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Representantes entidades da sociedade civil, sindicatos, professores e professoras, estudantes, agricultores e organizações campesinas, profissionais liberais, voluntários oriundos de diversas trajetórias e religiosos se uniram para distribuir, no dia 27 de fevereiro, 1,5 mil almoços gratuitos na região central de Goiânia. O ato, denominado como “banquetaço”, foi um protesto contra a extinção do Conselho Nacional de Segurança Alimentar e Nutricional (Consea). No cardápio, elaborado por chefs e nutricionistas, havia pratos como galinhada, feijão, farofa e salada.
 
A paróquia Anglicana de São Felipe, ligada à Diocese Anglicana de Brasília (DAB), marcou presença.
 
A seguir, confira o relato encaminhado pelo ministro leigo Rodrigo Gonçalves:
 
Recriado no ano de 2003, o Conselho Nacional de Segurança Alimentar e Nutricional (CONSEA) constituiu-se como “espaço institucional para o controle social e participação da sociedade na formulação, monitoramento e avaliação de políticas públicas de segurança alimentar e nutricional, com vistas a promover a realização progressiva do Direito Humano à Alimentação Adequada”. Competia-lhe propor à Câmara Interministerial de Segurança Alimentar e Nutricional as diretrizes e prioridades da polícia nacional de segurança alimentar e nutricional. Participou da formulação de importantíssimas políticas públicas como a Política Nacional de Agroecologia e Produção Orgânica, Programa de Aquisição de Alimentos, a garantia da compra de produtos oriundos da agricultura familiar na Política Nacional de Alimentação Escolar, teve um papel crucial na criação da Emenda Constitucional 64 que instituiu o Direito Humano à Alimentação Adequada na Carta Magna, acompanhava o debate público sobre o controle na regulamentação de agrotóxicos no Brasil.
 
O tempo verbal está no pretérito. Por meio da Medida Provisória nº 870, lançada no primeiro dia de mandato do atual governo federal – o que indica ser algo do núcleo programático do mandatário, já aspirado pelas forças que compõem seu governo – o Consea e demais conselhos vinculados à Presidência da República, foram extintos. Um sinal inequívoco de recusa de princípios democráticos de participação da sociedade civil organizada no ciclo de políticas públicas ou, mais ainda, de mesmo um diálogo ou escuta com a mesma. Leva as atribuições do Consea para um opaco gabinete do Ministério da Cidadania e fragiliza a institucionalidade e exigibilidade relativo às políticas públicas.
 
Esta ação fatídica ocorre num contexto em que, no ano precedente – 2018, mais de 500 programas federais não tiveram dotação orçamentária. Neste esteio de cortes em políticas sociais, vulnerabilidade da institucionalidade reivindicativa de direitos sociais e trabalhistas dos trabalhadores e trabalhadoras, agrava-se a insegurança alimentar no Brasil. Em 2017 a FAO/ONU apresentava o crescimento das situações de fome no Brasil e que, em contrapartida, 22,3% da população com mais de 18 anos estava em obesidade, o que não pode ser interpretado como uma “supernutrição” mas, em muitos casos, indica dificuldades de suprir as necessidades nutricionais compensadas com acesso a alimentos calóricos mas deficientes. Ainda, de 2017 a 2018, o Brasil caiu 13 colocações no Índice Global da Fome de acordo com a Ação Agrária Alemã (Welthungerhilfe), a entidade irlandesa Concern Worldwide e com o Instituto Internacional de Investigação sobre Políticas Alimentares (IFPRI), quedando-se em 31° lugar entre 119 países. Estes dados consolidam quatro indicadores: subnutrição, caquexia infantil (grau de extremo enfraquecimento e emagrecimento), atraso no crescimento e mortalidade infantil.
 
Além destes números, o impacto da precarização do quadro de políticas sociais e de segurança alimentar e nutricional impacta famílias campesinas, suas possibilidades de comercialização de obtenção de renda, a economia de pequenos municípios, a rede socioassistencial beneficiada por alimentos dos agricultores familiares, a saúde de milhões de brasileiros (relaciona-se aos parâmetros ideológicos destas ações o fato de que, em média, este governo já liberou a autorização para uso e comercialização de mais de um agrotóxico por dia, incluindo com alto nível de toxicidade).
 
A sociedade civil não assiste impassivelmente. Em 27 de fevereiro realizou atos de reivindicação de justiça, democracia e direitos em todo o Brasil, numa ação batizada de “Banquetaço”, amalgamada no eixo do clamor pelo restabelecimento do CONSEA e para que o parlamento derrube a MP 870. O evento central do ato político foi a doação de refeições preparadas por cozinheiros voluntários em pontos centrais da cidade.
 
