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O CONIC criou, em seu site, o espaço Religiões e Democracia. A ideia é refletir as relações entre a religião e a democracia e trabalhar a temática com o auxílio de perguntas feitas a lideranças religiosas, teólogos e teólogas, cientistas da religião e de outras áreas do conhecimento. Convidamos vocês para lerem as entrevistas e manifestarem opiniões. Sempre em um espírito de diálogo e respeito às ideias.
 
Nessa terceira entrevista da série, falamos com Fábio Py, pós-doutorando em Ciências da Religião.

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1) De que modo nas religiões podem contribuir para o aprofundamento da democracia?

Em algumas das discussões da mídia oficial brasileira tem se atrelado a democracia à calmaria social, especificamente, como uma política de “Paz” social. No discurso de (certos) setores sociais passa-se a impressão que a democracia seria a verdadeira beneficiária com a acomodação pacífica no território. Mas, esse dado parece tão ingênuo quanto o trabalho de Hans Küng sobre projeto de ética mundial quando compreende que “Não haverá paz no mundo sem paz entre as religiões. Sem paz entre as religiões não haverá diálogo entre as religiões” (Projeto de ética mundial: uma moral ecumênica em vista da sobrevivência humana. São Paulo: Paulinas, 1993, p.7). Küng dá a impressão de que simplesmente as religiões devem traçar caminhos para construção da “Paz”.

Eu cá, latino-americano, implicado até os poros com as desigualdades, acredito, na linha do rapper paulista Criolo, que a rezadeira do bairro é mais importante que qualquer doutor ou artista “Têm o mesmo valor que a benzedeira do bairro. Disse que não ali o recém formado entende” - verso da musica Sucrilhos (CD: Nó na orelha). Digo isso porque percebo que toda demanda mais estrutural das religiões esta devidamente implicada, em maior grau, ao capitalismo e seu status quo – como Marx nos avisou. Assim, o único caminho das religiões seria da descentralização, da valorização da autonomia das pessoas. Um movimento das religiões ‘de baixo’: mistura ao modus latino-americanos - africanos, imigrantes, ilegais, heterodoxos, indígenas... Apelo de uma organização descentralizada na resistência e atuação contra a lógica meritocrática moderna – fórmula que pode firmar a construção da “Paz”. Nisso, sejamos realistas. Não existe qualquer possibilidade de “Paz” no meio das desigualdades do Mundo – creio que esse seja o problema central da ética moral e ecumênica de Hans Küng. Qualquer discurso, como esse parece ser refém do espectro de uma “Paz” burguesa, branca, eurocêntrica e heteronormativa que não critica a coisificação do homem/mulher modernos. Portanto, para que se aprofunde a democracia se deve construir um projeto de “Paz” que venha abolir o medo, a falcatrua, a injustiça.

Esse é o projeto de paz concebido por Martin Luther King, negro americano, debruçado sobre as lutas sociais. Por outro lado, a percepção de “Paz” ecumênica das grandes instituições internacionais é filha do placebo europeu de lindas rosas compradas pelos ricos que pisoteiam os demais continentes a custa das escravidões modernas. Afinal, as chibatadas seguem arrancando os sangues dos negros, dos indígenas, das mulheres, dos latinos-americanos. Concordo com Giorgio Agamben (Homo sacer: o poder soberano e a vida nua I, Belo Horizonte: UFMG, 2010): quando indica o fraco processo político da democracia atual, pois se alicerça apenas na votação em míseros comparecimentos às urnas de, no máximo, uma vez ao ano, como dever cívico. Para ele, isso seria uma falseação do político, na verdade, é uma face da despolitização - pois, a política democrática deveria ser um exercício mais amplo, diário. Percebo que o projeto de “Paz” democrática é, sobretudo, uma demanda em disputa, implicado entre a luta de classe/raças/etnias. Novamente, a única chave de “Paz”, verdadeiramente democrática das religiões (se ocorrer), seria ‘a partir de baixo,’ obrigatoriamente, convergindo a corrosão dos pilares que sustentam esse Mundo. São as mesmas vigas e pilares que mantém os EUA, Canadá, Brasil e a Austrália (com seus projetos imperialistas) e a Europa (sob mentalidade colonizadora). A única “Paz que a vida me diz” (verso d’O Rappa) deveria questionar o capitalista e aplicar-se no horizonte de experimentações combativas para sua impossibilidade.

2) Algumas religiões acreditam que a democracia é incompatível com aquela fé. Como lidar com isso?

É uma longa discussão se o monoteísmo poderia ser integralmente contra violência, uma vez que, opera, desde sua formação por meio da prática da “violência simbólica” aproveitando-se (englobando)de ritos locais/particulares (Pierre Bordieu, A economia das trocas simbólicas, São Paulo: Perspectiva, 2001). Penso que embora nos encontros ecumênicos se condicione a identificação de uma tradição religiosa a cada sujeito, se é urgente que o religioso monoteísta caminhe no encontro de outra forma religiosa, exercendo uma ‘dupla pertença’ religiosa - como aponta Faustino Teixeira no livro Buscadores cristãos no dialogo com o Islã (São Paulo: Paulus, 2014). Isso significa, na prática, uma relativização do discurso religioso adestrador do centro religioso, repleto de regras, princípios e obrigações. Interessante que essa forma não se distancia da fluidez evangélica quando sua parcela de fiéis freqüentam, por exemplo, a igreja metodista aos domingos, mas durante a semana, participam de celebrações da igreja Universal, da Sara Nossa Terra, ou, até, alguns, falam com divindades nas celebrações umbandistas. Penso que, aos praticantes dos monoteísmos (cristãos, judeus e mulçumanos) assumir a ‘dupla-pertença’ deve ser um bom caminho para o diálogo tanto para o sentido pessoal até para convívio social. O que, obrigatoriamente, traz dificuldades para estruturais religiosas (dos credos e dos líderes religiosos centralizadores), pois, seus fiéis assumiriam uma lógica de relativização das crenças religiosas. Contudo, entendo que não existe caminho religioso de aprofundamento democrático no Brasil atual, sem o questionamento das instituições eclesiais, porque mesmo Giorgio Agamben avisa, em tom denunciativo sobre as máquinas religiosas: “O centro da máquina governamental está vazio” (Reino e gloria, São Paulo: Boitempo Editorial, 2005, p.65). Enfim, voltando diretamente á questão, se na história da igreja cristã se busca silenciar as religiosidades particulares esse dispositivo constitui-se por um resquício de intolerância ativado explicitamente num dispositivo antidemocrático.

3) No Brasil, expressões religiosas, sobremaneira cristãs, se apossam cada vez mais dos espaços públicos e conquistando grandes representações no Congresso Nacional. Como avalia esse fenômeno?

