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"O profeta Amós se recusa a ser considerado profeta, nos termos do sacerdote Amasias, cúmplice de um poder político opressor. Amós se define como 'vaqueiro' e cultivador de sicômoros. Em Am 7,15, Amós parece ser um pastor que cuida do rebanho miúdo (ovelhas e cabras), mas não um vaqueiro. Em Am 7,10-17[4] não há a intenção primeira de descrever pessoalmente a profissão do profeta, mas enfatiza o fato de que Amós foi retirado da sua vida precedente, do seu mundo, das preocupações domésticas para proclamar a Palavra de Deus", escreve Gilvander Luís Moreira, frei e padre Carmelita, mestre em Exegese Bíblica e professor de Teologia Bíblica.
 
Eis o artigo.
 
Provavelmente, as composições mais antigas do livro do profeta Amós na Bíblia (Amós 1-6; 7-9) datam de meados do século VIII a.C., e surgiram como literatura de protesto e resistência. “O acento principal da mensagem de Amós está na crítica social e no anúncio de um juízo iminente de Deus na história, bem como na tênue, mas clara exigência do restabelecimento da justiça como alicerce das relações sociais”[1].
 
Amós é um profeta precursor, radical, exemplar e paradigmático. A profecia de Amós é, em certo modo, um divisor de águas na história da profecia no sentido de que instaura um novo jeito de ser profeta. O livro de Amós está organizado em duas grandes unidades literárias: I) Am 1-6: Palavras e II) Am 7-9: Visões.
 
Am 4,4-13 nos ajuda a refletir sobre três aspectos fundamentais da ética profética, intimamente entrelaçados. Esses são: a) a concepção de pecado em relação ao culto; b) em relação à história; c) e os limites de uma possível reconciliação com Deus. A pergunta que se coloca na base e no fim do estudo de Am 4,4-13[2] é: Trata-se de um anúncio de punição in extremis diante da incapacidade de Israel de reagir, ou de uma velada promessa de perdão? Ou existe uma outra interpretação possível?
 
A declaração final de Javé – Deus solidário com os pisados e libertador dos oprimidos - ao ser humano que fecha a unidade Am 4,4-13 constitui-se quase como uma nova revelação do Sinai, que deve por fim ao conflito entre o ser humano e a divindade, em favor do ser humano. As punições didáticas de Javé deixam lugar a um esclarecimento que abre o coração do ser humano para que veja o conjunto da sua história e possa render-se conta do seu processo de endurecimento.
 
Am 4,4-13 evoca, portanto, uma situação na qual há certa semelhança com aquela do relato das pragas do Egito, mas não é obviamente, a recordação daqueles fatos. O discurso de Amós menciona, talvez, um passado histórico não identificável nem pela forma e nem pelo conteúdo do texto. As pragas do tempo do Êxodo feriam o Egito, não Israel, e de uma maneira diferente da relatada no livro de Amós capítulo 4. Além do mais, as tais “pragas” eram no mundo antigo, e são ainda nas culturas rústicas, o resultado obrigado de situações críticas naturais ou políticas: a fome é o resultado de toda estiagem prolongada e peste nas plantações, assim como a morte dos jovens (Am 4,10) é o efeito de toda batalha militar, no mundo antigo e moderno.
 
Às pragas ou punições descritas se reúnem ainda a menção a Sodoma e Gomorra. O discurso de Amós 4 quer, portanto, dar conta de toda a antiga história de Israel, também de Israel patriarcal, para aplicá-la a uma nova situação.
 
Um ponto particular de relação com o Êxodo é a presença do refrão “mas não retornastes a mim” que estrutura o texto de Amós 4,4-13. Assim, como no relato das pragas o endurecimento do coração do Faraó é o motivo estruturante que faz aumentar as pragas.
 
No relato do Êxodo, um primeiro grupo de textos, atribuídos tradicionalmente à fonte Javista (J), apresenta de fato Faraó como responsável pelo seu próprio endurecimento, como havia predito Deus (Cf. Ex 7,14.22; 8,11.15.28; 9,7.34). O outro grupo de textos (os chamados “heloístas”) atribui a obstinação ora a Faraó (Ex 9,35) ora a Deus mesmo (Ex 10,20.27). O relato sacerdotal (P) o atribui habitualmente a Javé.
 
Esta diversidade de concepção no atribuir a responsabilidade pelo pecado aparece também em outros textos fora do Êxodo, com diferente vocabulário e problemática. Em 2º Samuel 24,1, Javé é o responsável direto pelo pecado de Davi devido ao recenseamento. Segundo 1º Crônica 21,1 a responsabilidade é, ao invés, de Satanás. O verbo hebraico usado é o mesmo: swt (= incitar, seduzir).
 
Tanto em Êxodo como em Am 4,4-13 se coloca um grande problema exegético e teológico: É possível e legítimo que Deus continue a aplicar punições que levam a um endurecimento sempre crescente? Não se comporta Javé assim como o pai que exagera, com sua punição, ao seu filho e força-o a se rebelar (Cf. Efésios 6,4)?
 
É necessário reconhecer que por trás dos textos bíblicos de endurecimento há o mistério da liberdade humana e da onipotência divina. Em relação a Deus, há uma consciência profética que as obras e a Palavra de Deus não podem permanecer sem efeito (Cf. Isaías 55,11), mas é sempre eficaz (não eficiente). Se não produzem imediatamente a conversão, devem amadurecer o sujeito para uma nova prova, o que, em última análise, não exclui a possibilidade de conversão.
 
