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Uma conjunção de forças populares lotou, nesta quarta-feira (4), o maior auditório da Câmara dos Deputados, em Brasília (DF), na abertura do Seminário em Defesa da Soberania Nacional e Popular. Organizado pelas Frentes Brasil Popular (FBP) e Povo sem Medo, o evento, com programação durante todo o dia, marca o lançamento da Frente Popular e Parlamentar em Defesa da Soberania Nacional, que congrega múltiplos atores, entre deputados, senadores, partidos políticos, movimentos populares, igrejas, ONG e outras instituições.
 
Com a participação de mais de 300 pessoas, entre elas a vice-presidente do CONIC, Anita Wright (foto acima), o lançamento teve como ponto alto a apresentação de um manifesto coletivo pela soberania nacional. O documento diz que "a nação está de joelhos" e reforça o combate ao neoliberalismo endossado pelo governo do presidente Jair Bolsonaro (PSL) e à política externa da gestão, marcada pela aproximação crescente entre Brasil e Estados Unidos, país comandado pelo líder de extrema direita Donald Trump.
 
O manifesto também ressalta a defesa do patrimônio nacional, com destaque para a Amazônia, os bancos públicos e estatais como Petrobras, Eletrobras e Casa da Moeda, hoje na mira do ministro da Economia, Paulo Guedes, e aliados.  
 
“Um Brasil soberano exige a garantia de proteção social à população. É o contrário do que assistimos hoje com a revogação dos direitos trabalhistas, a redução sistemática do salário real e a proposta aprovada pela Câmara dos Deputados que vai destruir o regime público de aposentadoria. Seremos verdadeiramente soberanos com a implementação de políticas públicas que gerem renda e emprego, combatam as desigualdades sociais e regionais e permitam um futuro melhor para toda a nação”, argumentou o ex-senador Roberto Requião, ao ler o documento.
 
Temas como inclusão social, preservação do meio ambiente, autodeterminação dos povos e fortalecimento da democracia também estão entre os interesses traçados pela nova frente, que pretende abraçar uma agenda de atividades junto a estados, municípios, escolas, igrejas e outros espaços para capilarizar o debate sobre os pontos que compõem o roteiro de lutas do grupo.
 
Os participantes também lembraram a valorização dos recursos naturais. Makota Celinha, representante das religiões de matriz africana, destacou que tais elementos ajudam a sustentar a vida do povo brasileiro e se relacionam diretamente com a temática da soberania.
 
“Solo é vida, água é vida, e precisamos compartilhar tudo isso para sermos cidadãos. Defender isso é defender a democracia e um Estado forte. Precisamos organizar a resistência em torno disso. Queremos um país com novos sistemas sociais, onde democracia seja uma realidade, liberdade um direito e equidade um fato”, bradou.
 
Articulação
 
Surgida em meio ao contexto de turbulência política que cerca o governo Bolsonaro, o movimento em defesa da soberania nacional resulta de uma costura que envolve lideranças políticas e populares nacionais do campo progressista.
 
Os presidentes partidários Gleisi Hoffmann (PT) e Carlos Lupi (PDT); o porta-voz nacional da Rede, Pedro Ivo; o ex-governador da Paraíba Ricardo Coutinho (PSB); e o líder do MTST Guilherme Boulos (Psol) celebraram a iniciativa e sublinharam que a aproximação seria mais um avanço na aglutinação das forças do campo.
 
“Isso é um bom caminho. O que pode mudar o curso da história que estamos vivendo é o povo na rua, e a proposta aqui é que possamos fazer atos nas ruas com o povo em cada uma das 27 unidades da Federação a partir de agora”, complementou o governador do Piauí, Wellington Dias (PT).
 
O lançamento atraiu também atores políticos como o senador Renan Calheiros (MDB-AL), a ex-senadora Vanessa Grazziotin (PCdoB), petroleiros, professores, além de um leque de entidades que compõem as frentes organizadoras ou atuam como parcerias. Entre elas, estão CUT, FUP, MST, MTST, Cimi, Apib, Fenaj, MAB e MAM.
 
 
Horizonte
 
Como desdobramento do evento desta quarta, as entidades e lideranças envolvidas na Frente Popular e Parlamentar em Defesa da Soberania Nacional já articulam um calendário de ações para divulgar as pautas que envolvem o movimento.
 
A composição de forças de diferentes matizes políticas que se aglutinam em torno da iniciativa é apontada pelos participantes do seminário desta quarta como o combustível necessário à continuidade da luta popular no Brasil.
 
“Nosso compromisso aqui é o de não perdermos a esperança”, ressaltou Anita Wright, vice-presidente do Conselho Nacional de Igrejas Cristãs do Brasil (CONIC).
 
Com informações do Brasil de Fato
Foto1: Divulgação - Jandira Feghali
Foto2: Reprodução da Rede Brasil Atual / Lula Marques

 
2019 foi ano de renovação na diretoria do CONIC. O pastor luterano Inácio Lemke, que era 1° Vice-Presidente na gestão anterior, assumiu a presidência. Além dele, há uma presbiteriana (Anita Sue Wright), um católico (José Bizon), um batista (Mayrinkellison Peres), além da anglicana Magda Guedes. Um time e tanto!
 
Dando continuidade à nossa série de artigos que apresentam cada um dos integrantes da nova diretoria, agora chegou a vez da reverenda Magda: O que ela pensa sobre o ecumenismo? Como foi ou tem sido a caminha dela com o próprio CONIC? Confira!
 
Biografia 
 
Magda Guedes nasceu em Sant’Ana do Livramento, Rio Grande do Sul, fronteira com Uruguai. É clériga da Igreja Episcopal Anglicana do Brasil (IEAB) desde 1996. Além da Teologia, a reverenda tem outra graduação: Pedagogia.
 
Foi Capelã da Escola Anglicana em Erechim (RS); desde sua ordenação atuou nas Dioceses anglicanas Sul-Ocidental (1996-2006), Paraná (2007-2010 ) e Brasília (2011 - março 2017). Atualmente reside na Diocese de Pelotas, onde, a partir de abril de 2017, abraçou a função de Pároca em duas Paróquias locais. Em 2018 aceitou outro desafio: a Secretaria Geral da IEAB.
 
O que você pensa sobre o Ecumenismo?
 
Ecumenismo é a oportunidade que temos de caminhar juntos, com outras denominações, sem perdermos a nossa identidade e procurando viver o “que sejamos um, para que o mundo creia” (Jo 17,21).
 
Estou na caminhada ecumênica desde muito cedo, pois iniciai participando de Grupos Ecumênicos ainda na minha juventude, e também coordenei alguns Grupos Regionais do CONIC em cidades onde residi como clériga, a partir do momento em que fui ordenada na IEAB. 
 
E sobre o CONIC?
 