De fato, os atores sociais que vêm assumindo cargos públicos têm pautas bem preocupantes em relação á democracia, uma vez que originalmente confundem sua vivencia religiosa (particular – religiosa – cristã) como modus de representação política do todo. Embora, também seja verdade, que alguns desses atores busquem na arena política amenizar o discurso religioso (diferente do que se afirmava entre as décadas de 1980-1990 pela linha da sociologia em: Pierucci, “Representantes de Deus em Brasília: a bancada evangélica na constituinte”. Ciências Sociais Hoje. São Paulo, 11, 1989, p. 104-32; e Pierucci e Mariano, “O envolvimento dos pentecostais na eleição de Collor”, Novos Estudos Cebrap, 34, 1992, p. 92-106), contudo, mesmo assim, é clara a vontade de incrementar as pautas conversadoras, como que ocorreu na questão do dia contra “cristofobia” em São Paulo. Esses setores evangélicos e católicos, de fato, levam a sério o termo “violência simbólica” oficial e política no Brasil, mais, preocupante ainda, é que o Congresso atual é o mais conservador da história recente do Brasil, representada pelo segmento segregado apelidado de bancada Bala, Bíblia e Boi – BBB (Marco Aurelio Nogueira, “Esgotamento de um ciclo político”, V.V.AA. Esgotamento de um ciclo, São Paulo: Fundação Astrijildo Pereira, 2015). Portanto, a tendência é de cada vez mais aumentar as resistências para o reconhecimento positivo da diversidade e da pluralidade apreciável nas geografias democráticas. Ao mesmo tempo, nas palavras de Walter Benjamin (no seu: As teses sobre o conceito de história) ao analisar o avanço do fascismo/nazismo na Europa, percebe que ele ocorreu mediante a falta de construção de alternativas da esquerda. Assim, questiono os erros trilhados pelas tendências mais progressistas ao sucumbir ante ao projeto intolerante. Acredito que o crescimento da agenda conversadora mostra a incompetência dos segmentos progressistas brasileiros, mas, mesmo assim, não se pode perder de vista que a resistência no mundo virulento capitalista é fundamental. Para se reverter esse quadro de projetos intransigentes deve-se construir pautas para avançar em direitos. Sem articulação, a bancada BBB seguirá tendo êxito político, espalhando seu ódio nas linhas dos projetos de lei – encarnados por seu pavor pelo outro.

4) As religiões de matriz africana, por outro lado, estão pouco representadas. Como você interpreta isso?

Historicamente, os africanos estão exilados nas terras brasileiras desde a colonização como escreveu Adbias Nascimento (O Quilombismo, Petropolis: Vozes, 1980). Como qualquer exílio nos tempos modernos a culpa a priori seria do capitalista e do capitalismo que chegou ao território brasileiro, no nosso caso com a Companhia das Índias Orientais, que, por seu aparato altamente desenvolvido, conseguiram sufocar as pressões contra-colonizadoras locais. Pela força da metrópole os movimentos de contestação foram dispersos e pouco sistêmicos (como demonstram os brasilianistas Jacob Gorander, Theo Pinheiro, João Fragoso,...). É importante dizer que o que se apostou no Brasil, no período da colonização, foi o de melhor que tinha na Europa - sinal disso é o tamanho do território mantido pelo Brasil desde a colonização. Assim, a pauta sobre as matrizes africanas implicadas na cultura brasileira sempre foram pouco reconhecidas. É por isso que obrigando, recentemente, incluiu-se nas escolas básicas o estudo da história africana. Da mesma forma, muito recentemente se fortaleceram as organizações dos movimentos negros, que articularam e reivindicaram as cotas nas universidades, trazendo à valorização da cultura africana. Nesse sentido, assume-se que a questão das cotas não são o início nem o fim desse processo: mas apenas um meio de afirmação/visibilidade aos que foram explorados desde a formação brasileira. Logo, infelizmente, embora o Brasil, seja um país de maioria negra e parda, suas religiões e expressões culturais não estão representadas como deveriam nas cenas oficiais. É por isso, que precisam ser incentivadas e apoiadas, inclusive, para que sejam fortalecidas suas representações oficiais, até, quando se tenha a igualdade em termos de representação nos locais oficiais. Por isso, se diz que a estrutura social brasileira é diretamente ligada ao racismo, algo tão enraizado na cultura que se disfarça na contratura de pessoas e instituições (como se denuncia Florestan Fernandes, 1965: A integração do negro na sociedade de classes [para o Brasil]; e também, Frantz Fanon no racismo mundial, Os condenados da terra, Rio de Janeiro: Civilização brasileira, 1968). Penso que inicialmente o fortalecimento do movimento negro ocasionará, aos poucos, a maior identificação de forma menos depreciativa de sua expressão religiosa nos espaços políticos oficiais.

5) É comum utilizar a bíblia para legitimar e justificar posturas antidemocráticas. É possível identificar possíveis iluminações bíblicas que contribuiriam para fortalecimento da democracia e para a valorização das diversidades?

Ah sim! A leitura popular da Bíblia vem desenvolvendo inúmeras chaves de leituras bíblicas a partir da vida e das lutas da América Latina. Vale a pena investir tempo na leitura dos autores clássicos dessa leitura, por exemplo: Carlos Mesters, Milton Schwantes, Alessandro Gallazzi, Mercedes Lopez, Nancy Cardoso Pereira, Ildo Bom Gass e etc. São autores que, de alguma forma, tentam a partir do conhecimento das criticas históricas da pesquisa bíblica, praticar uma leitura do sagrado fora da leitura viciada e fundamentalista. Penso que, até nas atividades do que vem se desenhando na disciplina do Ensino Religioso, deve-se ter um tópico (não tão destacado) de uma formação desse tipo, uma vez que, por sermos um país de maioria cristã, a argumentação dos estudantes é influenciada pela lógica de interpretação da Bíblia, oferecida nas comunidades religiosas. Claro, no Ensino Religioso, isso não pode ser prioridade, mas é uma demanda que, ao longo do tempo, merece ser discutida. Voltando à arena pública, a partir de um forte segmento da bancada evangélica, se propôs (e se fundamentou) um projeto de lei para redução da maioridade penal no Brasil, textos bíblicos foram utilizados para justificar a redução da maioridade penal. Ocorre que não houve o mínimo de questionamento da utilização de textos a partir do contexto, ou então, não se pensou em textos que problematizassem, por dentro, tal costura fundamentalista-cristã. No caso, questiona-se porque não se separou na própria Bíblia hebraica, textos como 2 Reis 22 que trata do reinado de Josias, que segundo a história literal bíblica, tornou-se rei muito cedo. Só assumiu o reino de Judá a partir dos 18 anos sofrendo a intervenção do “povo da terra”, pois por ser novo não teria condições de assumir tal responsabilidade (Shigeyuki Nakanose, A Páscoa de Josias, São Paulo: Paulinas, 2001). O que estou dizendo é que a leitura popular da Bíblia, nos moldes dialogais e ecumênicos, torna-se um eixo central para marcar posição diante do fundamentalismo. Até porque, em certos momentos, é importante cerrar posições. Para isso, é necessário um mínimo conhecimento da leitura e do histórico das leituras bíblicas, a fim de poder argumenta na própria “estrutura de sentido” (Pierre Bordieu, A economia das trocas simbólicas, São Paulo: Perspectiva, 2001) fundamentalista relativizando suas certezas. A leitura popular da Bíblia seria uma forma mais encarnada, plural, logo, mais democrática para a trilha da valorização do humano no meio da diversidade.