Em relação à pessoa punida, há uma consciência do fato que a exortação à conversão, quando não ouvida, se torna uma condenação. Isto é, nada mais, nada menos, que a dinâmica das relações interpessoais. Quando duas pessoas percebem uma mútua existência começa uma comunicação humana, que pode progredir, parar ou, eventualmente, morrer. Mas enquanto existe, cada ação e reação levam à evolução ou diminuição daquela relação. Todo ato (ou omissão) nas relações interpessoais somam e cultivam a relação ou a empobrece descultivando-a. Nenhuma atitude fica neutra.
 
De modo semelhante, na relação do ser humano com Deus, cada ação que não melhora a relação, a piora, mas jamais a deixa igual. Se não se aceita um convite à conversão, como uma oferta de amizade, o recusa. Por um lado, esta recusa tornará mais difícil que aconteça um novo convite.[3] E de outra parte quem recusou dificilmente voltará atrás para aceitar uma nova oferta, o que implicaria em reconhecer o erro precedente, o que é mais difícil.
 
Em relação aos profetas e profetisas, este processo se explica na medita em que os/as  “intérpretes de Javé” sabem do paradoxo da missão deles/as. Os profetas e profetisas sabem que a palavra profética conduz, às vezes, à conversão de alguns poucos, mas na maioria das vezes leva ao endurecimento de muitos. Os oráculos de condenação no futuro, pronunciados com absoluta segurança, implicam nos profetas a consciência que a advertência seria inútil.
 
A consciência que os profetas e profetisas têm das três realidades descritas acima se apresenta, de modo muito claro, em Isaías 6,9-11: “Então disse ele: Vai, e dize a este povo: Ouvis, de fato, e não entendeis, e vedes, em verdade, mas não percebeis. Engorda o coração deste povo, e faze-lhe pesados os ouvidos, e fecha-lhe os olhos; para que ele não veja com os seus olhos, e não ouça com os seus ouvidos, nem entenda com o seu coração, nem se converta e seja sarado. Então disse eu: Até quando Senhor? E respondeu: Até que sejam desoladas as cidades e fiquem sem habitantes, e as casas sem moradores, e a terra seja de todo assolada”.
 
Em Am 7,14, o profeta Amós se recusa a ser considerado profeta, nos termos do sacerdote Amasias, cúmplice de um poder político opressor. Amós se define como “vaqueiro” e cultivador de sicômoros. Em Am 7,15, Amós parece ser um pastor que cuida do rebanho miúdo (ovelhas e cabras), mas não um vaqueiro. Em Am 7,10-17[4] não há a intenção primeira de descrever pessoalmente a profissão do profeta, mas enfatiza o fato de que Amós foi retirado da sua vida precedente, do seu mundo, das preocupações domésticas para proclamar a Palavra de Deus.
 
Am 7,10-17 quer legitimar o conteúdo da profecia de Amós e ajudar a comunidade superar todos os preconceitos que possam existir contra o profeta por causa da sua origem humilde, como se fosse um “nordestino”, um sem-terra, um sem-casa, um menor de rua, um portador de HIV, um homossexual etc. O relato de Am 7,10-17 quer nos dizer que a profecia vem da margem, da periferia, do meio dos marginalizados e excluídos. São estes, por excelência, os “intérpretes de Javé”.
 
Na Bíblia este “gênero” é utilizado para descrever de maneira diferente as vocações de Moisés, Gedeão, Eliseu e Saul. Mas uma estreita relação se encontra em 2º Samuel 7,8. Natã transmite a Davi a mensagem de Javé: “Eu te tirei das pastagens, pastoreavas as ovelhas”. O elemento que caracteriza estas situações não é o fato do convocado pertencer a um grupo, mas, ao contrário, o fato dele ser um “de fora”, um excluído. Assim Am 7,14 quer exprimir a distância de Amós das formas institucionais da profecia e dos profetas “da corte”.
 
O relato do confronto entre o sacerdote Amasias e Amós (com a implicada presença do rei) oferece a justificação da decisão de Javé. O povo não somente não ouviu as diversas palavras transmitidas pelo profeta Amós, mas decidiu silenciá-lo, expulsando-o para sua terra. Já não há nada mais a esperar senão o fim definitivo, e diante desse resta somente a lamentação. O profeta anuncia a necessidade de conversão; pede perdão a Deus pelo povo; pede para parar a punição. O rei (e a monarquia) e o Templo expulsam o profeta, silenciando-o. O povo sofrerá muito mais. Ai de um povo que não escuta seus profetas e profetisas, e pior ainda, que os persegue, expulsa e os silencia.
 
A perícope de Am 7,10-17 revela a interpretação que setores da classe dominante tinham do conteúdo da profecia de Amós. Aos olhos da elite, o profeta é um “conspirador”, interessado em “golpe de estado”. Para Javé e o povo empobrecido Amós é um profeta, porta voz do Deus da vida para todos e tudo. Para a elite ele é um “subversivo”, um agitador.
 
Em Am 4,1-3 temos a seguinte profecia:
 
“OUVI esta palavra, vacas de Basã, que estais sobre o monte de Samaria, que oprimis os fracos, que esmagais os excluídos, que dizeis aos vossos senhores: “Trazei-nos o que beber!”. O Senhor Javé jurou, pela sua santidade: sim, dias virão sobre vós, em que vos carregarão com ganchos e a vossos descendentes com arpões (de pesca). E saíreis pelas brechas que cada uma tem diante de si, e sereis empurradas em direção ao Hermon, oráculo de Javé”.
 
Segundo uma interpretação tradicional, Am 4,1-3 seria uma investida do profeta Amós contra as mulheres ricas de Samaria, designadas como “vacas de Basã”, mulheres de personagens importantes, que ocupam o tempo em luxuosos banquetes, e ao mesmo tempo são responsáveis pela opressão e exploração dos empobrecidos. A imagem de um banquete só de madames é, no mínimo, algo curioso em uma sociedade reconhecidamente machista e patriarcal, assim como atribuir às mulheres a responsabilidade pela opressão e pela injustiça.
 