O CONIC é uma instituição de grande importância na vida das igrejas cristãs, pois é o espaço onde podemos trabalhar juntos em diversos e emergentes temas de nossas realidades sociais e eclesiais, buscando sempre ser a voz profética nos diversos segmentos.
 
Já faz algum tempo que tenho caminhado com o CONIC em diversas Comissões e demais trabalhos; por exemplo, fiz parte do Conselho Fiscal até a última Assembleia, em maio deste ano (2019).
 
Fazer parte da atual diretoria é mais um desafio em meu ministério, pois temos o grande compromisso de seguir fortalecendo este Conselho, bem como a continuidade de todos os seus Projetos e Planejamentos.
 
(da esq. para a dir.: Bispa Marinez Bassotto, Rvda. Magda Guedes e Rvda. Dilce de Oliveira)
 
 

 
Quem visse na semana passada um grupo de indígenas dividindo peixes assados em folhas de bananeira numa aldeia à beira do rio Iriri, no sul do Pará, não poderia imaginar que, há algumas décadas, vários dos povos ali presentes viviam em guerra.
 
As rixas do passado – que quase levaram um desses grupos ao extermínio – foram abandonadas em nome de um objetivo maior: lutar contra o que eles consideram ameaças do governo Jair Bolsonaro à Amazônia.
 
A lista de preocupações inclui planos do governo para autorizar o arrendamento e a mineração em terras indígenas e atitudes que estariam incentivando invasões por garimpeiros e madeireiros em seus territórios, além da contaminação de rios locais por agrotóxicos.
 
Espécie de Assembleia Geral da ONU de povos da floresta xinguanos, o encontro que ocorreu na última semana na aldeia Kubenkokre, da Terra Indígena Menkragnoti, dos kayapós, reuniu representantes de 14 etnias indígenas e de quatro reservas ribeirinhas da bacia do Xingu.
 
A região, que ocupa partes do Pará e de Mato Grosso, tem área equivalente à do Rio Grande do Sul e é um dos últimos trechos preservados da Amazônia em sua porção oriental. Dados do boletim Sirad-X, porém, indicam que a região perdeu 68,9 mil hectares de floresta – equivalente à área de Salvador – entre janeiro e junho deste ano. O boletim é produzido pela Rede Xingu+, que organizou a assembleia e agrega 24 organizações ambientalistas e indígenas da região.
 
'Um só inimigo: o governo do Brasil'
 
"Hoje nós temos um só inimigo, que é o governo do Brasil, o presidente do Brasil, e as invasões de não indígenas", diz à BBC News Brasil Mudjire Kayapó, um dos líderes presentes. "Temos brigas internas, mas, para lutar contra este governo, a gente se junta", ele afirma.
 
A organização do encontro envolveu uma logística complexa. Indígenas deixaram suas aldeias rumo às cidades mais próximas, onde foram recolhidos por ônibus fretados.
 
Único veículo jornalístico não indígena a cobrir o evento, a BBC News Brasil iniciou a jornada em Sinop (MT). De lá, foram cerca de sete horas de ônibus pela BR-163 e outras sete numa estrada de terra em mata fechada até a aldeia, que tem cerca de 500 moradores.
 
 
Já no interior da terra indígena, uma vara de porcos-do-mato cruzou a pista à frente do ônibus. Avisados, caçadores kayapós foram ao local na manhã seguinte. Voltaram com três porcos, que acabaram assados e servidos aos visitantes junto com carne de paca.
 
O cardápio também oferecia arroz e feijão, incluídos para atender paladares mais sensíveis, além de peixes pescados no Iriri servidos em folhas de bananeira.
 
Os debates ocorreram na casa dos homens, construção no centro da aldeia, cercada por casas dispostas em um grande círculo. Conhecidas pelas delicadas pinturas corporais, as mulheres da aldeia raramente apareciam no encontro e passavam os dias entre as roças e suas casas – detalhe que gerou uma saia-justa com uma visitante ribeirinha.
 
Missão de paz
 
Povo indígena mais numeroso do Xingu, com cerca de 12 mil integrantes, os kayapós – que se autodenominam mebêngôkre – fizeram questão de sediar o evento, o primeiro encontro da Rede Xingu+, numa aldeia indígena (as três assembleias bienais anteriores foram em cidades).
 
Ao sediar a reunião, eles queriam selar de vez a paz com os vizinhos. "Não vamos repetir o passado, vamos ter união daqui para a frente", discursou Kadkure Kayapó, um dos caciques da aldeia.
 
Um dos resultados do evento foi a criação de um conselho entre as organizações participantes para unificar demandas e agilizar sua articulação política. Os kayapós também buscavam fortalecer alianças com outros grupos num momento em que o próprio povo está dividido.
 
Em duas das quatro terras indígenas da etnia, alguns líderes têm permitido a ação de garimpeiros e madeireiros. A situação é mais grave na Terra Indígena Kayapó, onde os rios Fresco e Branco foram contaminados por mercúrio e desfigurados por balsas e retroescavadeiras usadas pelos garimpeiros.
 
Em julho, uma reportagem da BBC News Brasil mostrou em imagens de satélite o avanço do garimpo na região desde o início do ano.
 
Assédio de garimpeiros
 
Para Doto Takakire, um dos anfitriões do evento, a proposta do governo de liberar a mineração em terras indígenas tornou alguns líderes mais suscetíveis ao assédio de garimpeiros, que oferecem dinheiro em troca da permissão para atuar nos territórios.
 
"Depois que eles (líderes indígenas) pegam o dinheiro fácil, viciam e não querem mais trabalhar. É algo humano: acontece com indígenas e não indígenas", afirma.
 
O garimpo é hoje proibido em terras indígenas. A liberação da atividade, tratada pelo governo Bolsonaro como prioritária, depende da aprovação de uma lei pelo Congresso.
 
Outra causa para o aumento do garimpo, segundo Takakire, foi a diminuição nas multas aplicadas pelo Ibama, órgão responsável por combater crimes ambientais em terras indígenas. Até o meio de agosto, o número de autuações do órgão caiu 30% em relação à média dos últimos três anos para o mesmo período.
 
Em entrevista à BBC, o ministro do Meio Ambiente, Ricardo Salles, disse que a redução no número de multas não indica um afrouxamento do combate a ilícitos. Segundo Salles, o Ibama tem buscado embasar mais suas autuações para que os infratores não consigam se livrar das cobranças, priorizando a qualidade e não a quantidade de multas.
 
Divisões causadas pelo garimpo
 
Líderes indígenas favoráveis ao garimpo não foram convidados para o encontro, decisão que foi questionada por alguns dos presentes.
 
"Aqui só temos parentes que lutamos pelo meio ambiente, pela terra, pela água, mas não tem nenhum parente que quer o agronegócio ou o garimpo nas aldeias. Vamos ficar só debatendo entre nós?", questionou Oé Kayapó, representante da Associação Floresta Protegida (AFP).
 