Biografia:

Fábio Py é pós-doutorando em Ciências da Religião pelo Programa de Pós-Graduação em Ciência da Religião (PPCIR) da UFJF, doutor em teologia pela Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro (PUC-RIO), com estágio sanduíche no Centre d études Interdisciplinaires dês Facts religieux (CEIFR), no École des Hautes em Sciences Sociales (EHESS). Professor da Universidade Candido Mendes (UCAM) estuda as implicações da Fé e Política na America Latina. Atua como colunista do site Caros Amigos nos temas de Religião, Movimentos Sociais e Direitos Humanos.

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A Missão Ecumênica Guarani-Kaiowá promove, nesta semana, Ato em Defesa dos Povos Indígenas. A ação é uma resposta ao ataque da última terça-feira (12), que feriu gravemente três indígenas no Mato Grosso do Sul: um homem de 32 anos e dois jovens, de 15 e 17 anos. Os crimes ocorreram em meio ao processo de demarcação de terras na região de Caarapó. Os indígenas estavam acampados no “Tekoha-Guapoy”, e foram atacados por pistoleiros que chegaram em quatro caminhonetes e um trator.

Esse é o terceiro ataque aos Guarani-Kaiowá no último mês, na região de Dourados (MS). No dia 14 de junho, o indígena Clodiodi de Souza foi assassinado, e outros seis indígenas foram baleados, incluindo uma criança de 12 anos.

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Frente à guerra em curso no estado, travada por ruralistas e suas milícias armadas contra indígenas, a Coordenadoria Ecumênica de Serviço (CESE), o Conselho Nacional de Igrejas Cristãs do Brasil (CONIC), o Centro Ecumênico de Estudos Bíblicos (CEBI) e a Articulação e Diálogo Internacional (PAD), que desde outubro de 2015 coordenam a Missão Ecumênica, convocaram toda a sociedade para o Ato nessa quinta-feira (14), em frente à Assembleia Legislativa, em Campo Grande (MS).

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Objetivo é Denunciar

Há uma guerra em curso no estado do mato Grosso do Sul. Segundo relatório do Conselho Missionário – CIMI, só entre o ano de 2000 e 2014, 390 indígenas foram assassinados no estado.

Além de denunciar os crimes cometidos por ruralistas e com a omissão do Estado, a ideia é sensibilizar a população da importância do apoio de todos na luta pela garantia dos direitos dos povos indígenas garantidos pela Constituição Brasileira de 1988.

Além do Ato, os membros da Missão se reuniram com lideranças e apoiadores da causa indígena no estado e participam de encontro com o procurador do Ministério Público Federal do MS.

Solidariedade

Amanhã, sexta-feira (15), será feita uma visita à região de Caarapó, Dourados (MS). Os integrantes da missão, entre os quais estão o presidente do CONIC, Flávio Irala, e a secretária-geral do Conselho, Romi Bencke, farão entrega de cobertores e roupas de inverno aos indígenas.

Com informações da CESE
Imagem: Acervo Pessoal (Romi Bencke)

O papa Francisco é geralmente elogiado por seu alcance inter-religioso, característica central desde o início do seu pontificado. Pouco depois de sua eleição, em março de 2013, por exemplo, ele foi a um centro de detenção juvenil em Roma e lavou os pés dos presos, incluindo os de dois muçulmanos.

Desde então, ele viajou para Israel e impressionou os judeus com o seu comprometimento com o relacionamento judaico-cristão, foi o segundo papa a entrar em um templo budista no Sri Lanka, onde também vestiu uma túnica cor de açafrão dada a ele por um homem sagrado hindu durante um encontro inter-religioso.

A reportagem é de John L. Allen Jr., publicada por Crux, 30-06-2016. A tradução é de Luísa Flores Somavilla.

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O respeito palpável do papa Francisco com outras tradições religiosas, juntamente com a sua determinação de que as várias religiões devem trabalhar juntas para promover os valores compartilhados da paz e do cuidado com a criação, fizeram dele um modelo global para a cooperação inter-religiosa.

Claro, há discordâncias. No Sri Lanka, por exemplo, o líder budista extremista Galagoda Atte Gnanasara considerou em grande parte os gestos do papa como sem sentido até ele se desculpar por "atrocidades cometidas pelos governos coloniais cristãos no sul da Ásia".

(Era uma exigência um tanto curiosa, uma vez que, com exceção de um breve período de domínio português, as potências coloniais dominantes no Sri Lanka foram os holandeses e os britânicos, e não potências católicas, mas, evidentemente, a lógica histórica não era o ponto principal.)

Recentemente, o papa atraiu outras duas reações inter-religiosas.

Em meados de junho, Gorakhpur Yogi Adityanath, político indiano ligado aos movimentos nacionalistas hindus de direita do país, detonou a decisão do papa de canonizar Madre Teresa, dizendo que o icônico "apóstolo dos pobres" tinha desenvolvido uma trama para "cristianizar" a Índia.

Em seguida, o vice-primeiro-ministro da Turquia, Nurettin Canikli, criticou o uso da palavra "genocídio" pelo papa para descrever o massacre de armênios pelos otomanos em 1915, afirmando que ela reflete uma "mentalidade de cruzadas".

Canikli é co-fundador do Partido da "Justiça e Desenvolvimento" da Turquia, que, embora afirme ser atualmente baseado na democracia conservadora, se originou de correntes nacionalistas e islâmicas na sociedade turca.

Na verdade, nenhuma das críticas ao papa Francisco é realmente tão surpreendente - especialmente a reação turca, que é mais ou menos pro forma sempre que um líder ou organização mundial reconhece o genocídio armênio.

Além disso, é difícil levar a sério qualquer um destes protestos quando se conhece bem como as coisas funcionam.

Em termos da objeção de Adityanath, a ideia de que o pontífice está usando a canonização de Madre Teresa como um pretexto para "cristianizar" a Índia menospreza a inteligência da maioria das pessoas, já que "proselitismo" não faz parte do vocabulário do papa, lado a lado com "clericalismo" e "rigidez".

Sim, o papa Francisco é um pontífice missionário, mas sua noção de missão está enraizada no serviço e no crescimento por atração, e não em um foco específico para aumentar a "quota de mercado" confessional da Igreja.

Quanto a Canikli, dizer que o papa tem uma "mentalidade das cruzadas" é ainda mais hilariante.

Por um lado, seu nome remete a um santo que percorreu as linhas de batalha durante as Cruzadas e arquitetou um vínculo com Sultan al-Kamil, o que eventualmente levou a ordem franciscana a se tornar a guardiã da Terra Santa.

Por outro, o papa está tão distante da "mentalidade das cruzadas" quanto se possa imaginar, uma vez que ele denuncia repetidamente a violência em nome da religião e insiste na coexistência pacífica entre as religiões, povos e culturas.