Em Goiânia, entidades da sociedade civil, sindicatos, professores e professoras, estudantes, agricultores e organizações campesinas, profissionais liberais, voluntários oriundos de diversas trajetórias construíram uma ampla ação organizada. Foi realizada uma Audiência Pública na Assembleia Legislativa pautando a trajetória histórica do SISAN e do CONSEA, denunciando os impactos que a MP acarreta. Um cortejo com carro de som e batucada promovida pelo Desencuca, coletivo em prol de direitos para a saúde mental e política humanizada de cuidados com o sofrimento psíquico, fez reverberar a pauta para a sociedade goiana chamando a atenção para as questões relacionadas. Culminou no ato do Banquetaço numa região central em frente ao histórico Grande Hotel, com mais de 1500 pratos distribuídos, também com opção vegetariana, uso de plantas alimentícias não-convencionais (PANCS), adquiridos essencialmente de agricultores familiares e produções orgânicas.
 
A problemática foi socializada com a população transeunte, predominantemente pessoas que trabalham pelo Centro, mas incluindo também aposentados, aposentadas, pessoas em situação de rua. Um abaixo-assinado circulou contra a MP 870 e a recepção por parte dos cidadãos e cidadãs foi altamente positiva, com agradáveis manifestações de apreço e prazer pela refeição compartilhada.
 
A Paróquia Anglicana de São Felipe marcou presença, no espírito da dimensão profética e diaconal da missão Na orientação sobre a ética de partilha, de partido para com os oprimidos e explorados, integrando a esfera da refeição em comum como ato espiritual simbólico para o que Jesus apontava diante do significado do Reinado de Deus. Vivenciamos assim a acolhida do carinho divino no enraizamento fraternal com os desafios da história e da sede de justiça.
 
Rodrigo Gonçalves é ministro leigo na Paróquia São Felipe, em Goiânia/GO.
 
Foto: Mídia Ninja

Celebre a unidade cristã!

 
Este espaço é exclusivo para a Semana de Oração pela Unidade Cristã (SOUC), edição 2019. Aqui você encontra a carta das Igrejas-Membro do CONIC em alusão à SOUC; pode se inteirar sobre o tema bíblico que baseia a Semana; também pode visualizar e baixar o Cartaz, e comprar os cadernos com subsídios para celebrações. É muito importante que comunidades, paróquias, sínodos, dioceses, igrejas, grupos de partilha, entre outros, adquiram pelo menos um exemplar do caderno de celebrações. Na prática, isso possibilita uma vivência ainda mais profunda da SOUC
 
CARTA DAS IGREJAS-MEMBRO
 
 
PERÍODO
 
De 2 a 9 de junho - Semana de Pentecostes.
 
TEMA
 
O tema é inspirado no livro de Deuteronômio: "Procurarás a justiça, nada além da justiça" (Dt 16.11-20)
 
SUBSÍDIOS
 
Para adquirir os cadernos da SOUC (vide imagem abaixo), basta encaminhar e-mail para Este endereço de email está sendo protegido de spambots. Você precisa do JavaScript ativado para vê-lo. com o número de cadernos que deseja. É importante que no e-mail estejam informações como CNPJ ou CPF de quem encomenda e endereço para emissão de boleto bancário. O boleto será emitido para pedidos acima de 10 cadernos. Quem desejar menos de 10 cadernos terá que realizar depósito bancário na conta:
 

Banco Bradesco
Agência: 0606-8
Conta Poupança: 112.888-4

 
O preço do caderno é R$ 5,00 (a unidade). Neste valor estão inclusos frete e despesas com Correios. A cada dez cadernos encomendados será enviado um cartaz da Semana. O cartaz também ficará liberado para download aqui neste link (em JPG - média resolução), ou neste link (em PDF - melhor resolução).
 
 
Ou você pode comprar o E-Book e nos ajudar a fortalecer o Ecumenismo:
 
 
 
O cartaz deste ano ficou muito bonito. A arte foi selecionada em um concurso organizado pelo CONIC-MG. O desenho foi enviado pela Mariana da Silva Souza, 16 anos, moradora de Belo Horizonte. Intitulado Jesus, o equilíbrio da Vida, o desenho buscou refletir o tema da SOUC 2019 (Dt 16, 18-20).
 

A busca da unidade ao longo de todo o anoPromovido mundialmente pelo Conselho Pontífice para Unidade dos Cristãos (CPUC) e pelo Conselho Mundial de Igrejas (CMI)

 
INTRODUÇÃO AO TEMA PARA O ANO DE 2019
 
"Procurarás a justiça, nada além da justiça"
(Dt 16.11-20)
 
A Semana de Oração pela Unidade Cristã em 2019 foi preparada por cristãos da Indonésia. Com uma população de 265 milhões, 86% dos quais se identificam como muçulmanos, a Indonésia é bem conhecida como o país que tem a maior população muçulmana. No entanto, 10% dos indonésios são cristãos de tradições diversas. Tanto em termos de população como de grande extensão de terra, a Indonésia é a maior nação do sudeste da Ásia. Tem mais de 17.000 ilhas, 1.340 diferentes grupos étnicos e mais de 740 línguas locais, mas ainda assim está unida na sua pluralidade pela língua nacional Bahasa Indonésia. A nação se baseia em cinco princípios chamados Pancasila, com o lema Bhineka Tunggal Ika (unidade na diversidade). No meio da diversidade de etnias, linguagem e religião, os indonésios têm vivido pelo princípio de gotong royong, que é viver em solidariedade e com colaboração. Isso significa ter partilha nos diversos campos da vida, no trabalho, nas tristezas e festividades, vendo todos os indonésios como irmãos e irmãs.
 