A região de Basã, como o Líbano e o Carmelo, é famosa pela fertilidade do solo. A tristeza causada pela punição divina se manifesta na debilidade do Líbano, do Basã, do Carmelo e do Saron (Cf. Isaías 33,9). Ao contrário, a generosidade divina se expressa no nutrimento do povo com a “manteiga das ovelhas e dos touros de Basã” (Cf. Deuteronômio 32,14). O anúncio messiânico, com o qual se conclui o livro de Miquéias, inclui a promessa de um pasto abundante “em Basã e em Galaad, como nos dias antigos (Cf. Miquéias 7,14). No ambiente de louvor do Salmo 68 o “Basã” são os montes (Sl 68,16) que testemunham, junto com o Sinai e a natureza, a grandeza das obras de Javé. Logo integrar “Basã” em uma imagem depreciativa é algo estranho ao uso corrente de “Basã” na Bíblia.
 
De “vaca de Basã” não se fala em nenhum outro lugar no Primeiro Testamento da Bíblia. As montanhas de Basã são famosas pelos seus touros, cabritos e carneiros (mas não vacas; cf. Dt 32,14). Por isso os touros de Basã podem ser imagens dos inimigos poderosos (cf. Salmo 22,13 e, sobretudo, Ezequiel 39,18).
 
A expressão “vacas de Basã” adquire um sentido mais verdadeiro dentro da cultura bíblica se o termo “vacas” não for utilizado em relação a mulheres, mas a homens, aqueles que quiseram ser como os touros de Basã, pela força deles, autoridade e dignidade se tornaram “vacas”, com as conotações depreciativas que as formas femininas podem ter no Primeiro Testamento.
 
Neste contexto, os “seus senhores” (Am 4,1b, com sufixo masculino) se referem provavelmente não aos “maridos”, como propõem algumas traduções, um uso pelo qual não se tem nenhuma outra ocorrência, mas refere-se a uma pessoa de mais autoridade (política). “Senhor”, além do freqüente uso como título divino, se refere a Acab (2 Reis 10,2.3.6), ao Faraó (Gênesis 40,1), ao Rei da Babilônia (Jeremias 27,4), e em casos isolados a várias pessoas: “outros senhores...” (Isaías 26,13).
 
Na profecia de Amós está “uma crítica veemente e contundente aos agentes e mecanismos de exploração e opressão dos camponeses empobrecidos sob o governo expansionista do rei Jeroboão II e sob as condições de um incremento de relações de empréstimos e dívidas entre pessoas do próprio povo no século VIII a.C.”[5]. Em outros termos, o profeta Amós não apenas critica pessoas corruptas, mas questiona também de modo muito forte o sistema gerador de pessoas corruptas. Não somente as mazelas pessoais estão na mira do “camponês” que entrou para a história como um grande profeta. Amós tem consciência de que o problema fundamental da injustiça reinante na sociedade não é fruto somente de fraquezas e ambiguidades pessoais, mas tem como causa motriz estruturas sócio-econômico-político-cultural e religiosas que engrenam uma máquina de moer pessoas. Na mira do profeta Amós também estão relações comerciais que causam endividamento, aprisionam pessoas e escravizam, retirando a liberdade de ser pessoa humana.
 
Além das denúncias sociais, a profecia de Amós destaca-se com o anúncio de um juízo iminente de Javé na história do seu povo. Amós inverte as expectativas quanto a um tão sonhado “dia de Javé” (Am 5,18-20). Este não será mais uma “ideologia de segurança político-religiosa” pelos fortes de Israel. A perversão da justiça para os pobres, a opressão dos empobrecidos e a exploração das pessoas mais enfraquecidas clama pelo juízo divino. O “dia de Javé” será um “dia mau” sobre os fortes de Israel, sobre o estado tributário, suas instituições e seus agentes.
 
Amós critica com coragem a “corrida armamentista” de Israel. Ele anuncia que serão desmanteladas as forças militares dos estados vizinhos (Amós 1,5.8b.14b; 2,2b) e sobretudo de Israel (Amós 2,13-16; 3,11b; 5,2-3; 6,13-14).
 
O profeta Amós denuncia duramente também as instituições religiosas que estão justificando o processo de extorsão de tributos da população camponesa (Am 4,4-5; 5,21-23). Pelo conluio com a opressão econômica a religião oficial também será dizimada (templos) e seus agentes (Am 5,27; 7,9; 9,1).
 
“Odeiem o mal e amem o bem: restabeleçam no portão a justiça!” (Am 5,15). “Aqui está a exigência positiva por excelência na profecia de Amós. Os israelitas são conclamados a reconstruir as relações sociais baseadas na justiça e no direito (mishpat / sedaqah – em hebraico). Só assim será possível escapar do juízo vindouro anunciado. O futuro de um “resto” passa pela prática de Justiça”[6]. O juízo abre caminho para a justiça. A presença dos profetas e profetizas no meio do povo deixa Javé livre de qualquer responsabilidade diante da punição que o povo merece.  Não precisa nem explicitar a atualidade da profecia de Amós. Que cada leitor/a faça as atualizações necessárias.
 