É possível, é claro, que as pessoas na Índia ou na Turquia que desconhecem as ações do papa se deixem levar por esses argumentos, mas tais acusações certamente cairão por terra quando avaliadas criticamente.

Por mais que os conteúdos de tais queixas possam não ter muito fundamento, em um certo sentido eles são significativos. Com efeito, essas queixas podem ser um sinal de que a ambição de Francisco de ser o "presidente do conselho" mundial de religiosos moderados está funcionando.

Sem usar essa linguagem, obviamente, esta é uma posição desejada por todos os papas recentes - tentando estimular uma coligação de autoridades moderadas dentro das tradições religiosas do mundo para demonstrar que a religião pode ser parte da solução tanto quanto é parte do problema.

Como o papa não vem de nenhuma potência ocidental tradicional, ele traz uma capacidade especial para sair disso, pois não carrega a mesma bagagem em relação à história colonial do Ocidente ou a suas escolhas políticas e militares contemporâneas. Sua popularidade global também significa que ele carrega o maior megafone religioso no mundo, o que lhe permite alavancar a potência das vozes moderadas em outras tradições.

Se os extremistas dessas tradições nunca foram atrás do papa Francisco, pode ser porque pensem que seu impacto é insignificante; se for esse o caso, isso pode ser um sinal de preocupação de que o papa esteja virando a maré.

Lembro-me de ouvir o falecido Cardeal Aloysius Ambrozic de Toronto citar um provérbio de sua terra natal, a Eslovênia, em um momento de controvérsia cujo contexto não lembro agora, mas lembro que a essência era: "Se eles não estão lhe apedrejando, você não está no caminho".

No âmbito inter-religioso, as pedras recentemente lançadas contra Francisco, tanto do hinduísmo quanto do islamismo, poderiam realmente ser vistas não como um problema, mas como prova de que o papa Francisco chamou a sua atenção.

Foto: Agência Ecclesia

O papa Francisco mais uma vez assumiu o papel de porta-voz dos povos indígenas e denunciou as dificuldades e ameaças contra a identidade de tribos de todo o mundo. Em um aúdio divulgado pela Rádio Vaticano sobre as intenções de oração para o mês de julho, o líder da Igreja Católica pede para todos se unirem em torno do respeito aos povos indígenas.
 
Midia NINJA Foto de Gabriel Ivan

"Quero pedir, em nome de todos os povos indígenas, que seja respeitado o estilo de vida deles, seus direitos e suas tradições. Me escutaram?", questionou. "Quero ecoar e ser porta-voz dos desejos mais profundos dos povos indígenas. E quero que vocês unam suas vozes à minha", afirmou Francisco. "Rezem [durante julho] com todo o coração para que sejam respeitados os povos indígenas."

A página em português da Rádio Vaticano também publicou hoje um texto sobre a "eliminação" dos índios no Brasil (clique aqui para ler). "A história do Brasil é de eliminação, de 'desindianizar' os índios. Podemos ver o número de indígenas no século XVI e o de hoje. Eles são considerados pessoas de segunda classe, sem cultura, sem perspectivas, onde seus direitos - assegurados pela Constituição - são negados", destacou a reportagem.

De acordo com o texto da Rádio Vaticano, "é lamentável no Brasil principalmente a invasão de áreas das terras indígenas". Durante uma viagem ao México em fevereiro, o papa fez um duro pronunciamento em Chiapas contra "a dor, o abuso e a desigualdade" sofridos pelos povos indígenas, que somam 11 milhões de pessoas no país e 50 milhões na América Latina.

Francisco também pediu perdão pelos males causados às tribos.

Fonte: Agência Brasil com informações da Agência Ansa
Foto: Gabriel Ivan/Mídia Ninja

nota de repudio

A Associação Nacional dos Serviços Municipais de Saneamento (Assemae) manifesta seu repúdio à declaração do secretário nacional de Saneamento Ambiental, Sr. Alceu Segamarchi Júnior, que revelou, em entrevista à rádio CBN na quinta-feira, 30 de junho, a intenção do atual Governo Federal de priorizar a iniciativa privada no setor de saneamento básico brasileiro.

Na luta a favor do saneamento autônomo e municipal, a Assemae reitera sua posição contrária a qualquer forma de privatização ou concessão dos serviços públicos do setor. Há claros modelos no país que comprovam a face perversa da privatização, uma verdadeira ameaça no acesso das famílias mais pobres aos serviços de saneamento básico, pela ganância do lucro a qualquer preço, com o risco de aumento geral nas tarifas dos serviços prestados.

A proposta desconsidera a tendência mundial de investimento na gestão pública municipal do saneamento básico, a exemplo de diversos serviços que foram retomados das mãos da iniciativa privada em cidades importantes do mundo. Enquanto isso, o Brasil parece que se propõe a andar na contramão.

O acesso à água de qualidade e ao esgoto tratado é um direito básico de todo ser humano, e por isso, não deve ser pensado como mercadoria. Ao contrário do que disse o secretário Alceu, o Brasil só alcançará a universalização do saneamento básico mediante o investimento na gestão pública, que possui total proximidade com o cidadão e conhecimento técnico das demandas locais.

A Assemae e seus quase dois mil associados não medirão esforços para que a titularidade municipal seja garantida na gestão do saneamento básico, priorizando a otimização dos recursos, a qualidade dos serviços públicos, a inclusão social e a saúde da população brasileira.

Fonte: Assemae

O Pontifício Conselho para a Cultura instituiu uma Consultoria Permanente formada somente por mulheres. O organismo reuniu-se pela primeira vez na última terça-feira. A colega do Programa alemão, Gudrun Sailer, entrevistou o Cardeal Gianfranco Ravasi sobre os objetivos da nova e inédita iniciativa.

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“Os objetivos são, substancialmente, de dois gêneros: por um lado – e este é o fundamental – convidar as mulheres a oferecer, com o seu olhar e interpretação pessoal, um juízo sobre todas as atividades do dicastério. Portanto, não se trata de uma consultoria decorativa. A segunda dimensão a que nós queremos chegar é a de ter, por meio das mulheres, a sugestão de levar-nos além, em terras incógnitas, isto é, em novos horizontes... Pois, aqui somos todos homens, não temos um oficial que seja mulher e as mulheres têm somente funções do tipo administrativo e de secretaria. Justamente por este motivo, queremos pedir às mulheres para indicar também percursos que nunca tenhamos percorrido”.

Então, se poderia dizer que seja realmente inovadora a instituição de uma consultoria voltada ao feminino...

É inovadora justamente neste sentido, porque não quer simplesmente ter também vozes femininas. Eu sou substancialmente cético sobre a tese da 'cota rosa'. Estou mais convencido de que seja absolutamente necessária uma presença, e uma presença relevante, que não somente dê vagamente uma cor, mas que entre, pelo contrário, no mérito das questões, também com a sua capacidade crítica.

Vimos este núcleo, este primeiro núcleo que reuniu-se pela primeira vez aqui na sede do dicastério. Quais são os passos seguintes?