Essa sempre frágil harmonia é hoje ameaçada de novas maneiras. Muito do crescimento econômico que a Indonésia tem experimentado em décadas recentes tem sido construído com um sistema centrado na competição. Isso está em evidente contraste com a colaboração de gotong royong. A corrupção é experimentada de muitas maneiras. Ela infecta a política e os empreendimentos, frequentemente com consequências devastadoras para o ambiente. Em particular, a corrupção enfraquece a justiça e a implementação da lei. Movidos por essas considerações, os cristãos da Indonésia sentiram que as palavras do Deuteronômio - "procurarás a justiça, nada além da justiça" (veja Dt 16, 18-20) - falavam fortemente sobre sua situação e suas necessidades. Antes do povo de Deus entrar na terra que Deus lhes tinha prometido, eles fizeram a renovação de seu compromisso com a Aliança que Deus estabelecera com eles.
 
OFERTA
 
A oferta da SOUC simboliza o comprometimento das pessoas com o ecumenismo. É uma forma concreta de mostrar que acreditamos realmente na unidade dos cristãos (João 17:21). Os frutos das ofertas doadas ao longo da Semana são distribuídos, anualmente, da seguinte maneira: 40% para a representação regional do CONIC (onde houver), que é destinado a subsidiar reuniões e atividades ecumênicas locais, e 60% para o CONIC Nacional, para projetos de maior alcance.
 
Vale lembrar que a oferta faz parte da celebração, logo, reserve um momento da liturgia para realizá-la. É um momento de gratidão pelas coisas boas que recebemos de Deus. Ofertas também poderão ser recolhidas nos encontros temáticos, durante a Semana.
 
Conta para depósito da coleta:
 
Banco Bradesco
Agência: 0606-8
Conta Poupança: 112.888-4
Sempre que possível, faça depósito identificado: CNPJ: 00.721.266/0001-23.
 
 
 

 
A instrumentalização da fé, da figura de Deus e de símbolos religiosos como imagens e personagens da Bíblia está em alta no Brasil.
 
Coisa antiga, o uso da fé com vistas à realização de objetivos pessoais ou de grupos, com base em projetos econômicos e/ou políticos, ganha força numa atmosfera social presente e muitos se movem cada vez mais pela emoção.
 
Tais respostas são conteúdo farto da cultura da autoajuda. Ela se encontra na ampla oferta de cursos e palestras presenciais e midiatizadas, dos modernamente denominados “coaches”.
 
Tanto dentro quanto fora dos espaços religiosos, o indivíduo, com o seu poder e esforço próprios, é quem “determina” e faz acontecer ou que faz Deus agir.
 
Nesta lógica intimista e individualista soma-se o descarte do que desagrada ou se tem aversão. Seja um produto, ainda que recém-comprado, sejam relacionamentos digitais, que com um clique estão bloqueados ou excluídos, seja o participante do reality show, seja quem vive, pensa ou age diferentemente. Somos todos convidados a descartar, excluir, eliminar, e nosso problema com a coisa ou o outro está resolvido.
 
No que diz respeito à fé religiosa, sai fortalecida a compreensão de que deus (com minúsculas propositalmente) age a partir do que os fiéis desejam que aconteça (a confissão positiva, a determinação do “tá amarrado” ou “deus no controle”).
 
É neste sentido que deus se torna o aniquilador do Mal que se materializa em tudo aquilo que desagrada e provoca aversão aos fiéis. Esta lógica tem sido insistentemente orientada a partir de lideranças que as propagam nas mídias tradicionais e digitais, por pregações, talk shows e músicas gospel.
 
Não à toa nos deparamos com gente identificada como cristã que apoia políticas de segurança pública baseadas na eliminação de seres humanos (livre porte de armas, uso de drones para “acertar na cabeça”, pena de morte por lei ou pela liberação para policiais matarem). Ações humanizantes que incluam e recuperem infratores não cabem nesta compreensão de fé.
 
Não por acaso identificamos católicos e evangélicos, lideranças ou simples participantes, que criam e/ou propagam conteúdo falso e mentiroso em pregações religiosas ou mídias sociais.
 
