados e municípios, muitos já aderiram a esse sistema e aqueles que não aderiram, devem fazê-lo.
 
Temos um problema mais sério nos militares. Eles contribuem com um percentual menor, por menos tempo e se aposentam com salários maiores. Há paridade e integralidade e a proposta na mesa não busca acabar com esses direitos que os demais servidores não possuem há 16 anos. Há propostas de ampliação do tempo de contribuição e também de alíquotas previdenciárias, que continuariam mais vantajosas do que são para todos os demais cidadãos. Eles são poucos, mas a participação nas despesas é muito mais do que proporcional. De toda forma, o famoso direito a pensão de filhas solteiras deixou de valer para quem entrou após 2001. Há previsão de cobrança de alíquotas sobre tais pensionistas, que são bem-vindas.
 
Tínhamos excessos no sistema de pensões, que precisam mesmo de correção. Entretanto, mais uma vez, já houve reformas e seu resultado virá em longo prazo. Em 2015, o direito a pensão vitalícia passou a ser apenas para quem possui mais de 44 anos de idade. Já para um dependente de 21 anos, por exemplo, a pensão dura apenas três anos.
 
A despesa com o Benefício de Prestação Continuada deve sair do debate previdenciário. Trata-se de uma política pública assistencial, sem contrapartida contributiva. É um pacto social que não deixemos os idosos morrer de fome, eles recebem um salário mínimo e somam hoje quase 5 milhões. A despesa deve ser coberta 100% com recursos da União e o “déficit” é de 100%.
 
A aposentadoria rural é também, em grande medida, uma política assistencial. Não há exigência de contribuição, apenas de comprovação de que houve atividade no campo. Trata-se de uma compensação histórica efetuada aos trabalhadores deste segmento, haja vista que eles não possuíam direitos trabalhistas e previdenciários até 1988. Mas temos quase 10 milhões de aposentados rurais atualmente, quase todos recebem um salário mínimo e não cabe falar em “déficit”. A despesa é quase integralmente coberta com recursos da União, porque assim foi pactuado no passado. Se há desejo da sociedade alterar esse direito, que seja discutido, mas que se tire da conta esse “déficit”.
 
Isso tudo posto, fica evidente que o aperto proposto nos trabalhadores urbanos é excessivo. Até pouco tempo atrás, o resultado previdenciário deste setor estava positivo. Eles compõem a esmagadora maioria da população brasileira e 2/3 desses se aposentam com um salário mínimo. Não é possível considerar “o déficit previdenciário” como um todo, dadas todas as informações expostas acima.
 
Estabelecer uma idade mínima de 65 anos para homens e 62 para as mulheres, com ampliação progressiva a partir de alterações demográficas é um absurdo em um país tão heterogêneo como o Brasil. Há regiões em que a expectativa de vida é próxima a isso e há outras regiões em que as pessoas vivem muito mais. Uma regra uniforme e um corte tão elevado de idade é perverso com aqueles que começam a trabalhar antes e com quem vive menos (os mais pobres).
 
A proposta de regime de capitalização é indizível. Representa um rebaixamento previdenciário muito expressivo para a grande maioria dos contribuintes. Possui um custo de transição extremamente elevado e 60% dos países que adotaram voltaram atrás.
 
O debate público precisa ser mais honesto e verdadeiro. É preciso considerar os ajustes já efetuados, separar mais as contas e os tipos de previdência, considerar as desonerações efetuadas, levar em conta o quadro conjuntural e estabelecer regras menos duras com alguns cidadãos. Os excessos do passado em pensões e nos servidores públicos já estão em correção. Não podemos punir as gerações presentes e futuras pelas regras anteriores, as quais já foram corrigidas, mas seus resultados contábeis ainda não são plenos.
 
*Róber Iturriet Avila é doutor em economia e professor adjunto do Departamento de Economia e Relações Internacionais da Universidade Federal do Rio Grande do Sul.
 
Fonte: Brasil Debate
Foto: Arquivo/Agência Brasil
 

 
Quando Martinho Lutero afixou suas 95 teses na porta da Igreja de Wittemberg, estava fundamentado em três verdades: 1) salvação só pela graça, não pelas obras; 2) a Bíblia (não a tradição) como única regra de fé e prática; 3) sacerdócio universal dos salvos, não o clericalismo. Estas três verdades vêm influenciando o pensamento evangélico através dos séculos. Contudo, precisamos reavaliar constantemente nossos pensamentos e práticas para verificar se não estão sendo mal interpretados.
 
É o caso da salvação somente pela graça: “Pois vocês são salvos pela graça, por meio da fé, e isto não vem de vocês, é dom de Deus; não por obras, para que ninguém se glorie” (Ef 2.8, 9, NTLH). Nada mais claro. Entretanto, frequentemente nos esquecemos do verso 10: “Porque somos criação de Deus realizada em Cristo Jesus para fazer boas obras”. Como enfatizamos continuamente a salvação pela graça e dificilmente ouvimos uma mensagem sobre as boas obras, não é de admirar que nos esqueçamos de as praticar, especialmente as que se referem à assistência social.
 