Eu gostaria um pouco de descrever esta primeira reunião, que ocorreu naturalmente a partir de uma manifestação de todas as mulheres presentes, que – justamente por meio desta apresentação, não meramente biográfica – já deram uma mexida em nós que assistíamos, mas também nelas mesmas, pois cada uma se recontou, não somente do ponto de vista profissional, mas também do ponto de vista humano. Portanto, esta já é uma contribuição também para nós: ouvir, isto é, as experiências existenciais. Eu propus um exemplo a partir do qual se poderia iniciar. Eu tenho ao menos sete, oito atividades dentro de meu dicastério que gostaria que fossem julgadas, interpretadas, apoiadas pelas mulheres. Uma destas, a primeira, é talvez, aparentemente, somente aparentemente, marginal: a do esporte. O esporte, de fato, tornou-se uma espécie de ‘esperanto dos povos’ e é também um dos fenômenos nos quais mais se reflete a figura do homem e da mulher, do bem no jogo, na riqueza, na fantasia, mas também na degeneração. Pensemos o que é o doping, a corrupção, a violência nos estádios, o racismo e assim por diante. Este, portanto, foi o primeiro exemplo. Nós gostaríamos agora de continuar, de etapa em etapa, com dois percursos: de um lado, ampliar este grupo, e de outro, solicitar o juízo delas sobre uma série de outros temas que temos já prontos.

As componentes do grupo devem ser todas católicas?

Atualmente a totalidade, acredito, seja de mulheres católicas. Na verdade, justamente o tema, que apareceu de imediato, foi não somente o da dimensão ecumênica, mas também o da dimensão inter-religiosa. E eu coloquei uma terceira dimensão: não somente os fieis, os diversamente crentes, mas também os não-crentes. Eu tenho intenção, portanto, de introduzir também mulheres que não tenham nenhuma fé religiosa explícita.

Seria pensável formar grupos deste gênero, de consultoria feminina, em outros dicastérios da Cúria romana?

Isto eu pensaria como um desejo, porque o Papa Francisco insistiu sobre isto, fez frequentes declarações nesta linha, reconhecendo que a presença das mulheres na Cúria vaticana é ainda muito exígua. Isto deve ocorrer, na minha opinião – como disse uma vez o Papa Francisco – não somente na via funcional, isto é, não segundo a mentalidade clerical, para a qual a presença é somente se tu consegues ter uma função do tipo sacerdotal, do tipo dicasterial, ou seja, funções que sejam substancialmente ainda aquelas que foram codificadas pelos homens. Seria preciso ter grande criatividade e eu espero que sejam criados ministérios, funções, responsabilidades que sejam primorosamente femininas. Devemos recordar também, como frequentemente citado pelo Papa Francisco, que a figura de Maria é mais relevante do que aquela dos Cardeais e aquela dos próprios bispos. Por este motivo, eu acredito que deva vir uma revolução, uma evolução em nível teórico, antes de tudo, isto é, de mentalidade, de teologia e, em nível prático, certamente, tendo presente, porém, sempre esta observação: que não devemos considerar o modelo masculino, que até agora construiu, também legitimamente, as funções, os ministérios dentro da Igreja, como o modelo a ser imitado, o único exclusivo.

Fonte: Rádio Vaticano
Foto: Reprodução

A Plataforma dos Movimentos sociais pela Reforma Política entrevistou Romi Bencke, secretária-geral do Conselho Nacional de Igrejas Cristãs do Brasil, graduada em Teologia pelas Faculdades EST, pastora luterana e mestre em Ciência das Religiões pela Universidade Federal de Juiz de Fora. Em pauta, o sistema político e o Estado Laico.

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Nesse momento de crise política, visualizamos o aumento do discurso religioso em espaços políticos, contra avanços no âmbito dos direitos individuais e sociais. A defesa do Estado laico deve estar atrelada à busca por uma reforma politica ampla?

Certamente sim. Isso porque o debate sobre a relação entre religião e estado no Brasil nunca foi feito de maneira ampla e aprofundada. Ela foi mais resultado de pressão de grupos religiosos, nesse caso, protestantes, que se sentiam violados por não terem seus ritos e cultos reconhecidos. Entretanto, se a separação entre religião e Estado, em um primeiro momento, possibilitou que protestantes tivessem seu direito a culto e seus rituais reconhecidos, isso não ocorreu, por exemplo, para as religiões de matriz africana, espírita e indígenas. Estas continuaram sendo perseguidas e suas práticas identificadas como charlatanismo e feitiçaria. Nossa laicidade não é um resultado de um amadurecimento da sociedade. Tanto é que existe uma grande confusão em torno do conceito laicidade. Há pessoas que pensam que um estado laico irá perseguir as religiões. Isso é completamente equivocado. O Estado laico não persegue religiões. A concepção sobre laicidade do estado brasileiro, tem como função garantir às pessoas a liberdade de seguir ou não uma religião. Também é função do estado garantir tratamento igual para todas as religiões, crenças ou convicções. Para ser coerente com a constituição, não deve existir tratamento privilegiado com essa ou aquela religião. Da mesma forma, o Estado não pode interferir na formação espiritual e na crença das pessoas. Uma vez que a fé pertence ao âmbito privado do indivíduo.

A lei garante que o Estado não intervenha nos sistemas de fé. A natureza laica do estado brasileiro torna-o neutro em termos religiosos. Com isso, ele tem a função de mediar a relação entre as tradições religiosas e não de apoiar confessionalidades religiosas específicas.

A laicidade brasileira compreende que é uma possível a cooperação entre religião e estado para a promoção do bem comum. Nossa concepção de laicidade, portanto, não esvazia e nem expulsa a religião da esfera pública. Logo, não há motivos para ver na laicidade um inimigo a ser combatido. Agora, uma questão que é mais complexa e que gera tensões é quando vemos grupos religiosos reivindicando o direito de impor ao conjunto da sociedade seus valores, símbolos e concepções de mundo em nome da liberdade religiosa. Isso é complicado, pois o direito à liberdade religiosa não é um direito absoluto. O direito à liberdade religiosa precisa estar em conformidade com os direitos humanos.

Uma das bancadas que mais cresceram nas ultimas eleições foi a bancada evangélica, em sua maioria, representando a proteção de um modelo de família que se distancia da atual realidade das famílias brasileiras. Nesse contexto em que uma parte da sociedade elege parlamentares com esse perfil, como limitar a atuação de determinadas praticas políticas?

Em primeiro lugar, gostaria de chamar a atenção para o fato de que sim, temos uma Frente Parlamentar Evangélica articulada no Congresso. No entanto, não é a única. Também há uma Frente Parlamentar Mista Católica que se orienta, praticamente pelos mesmos valores da Frente Parlamentar Evangélica.

Nos últimos anos, tem se criado um estigma contra os evangélicos. Só que este não é o único grupo religioso no Brasil que se orienta por valores conservadores. Entre evangélicos há grupos bastante ativos na promoção de direitos humanos. Importante recuperar que a concepção da separação entre religião e estado é um princípio protestante, ou seja, evangélico.