Em nome da lógica da fé imediatista, individualista e aniquiladora de inimigos, mente-se e apoia-se quem mente. A mentira é considerada apenas um meio que justifica a defesa de deus, ameaçado pelas diferenças. O que importa é levar a aversão adiante.
 
Dias atrás meu marido alertou um evangélico, com formação superior, com quem se relaciona no Facebook, sobre um conteúdo comprovadamente falso, mentiroso, que havia publicado. Com paciência mostrou a verdade no caso e convidou o conhecido a apagar a postagem. A resposta foi: “É mentira, mas o pessoal tem que saber disto”. Não parece incrível?!
 
Não é gratuito encontrarmos católicos e evangélicos dos mais diferentes perfis celebrarem que o ex-deputado Jean Willys tenha que sair em autoexílio após receber ameaças de morte ou que afirmem que deus matou o jornalista Ricardo Boechat numa queda de helicóptero.
 
Na lógica da aniquilação do que provoca aversão e ódio, tanto Willys quanto Boechat merecem morrer, pois são considerados inimigos de deus, ao se colocarem criticamente contra práticas ou lideranças religiosas. Diferenças não cabem nesta compreensão.
 
Com esta forma de interpretar o mundo, a religião se torna a resposta ao desejo de se eliminar os desafetos, os diferentes, os considerados impuros e limpar o mundo para a realização do que é certo e puro.
 
Os pecados do fanatismo
 
O israelense, escritor e ativista pela paz com justiça entre Israel e Palestina, Amós Oz, falecido em dezembro passado, sempre afirmou que a aversão é um dos componentes do fanatismo.
 
Ele alertava que hoje em dia fala-se muito dos pecados do ódio, mas seria muito melhor e mais correto usar a expressão “os pecados do fanatismo”.
 
Para Oz, vivemos uma onda de ódio ao outro, ao que pensa e age diferente, que é um fanatismo crescente. Fanáticos mentem e/ou desejam o mal a outros porque só conseguem enxergar a sua própria verdade, construída para justificar a sua aversão.
 
É visível no presente uma onda de fanáticos na religião e na política. Alguns se encontram nas duas frentes.
 
Para quem instrumentaliza Deus com o seu fanatismo, vale lembrar a palavra do profeta Isaías na Bíblia: “… Os meus pensamentos não são os pensamentos de vocês nem os seus caminhos são os meus caminhos, diz o Senhor. Assim como os céus são mais altos do que a terra, também os meus caminhos são mais altos do que os seus caminhos e os meus pensamentos mais altos do que os seus pensamentos” (58.8-9).
 
Deus não pode ser feito à nossa imagem e semelhança. Deus é maior e mais do que tudo o que somos e temos. A humanidade de Deus, materializada em Jesus de Nazaré, referência dos cristãos, que foi todo amor, misericórdia, paz, respeito, inclusão, despojamento, acaba incomodando muita gente.
 
Preferem um deus autoritário, dominador, general de exércitos que confere lauréis e castigos… Que bom que Jesus mostrou que esse deus não existe.
 
Fonte: Carta Capital
Imagem: Reprodução / Pixabay

 
"O profeta Amós se recusa a ser considerado profeta, nos termos do sacerdote Amasias, cúmplice de um poder político opressor. Amós se define como 'vaqueiro' e cultivador de sicômoros. Em Am 7,15, Amós parece ser um pastor que cuida do rebanho miúdo (ovelhas e cabras), mas não um vaqueiro. Em Am 7,10-17[4] não há a intenção primeira de descrever pessoalmente a profissão do profeta, mas enfatiza o fato de que Amós foi retirado da sua vida precedente, do seu mundo, das preocupações domésticas para proclamar a Palavra de Deus", escreve Gilvander Luís Moreira, frei e padre Carmelita, mestre em Exegese Bíblica e professor de Teologia Bíblica.
 
Eis o artigo.
 
Provavelmente, as composições mais antigas do livro do profeta Amós na Bíblia (Amós 1-6; 7-9) datam de meados do século VIII a.C., e surgiram como literatura de protesto e resistência. “O acento principal da mensagem de Amós está na crítica social e no anúncio de um juízo iminente de Deus na história, bem como na tênue, mas clara exigência do restabelecimento da justiça como alicerce das relações sociais”[1].
 
Amós é um profeta precursor, radical, exemplar e paradigmático. A profecia de Amós é, em certo modo, um divisor de águas na história da profecia no sentido de que instaura um novo jeito de ser profeta. O livro de Amós está organizado em duas grandes unidades literárias: I) Am 1-6: Palavras e II) Am 7-9: Visões.
 
Am 4,4-13 nos ajuda a refletir sobre três aspectos fundamentais da ética profética, intimamente entrelaçados. Esses são: a) a concepção de pecado em relação ao culto; b) em relação à história; c) e os limites de uma possível reconciliação com Deus. A pergunta que se coloca na base e no fim do estudo de Am 4,4-13[2] é: Trata-se de um anúncio de punição in extremis diante da incapacidade de Israel de reagir, ou de uma velada promessa de perdão? Ou existe uma outra interpretação possível?
 