Ela cobrou dos participantes convencer os ausentes a abandonar atividades destrutivas. "Vamos continuar brigando pela preservação do território enquanto outros brigam para ter garimpo e arrendamento de terra? Isso nos enfraquece, não dá para continuar assim", afirma.
 
Organizadores disseram que os grupos divergentes não foram convidados para evitar conflitos.
 
Tramitam na Câmara dos Deputados propostas legislativas que permitiriam atividades agropecuárias de larga escala em terras indígenas.
 
Defensores das iniciativas, que também têm o respaldo do governo Bolsonaro, dizem que as medidas buscam garantir melhores condições de vida às comunidades.
 
Já indígenas contrários temem que as medidas abram o caminho para o arrendamento de suas terras para grandes produtores rurais, o que ameaçaria seus modos de vida.
 
Eles debateram no encontro alternativas econômicas ao agronegócio e à mineração. Foram compartilhadas experiências bem-sucedidas e dificuldades de iniciativas que buscam gerar renda sem derrubar a floresta, como o artesanato e o processamento de frutos nativos.
 
Tradução simultânea
 
O encontro, que durou três dias, reuniu etnias com vários idiomas distintos e teve duas línguas oficiais. Todas as falas em kayapó eram traduzidas para o português, e vice-versa.
 
Alguns visitantes compreendiam o kayapó por falarem idiomas do mesmo tronco linguístico, o macro-jê, enquanto os demais recorriam ao português, que a maioria dos grupos fala como segunda língua. Além dos múltiplos idiomas, ouviam-se os cantos de araras domesticadas, que vez ou outra pousavam sobre a casa dos homens.
 
O discurso que causou mais comoção foi feito por Bepto Xikrin, liderança da Terra Indígena Trincheira Bacajá, no Pará.
 
Ele contou que, desde o início do ano, cerca de 400 garimpeiros e madeireiros estavam atuando no território. Bepto disse que as comunidades estavam assustadas e não sabiam como agir. De pronto, dois caciques kayapós se levantaram e prometeram enviar guerreiros para expulsar os invasores, recebendo aplausos de todos.
 
Outro momento simbólico foi a apresentação de cantos e danças dos convidados, no último dia. Para a primeira exibição, os kayapós convocaram representantes do povo panará: justamente um dos grupos com que eles guerrearam mais intensamente no passado.
 
Com os corpos pintados de jenipapo, os quatro panarás entoaram um canto gutural, saltando conforme o ritmo. Aplausos calorosos dos kayapós sugeriam que as rivalidades entre os grupos podem ter ficado para trás.
 
'Morreu todo mundo'
 
No relatório que embasou a demarcação da Terra Indígena Panará, a Funai diz que o primeiro embate entre os dois povos ocorreu em 1922, quando os kayapós atacaram uma aldeia panará. Os panarás contra-atacaram no ano seguinte, alimentando um ciclo de revides que se estenderia até 1968, quando um massacre alterou o equilíbrio de forças na região.
 
O antropólogo americano Stephan Schwartzman, que viveu entre os panarás, narrou o episódio num artigo de 1992. Ele diz que, antes do grande ataque de 1968, os kayapós já vinham usando armas de fogo obtidas dos brancos na guerra contra os panarás, que, ainda sem contato com o mundo exterior, respondiam com flechas.
 
Naquele ano, conta Schwartzman, os kayapós "fizeram questão de juntar o maior número possível de armas e munição, inclusive obtendo munição com o missionário que morava com eles na época". Os kayapós subiram o rio Iriri até a aldeia Sonkanasan, dos panarás, incendiando todas as casas e matando 26 pessoas.
 
Uma sobrevivente descreveu a chacina ao antropólogo. "Morreu todo mundo, meu pai e tios... Mataram meu marido... Mataram meu irmão mais velho, Peyati, meu filho Yosuri, meu irmão Kyotiswa, mataram minha mãe... Mataram meu sobrinho Nasu, era menino, mataram Sotare, que era adulto, mataram Kyititu... e o velho Kosu, mataram... Os Txurracamãe (kayapós) massacraram esse pessoal, por isso estou com raiva."
 
Os sobreviventes deixaram a aldeia e se embrenharam na mata. Anos depois, outra tragédia se abateu sobre o grupo quando o território panará foi cortado pela BR-163, uma das estradas com que a ditadura militar pretendia integrar a Amazônia ao resto do país.
 
Para tirá-los do caminho e evitar conflitos ainda mais graves, o governo enviara à região uma missão chefiada pelos irmãos Cláudio e Orlando Villas Boas, que já tinham contatado vários grupos indígenas Brasil afora.
 
Tentativas infrutíferas de contato duraram vários anos, até que, em 1972, enquanto os operários se aproximavam da aldeia panará, uma epidemia de gripe se espalhou pela comunidade. "Morreram tantas pessoas que os sobreviventes não foram suficientes ou não tinham força suficiente para enterrá-las, e os urubus comeram os mortos apodrecendo no chão", narra Schwartzman.
 
Famintos e doentes, os cerca de 200 remanescentes foram levados para o Parque Indígena do Xingu, ao sul. Em 1997, os panarás conseguiram regressar a uma parte de seu território original às margens da BR-163. Desde então, com a demarcação da área, a população do grupo triplicou.
 
Aliança contra os brancos e Bolsonaro
 
Dois líderes panarás presentes disseram à BBC que os conflitos com os kayapós foram superados.
 
"Nós matamos os kayapó, os kayapó nos mataram, nós brigamos com os kayabi, mas não sabíamos ainda o que estava acontecendo sobre o branco, não sabíamos dessa ameaça ainda", diz Sinku Panará em sua língua, traduzido por João Paulo Denófrio, doutorando em Antropologia pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ).
 
"Então esfriamos a cabeça, nos reconciliamos, voltamos a conversar uns com os outros e não vamos mais brigar. Porque existe um interesse comum para que lutemos juntos, para que os não indígenas não matem a todos nós", ele afirma. Sinku diz que a vitória de Bolsonaro encorajou uma aproximação ainda maior entre grupos indígenas que eram inimigos.
 
"Os outros presidentes tinham uma preocupação um pouco maior com as nossas terras (...). Este que chegou agora (Bolsonaro), ele não está preocupado com isso, ele está preocupado em acabar com o que a gente tem e acabar com a gente. Por isso estou com o coração cheio, por isso estamos conversando uns com os outros."
 
Sinku diz estar preocupado "com as árvores, com a água, com o peixe, com os não indígenas que querem entrar na nossa terra em busca dessas coisas". "Não quero estragar a água com garimpo, com mineração, não quero matar os peixes. Por isso que vim aqui: para fazer esta fala."
 
Vários outros líderes expressaram receios semelhantes. Grupos que habitam áreas no sul da bacia, em Mato Grosso, disseram temer a contaminação dos rios por agrotóxicos usados em fazendas vizinhas.
 