Notas:
 
[1] HAROLDO REIMER, Amós - profeta de juízo e justiça, em Os livros proféticos: a voz dos profetas e suas releituras, RIBLA 35-36, Ed. Vozes, Petrópolis e Ed. Sinodal, São Leopoldo, 2000, p. 171.
[2] Para melhor compreensão sugiro ler na Bíblia Am 4,4-13 (capítulo 4, versículos de 4 a 13) antes de prosseguir a leitura do nosso texto.
[3] Gato escaldado com água quente tem medo até de água fria, diz a sabedoria popular.
[4] Sugiro ler na Bíblia Am 7,1-17 antes de prosseguir a leitura do nosso texto.
[5] HAROLDO REIMER, Amós - profeta de juízo e justiça, em Os livros proféticos: a voz dos profetas e suas releituras, RIBLA 35-36, Ed. Vozes, Petrópolis e Ed. Sinodal, São Leopoldo, 2000, p. 188.
[6] HAROLDO REIMER, Amós - profeta de juízo e justiça, em Os livros proféticos: a voz dos profetas e suas releituras, RIBLA 35-36, Ed. Vozes, Petrópolis e Ed. Sinodal, São Leopoldo, 2000, p. 189.
 
Fonte: IHU Unisinos
Ilustração: Earth and All Stars

 
O papa Francisco realizou um emocionante discurso contra os abusos sexuais a crianças e adolescentes ao final da concelebração eucarística neste final de semana no Vaticano, na Itália.
 
Durante o encontro ‘A Proteção dos Menores na Igreja’, o pontífice da Igreja Católica reconheceu a gravidade dos abusos cometidos dentro do ambiente familiar, educacional e religioso. Mas celebrou, por outro lado, o fato dos casos estarem vindo à tona - e julgados em diversos âmbitos.
 
“Apenas em tempos relativamente recentes, se tornou objeto de estudos sistemáticos, graças à mudança de sensibilidade da opinião pública sobre um problema considerado tabu no passado, ou seja, todos sabiam da sua existência, mas ninguém falava nele. [...] De fato, as vítimas raramente desabafam e buscam ajuda. Por trás desta relutância, pode estar a vergonha, a confusão, o medo de retaliação, os sentimentos de culpa, os condicionalismos culturais e sociais, mas também a falta de informação sobre os serviços e as estruturas que podem ajudar. Infelizmente, a angústia leva à amargura, e mesmo ao suicídio, ou por vezes a vingar-se, fazendo o mesmo. A única coisa certa é que milhões de crianças no mundo são vítimas de exploração e de abusos sexuais”, explicou Francisco.
 
Em relação aos recentes casos denunciados dentro da Igreja, Francisco explicou que está diante do ‘mistério do mal’ e que medidas disciplinares e processos civis e canônicos devem ser aplicados aos abusadores. “A desumanidade do fenômeno, a nível mundial, torna-se ainda mais grave e escandalosa na Igreja, porque está em contraste com a sua autoridade moral e a sua credibilidade ética. O consagrado, escolhido por Deus para guiar as almas à salvação, deixa-se subjugar pela sua fragilidade humana ou pela sua doença, tornando-se assim um instrumento de satanás. Nos abusos, vemos a mão do mal que não poupa sequer a inocência das crianças. Não há explicações suficientes para estes abusos contra as crianças. Com humildade e coragem, devemos reconhecer que estamos perante o mistério do mal, que se encarniça contra os mais frágeis, porque são imagem de Jesus. É por isso que atualmente cresceu na Igreja a consciência do dever que tem de procurar não só conter os gravíssimos abusos com medidas disciplinares e processos civis e canônicos, mas também enfrentar decididamente o fenômeno dentro e fora da Igreja. Sente-se chamada a combater este mal que atinge o centro da sua missão: anunciar o Evangelho aos pequeninos e protegê-los dos lobos vorazes”, disse. 
 
O papa considerou uma ‘monstruosidade’ os abusos cometidos e vê a ira de Deus como reflexo. “Quero repetir aqui claramente: ainda que na Igreja se constatasse um único caso de abuso – o que em si já constitui uma monstruosidade –, tratar-se-á dele com a máxima seriedade. Irmãos e irmãs: na ira justificada das pessoas, a Igreja vê o reflexo da ira de Deus, traído e esbofeteado por estes consagrados desonestos. O eco do grito silencioso dos menores, que, em vez de encontrar neles paternidade e guias espirituais, acharam algozes, fará abalar os corações anestesiados pela hipocrisia e o poder. Temos o dever de ouvir atentamente este sufocado grito silencioso”, explicou. 
 
Para julgar e evitar os novos casos de abuso, a Igreja passará a adotar as ‘Boas Práticas’ formuladas pela Organização Mundial da Saúde, que aprovou um pacote de medidas chamado INSPIRE, que são estratégias para acabar com a violência contra as crianças. “Valendo-se destas diretrizes, a Igreja, no seu percurso legislativo, graças também ao trabalho feito nos últimos anos pela Comissão Pontifícia para a Tutela dos Menores e à contribuição deste nosso Encontro, concentrar-se-á sobre as dimensões: 1) A tutela das crianças; 2) Seriedade impecável; 3) Uma verdadeira purificação; 4) A formação; 5) Reforçar e verificar as diretrizes das Conferências Episcopais; 6) Acompanhar as pessoas abusadas; 7) O Mundo digital; 8) Turismo sexual”, pontuou.
 
Foto: Reprodução / Getty Images

 
O Senado aprovou um projeto de lei que impede, em qualquer caso, o casamento de pessoas menores de 16 anos (PLC 56/2018). Mas a proposta mantém a possibilidade de pais ou responsáveis de jovens com 16 e 17 anos autorizarem o casamento.
 
O PLC já havia sido aprovado pela Câmara e agora segue para a sanção do presidente, Jair Bolsonaro. A autoria do projeto é da ex-deputada federal Laura Carneiro (MDB-RJ).
 