A pauta pela defesa da família patriarcal transcende as fronteiras confessionais.

Em relação à segunda parte da pergunta, sobre limitar a atuação de determinadas práticas políticas, penso que o caminho não seria por aí.

No espaço público, principalmente em uma sociedade plural como a nossa, todos os grupos têm direito a se manifestar e expressar suas opiniões e visões de mundo, inclusive conservadores. Agora, no âmbito da esfera pública da política formal, parlamento, judiciário, etc o que deveria reger as decisões não deveriam ser as convicções religiosas do ente público, mas os princípios democráticos e republicanos. Creio que o que precisamos no Brasil, é um debate aprofundado sobre o papel da religião na sociedade. Nós somos um país estranho. Bastante religioso, mas a teologia, por exemplo, não é reconhecida como uma área do conhecimento. Ela é vista como uma dimensão menor do conhecimento. Entretanto, as disputas sobre valores, visão de mundo são fortemente carregados com conteúdos religiosos. Para este debate, a teologia é fundamental, no entanto, ela não é considerada. A bíblia, por exemplo, está no centro das discussões sobre direitos humanos. Não vemos nenhum biblista sendo convidado para falar sobre a bíblia desde uma perspectiva de direitos humanos. E temos pessoas excelentes no nosso país que podem fazer isso.

Na sua avaliação, a relação entre o avanço de determinadas igrejas neo-pentecostais nos meios de comunicação e na política, tem haver com um projeto de poder?

Creio que o avanço de grupos religiosos conservadores de diferentes expressões tem relação com um projeto de poder, sim. Não em uma lógica conspiratória, mas no avanço de políticas neoliberais. O fundamentalismo e o conservadorismo religiosos não estão isolados dos sistemas econômicos e políticos. O neoliberalismo fortalece o conservadorismo naquilo que diz respeito à religião, gênero, família. Isso porque, o crescimento de uma sociedade de mercado causa desintegração social. As pessoas sentem-se inseguras. Na busca por uma sensação de segurança e certezas, elas se agarram às narrativas que oferecem forte grau de plausibilidade e certezas. Isso é um prato cheio para o fundamentalismo. Fortalecem-se as ideias de aniquilamento do outro. A identificação do inimigo é necessária. E quem são os inimigos que o fundamentalismo nomeia? Mulheres que lutam por suas autonomias, LGBTTs, indígenas, tradições religiosas diferentes da minha: cristão X candomblé, judeu X muçulmano e assim por diante. Reivindicam que o estado defenda seus valores morais, mas pregam a interferência mínima do estado na economia. Nesse caso, leva-se para o privado o que seria da esfera pública, como saúde, educação, mobilidade e direitos humanos. E, tenta-se levar para a esfera pública, o que é da esfera privada, como por exemplo, as crenças e doutrinas religiosas.

Fonte: reformapolitica.org.br

As Escrituras Sagradas estão disponíveis para 2.935 idiomas falados por 6,039 bilhões de pessoas. Só em 2015, foram feitas traduções para 50 idiomas, falados por quase 160 milhões de pessoas, com auxílio das Sociedades Bíblicas Unidas (SBU). Graças aos esforços dessa aliança global presente em mais de 200 países e territórios, a Bíblia na íntegra está disponível em 563 idiomas, falados por cerca de 5,1 bilhões de pessoas e o Novo Testamento em 1.334 idiomas adicionais falados por 658 milhões de pessoas. Esta tarefa, fundamental, para o desenvolvimento da obra bíblica no mundo estará em destaque nas palestras do 12º Fórum de Ciências Bíblicas, que a Sociedade Bíblica do Brasil (SBB) promoverá nos dias 25 e 26 de agosto, com o tema “Tradução da Bíblia: Uma Tarefa Inacabada”.

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Em seu Relatório de Traduções de 2015, as SBU registram que 11 comunidades ao redor do mundo agora têm a sua primeira Bíblia na íntegra, seis receberam um Novo Testamento e outras onze a sua primeira porção ou porções adicionais das Escrituras. No entanto, existem ainda 497 milhões de pessoas que não contam com nenhuma parte da Bíblia traduzida para o idioma que fala ao seu coração, além dos 281 milhões que contam apenas com partes da Bíblia traduzidas para o seu idioma.

Como os idiomas estão em constante desenvolvimento, as SBU também têm o compromisso de revisar traduções existentes e fornecer novas versões, quando solicitadas, para ajudar o máximo possível de pessoas a se engajarem com a mensagem bíblica. Em 2015, isso resultou em 20 novas traduções e revisões, além de duas edições de estudo com o potencial de alcançar mais de 127 milhões de pessoas.

Paralelamente, de acordo com as SBU, crescem as traduções das Escrituras para línguas de sinais e em Braile. Estima-se que mais de 300 milhões de pessoas, em todo o mundo, tenham deficiência auditiva e 70 milhões delas utilizam a língua de sinais para se comunicar. Há mais de 400 línguas de sinais únicas, porém, o Novo Testamento somente está disponível na Língua de Sinais Americana. Entre as produções de 2015 em línguas de sinais, destacam-se as do Brasil, com 15 novas histórias bíblicas; Sri Lanka, com seleções do livro Atos; México, que concluiu os livros de Lucas e Atos; e a equipe ViBi, no Japão, que terminou os livros Êxodo, Tito e Efésios.

Em Braile, os avanços foram registrados no Sri Lanka, com a Bíblia em sinhala, o 44° idioma do país e no México, com a primeira porção em purepecha. Também foram produzidas porções adicionais em espanhol e armênio e uma nova versão da Bíblia em holandês. São obras que beneficiam um grande contingente, diante da estimativa de que, em todo o mundo, 285 milhões de pessoas tenham deficiência visual, das quais 40 milhões são cegas. Desde 2002, a Sociedade Bíblica do Brasil disponibiliza a Bíblia completa em Braile para esse público.

Outro recurso estratégico das SBU para a disseminação da Palavra de Deus é a Biblioteca Digital da Bíblia® (DBL), que, até o final de 2015, contava com 1.201 Bíblias, Testamentos e porções em 957 idiomas falados por mais de 4,6 bilhões de pessoas. A DBL é de propriedade e mantida pelas SBU em parceria com outras agências bíblicas com o apoio da aliança Every Tribe Every Nation (Todas as Tribos, Todas as Nações). Ela torna a Bíblia acessível fornecendo textos das Escrituras ao público por meio de parceiros como a BibleSearch e a YouVersion.

O relatório completo das SBU e a lista de traduções concluídas em 2015 podem ser consultados em: http://bit.ly/29k1mkt

12º Fórum de Ciências Bíblicas

Renomados palestrantes estarão no Centro de Eventos de Barueri – Museu da Bíblia, em Barueri (SP), para mais uma edição do Fórum de Ciências Bíblicas, que homenageará os 70 anos das Sociedades Bíblicas Unidas. Embora iniciada em 1804, a cooperação entre Sociedades Bíblicas foi formalizada em 1946 e hoje reúne 149 organizações, entre elas a SBB.