"A soja está muito em cima do nosso limite (territorial)", diz Winti Khisetje, um dos líderes da Terra Indígena Wawi. Ele diz que têm aumentado os casos de gripe, febre e coceiras na comunidade, o que ele atribui a agrotóxicos aplicados na região.
 
Segundo a ONG Greenpeace, nos sete primeiros meses de 2019, o Ministério da Agricultura liberou 290 novos tipos de agrotóxico. É o número mais alto para este período do ano em pelo menos uma década.
 
O Ministério da Agricultura diz que a liberação de mais agrotóxicos não tem provocado aumento no consumo. "Com a liberação de mais moléculas, o produtor vem usando menos, porque está usando produtos melhores", disse em julho a ministra da Agricultura, Tereza Cristina.
 
Tema que dominou o noticiário nacional na semana do encontro, as queimadas na Amazônia não estiveram entre os assuntos principais do evento - em parte porque a maioria dos incêndios na região tem ocorrido fora de terras indígenas e reservas extrativistas. Nessas áreas, as matas estão mais preservadas e, portanto, menos sujeitas à expansão do fogo.
 
Indígenas e ribeirinhos
 
O encontro também serviu para aproximar os kayapós e os demais indígenas xinguanos de outra população com que se estranhavam no passado: os ribeirinhos.
 
Uma das representantes do grupo era a pescadora Rita Cavalcante da Silva, de 47 anos, que visitava uma terra indígena pela primeira vez.
 
"Eu imaginava, mas não tinha dimensão do que era realmente uma terra indígena. É muito bonito, muito organizado, muito tradicional", ela disse à BBC.
 
Moradora das margens do lago formado pela hidrelétrica de Belo Monte, em Altamira (PA), Silva afirmou que ribeirinhos e indígenas têm culturas parecidas.
 
"Vivemos do rio, temos aquele contato com a terra, necessitamos de estar na terra, sobrevivemos do peixe, da mata. Isso criou vínculos fortes entre as duas populações", afirma.
 
Outra ribeirinha presente, Liliane Ferreira, 26 anos, da Reserva Extrativista Rio Iriri, diz que temia indígenas na infância.
 
Como muitos ribeirinhos, Ferreira tem sangue nordestino, bisneta de maranhenses que migraram para a Amazônia para trabalhar como seringueiros. Ela diz ter crescido ouvindo a avó contar histórias de índios que raptavam mulheres e crianças ribeirinhas.
 
"Uma vez ela estava caçando tatu e tentaram pegar ela", conta Ferreira. "Quando diziam 'tem índio solto aí', eu ficava com medo."
 
Ela afirma que a desconfiança se dissipou conforme passou a lutar ao lado de indígenas por causas comuns. Mas isso não a impediu de cutucar os anfitriões kayapós ao notar a fraca presença feminina no encontro.
 
"Eu perguntei: 'vem cá, por que suas mulheres não participam das reuniões?' Eles disseram que não pode, que só pode se os maridos permitirem. Achei curioso, porque, entre os ribeirinhos, nós estamos lá metidas no meio, não queremos sair da frente", diz Ferreira.
 
No fim do evento, quando os kayapós convocaram os demais participantes a se agrupar para gravar um vídeo, Ferreira titubeou. Primeiro ficou dentro da casa dos homens, até ser chamada insistentemente pelos indígenas e outros ribeirinhos.
 
No fim, juntou-se ao grupo e até acompanhou a dança kayapó na festa de encerramento, que se esticaria até tarde da noite, agora com forró nordestino do repertório ribeirinho.
 
Fonte: BBC Brasil
Fotos: Reprodução (Lucas Landau/Rede Xingu)

 
A Christian Aid realiza, nos dias 5 e 6 de setembro, um seminário que debaterá o tema “Injustiças e Desigualdades no Brasil Hoje: desafios teológicos e respostas de fé”. A ideia do evento não é só abordar os problemas, mas também pensar alternativas que nascem com movimentos sociais, teólogos e teólogas.
 
A seguir, leia o release da Christina Aid na íntegra:
 
Injustiças e Desigualdades no Brasil Hoje: desafios teológicos e respostas de fé
 
As queimadas recentes na Amazônia escancararam para o mundo as atrocidades sendo cometidas no Brasil hoje. Conflitos ambientais, ataques aos defensores de direitos humanos, aumento da violência e da desigualdade serão temas abordados no seminário “Injustiças e desigualdades no Brasil hoje: desafios teológicos e respostas de fé” nos próximos dias 5 e 6 de setembro em São Paulo. Organizado pela Christian Aid , o evento será um espaço de debate movimentos sociais e teologos para buscar  inovadoras respostas ecumênicas ao retrocesso de direitos e controle dos recursos naturais no Brasil. 
 
Este encontro é parte de uma iniciativa para reforçar o trabalho das organizações baseadas na fé em sua atuação pela justiça social, pensando em qual teologia apoia uma ação frente as desigualdades no país. No dia 5 de setembro, Dia da Amazônia, receberemos representantes da Rede Pan-Amazônica (REPAM), do Movimento dos Atingidos por Barragens (MAB) e da Open Society Foundation, para debater com a teóloga da Christian Aid Nancy Cardoso sobre as respostas proféticas diante da crescente injustiça e desigualdades.
 
No dia 6 de setembro, nomes como o do Pastor Ricardo Gondim, Fabio Py, Yuri Orozco, Fellipe dos Anjos, Bianca Daebs, representantes do CONIC, Frente dos Evangelicos pelo Estado de Direito, MAB, MST, SOF, Koinonia estarão em dialogando sobre acesso à água, território e recursos naturais, violência e autoritarismo, agregando as perspectivas dos movimentos às respostas teológicas atuais. 
 
O encontro é aberto ao público, mediante inscrições prévias, e acontecerá na Paróquia Santíssima Trindade - IEAB (Praça Olavo Bilac, 63 - Campos Elíseos).
 
Confira a programação completa e faça sua inscrição no link abaixo. 
 
 
Christian Aid é a agência oficial de 41 igrejas protestantes do Reino Unido e na Irlanda, que acredita que o mundo pode mudar para um mundo sem pobreza e desigualdades. Na América Latina, apoia iniciativas como desenvolvimento sustentável, justiça de gênero e direitos dos povos indígenas.

 
Com uma carta aberta para a toda sociedade em que convocam a todos para a sintonia com o Sínodo e o cuidado com a Amazônia, termina o encontro dos bispos e lideranças da Igreja da Amazônia. Realizado no Centro de Espiritualidade Monte Tabor, da Arquidiocese de Belém, o evento teve como objetivo o estudo e preparação dos padres sinodais para a grande assembleia em outubro, no Vaticano. Cerca de 120 pessoas, entre padres, bispos, leigas e leigos e religiosos estiveram no encontro que começou na última quarta-feira (28).
 