Atualmente o Código Civil (artigo 1.520), mudado pelo projeto, permite o casamento de menores de 16 anos para se evitar imposição ou cumprimento de pena criminal, ou em caso de gravidez. A proposta aprovada exclui essa previsão.
 
O casamento para evitar pena criminal prevê pena de reclusão de 8 a 15 anos para pessoas maiores de 18 anos que tenham relações sexuais ou que pratiquem outro ato libidinoso com um menor de 14 anos.
 
Essa medida atende às recomendações da Organização das Nações Unidas (ONU). Segundo dados do Fundo das Nações Unidas para a Infância (Unicef), somente na última década foram evitados 25 milhões de casamentos de menores de idade.
 
De acordo com o relatório ‘Fechando a Brecha: Melhorando as Leis de Proteção à Mulher Contra a Violência’, divulgado em 2017 pelo Banco Mundial, a cada ano 15 milhões de meninas em todo o mundo se casam antes de completar 18 anos.
 
E o Brasil ocupa uma posição alarmante na lista: em números absolutos, é o primeiro país no ranking de casamentos infantis da América Latina e está em quarto lugar no pódio mundial.
 
Texto: Isabela Alves
Foto: Getty Images

 
A Igreja da Inglaterra, anglicana, convocou uma reunião, na última semana, com investidores do ramo da mineração. Na pauta, medidas que precisam ser tomadas, em todo o mundo, com relação à segurança de barragens de rejeitos. A coalizão exigiu um sistema de classificação pública independente  para barragens de rejeitos, que contêm subprodutos da mineração.
 
O pedido para a realização do encontro veio depois do rompimento da barragem da Vale em Brumadinho, no Brasil. Pelo menos 169 pessoas morreram no desastre; 141 ainda não foram encontradas.
 
Houve questionamentos sobre a segurança dessas barragens, pois suas paredes são geralmente construídas de resíduos enlameados ao invés de material sólido.
 
Os investidores presentes fizeram a seguinte proposta: que o novo sistema de classificação seja independente e requeira auditorias anuais de todas as barragens de rejeitos, bem como a verificação de que os mais altos padrões de segurança estão sendo implementados. 
 
O bispo de Birmingham, David Urquhart, presidirá uma reunião de investidores, especialistas de renome e líderes da indústria em Londres, no dia 4 de abril, para determinar os próximos passos.
 

 
Uma pintura religiosa que acredita-se ter sido feita por um cristão japonês há cerca de 400 anos foi descoberta na província de Kanagawa, no Japão.
 
A pintura foi encontrada em um museu memorial na cidade de Oiso. A instalação é conhecida por sua coleção de itens históricos relacionados aos cristãos japoneses.
 
Representantes de um museu de história e especialistas examinaram a pintura e disseram que ela foi feita com tinta chinesa em um pergaminho de 22cm de diâmetro por 3m de comprimento de papel japonês washi.
 
A obra retrata 15 cenas relacionadas a Jesus e Maria, incluindo a Anunciação e o Pentecostes.
 
A pintura também exibe algumas partes escritas. Uma análise mostra que os escritos são orações latinas que alguém transcreveu de uma forma verbal.
 
As palavras “o ano de 1592” aparecem no fim do pergaminho. Segundo especialistas, é altamente provável que a pintura foi feita naquele ano. O Cristianismo chegou ao Japão 40 anos antes. Especialistas acreditam que cristãos japoneses da época reproduziram pinturas da religião ocidental para uso em suas orações.
 
Essa é a primeira descoberta de uma pintura religiosa feita em estilo tradicional japonês.
 
O vice-diretor do museu de história que analisou a pintura, Osamu Inoue, disse que o trabalho é considerado uma das pinturas mais antigas feitas por um japonês cristão.
 
Ele também acredita que essa seja a primeira a ser encontrada que inclui orações e que é uma descoberta significativa a qual diz muito sobre a vida religiosa de pessoas comuns na época.
 
Fonte: NHK World
Foto: Reprodução NHK World

 
Quinto país que mais mata mulheres no mundo, de acordo com números da OMS (Organização Mundial da Saúde), o Brasil pode piorar seus indicadores de feminicídio com a flexibilização do uso de armas de fogo. Dados analisados por especialistas mostram que a liberação de armamentos pode aumentar a vulnerabilidade em casos de violência doméstica e que, dificilmente, as mulheres conseguirão se defender de agressões.
 
Decreto assinado nesta terça-feira (15) pelo presidente Jair Bolsonaro prevê que a “efetiva necessidade” para posse de arma concedida pela Polícia Federal irá abranger proprietários rurais e de estabelecimentos comerciais, agentes de segurança e moradores de unidades federativas que tenham índices anuais de mais de 10 homicídios por 100 mil habitantes, conforme os dados de 2016 do Atlas da Violência 2018. Todos os estados e o Distrito Federal se encaixam nesse critério. O texto não muda regras para porte de arma.
 
Na avaliação de especialistas que atuam na área, defensores do armamento desconhecem fatores do cenário de violência contra mulher, como o perfil das vítimas e dos agressores e as fragilidades da rede de assistência, incluindo falhas no atendimento nas delegacias e na fiscalização de medidas protetivas e número insuficiente de casas de abrigo.
 
O entendimento é que a maior permissividade irá colocar uma arma à disposição de um agressor em potencial.
 
“As estatísticas de violência contra a mulher são reveladoras de quanto o espaço doméstico é inseguro para as mulheres em geral e é o ambiente por excelência onde a mulher é vitimada. A expectativa em relação a essa alteração é a pior possível”, afirmou a advogada criminal e de direito da mulher Maira Pinheiro, da Rede Feminista de Juristas ao HuffPost Brasil.
 