É verdade que, em geral, os evangélicos são bondosos, quebrantados, ajudadores. Mas até pouco tempo atrás não era fácil encontrar uma instituição evangélica de assistência social. Mesmo hoje, algumas igrejas ainda relutam em envolver-se com projetos dessa natureza. A ênfase recai na evangelização. Via de regra, orfanatos, asilos, hospitais e escolas têm sido deixados para católicos e espíritas [...]. Mas nós, evangélicos, que enfatizamos a salvação pela graça, o encontro pessoal com Jesus, o novo nascimento, a certeza da salvação podemos não perceber que as obras são importantes em nossa vida cristã.
 
Por que as obras são importantes?
 
PRIMEIRO, por causa do julgamento final. Mateus 25.31-46 é um texto de difícil interpretação. Quando e com quem se dará esse julgamento? Como harmonizá-lo com Efésios 2.8, 9? Não é fácil responder. Mas não há como escapar do que Jesus disse: “Então o Rei dirá aos que estiverem à sua direita: ‘Venham, benditos de meu Pai! Recebam como herança o Reino que lhes foi preparado desde a criação do mundo. Pois eu tive fome, e vocês me deram de comer; tive sede, e vocês me deram de beber; fui estrangeiro, e vocês me acolheram; necessitei de roupas, e vocês me vestiram; estive enfermo, e vocês cuidaram de mim; estive preso e vocês me visitaram’” (versos 34-36, NTLH).
 
SEGUNDO, as boas obras glorificam nosso Pai Celestial. Jesus disse: “Assim brilhe a luz de vocês diante dos homens, para que vejam as suas boas obras e glorifiquem ao Pai de vocês, que está nos céus” (Mt 5.16, NTLH).
 
TERCEIRO, as obras são uma evidência da fé. Foi isso que o apóstolo Tiago ensinou: “De que adianta, meus irmãos, alguém dizer que tem fé, se não tem obras? Acaso a fé pode salvá-lo? Se um irmão ou irmã estiver necessitando de roupas e do alimento de cada dia e um de vocês lhe disser: ‘Vá em paz, aqueça-se e alimente-se até ficar satisfeito’, sem porém lhe dar nada, de que adianta isso? Assim também a fé, por si só, se não for acompanhada de obras, está morta” (Tg 2.14-17). É bom lembrar que “fé morta” é sinônimo de “fé inexistente”. Mas, a fé viva produz boas obras.
 
Exemplos bíblicos
 
Desde o Antigo Testamento o povo era ensinado a praticar boas obras. A lei da rebusca ensinava que uma parte das espigas deveria ser deixada no campo para que os pobres viessem atrás, colhendo. Uma parte dos dízimos era reservada para ajudar os pobres. Órfãos, viúvas, estrangeiros e pobres eram alvo de cuidado especial. Nada disso, entretanto, substituía o arrependimento, o perdão divino e a expiação de pecados. O único meio para a expiação de pecados era o sangue do cordeiro sacrificado no tabernáculo (Lv 17.11), que prefigurava Cristo, o Cordeiro de Deus. Assim, como no Novo Testamento, a salvação também era pela graça, por meio da fé. E as boas obras? Eram fruto do amor do Pai, expresso nos atos de misericórdia, e uma forma de glorificar a Deus.
 
O Salmo 37 enfatiza a bondade do justo: “Confia no Senhor e faze o bem” (v. 3); “o justo se compadece e dá” (v. 21); “é sempre compassivo e empresta” (v. 26). Pela bênção de Deus em sua vida e pelas suas atitudes de bondade para com o próximo, o justo colhe muitos benefícios (versos 19, 23 e 25).
 
A igreja de Jerusalém, nos seus primeiros anos, conheceu um tempo de multiplicação das boas obras. Os crentes vendiam suas propriedades e entregavam o valor da venda aos apóstolos. O dinheiro não era usado para construir templos, casas ou qualquer aquisição semelhante. Dava-se de comer aos pobres, de tal maneira que “nenhum necessitado havia entre eles” (At 4.34).
 
Mais tarde, o apóstolo Paulo leva os crentes de Corinto e de outras cidades a praticarem boas obras para com outros crentes: “Os discípulos, cada um segundo as suas possibilidades, decidiram providenciar ajuda para os irmãos que viviam na Judéia” (At 11.29, NVI).
 
E aqui, outra vez, vemos como Deus é glorificado com as boas obras praticadas por seus filhos: “Este serviço ministerial que vocês estão realizando não está apenas suprindo as necessidades do povo de Deus, mas também transbordando em muitas expressões de gratidão a Deus” (2 Co 9.12, NVI).
 
Boas obras precisam ser feitas sem segundas intenções. É o bem que se faz ao crente e ao não crente, pelo simples fato de que assim se comunica o amor de Deus às pessoas. Mas o resultado natural é que as boas obras abrem portas para a evangelização: aquele que recebe o bem abre o coração para ouvir as verdades do evangelho.
 
Felizmente, cada vez mais Deus vem sendo glorificado em muitos lugares do Brasil pelas boas obras dos evangélicos — atendimento aos que estão com fome, casas de recuperação para usuários de entorpecentes, hospitais, escolas, creches — uma extensa lista de serviços sociais que vêm produzindo ótimo testemunho. Deus nos ajude a multiplicar o que já estamos fazendo.
 
Boas obras? Muitas. Mas muitas mesmo!
 
Texto: Jonathan Ferreira dos Santos (os grifos são nossos)
Fonte: Ultimato
Foto: Pixabay