Coordenado pelo Cardeal Cláudio Hummes, presidente da Comissão Episcopal Especial para Amazônia/CEA da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil/CNBB, da Rede Eclesial e relator nomeado para o Sínodo, juntamente com Dom Davi Martinez de Aguirre Guiné, bispo de Puerto Maldonado, no Peru, e Padre Michael Czerny, subsecretário da Seção Migrantes e Refugiados para o Serviço de Desenvolvimento Integral Humano do Vaticano, nomeados secretários do Sínodo para a Amazônia, as atividades ao longo dos três dias oportunizaram aos participantes o estudo do Documento de Trabalho do Sínodo por meio de palestras, orações e grupos de trabalho.
 
Ao final da atividade, Dom Alberto Taveira, arcebispo metropolitano de Belém, agradeceu a todos a participação na atividade. O Cardeal Cláudio Hummes lembrou os bispos do compromisso e responsabilidade que têm na assembleia em Roma, em outubro. “Vamos com coragem e paixão”, afirmou o Cardeal. Dom Mário Antônio, vice-presidente da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil lembrou os participantes sobre a essência do Sínodo: “Quando se quer chegar rápido, se anda sozinho. Quando se quer chegar longe, vamos juntos”, destacou Dom Mário. E completou: “Que o pós-Sínodo seja Amazônico e grandioso, não pelo tamanho, mas pela intensidade e profundidade”, finalizou.
 
Sobre o encontro
 
Para Dom Zenildo Pereira, da Prelazia de Borba/AM, a atividade possibilitou o encontro e o reencontro dos pastores e lideranças de toda a Amazônia brasileira, numa celebração e comunhão de tudo o que foi realizado na caminhada em preparação ao Sínodo. “Os sonhos, as angústias e as urgências pastorais para, à luz do Espírito Santo, encontrar caminhos novos para isso”, disse Dom Zenildo avaliando positivamente a atividade de Belém.
 
A atividade de estudos foi a última oportunidade de encontro da Igreja da Amazônia antes do Sínodo, em outubro. Para Dom Antônio de Assis, bispo auxiliar de Belém, foi uma atividade muito fraterna, profunda, num clima de grande liberdade, de sinceridade, de autenticidades na apresentação dos diversos temas que envolve a vida pastoral da Igreja. “Nós não tomamos decisões, foi uma experiência de discernimento, de apresentação de diversos horizontes e preocupações e eu creio que nós ganhamos com esse processo de crescimento, de estudo, de envolvimento e de maior convicção sobre a necessidade desse evento tão importante”, destacou Dom Antônio sobre a preparação para o Sínodo.
 
Dom Sebastião Lima Duarte, bispo de Caxias/MA lembrou da particularidade do encontro de Belém, que antecipa a ida dos padres sinodais para Roma. “Foi um momento bom para nos debruçarmos sobre o Documento de Trabalho, diferente do que estávamos fazendo nas dioceses e prelazias, com uma leitura coletiva e a possibilidade de trocas de ideias e de afunilar as propostas para levarmos ao Sínodo”, pontuou o bispo de Caxias/MA.
 
Lideranças leigas, religiosas e padres também participaram do encontro. Margarida Chaves, das pastorais sociais da diocese de Imperatriz/MA esteve na atividade e destacou a importância da voz do povo junto aos bispos nesse último momento de preparação, antes do Sínodo. “As nossas propostas, de fato, vão para o Sínodo e esperamos que os bispos discutam sobre elas. O Sínodo vai trazer, sim, novos horizontes para o nosso trabalho pastoral, principalmente considerando a questão da ecologia integral, da participação das mulheres e o reconhecimento dos povos indígenas enquanto atores da própria caminhada pastoral”, enfatizou Margarida.
 
O pastor luterano Inácio Lemke, presidente do Conselho Nacional das Igrejas Cristãs do Brasil (CONIC), participou de todo o encontro. Para ele, pensar a Amazônia e o processo de evangelização no território é algo que precisa ser feito coletivamente. “O CONIC espera que se firme mais ainda esse compromisso ecumênico na região”, destacou o pastor sobre a expectativa em relação aos resultados do Sínodo para a Amazônia.
 
Compromisso reafirmado
 
Na carta elaborada pelos participantes do encontro, bispos e lideranças reafirmaram o compromisso com a defesa e cuidado com a vida dos povos e de toda a floresta. “Defendemos vigorosamente a Amazônia, que abrange quase 60% do nosso Brasil. A soberania brasileira sobre essa parte da Amazônia é para nós inquestionável”, afirmam na carta.
 
No texto, há também uma manifestação da preocupação da Igreja para com a degradação do meio ambiente. “Ficamos angustiados e denunciamos o envenenamento de rios e lagos, a poluição do ar pela fumaça que causa perigosa intoxicação, especialmente das crianças, a pesca predatória, a invasão de terras indígenas por mineradoras, garimpos e madeireiras, o comércio ilegal de produtos da biodiversidade”, denunciam na carta.
 
 
Fonte: Repam
Foto: Reprodução

 
O que cem anos atrás parecia algo impensável na Irlanda do Norte poderá se tornar realidade em pouco tempo: o número de católicos deve ultrapassar o de protestantes em 2021. Historicamente, os católicos lutaram pela independência da Irlanda, enquanto os protestantes – a maior parte presbiterianos – se congregaram no norte da ilha, optando por manter os laços com o Reino Unido.
 
Segundo o último censo, realizado em 2011, os protestantes superavam os católicos em 3%. Os números mais recentes mostram que em todas as faixas etárias os católicos superam os protestantes, exceto entre os maiores de 60 anos. Já entre as crianças em idade escolar, a diferença é maior: 51% delas são católicas e 37% protestantes.
 
Segundo o doutor Paul Nolan, que estuda tendências sociais da Irlanda do Norte, isso não significa que o país deva se preparar para novos anseios de independência do Reino Unido. As disputas religiosas foram, por muito tempo, parte da história da Irlanda do Norte, que incluíram enfrentamentos entre católicos e protestantes entre as décadas de 1960 e 1990.
 
CONIC com agências
Foto: Catedral de São Patrício, Irlanda do Norte

 
No calor da tragédia vivida com os incêndios criminosos na Amazônia, cristãos católicos e evangélicos criaram a campanha #PrayforAmazonia (Ore pela Amazônia). Atitude importante e solidária na cultura religiosa, mas é sempre bom ressaltar que sem ação decorrente e sem conversão (mudança de atitude), orações reduzem-se a uma fala vazia.
 
Nesse processo é preciso reconhecer que a humanidade se tornou, ao longo da história, a própria ameaça da Terra, sua Casa Comum, por meio da exploração abusiva dos seus recursos, do maltrato ao seres não-humanos e do descaso com os seus iguais. Isto por conta do triunfo de um modelo de vida baseado na cobiça, na competição e no consumo sem medida, no lucro gerador de injustiça e falta de paz, a despeito da sobrevivência do planeta.
 