A declaração final de Javé – Deus solidário com os pisados e libertador dos oprimidos - ao ser humano que fecha a unidade Am 4,4-13 constitui-se quase como uma nova revelação do Sinai, que deve por fim ao conflito entre o ser humano e a divindade, em favor do ser humano. As punições didáticas de Javé deixam lugar a um esclarecimento que abre o coração do ser humano para que veja o conjunto da sua história e possa render-se conta do seu processo de endurecimento.
 
Am 4,4-13 evoca, portanto, uma situação na qual há certa semelhança com aquela do relato das pragas do Egito, mas não é obviamente, a recordação daqueles fatos. O discurso de Amós menciona, talvez, um passado histórico não identificável nem pela forma e nem pelo conteúdo do texto. As pragas do tempo do Êxodo feriam o Egito, não Israel, e de uma maneira diferente da relatada no livro de Amós capítulo 4. Além do mais, as tais “pragas” eram no mundo antigo, e são ainda nas culturas rústicas, o resultado obrigado de situações críticas naturais ou políticas: a fome é o resultado de toda estiagem prolongada e peste nas plantações, assim como a morte dos jovens (Am 4,10) é o efeito de toda batalha militar, no mundo antigo e moderno.
 
Às pragas ou punições descritas se reúnem ainda a menção a Sodoma e Gomorra. O discurso de Amós 4 quer, portanto, dar conta de toda a antiga história de Israel, também de Israel patriarcal, para aplicá-la a uma nova situação.
 
Um ponto particular de relação com o Êxodo é a presença do refrão “mas não retornastes a mim” que estrutura o texto de Amós 4,4-13. Assim, como no relato das pragas o endurecimento do coração do Faraó é o motivo estruturante que faz aumentar as pragas.
 
No relato do Êxodo, um primeiro grupo de textos, atribuídos tradicionalmente à fonte Javista (J), apresenta de fato Faraó como responsável pelo seu próprio endurecimento, como havia predito Deus (Cf. Ex 7,14.22; 8,11.15.28; 9,7.34). O outro grupo de textos (os chamados “heloístas”) atribui a obstinação ora a Faraó (Ex 9,35) ora a Deus mesmo (Ex 10,20.27). O relato sacerdotal (P) o atribui habitualmente a Javé.
 
Esta diversidade de concepção no atribuir a responsabilidade pelo pecado aparece também em outros textos fora do Êxodo, com diferente vocabulário e problemática. Em 2º Samuel 24,1, Javé é o responsável direto pelo pecado de Davi devido ao recenseamento. Segundo 1º Crônica 21,1 a responsabilidade é, ao invés, de Satanás. O verbo hebraico usado é o mesmo: swt (= incitar, seduzir).
 
Tanto em Êxodo como em Am 4,4-13 se coloca um grande problema exegético e teológico: É possível e legítimo que Deus continue a aplicar punições que levam a um endurecimento sempre crescente? Não se comporta Javé assim como o pai que exagera, com sua punição, ao seu filho e força-o a se rebelar (Cf. Efésios 6,4)?
 
É necessário reconhecer que por trás dos textos bíblicos de endurecimento há o mistério da liberdade humana e da onipotência divina. Em relação a Deus, há uma consciência profética que as obras e a Palavra de Deus não podem permanecer sem efeito (Cf. Isaías 55,11), mas é sempre eficaz (não eficiente). Se não produzem imediatamente a conversão, devem amadurecer o sujeito para uma nova prova, o que, em última análise, não exclui a possibilidade de conversão.
 
Em relação à pessoa punida, há uma consciência do fato que a exortação à conversão, quando não ouvida, se torna uma condenação. Isto é, nada mais, nada menos, que a dinâmica das relações interpessoais. Quando duas pessoas percebem uma mútua existência começa uma comunicação humana, que pode progredir, parar ou, eventualmente, morrer. Mas enquanto existe, cada ação e reação levam à evolução ou diminuição daquela relação. Todo ato (ou omissão) nas relações interpessoais somam e cultivam a relação ou a empobrece descultivando-a. Nenhuma atitude fica neutra.
 
De modo semelhante, na relação do ser humano com Deus, cada ação que não melhora a relação, a piora, mas jamais a deixa igual. Se não se aceita um convite à conversão, como uma oferta de amizade, o recusa. Por um lado, esta recusa tornará mais difícil que aconteça um novo convite.[3] E de outra parte quem recusou dificilmente voltará atrás para aceitar uma nova oferta, o que implicaria em reconhecer o erro precedente, o que é mais difícil.
 