Mulheres vítimas de armas
 
De acordo com o “Mapa da Violência 2015: homicídio de mulheres no Brasil”, houve um aumento da violência contra a mulher nos últimos anos. Foram 21% de crescimento de mortes em uma década até chegar a 13 homicídios femininos diários em 2013. O patamar coloca o Brasil com uma taxa de 4,8 homicídios por cada 100 mil mulheres.
 
Embora homens sejam mais frequentemente vítimas de armas de fogo do que mulheres, esse tipo de arma é o meio mais usado nos 4.762 homicídios de brasileiras registrados em 2013, segundo o estudo. Foram 2.323 casos, o equivalente a 48,8%, seguido por objeto cortante/penetrante (25,3%), objeto contundente (8%), estrangulamento/sufocação (6,1%) e outros (11%).
 
Como não se sabe a motivação de todos os registros, não é possível dizer que todos são casos de feminicídio - homicídio de mulheres cometido em razão do gênero, ou seja, quando a vítima é morta por ser mulher. O delito passou a ser tipificado desde 2015, quando a pena para esse tipo de agressão passou a ser maior do que a do homicídio comum.
 
As pouco mais de 2.300 mortes de mulheres por armas de fogo e o percentual em torno de 49%, considerando o total de registros, se mantiveram estáveis entre 2012 e 2016, segundo dados do Datasus.
 
Já os casos em que esses óbitos ocorreram em domicílio, o que pode indicar violência doméstica, oscilaram neste período. Em 2016, as 560 brasileiras mortas por armas em casa representavam 40,2% das mortes em domicílio.
 
Um estudo do Ministério Público de São Paulo, por sua vez, mostra que a arma de fogo é o segundo meio mais usado em feminicídios (17%), atrás de faca, foice e canivete (58%), e a frente de instrumentos domésticos (11%), das mãos (10%) e de outros meios (4%).
 
A pesquisa “Raio-x do feminicídio em São Paulo: é possível evitar a morte” foi feita a partir da análise de 364 denúncias de morte violenta de mulher em 161 cidades do estado de São Paulo entre março de 2016 e março de 2017.
 
Menos armas, menos crime
 
O feminicídio é considerado a última etapa do ciclo da violência. Em geral, ocorre após a mulher sofrer outros tipos de agressões. Por esse motivo, outros indicadores podem ser impactados com a flexibilização de armas.
 
De acordo com o Relógios da Violência, do Instituto Maria da Penha, a cada 16,6 segundos uma mulher é vítima de  ameaça com faca ou arma de fogo no Brasil. E a cada 2 minutos, uma mulher é vítima de arma de fogo.
 
Na avaliação de especialistas em segurança pública, estudos  apontam que a restrição é a política pública mais adequada para evitar mortes. O “Manifesto dos pesquisadores contra a revogação do Estatuto do Desarmamento” mostra que, em diversos países, a proliferação da arma de fogo aumenta o risco de feminicídios e outros tipos de mortes. O documento é assinado por 57 especialistas brasileiros e estrangeiros.
 
Já um estudo de 2014 do pesquisador Daniel Cerqueira, um dos coordenadores do Atlas da violência, publicado pelo Ipea (Instituto de Pesquisas Econômica Aplicada), mostrou evidências de que cada 1% no aumento da proliferação de armas de fogo faz com que a taxa de homicídio aumente em torno de 2% nas cidades.
 
Lei Maria da Penha e medidas protetivas
 
A Lei Maria da Penha prevê como medida protetiva de urgência a suspensão da posse e do porte de arma do agressor, mas não há como as delegacias da Polícia Civil saberem se ele tem o registro. A autorização é dada pela Polícia Federal e a integração entre os sistemas está prevista no Sistema Único de Segurança Pública, mas ainda não saiu do papel.
 
Para a criminalista Stela Valim, que atua em casos de violência doméstica, com o decreto, será necessário que a mulher forneça as informações sobre o companheiro ou ex-companheiro.
 
“Vamos precisar que as nossas polícias e o nosso Judiciário estejam muito mais atentos para essa questão. Vai ter de ser um protocolo obrigatório perguntar para a mulher em situação de violência se o companheiro tem arma em casa”, afirmou ao HuffPost Brasil.
 
Diante da fragilidade de fiscalização das medidas protetivas, a advogada destaca a importância da atuação da sociedade civil no tema. “Como sabemos que o atual governo tende a se preocupar menos com essa questão, os movimentos de defesa da mulher vão ter de fiscalizar fortemente os atendimentos realizados a essas mulheres, sempre orientando elas a não esconder o fato de que existe uma arma de fogo dentro de suas casas”, disse.
 
Presidente da Associação de Advogadas pela Igualdade de Gênero, Renata Amaral, avalia que, como as armas vão ficar na casa do cidadão, os crimes de natureza doméstica serão os primeiros em que essas armas serão utilizadas.
 
“Como já muito bem colocou a pesquisadora Débora Diniz, no debate sobre armas tem gênero, quando os defensores da flexibilização do uso de armas falam em ‘defesa do patrimônio’, do que tem ‘dentro de casa’, temos de ter em mente que as mulheres, ainda, são encaradas como objeto”, afirmou à reportagem.
 
Mulheres vão se defender com armas?
 
Para defensores da flexibilização do uso de armas, o acesso facilitado pode aumentar as chances de defesa das mulheres.
 
“Nesse caso a arma serve como esse amparo. Não é uma certeza, mas é uma possibilidade de poder se defender do crime de estupro e eventualmente alvejar o estuprador. Tentou estuprar uma mulher, fogo nele. Bala nele. Eu como mulher, não hesitaria em atirar num estuprador que tentasse me violar ou a qualquer um dos meus filhos. A ideia é que a gente possa se defender e não ser a vítima do crime”, afirmou ao HuffPost Brasil a deputada Joice Hasselmann (PSL-SP).
 