Por seu lado, as igrejas, o corpo formado por diferentes grupos de seguidores e seguidoras do Deus-Criador-da-Casa-Comum, não ressaltaram sua responsabilidade para com o cuidado e a guarda da Terra. Investiram na vocação em outras ênfases e frentes, o que, por vezes, representou a própria integração delas às ações de exploração e maltrato da Casa Comum.
 
A participação das igrejas do Norte nos processos de colonização das Américas, da África e da Ásia é o mais forte exemplo, somada à adesão que também tiveram em outros eventos globais chamados “civilizatórios”. Não que não houvesse cristãos e cristãs sensíveis ao chamado divino. Algumas vozes se levantaram pela Terra e chamaram ao seu cuidado. Certos escritos foram produzidos entre um ou outro grupo sobre a temática e são registros de que o silêncio não era total.
 
Foi, no entanto, o movimento ecológico do século XX que chamou a atenção das igrejas para o grito de socorro da oikoumene (palavra grega que se refere à “nossa casa comum”, originário do termo “ecumenismo), resultante dos processos desenvolvimentistas. Era o cumprimento da profecia de Jesus, “se vocês se calarem, as pedras clamarão”. Pessoas, grupos e instituições de boa-vontade clamaram e passaram a pronunciar e denunciar os resultados dos séculos de projetos desenvolvimentistas. Projetos que representaram a realização plena da civilização e o desejo irrestrito e egocêntrico de realização e consumo, antropocentrados, negadores da vida plena e da biodiversidade.
 
Foi o movimento ecumênico, a busca por diálogo e unidade visível das igrejas e da unidade na promoção da vida que envolve também as outras confissões de fé, que primeiramente atentou para este clamor. E conclamou cristãos e cristãs a um esforço comum, em especial por meio das ações do Conselho Mundial de Igrejas (CMI), a mais importante expressão do movimento, fundado em 1948.
 
A proclamação da Encíclica Laudato Si' – ‘Sobre o cuidado da casa comum’, pelo Papa Francisco, em junho de 2015, localiza a Igreja Católica no contexto desta história da busca ecumênica pelo cuidado e a guarda da casa comum, na forma de um eco que torna possível a amplificação das vozes das décadas anteriores (escrevi capítulo sobre isto no livro “Evangélicos e o Papa. Olhares de lideranças evangélicas sobre a Encíclica Laudato Si', do Papa Francisco”. Editora Reflexão, 2016).
 
Desde os primórdios do movimento ecumênico se enfatizava as noções de paz e justiça. Atravessando guerras mundiais e conflitos localizados, defrontando-se com buscas humanitárias intensas, o movimento ecumênico foi aprendendo que justiça e paz são elementos inseparáveis e deveriam estar na raiz de toda ação cristã neste mundo. Foi a partir dos anos 1970, com o conceito de comunidades sustentáveis, que o CMI ajudou a construir, que emergiram as noções inseparáveis de justiça e paz para a relação com o meio ambiente.
 
A dimensão da justiça, da paz e da integridade da criação tornou-se espaço privilegiado nas ações do CMI. O organismo reconhece que os impactos ambientais são históricos na trajetória da humanidade mas a Casa Comum vive um momento mais grave do que nunca. Um novo e grande mal que afeta a Criação é a cultura global do consumo exacerbado, amplamente vivido e estimulado no mundo. A vida, na sua integralidade, vem sendo afetada por isto.
 
O que está acontecendo na Amazônia é mais um sinal vermelho, um grito da Terra, relacionado a outras graves situações vividas no próprio Brasil (como a destruição de Mariana e de Brumadinho e as constantes degradações de rios e mares), e também no mundo, com outras tantas experiências de incêndios criminosos e contaminações.
 
Isto sem contar a crise climática (a ação humana com consequentes emissões de gases como causa principal das mutações que estão ocorrendo na Terra). Enquanto há gente gastando energia para defender que a Terra é plana, a destruição dela é que avança!
 
Há grupos cristãos que não se omitem. A Igreja Católica, sob a liderança do Papa Francisco e a inspiração da Encíclica Laudato Si', já estava sensível a esta demanda com a realização do Sínodo da Amazônia (a ser realizado em outubro, para pensar novos caminhos para a Igreja Católica na região e para uma ecologia integral, para que a Igreja se encarnar na vida cotidiana da região amazônica).
 
Da parte das Igrejas Evangélicas e Ortodoxas uma parcela sensível ao tema se articula com ações concretas por meio dos organismos ecumênicos dos quais participam. O Fórum Ecumênico ACT–Brasil tem sido uma frente importante. São movimentos que inspiram a dar sentido às orações com ações.
 
Foto: Vinícius Mendonça/Ibama

Participando de um encontro promovido pelo Conselho Mundial de Igrejas (CMI) em Genebra, na Suíça, a secretária-geral do CONIC, Romi Bencke, conversou com o jornalista do UOL Jamil Chade. O evento em questão era uma mesa redonda ecumênica sobre o Brasil, convocada pelo CMI. Além de Romi, estavam presentes representantes de igrejas e organizações ecumênicas do Brasil, incluindo a CNBB, e líderes do Conselho Mundial de Igrejas, da Comunhão Mundial das Igrejas Reformadas, da Federação Luterana Mundial e da ACT Alliance.
 
A seguir, confira a matéria publicada pelo UOL.
 
Na Europa, grupo de igrejas aponta onda de radicalismo cristão no Brasil
 
 
Uma versão fundamentalista do cristianismo está legitimando medidas do governo Bolsonaro que vão justamente contra as bases da religião — entre elas a discriminação, violação aos direitos humanos e mesmo a proteção do planeta. O alerta está sendo feito por parte das igrejas nacionais que, alarmadas com a situação no país, se reuniram na Suíça para debater o cenário religioso no Brasil e pedir a ajuda do Conselho Mundial de Igrejas para que uma estratégia seja estabelecida.
 
Nos anos 70, o Conselho Mundial de Igrejas foi fundamental para bancar as ações de religiosos no Brasil que lutavam contra a ditadura. Entre as várias iniciativas, o grupo financiou os trabalhos da coleta de dados de vítimas e torturadores, que acabaria sendo conhecida como "Brasil: Nunca Mais". 
 
Agora, a organização ecumênica considera que a situação de direitos humanos no Brasil voltou a ser problemática, principalmente quando há uma utilização da religião para legitimar a retirada de direitos. 
 
Entre uma parcela das igrejas brasileiras, a constatação é de que, sozinhas, não terão a capacidade de se organizar para fazer frente às tendências políticas atuais. Portanto, pedem a ajuda das igrejas de todo o mundo.
 