Em relação aos profetas e profetisas, este processo se explica na medita em que os/as  “intérpretes de Javé” sabem do paradoxo da missão deles/as. Os profetas e profetisas sabem que a palavra profética conduz, às vezes, à conversão de alguns poucos, mas na maioria das vezes leva ao endurecimento de muitos. Os oráculos de condenação no futuro, pronunciados com absoluta segurança, implicam nos profetas a consciência que a advertência seria inútil.
 
A consciência que os profetas e profetisas têm das três realidades descritas acima se apresenta, de modo muito claro, em Isaías 6,9-11: “Então disse ele: Vai, e dize a este povo: Ouvis, de fato, e não entendeis, e vedes, em verdade, mas não percebeis. Engorda o coração deste povo, e faze-lhe pesados os ouvidos, e fecha-lhe os olhos; para que ele não veja com os seus olhos, e não ouça com os seus ouvidos, nem entenda com o seu coração, nem se converta e seja sarado. Então disse eu: Até quando Senhor? E respondeu: Até que sejam desoladas as cidades e fiquem sem habitantes, e as casas sem moradores, e a terra seja de todo assolada”.
 
Em Am 7,14, o profeta Amós se recusa a ser considerado profeta, nos termos do sacerdote Amasias, cúmplice de um poder político opressor. Amós se define como “vaqueiro” e cultivador de sicômoros. Em Am 7,15, Amós parece ser um pastor que cuida do rebanho miúdo (ovelhas e cabras), mas não um vaqueiro. Em Am 7,10-17[4] não há a intenção primeira de descrever pessoalmente a profissão do profeta, mas enfatiza o fato de que Amós foi retirado da sua vida precedente, do seu mundo, das preocupações domésticas para proclamar a Palavra de Deus.
 
Am 7,10-17 quer legitimar o conteúdo da profecia de Amós e ajudar a comunidade superar todos os preconceitos que possam existir contra o profeta por causa da sua origem humilde, como se fosse um “nordestino”, um sem-terra, um sem-casa, um menor de rua, um portador de HIV, um homossexual etc. O relato de Am 7,10-17 quer nos dizer que a profecia vem da margem, da periferia, do meio dos marginalizados e excluídos. São estes, por excelência, os “intérpretes de Javé”.
 
Na Bíblia este “gênero” é utilizado para descrever de maneira diferente as vocações de Moisés, Gedeão, Eliseu e Saul. Mas uma estreita relação se encontra em 2º Samuel 7,8. Natã transmite a Davi a mensagem de Javé: “Eu te tirei das pastagens, pastoreavas as ovelhas”. O elemento que caracteriza estas situações não é o fato do convocado pertencer a um grupo, mas, ao contrário, o fato dele ser um “de fora”, um excluído. Assim Am 7,14 quer exprimir a distância de Amós das formas institucionais da profecia e dos profetas “da corte”.
 
O relato do confronto entre o sacerdote Amasias e Amós (com a implicada presença do rei) oferece a justificação da decisão de Javé. O povo não somente não ouviu as diversas palavras transmitidas pelo profeta Amós, mas decidiu silenciá-lo, expulsando-o para sua terra. Já não há nada mais a esperar senão o fim definitivo, e diante desse resta somente a lamentação. O profeta anuncia a necessidade de conversão; pede perdão a Deus pelo povo; pede para parar a punição. O rei (e a monarquia) e o Templo expulsam o profeta, silenciando-o. O povo sofrerá muito mais. Ai de um povo que não escuta seus profetas e profetisas, e pior ainda, que os persegue, expulsa e os silencia.
 
A perícope de Am 7,10-17 revela a interpretação que setores da classe dominante tinham do conteúdo da profecia de Amós. Aos olhos da elite, o profeta é um “conspirador”, interessado em “golpe de estado”. Para Javé e o povo empobrecido Amós é um profeta, porta voz do Deus da vida para todos e tudo. Para a elite ele é um “subversivo”, um agitador.
 
Em Am 4,1-3 temos a seguinte profecia:
 
“OUVI esta palavra, vacas de Basã, que estais sobre o monte de Samaria, que oprimis os fracos, que esmagais os excluídos, que dizeis aos vossos senhores: “Trazei-nos o que beber!”. O Senhor Javé jurou, pela sua santidade: sim, dias virão sobre vós, em que vos carregarão com ganchos e a vossos descendentes com arpões (de pesca). E saíreis pelas brechas que cada uma tem diante de si, e sereis empurradas em direção ao Hermon, oráculo de Javé”.
 
Segundo uma interpretação tradicional, Am 4,1-3 seria uma investida do profeta Amós contra as mulheres ricas de Samaria, designadas como “vacas de Basã”, mulheres de personagens importantes, que ocupam o tempo em luxuosos banquetes, e ao mesmo tempo são responsáveis pela opressão e exploração dos empobrecidos. A imagem de um banquete só de madames é, no mínimo, algo curioso em uma sociedade reconhecidamente machista e patriarcal, assim como atribuir às mulheres a responsabilidade pela opressão e pela injustiça.
 