SERVIÇO:

Tema: Tradução da Bíblia: Uma Tarefa Inacabada.
Data: 25 e 26 de agosto de 2016.

Horário: 14h30 às 22h00.
Público-alvo: Professores e estudantes de Teologia, Ciências da Religião e Linguística, lideranças religiosas, estudiosos da Bíblia e cristãos em geral.

Local: Centro de Eventos de Barueri | Museu da Bíblia.
Endereço: Avenida Pastor Sebastião Davino dos Reis, 672 – Vila Porto – Barueri (SP).

Inscrições: http://www.sbb.org.br/eventos/forum-de-ciencias-biblicas/
Informações: https://xii-forum-de-ciencias-biblicas.eventbrite.com.br ou (11) 3474-5827.

O CONIC criou, em seu site, o espaço Religiões e Democracia. A ideia é refletir as relações entre a religião e a democracia e trabalhar a temática com o auxílio de perguntas feitas a lideranças religiosas, teólogos e teólogas, cientistas da religião e de outras áreas do conhecimento. Convidamos vocês para lerem as entrevistas e manifestarem opiniões. Sempre em um espírito de diálogo e respeito às ideias.
 
Nessa segunda entrevista da série, falamos com Ezequiel Hanke, facilitador da REJU.
 
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1) De que modo as religiões podem contribuir para o aprofundamento da democracia?

Esta questão é extremamente pertinente. Em relação ao momento político atual que vivemos no Brasil, penso que o crescimento, tanto em termos políticos, quanto sociais da sociedade brasileira se dá apenas por meio de processos radicais de democracia. Nesse sentido, é evidente que a vivência da religião em um contexto multicultural é um direito constitucionalmente assegurado e deveria assim – fazer parte da esfera privada da vida das pessoas e não da esfera pública de forma a influenciar o Estado nas suas políticas públicas. Garantir, portanto, o caráter laico do Estado, como defensor e protetor da liberdade de crença e convicção (em professar ou não uma religião ou manifestação religiosa) é para mim um importante ponto que garante a organização de uma sociedade plural, solidária e democrática.

Ainda o sucesso de uma democracia, ou de um projeto democrático depende da capacidade humana em encontrar caminhos de diálogo entre as diversas tradições. Assim sendo, penso que o pluralismo e o diálogo inter-religioso são fundamentais nesse processo. A partir destes aspectos podemos visualizar igualdade na diferença, abrir espaço para a confiança e convivência construtiva e respeitosa. Em suma: viabilizar o caráter laico do Estado brasileiro de fato e aprofundar o diálogo e a cooperação entre as religiões me parece um caminho possível para superar os extremos de uma sociedade injusta e de tendências fundamentalistas. Os direitos humanos transcendem os espaços institucionais da religião, e penso dessa forma que humanismo e religião se pertencem mutuamente.

2) Algumas religiões acreditam que a democracia é incompatível com aquela fé. Como lidar com isso?

O Estado Democrático de Direito compreende a capacidade das pessoas cidadãs de elegerem seus representantes, que terão funções previstas em Constituição para determinar os rumos políticos do país. Sistema este que vem sendo atropelado no Brasil com a admissão do processo de impeachment da presidenta da república sem fundamento jurídico legal para tal. Onde quero chegar com isso? Uma democracia não pode ser confundida com demagogia, interesses pessoais ou de determinada classe social. O filósofo Aristóteles já destacava que um governo deve ser de todas as pessoas para todas as pessoas.

Portanto, é dever de cada pessoa cidadã não dar espaço para valores ou ideias que contrariem o bem comum e direitos básicos conquistados a duras penas pelo povo. Ideias totalizantes ou homogeneizantes podem rapidamente se aproximar a regimes totalitários que impõe a sua crença como “única e verdadeira”. Não são compatíveis com o Estado Democrático de Direito que assegura as liberdades de crença, consciência e expressão. Garantir e preservar as liberdades é fundamental numa democracia. Esta é também tarefa das Igrejas e expressões religiosas!

3) No Brasil, expressões religiosas, sobremaneira cristãs, se apossam cada vez mais dos espaços públicos e conquistando grandes representações no Congresso Nacional. Como avalia esse fenômeno?

Minha primeira reação a esta questão: uma catástrofe! O princípio do Estado laico vem sofrendo sérias ameaças no Brasil. Um Estado que é laico de fato defende a liberdade religiosa de todas as pessoas cidadãs e não possibilita a interferência da religião em questões de políticas públicas. Voltemos para Aristóteles quando fala que a democracia é uma forma de governo de todas as pessoas para todas as pessoas.

Quando expressões religiosas se apossam dos espaços públicos, e formam, por exemplo, a bancada da Bíblia no Congresso Nacional, vemos o caráter laico e a democracia do Brasil sendo duramente ameaçada. A bancada evangélica põe a meu ver em risco a paz pública e vem comprometendo as relações respeitosas de convivência. Seguidos ataques e agressões incentivam a intolerância e a apologia ao ódio, algo incompatível com o Brasil que assegura em Constituição o direito à vida, de ir e vir, à manifestação de pensamento, a liberdade de credo e crença. Há ainda muito a ser feito!

4) As religiões de matriz africana, por outro lado, estão pouco representadas. Como você interpreta isso?

É de se lamentar profundamente quando se lê que as religiões de matriz africana são o principal alvo da intolerância no Brasil. O racismo e a discriminação remontam o Brasil colônia, rotulam e “demonizam” as religiões de matriz africana simplesmente pelo fato de serem originárias do continente africano.

A representação das religiões de matriz africana no parlamento brasileiro é de fato de pouquíssima expressão. Diante disso, penso que um caminho necessário é o combate ao fundamentalismo religioso e fazer valer a lei 12.288 que instituiu o Estatuto da Igualdade Racial, decreto assinado pela presidenta Dilma Rousseff no ano de 2010. O Estatuto da Igualdade Racial busca a igualdade de oportunidades para a população negra e combate às formas de intolerância étnica, procurando assim a postura de respeito às religiões de matriz africana.

5) Agora, uma pergunta provocativa: é possível, a partir da teologia ou das teologias cristãs, estabelecer relação entre religião e democracia? Se sim, quais seriam as chaves teológicas? Se não, quais seriam as chaves teológicas?

Minha origem é luterana e a teologia de Lutero é também um dos meus campos de pesquisa. Para mim, particularmente, um tema central, e que também foi importante para Lutero, é a promoção da liberdade: foi para a liberdade que Cristo nos libertou. Como pessoas livres não somos mais escravas e sujeitas a ninguém. Como pessoas livres, podemos buscar caminhos que conduzem a uma vida livre e responsável para todas as pessoas, pois somente existe liberdade com responsabilidade.