Em sua maioria, os participantes do encontro foram de igrejas protestantes, mas a reunião também contou com um representante da Confederação Nacional dos Bispos Brasileiros (CNBB). 
 
Direita cristã organizada
 
Ao UOL, a reverenda Romi Bencke, secretária-geral do Conselho Nacional de Igrejas Cristãs do Brasil (CONIC), foi categórica. "Estamos no momento de uma ruptura democrática", disse. "Nosso grande desafio é o fundamentalismo cristão. O que é o cristianismo brasileiro hoje. Há uma tendência sempre de achar que o fundamentalismo é apenas ligado aos neopentecostais. Mas na verdade, isso está em todas as igrejas", disse. "Há uma direita cristã organizada e os temas morais são os que mais impactam. É uma agenda anti-feminista, anti-LGBT, racista e tudo afirmado com valores e discursos cristãos."
 
Seu conselho reúne hoje a Aliança de Batistas do Brasil, Igreja Católica Apostólica Romana, Igreja Episcopal Anglicana do Brasil, Igreja Evangélica de Confissão Luterana no Brasil, Igreja Presbiteriana Unida e Igreja Síria Ortodoxa de Antioquia. 
 
A religiosa brasileira, que participou do encontro, constata ainda que há "um sequestro do que é a mensagem religiosa cristã".
 
"Por outro lado, precisamos reconhecer que o cristianismo sempre se intitulou como sendo uma religião hegemônica no Brasil. E isso teve um impacto para os povos indígenas e outros. Hoje, vemos que a violência contra a mulher é legitimada por discursos cristão e patriarcal", alertou.
 
Romi conta como sua organização tem se aproximado de movimentos feministas para ajudá-los a rebater o discurso fundamentalismo cristão. "Elas estão sedo atacadas por uma leitura fundamentalista da Bíblia. Queremos ajudar também no discurso religioso. Elas precisam ter os instrumentos para rebater", disse. 
 
Num recente protesto, representantes de seu conselho foram vestidas com camisetas que diziam "terrivelmente evangélicas e feministas".
 
Cristianismo e crime organizado
 
Segundo Romi, o encontro em Genebra no Conselho Mundial de Igrejas era algo que os religiosos brasileiros pediam há meses. "Sozinhos não damos conta", declarou. Uma das formas de participação do Conselho Mundial poderia ser por meio do diálogo lançado no Brasil pela Comissão Arns, relativa aos direitos humanos. 
 
"Esperamos que o Conselho possa se somar e referir sobre estratégias para enfrentar a relação entre cristianismo e milícias, entre cristianismo e crime organizado. Isso tudo está crescendo. E se continuar, teremos uma descaracterização absurda do cristianismo", alertou.
 
Brasil volta a preocupar após 40 anos
 
O reverendo Olav Fykse Tveit, secretário-geral do Conselho Mundial de Igrejas, aceitou a realização do encontro diante do cenário brasileiro atual. "Há elementos religiosos que nos preocupam", disse. Fazendo eco às igrejas brasileiras, Tveit indicou que teme a legitimação de atos de discriminação, usando justamente símbolos e valores cristãos.
 
Ele ainda lembrou como, mais de 40 anos depois de sua entidade ter agido nos bastidores no Brasil, o país volta a viver uma crise. "Estamos de novo preocupados com o Brasil", disse. "É importante apoiar grupos protestantes e vozes que lutam pela Justiça e paz no Brasil", insistiu.
 
Mas ele também destacou a necessidade de tocar na questão da floresta amazônica, outra preocupação das igrejas e que será alvo de um sínodo no Vaticano, em outubro. 
 
"Será uma catástrofe ecológica se estes pulmões de toda a Criação forem queimados ou destruídos", disse.
 
"É uma catástrofe profundamente política, moral e espiritual se for feita por seres humanos e tudo o que for necessário para a impedir não for feito. Podemos e temos de trabalhar em conjunto para proteger a nossa casa comum", declarou Tveit.
 
Família "foi colocada como desculpa" 
 
O reverendo Agnaldo Gomes também constata os desafios dos grupos religiosos. "Como igreja, precisamos primeiro pedir perdão por nossa omissão durante tanto tempo", declarou o presidente da Aliança das Igrejas Presbiterianas e Reformadas da América Latina (AIPRAL). "E sobre o silêncio dos que não tiveram a coragem de se expressar claramente. Estão se apequenando. Precisamos fazer o evangelho ser ouvido", disse. 
 
Segundo ele, o caminho terá de ser o do diálogo, inclusive com não-cristãos. "No Brasil, estamos tentando entender o que acontece", disse. "De fato, estamos num caldeirão em efervescência e talvez não estejamos temos clareza da dimensão de tudo que está ocorrendo", afirmou.
 
Assim como outros participantes do encontro, seu temor é o de se legitimar, com a igreja, comportamentos discriminatórias. 
 
Segundo ele, a defesa da família foi colocada "como a grande desculpa", inclusive na campanha eleitoral. "Mas isso é apenas a fachada. O que se tem é a retirada de direitos", alertou. "Os evangélicos estão sendo usados como margem de manobra", completou. 
 
Repercussão no Brasil
 
O reverendo Welerson Alves Duarte, presidente da Assembleia Geral da Igreja Presbiteriana Conservadora do Brasil, discorda com as colocações levadas à Genebra. Para ele é importante entender com profundidade o que as pessoas entendem hoje por fundamentalismo, pois "o conceito está distorcido". "Nós usamos para caracterizar aqueles que têm suas práticas fundamentadas na Bíblia, independentemente do que diz a política", diz. 
 
Para exemplificar, o pastor utiliza as pautas LGBTs, que estavam no centro da discussão na reunião com o CMI. "A concepção que nós vemos na bíblia é que família é a união entre homens e mulheres. A prática homossexual não é correta, não é que a Deus criou originalmente, mas nem por isso vamos discriminar o homossexual", diz. "As pessoas deturpam o conceito para nos chamarmos de homofóbicos, e eu não sou. Tenho boas relações com pessoas que são", diz, mas faz a ressalva de que um homosexual não poderia se tornar membro da sua congregação.
 
Também debatido entre ministros presentes na reunião, a ideia de que a mistura entre a religião e a política é uma má ideia, reverbera no Pastor Edmilson Vila Nova, presidente da Convenção Batista Nacional. "Ao longo da história vemos que todas as vezes que a igreja se alinhou com o poder político isso foi muito danoso. Isso é danoso para igreja e para a sociedade. A fé cristã não se dá por atos políticos."
 
As igrejas batistas protestantes são popularmente conhecidas por serem uma denominação mais liberal em relação às demais denominações evangélicas. Nesse sentido, o pastor acredita que o momento em que o Brasil vive é muito mais "liberal do que fundamentalista", e que as pautas relacionadas aos direitos humanos "não estão sendo banalizadas" pela igreja. "As pessoas devem ser respeitadas independentemente da religião, da cor ou da opção sexual, e todos devem ser livres para emitir opiniões, inclusive igrejas", diz, para elucidar que condenar a práticas LGBTs e pautas feministas como o aborto é "condenar o pecado, e não o indivíduo". 
 