A região de Basã, como o Líbano e o Carmelo, é famosa pela fertilidade do solo. A tristeza causada pela punição divina se manifesta na debilidade do Líbano, do Basã, do Carmelo e do Saron (Cf. Isaías 33,9). Ao contrário, a generosidade divina se expressa no nutrimento do povo com a “manteiga das ovelhas e dos touros de Basã” (Cf. Deuteronômio 32,14). O anúncio messiânico, com o qual se conclui o livro de Miquéias, inclui a promessa de um pasto abundante “em Basã e em Galaad, como nos dias antigos (Cf. Miquéias 7,14). No ambiente de louvor do Salmo 68 o “Basã” são os montes (Sl 68,16) que testemunham, junto com o Sinai e a natureza, a grandeza das obras de Javé. Logo integrar “Basã” em uma imagem depreciativa é algo estranho ao uso corrente de “Basã” na Bíblia.
 
De “vaca de Basã” não se fala em nenhum outro lugar no Primeiro Testamento da Bíblia. As montanhas de Basã são famosas pelos seus touros, cabritos e carneiros (mas não vacas; cf. Dt 32,14). Por isso os touros de Basã podem ser imagens dos inimigos poderosos (cf. Salmo 22,13 e, sobretudo, Ezequiel 39,18).
 
A expressão “vacas de Basã” adquire um sentido mais verdadeiro dentro da cultura bíblica se o termo “vacas” não for utilizado em relação a mulheres, mas a homens, aqueles que quiseram ser como os touros de Basã, pela força deles, autoridade e dignidade se tornaram “vacas”, com as conotações depreciativas que as formas femininas podem ter no Primeiro Testamento.
 
Neste contexto, os “seus senhores” (Am 4,1b, com sufixo masculino) se referem provavelmente não aos “maridos”, como propõem algumas traduções, um uso pelo qual não se tem nenhuma outra ocorrência, mas refere-se a uma pessoa de mais autoridade (política). “Senhor”, além do freqüente uso como título divino, se refere a Acab (2 Reis 10,2.3.6), ao Faraó (Gênesis 40,1), ao Rei da Babilônia (Jeremias 27,4), e em casos isolados a várias pessoas: “outros senhores...” (Isaías 26,13).
 
Na profecia de Amós está “uma crítica veemente e contundente aos agentes e mecanismos de exploração e opressão dos camponeses empobrecidos sob o governo expansionista do rei Jeroboão II e sob as condições de um incremento de relações de empréstimos e dívidas entre pessoas do próprio povo no século VIII a.C.”[5]. Em outros termos, o profeta Amós não apenas critica pessoas corruptas, mas questiona também de modo muito forte o sistema gerador de pessoas corruptas. Não somente as mazelas pessoais estão na mira do “camponês” que entrou para a história como um grande profeta. Amós tem consciência de que o problema fundamental da injustiça reinante na sociedade não é fruto somente de fraquezas e ambiguidades pessoais, mas tem como causa motriz estruturas sócio-econômico-político-cultural e religiosas que engrenam uma máquina de moer pessoas. Na mira do profeta Amós também estão relações comerciais que causam endividamento, aprisionam pessoas e escravizam, retirando a liberdade de ser pessoa humana.
 
Além das denúncias sociais, a profecia de Amós destaca-se com o anúncio de um juízo iminente de Javé na história do seu povo. Amós inverte as expectativas quanto a um tão sonhado “dia de Javé” (Am 5,18-20). Este não será mais uma “ideologia de segurança político-religiosa” pelos fortes de Israel. A perversão da justiça para os pobres, a opressão dos empobrecidos e a exploração das pessoas mais enfraquecidas clama pelo juízo divino. O “dia de Javé” será um “dia mau” sobre os fortes de Israel, sobre o estado tributário, suas instituições e seus agentes.
 
Amós critica com coragem a “corrida armamentista” de Israel. Ele anuncia que serão desmanteladas as forças militares dos estados vizinhos (Amós 1,5.8b.14b; 2,2b) e sobretudo de Israel (Amós 2,13-16; 3,11b; 5,2-3; 6,13-14).
 
O profeta Amós denuncia duramente também as instituições religiosas que estão justificando o processo de extorsão de tributos da população camponesa (Am 4,4-5; 5,21-23). Pelo conluio com a opressão econômica a religião oficial também será dizimada (templos) e seus agentes (Am 5,27; 7,9; 9,1).
 
“Odeiem o mal e amem o bem: restabeleçam no portão a justiça!” (Am 5,15). “Aqui está a exigência positiva por excelência na profecia de Amós. Os israelitas são conclamados a reconstruir as relações sociais baseadas na justiça e no direito (mishpat / sedaqah – em hebraico). Só assim será possível escapar do juízo vindouro anunciado. O futuro de um “resto” passa pela prática de Justiça”[6]. O juízo abre caminho para a justiça. A presença dos profetas e profetizas no meio do povo deixa Javé livre de qualquer responsabilidade diante da punição que o povo merece.  Não precisa nem explicitar a atualidade da profecia de Amós. Que cada leitor/a faça as atualizações necessárias.
 