Também do partido de Jair Bolsonaro, a deputada Carla Zambelli (PSL-SP), vê a liberação da posse como um fator inibidor da criminalidade. “Não é só o fato de a mulher conseguir se defender porque pode portar uma arma. Hoje o ladrão ou estuprador sabe que ela não tem arma. Quando ele tem uma dúvida se ela tem ou não, a probabilidade de ele estuprar diminui”, afirmou à reportagem.
 
Na avaliação de especialistas, contudo, essas análises não consideram elementos ligados à realidade da violência contra a mulher.
 
“A grande realidade do Brasil como um todo continua sendo de que a mulher está em posição de desvantagem em relação ao homem. Ela tem menor (ou nenhuma) autonomia financeira, o que muitas vezes é um dos motivos que a impede de sair de uma situação de violência doméstica”, destaca a advogada Stela Valim. “Se ela não consegue sair de casa porque ainda não consegue bancar a si mesma e aos filhos, comprar uma arma vai ser prioridade? Claro que não.”
 
Além da limitação financeira, a especialista destaca outras barreiras de acesso às armas.
 
“Não faz parte da realidade das mulheres brasileiras esse estímulo bélico, esse incentivo a se armar e a agir em legítima defesa a todo custo. Num país em que ainda é cultural culpar a mulher pela violência que ela sofre, não parece condizente com o nosso contexto social que ela irá simplesmente sair de casa carregando uma arma na bolsa”, afirma.
 
A advogada Maira Pinheiro, por sua vez, ressalta critérios para que uma conduta seja entendida como defensiva. “Na legislação brasileira, para que a defesa seja entendida como legítima, deve se dar diante de uma agressão atual ou iminente. Essa noção pressupõe algum tipo de paridade entre agressor e vítima e a violência contra mulher, em regra, se dá entre duas pessoas que não estão em situação de paridade”, destaca.
 
Considerando a dinâmica do comportamento abusivo, a criminalista aponta como remota a chance de uma mulher nessa situação conseguir fazer um curso de tiro, por exemplo. ”É uma visão romantizada e descolada da realidade sobre o que é a violência contra a mulher”, afirma.
 
A presidente da Associação de Advogadas pela Igualdade de Gênero reforça o entendimento. De acordo com Renata Amaral, usar a arma para se defender ”é uma reação que se espera de quem está pensando no caso de um furto, roubo, em no que denominamos ’crimes da rua, e não em crimes 'de casa'”.
 
 
Armas podem evitar estupros?
 
Sobre os crimes sexuais, os dados mostram que, em geral, o agressor é uma pessoa conhecida da vítima, diferente da imagem de um “estuprador desconhecido em um beco escuro” citada por defensores do armamento.
 
“No geral, 70% dos estupros são cometidos por parentes, namorados ou amigos/conhecidos da vítima, o que indica que o principal inimigo está dentro de casa e que a violência nasce dentro dos lares”, de acordo com o estudo “Estupro no Brasil: uma radiografia segundo os dados da Saúde”, publicado pelo Ipea em 2014.
 
Segundo o Ipea, no mínimo 527 mil pessoas são estupradas por ano no Brasil e apenas 10% desses casos chegam ao conhecimento da polícia, devido ao estigma do crime. De acordo com o Fórum Brasileiro de Segurança Pública, em 2017 foram registrados 60.018 estupros no Brasil.
 
Nesse universo, a maior parte das vítimas são menores de idade e, portanto, não poderiam ter armas. De acordo com o Atlas da Violência 2018, 68% das vítimas de estupro são menores de idade, sendo 50,9% meninas menores de 13 anos e 27% entre 14 e 17 anos. “Ninguém consegue reagir tão tranquilamente nesse estilo ‘olha, um estuprador, deixa eu pegar a minha arma’. Esse fator, na verdade, só coloca essas jovens numa situação de risco ainda maior”, afirma Stela Valim.
 
Questionada sobre os menores, Joice Hasselmann afirmou que o decreto não é resposta para todos os crimes sexuais e defendeu que o abuso de menores seja abordado nas escolas.
 
“A liberação da posse da arma não é para resolver todos problemas do mundo, mas para ajudar a resolver alguns dos problemas envolvendo as mulheres. No caso das crianças, a gente tem que ir muito além disso. O primeiro foco é educacional. Muitas crianças abusadas sequer conseguem entender que estão sendo vítimas de violação”, afirmou.
 
Fotos: Reprodução / ASSOCIATED PRESS

 
Membros do CONIC no Agreste de Pernambuco, juntamente com jovens das igrejas que integram o Regional (Católica Apostólica Romana, Evangélica de Confissão Luterana e Episcopal Anglicana) se reuniram, no dia 16 de fevereiro, com representantes do Movimento dos Focolares – membro fraterno. 
 
O encontro abordou questões como: a caminhada ecumênica na Região; Semana de Oração pela Unidade Cristã, além do calendário de atividades que movimentarão as igrejas locais. 
 
A partir de um vídeo sobre o que é uma rede, presentes foram convidados a se juntar à rede ecumênica existente na região. Outra deliberação do dia foi a definição da celebração de encerramento da Semana de Oração no estado, que será no dia 9 de junho, quando haverá uma Jornada da Juventude na região.
 
O próximo encontro do Regional do Agreste de Pernambuco será a Assembleia para aprovação do Estatuto, no dia 9 de março, na Paróquia Luterana em Gravatá/PE.
 