A separação entre o Estado e a Igreja, é tema também defendido pelo pastor Joel Müller, presidente interino da Igreja Evangélica Luterana no Brasil. Por outro lado, o pastor participou do encontro com a Frente Parlamentar Evangélica em Brasília no último dia 8. A reunião, liderada pelo deputado Silas Câmara, terminou em um encontro com o presidente Jair Bolsonaro, acompanhado pelo ministro da Economia, Paulo Guedes, e da Casa Civil, Onyx Lorenzoni. 
 
Ele reverbera que o fundamentalismo é danoso, por impor o "tradicionalismo de forma preconceituosa e a imposição da fé da Igreja ao Estado". "Usar a religião para violar direitos humanos é um equívoco, a menos que haja deturpação das Escrituras Sagradas", diz. Mas pondera."A Bíblia não nos autoriza o racismo, sexismo ou outra forma de preconceito, mas não pode ser usado como manual de sociologia, pois se trata da Revelação de Deus e da sua obra de criação e salvação da humanidade, essencialmente no relacionamento deste Deus criado com o seu povo", conclui.
 
Com informações do UOL / Jamil Chade e Victória Damasceno
Foto: Jamil Chade/UOL

 
O Conselho Mundial de Igrejas (CMI) e a Conferência de Igrejas de Toda a África (All Africa Conference of Churches, ou AACC) estão conclamando jovens africanos a participar de um concurso de redação para a publicação regional africana sobre a Peregrinação de Justiça e Paz. As duas organizações convidam africanos do continente e da diáspora, de até 35 anos de idade, a enviar seus textos. O prazo é 15 de outubro de 2019.
 
A Peregrinação de Justiça e Paz é o resultado de um chamado da 10ª Assembleia do CMI, realizada em 2013, conclamando igrejas de todos os lugares a caminhar juntos, olha para sua vida e jornada de fé comuns, e se unir a outros para celebrar a vida e dar passos concretos em direção a transformação da injustiça e da violência. O tema principal da peregrinação é acompanhado por três dimensões: celebrar a vida juntos, explorar as feridas e participar de ações transformadoras.
 
As redações devem refletir as tradições, os contextos e as perspectivas da igreja do(a) autor(a) em relação a qualquer um dos quatro temas intimamente inter-relacionados da peregrinação: verdade e trauma (construção da paz); terra e deslocamento (justiça econômica, justiça ecológica e migração); justiça de gênero e justiça racial (dignidade humana). A redação deve ter cerca de 5.000 palavras, incluindo notas e bibliografia. As redações enviadas serão analisadas pelos funcionários africanos do CMI e da AACC.
 
Até doze artigos serão incluídos na obra “A África Pela Qual Oramos em uma Peregrinação de Justiça e Paz” (título provisório), a publicação regional da África para a Peregrinação de Justiça e Paz, e consistirão de parte dos trabalhos regionais coletados para exposição na 11ª Assembleia do CMI em Karlsruhe (Alemanha) em 2021.
 
Além disso, os(as) autores(as) de quatro submissões selecionadas (uma para cada tema) serão convidados(as) a participar de diálogos ecumênicos abordando os quatro temas da 11ª Assembleia do CMI.
 
As redações podem ser escritas em inglês, francês ou português.
 
Fonte: CMI
Foto: Marcelo Schneider/CMI

 
As igrejas do Brasil precisam trabalhar mais unidas do que nunca para enfrentar a cultura da violência e as questões ambientais do país. Esta foi a mensagem dos participantes de uma mesa redonda ecumênica sobre o Brasil convocada pelo Conselho Mundial de Igrejas (CMI) em Genebra no dia 26 de agosto.
 
O encontro reuniu representantes de igrejas e organizações ecumênicas do Brasil e líderes do Conselho Mundial de Igrejas, da Comunhão Mundial das Igrejas Reformadas, da Federação Luterana Mundial e da ACT Alliance.
 
O Secretário Geral do CMI, Rev. Dr. Olav Fykse Tveit, afirmou que o CMI vem acompanhando com crescente preocupação os eventos recentes relacionados ao meio ambiente, a conservação do Estado de Direito e os direitos humanos no país, assim como seus impactos sobre os Povos Indígenas e outras comunidades vulneráveis no Brasil.
 
A mesa redonda foi convocada como uma oportunidade para ouvir análises e entender as respostas dadas pelos líderes religiosos brasileiros, e também para reafirmar o compromisso do CMI e dos outros organismos religiosos internacionais presentes de intensificar o monitoramento e o apoio prestados às igrejas do Brasil em seus esforços para enfrentar esses desafios.
 
 
“Vamos trabalhar juntos para usar nossa voz pela justiça e pela paz. Acreditamos no poder do amor de Cristo em todo o mundo, cuidando de toda a criação de Deus”, disse Tveit. "Esse amor pode trazer reconciliação e união de formas que não vemos no momento".
 
Os participantes da discussão concordaram que uma das questões prioritárias que as igrejas precisam enfrentar com voz comum é a cultura cada vez mais prevalente de violência no Brasil. Mesmo o cristianismo é frequentemente apresentado “com uma cara violenta”, compartilhou a Pastora Romi Márcia Bencke, Secretária-Geral do Conselho Nacional de Igrejas Cristãs no Brasil (CONIC). “Temos a coragem de dizer que o Cristianismo é contra a violência? Precisamos dizê-lo; caso contrário, temos um problema com o significado da fé Cristã como tal”, disse Bencke.
 
Tendo em vista o número recorde de incêndios na floresta amazônica brasileira este ano, preocupações ambientais foram outro tópico de destaque no encontro. Além do significado vital da Amazônia no contexto das mudanças climáticas globais, também é importante considerar o impacto da biodiversidade e o crescente sofrimento dos povos indígenas que perdem seus lares e meios de subsistência tradicionais com a destruição do habitat da floresta. “Os incêndios na região amazônica devem ser tratados como uma crise nacional e internacional”, disse o Rev. Dr. Olav Fykse Tveit.
 
O Bispo Manoel João Francisco, presidente da Comissão Episcopal Pastoral para o Ecumenismo e o Diálogo Inter-religioso da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil, compartilhou que um Sínodo sobre a Amazônia será convocado pelo Papa Francisco em outubro reunindo bispos de nove países da região amazônica.
 
“Esta não é uma questão política, mas sim uma questão episcopal, porque somos chamados a cuidar das pessoas afetadas”, disse o Bispo Francisco, que espera que o próximo Sínodo traga ideias e propostas para atender às necessidades das pessoas na região amazônica.
 
Fotos: Ivars Kupcis/CMI
Obs.: O título foi adaptado