Como pessoa livre, eu posso servir a outras pessoas, em amor. Como pessoa livre eu me coloco em postura de serviço e diálogo. É isto que Lutero expressa em seu importante escrito intitulado “Da Liberdade Cristã”, em que afirma: Um cristão é senhor livre sobre todas as coisas e não está sujeito a ninguém. Um cristão é servidor de todas as coisas e sujeito a todos.”

Esta perspectiva a meu ver preserva a democracia, pois é uma postura de diálogo, de respeito e invoca o sentimento de alteridade. Uma vida livre implica em respeito mútuo e a preservação das liberdades e dos direitos humanos.

6) É comum utilizar a bíblia para legitimar e justificar posturas antidemocráticas. É possível identificar possíveis iluminações bíblicas que contribuiriam para o fortalecimento da democracia e para a valorização das diversidades?

Prefiro não citar versículo algum, já que, dito em linguagem coloquial “a Bíblia tem resposta pra tudo”. Ou seja, é possível com a Bíblia legitimar qualquer tipo de opinião. Ainda assim acredito numa perspectiva libertária ou libertadora da Bíblia. Conforme dito na pergunta anterior, penso que movido pelo espírito da liberdade posso caminhar e contribuir para a construção de espaços mais acolhedores, inclusivos e sensíveis à vida humana. Minhas convicções jamais podem ser um obstáculo para a escolha da outra pessoa. Ainda penso que enquanto cristão tenho o dever de defender o caráter laico do Estado para que a democracia que por hora fragilizada possa se fortalecer e para que a riqueza da diversidade brasileira possa ser valorizada e preservada.

7) Algumas vozes analisam a laicidade do Brasil como ambígua. É possível a relação entre religião e política sem ferir a laicidade? Como analisar a presença pública da religião no Brasil e sua relação com o Estado?

Penso já ter respondida esta questão em partes nas perguntas feitas anteriormente. Ao mesmo tempo, lembrei de um texto do sociólogo brasileiro, Ricardo Mariano, intitulado “Laicidade à Brasileira” em que analisa os limites da laicidade brasileira e fala sobre a relação entre política e religião no Brasil. Para Mariano a concorrência religiosa no Brasil, principalmente entre católicos e pentecostais migrou para a esfera político partidária, fato que vem gerando intensos debates entre grupos cristãos e grupos laicos sobre o papel da religião.

Eu penso que é possível discutir religião e política, desde que não leve a posições que firam o principio da laicidade. É importante destacar que o Estado não pode ser orientado por opções religiosas. Estados democráticos são laicos! É também importante dizer do enorme patrimônio de sermos uma sociedade diversa e plural. Portanto, religião é um direito – que fica no plano individual. O Estado Democrático de Direito é de todas as pessoas para todas as pessoas. TODAS!

Biografia:

Ezequiel Hanke é natural do interior gaúcho, possui graduação e mestrado em teologia pela Faculdades EST, São Leopoldo/RS onde atualmente faz seu período de doutorado sob orientação do professor Dr. Rudolf von Sinner. É facilitador da Rede Ecumênica da Juventude (REJU) no Rio Grande do Sul, militante dos direitos humanos e integra a Associação Brasileira de História das Religiões (ABHR).

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A visita na Chrisitan Aid, nos dias 25, 26 e 27 de maio, se caracterizou por um conjunto de reuniões entre CONIC, representado pela secretária-geral, Romi Bencke, e diferentes setores da instituição. A primeira foi com a diretoria do Departamento de Igrejas da Christian Aid. Dione Gravesande, chefe de Departamento de Igrejas da Christian Aid, explicou que a Christian Aid é uma organização de 40 Igrejas que busca mostrar a voz pública das Igrejas. Para tanto, a reflexão teológica é central.

Dione falou sobre os novos desafios que surgem com o aumento de igrejas pentecostais na Inglaterra. Essa particularidade desafia a organização a identificar novas formas de diálogo com estes movimentos. Há um esforço grande em produzir análises teológicas sobre temas em que as igrejas estão atuando, entre estes temas, podem ser destacados a reflexão teológica sobre mudança climática. Outro tema relevante é sobre teologia e gênero.

Há uma compreensão clara da Christian Aid que potencializar a atuação das Igrejas e sua voz pública, na defesa de direitos, da justiça e da paz é fundamental para promover mudanças em favor de um mundo com mais igualdade.

O outro encontro foi com a equipe do Programa Lado a Lado, que tem como um dos objetivos a promoção da justiça de gênero. “Reuni-me com Josh Levine, o coordenador do Programa, e as integrantes da equipe, Chiara e Helen Denis. Nessa reunião, foram recuperados os resultados do Encontro desse Programa ocorrido no Brasil, no final de 2015, com representações de diferentes países da América Latina e Caribe. Compartilhei as dificuldades existentes no Brasil em torno da temática justiça de gênero e as polêmicas ocorridas com os Planos Municipais de Educação de como parte das Igrejas militaram contra a perspectiva de gênero nesses planos. Também foi dado destaque para os trabalhos de fortalecimento da justiça de gênero realizado por algumas igrejas no Brasil”, explicou Romi Bencke.

A reunião com a equipe responsável pela Angola e Brasil foi realizada por Skype. Participaram Deolinda Teka, secretária do Conselho de Igrejas da Angola e Sarah Roure, responsável pelo Brasil. A reunião centrou-se na ação realizada pelos dois Conselhos de Igrejas em favor da diminuição das desigualdades e do fortalecimento dos espaços democráticos. Reverenda Deolinda relatou que alguns problemas da Angola são similares com os problemas enfrentados pelo Brasil. O Conselho de Igrejas da Angola trabalha fortemente na superação das desigualdades e do abuso de poder. Um dos desafios do país hoje é um maior equilíbrio nas relações de poder.

O Conselho de Igrejas da Angola é bastante ativo também na resolução de conflitos relacionados aos direitos humanos. Há clareza do papel relevante das igrejas para a educação na sociedade, em especial a educação para a paz e para a justiça de gênero. O Conselho de Igrejas da Angola tem 40 anos de existência. Seu esforço, no momento, tem sido o de promover espaços de formação sobre o tema justiça de gênero nas cinco províncias do país. Destaca-se que maioria das lideranças das igrejas da Angola são mulheres, mas elas geralmente não ocupam espaços de decisão. Em algumas igrejas elas são impedidas de pregar. Nesse sentido, o desafio é melhorar a relação de poder nas Igrejas.

Reunião com David Clarck sobre direitos LGBTTs: ele é responsável por promover a discussão interna na Christian Aid sobre direitos LGBTTs. A reunião foi um momento interessante para conversar sobre os principais limites existentes, em especial, no âmbito de organizações religiosas para que os direitos LGBTTs sejam respeitados em sua integralidade. Também foram compartilhadas experiências de Igrejas inclusivas e daquelas que estão abrindo espaço para que as pessoas LGBTTs possam falar livremente sobre fé e sexualidade. A violência contra pessoas LGBTTs também foi um dos aspectos abordados. Por fim, foi falado de como as interpretações bíblicas que não levam em consideração os aspectos sociais e históricos dos textos bíblicos contribuem para legitimar o preconceito e a discriminação por orientação sexual.