 
Ela viveu um tempo em que sentir medo era regra. Em que defender ideais era considerado “subversão”. Passível de tortura. De morte. Não havia liberdade. Muito menos garantia de direitos. Durante os anos 1970, no auge ditadura militar, a socióloga Eliane Rolemberg, hoje com 74 anos, foi levada a uma prisão clandestina e, durante 20 dias, torturada. Em uma sala pequena, ela lembra, somavam-se oito algozes. “Um deles, tenente do Exército, que se dizia pertencer à Igreja Batista, lia trechos da Bíblia enquanto assistia”, conta em entrevista ao HuffPost Brasil. O inferno que viveu, embora nunca esquecido, construiu uma sobrevivente com sede de transformação.
 
Eliane fazia parte do grupo de estudantes que realizou uma ocupação na Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP) para fazer oposição à relação da Igreja Metodista com os Estados Unidos, e criticar publicamente os crimes cometidos pelo regime militar no Brasil. Eles não só realizavam ocupações, como também pesquisas acadêmicas. Todo o material era guardado na casa do tio de um dos estudantes, que descobriu e fez uma denúncia.
 
"Posso dizer que os direitos humanos são o foco da minha vida."
 
“Jogaram-nos em um carro e nos conduziram para um lugar que depois fui descobrir que era o presídio Tiradentes, que hoje foi demolido. Soube que esse lugar era uma prisão ilegal, e eles poderiam desaparecer com as pessoas, fazer o que quisessem… Para lá levavam muitos dos que deveriam desaparecer. Fomos recebidos por homens furiosos formando um corredor, conhecido como corredor polonês. Todos nos dirigiam palavras de baixo calão, nos davam socos e pontapés. Depois também fiquei sabendo que a prisão fez parte da Operação Bandeirante”, conta Rolemberg.
 
Conhecida como Oban, a Operação Bandeirantes foi criada em 1969 tinha como objetivo investigar e desarticular grupos entendidos como “facções revolucionárias comunistas”, que em sua maioria faziam oposição ao governo. Exatamente o tipo de característica que o grupo de estudantes a qual a socióloga fazia parte continha na visão dos militares. A organização também contava com  o apoio de setores da sociedade civil e tornou-se contou com setores da sociedade civil e, assim, tornou-se um pólo de arbitrariedades e violação dos direitos fundamentais à época.
 
"Sempre que alguém saía para interrogatório cantávamos transmitindo esperança e acolhimento na volta."
 
Rolemberg ficou presa na mesma cela que a maranhense Damaris Lucena, operária e ativista brasileira. Lucena, junto com os filhos, presenciou o assassinato do marido. Em seguida, também foi presa e torturada. “Ela estava desesperada. Pra ela era um certo alívio saber que eu estava lá, porque eles [torturadores] se ocupariam me torturando e esqueceriam um pouco dela”, lembra Rolemberg, com pesar. “Sempre que alguém saía para um interrogatório cantávamos transmitindo esperança e acolhimento. Era o único jeito”, conta. 
 
Ela lembra que em um momento o pior torturador da prisão fez suposições sobre um resultado possível durante o regime.  “Se um dia as coisas virarem, o que vocês fazem comigo? Vocês vão me torturar?”, perguntou. Ela afirma que respondeu ser contra a tortura, e só esperava que ele se arrependesse.
 
Um tempo depois, a soltura de Damaris e de seus filhos ― que tinham sido encaminhados para o juizado de menores ― foi negociada. Exilada em Cuba, Lucena prometeu a Rolemberg que faria o possível para ajudá-la de alguma forma. “Eu só estou viva hoje graças a ela”, lembra em tom de gratidão. Lucena denunciou à imprensa cubana a prisão ilegal de Eliana, que, pouco tempo depois, foi transferida para outra prisão e que, quando liberta, se exilou na França.
 
"Agora, queremos ir além, com uma Comissão de Memória e Verdade."
 
Durante anos, Rolemberg morou na Europa e trabalhou junto à Divisão da Juventude, da UNESCO e também foi do Setor de Migrantes e Refugiados do Serviço Civil Internacional (SCI). Retomando o trabalho que tinha sido posto em cheque no Brasil, ela transformou sofrimento em luta, como tantas vezes são obrigadas a fazerem as vítimas de grandes opressões, e continuou dedicando sua vida à luta que considera sua missão.
 
 
Em 1979, com a Lei da Anistia, pôde, enfim, voltar ao Brasil. Morando no norte do País, ela acompanhou o que pode ser caracterizado como o renascimento da discussão sobre direitos humanos e democracia. Hoje, com 74 anos e o título de “cidadã bahiana” nas mãos, ela coleciona a participação em várias organizações não-governamentais, em especial na CESE (Coordenadoria Ecumênica de Serviço), que esteve à frente até 2013. A ONG se define como uma comunhão de igrejas cristãs que há 40 anos luta por direitos no Brasil.
 
“Podemos dizer que nós estivemos no nascedouro do movimento nacional dos direitos humanos no Brasil. Acompanhamos o movimento pela terra, o movimento por moradia, direito à cidade... e tudo isso, claro, tinha muita relação com os direitos sociais”, afirma. ”A ideia de que lutar por direitos humanos é defender bandido foi muito bem orquestrada, mas é mentirosa. O ‘anti-esquerdismo’ nasceu quando o povo passou a fazer parte do governo. Direitos humanos não são uma pauta de esquerda, são uma pauta de todos.”
 
 
Texto: Nathali Macedo
Imagem: Juh Almeida
Edição: Andréa Martinelli
Figurino: C&A
 
Realização: RYOT Studio Brasil e CUBOCC
 
O HuffPost Brasil lançou o projeto Todo Dia Delas para celebrar 365 mulheres durante o ano todo
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