Notas:
 
[1] HAROLDO REIMER, Amós - profeta de juízo e justiça, em Os livros proféticos: a voz dos profetas e suas releituras, RIBLA 35-36, Ed. Vozes, Petrópolis e Ed. Sinodal, São Leopoldo, 2000, p. 171.
[2] Para melhor compreensão sugiro ler na Bíblia Am 4,4-13 (capítulo 4, versículos de 4 a 13) antes de prosseguir a leitura do nosso texto.
[3] Gato escaldado com água quente tem medo até de água fria, diz a sabedoria popular.
[4] Sugiro ler na Bíblia Am 7,1-17 antes de prosseguir a leitura do nosso texto.
[5] HAROLDO REIMER, Amós - profeta de juízo e justiça, em Os livros proféticos: a voz dos profetas e suas releituras, RIBLA 35-36, Ed. Vozes, Petrópolis e Ed. Sinodal, São Leopoldo, 2000, p. 188.
[6] HAROLDO REIMER, Amós - profeta de juízo e justiça, em Os livros proféticos: a voz dos profetas e suas releituras, RIBLA 35-36, Ed. Vozes, Petrópolis e Ed. Sinodal, São Leopoldo, 2000, p. 189.
 
Fonte: IHU Unisinos
Ilustração: Earth and All Stars

 
Vai ser realizada, nos dias 22 e 23 de março, em Joinville, Santa Catarina, mais uma oficina Imigrantes e Refugiados – Desafios da Casa Comum. O evento, que já está com as inscrições abertas, será sediado na Católica de Santa Catarina: rua Visconde de Taunay, 427, bairro centro – Auditório H 18.
 
O objetivo é sensibilizar igrejas e comunidades de fé para a situação das pessoas imigrantes e refugiadas, procurando ampliar a rede de acolhida; criar espaços de escuta e diálogo com pessoas imigrantes e refugiadas a fim de identificar as principais dificuldades enfrentadas por elas no Brasil e, finalmente, aumentar a ação de incidência pública com o objetivo de denunciar violações de direitos e propor estratégias para ampliar os mecanismos de proteção.
 
Mesa e Programação
 
No dia 22 de março, com início às 18 horas para credenciamento, a mesa será composta por Valéria Vilhena, fundadora das Evangélicas pela Igualdade de Gênero, teóloga, mestre em Ciências da Religião e doutora em Educação e História Cultural. Desde 2007 envolvida em pesquisas com violências domésticas entre mulheres evangélicas. Henrique Vieira também fará parte da mesa de abertura: professor, cientista social, historiador, teólogo, pastor e ator. Vieira acredita num cristianismo humanista, libertário e inclusivo. A mediação ficará por conta da secretária-geral do CONIC, Romi Benke.
 
No dia 23 de março, pela manhã, acontecerá um estudo sobre a Nova Lei de Migração A assessoria é por conta Emanuely Gestal da Silva, agente de proteção no Centro de Referência de Atendimento ao Imigrante em Santa Catariana (Crai). Bacharel em Relações Internacionais pela Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC), atuou na área da imigração na Defensoria Pública da União/SC de 2016 a 2018. Participou do projeto de extensão “Cátedra Sérgio Vieira Mello: Ações de Capacitação em Direitos Humanos e Proteção aos Refugiados”, em Florianópolis/SC. Hoje ela realiza pesquisas no grupo EIRENÉ – Centro de Pesquisas e Práticas Pós-coloniais e Decoloniais aplicadas às Relações Internacionais e ao Direito Internacional. 
 
No período da tarde haverá o “jogo” Imigrantes e Refugiados – Desafios da Casa Comum, que irá propor uma imersão nas realidades experimentadas por imigrantes e refugiados. 
 
Vagas limitadas
 
O encontro terá espaços para plenárias e encaminhamentos de atividades. Para a palestra de abertura há 100 vagas. Para o segundo dia, 60 vagas.
 
 
A situação do Imigrante em Joinville
 
Os imigrantes que chegam a Joinville notam logo de início o descaso do poder público. A maior cidade do estado não possui casa de passagem e tampouco um local que possa receber pessoas de outros países e que passam por necessidades. A única forma de apoio do poder público é pelo Centro de Referência da Assistência Social (CRAS) como porta de entrada para os programas sociais, porém, esse trabalho não é tão simples, já que os imigrantes sofrem com a falta de profissionais que falem no mínimo o Inglês para facilitar a comunicação. 
 
Uma discussão foi aprofundada pelo Centro dos Direitos Humanos Maria da Graça Braz (CDH), um dos principais defensores de medidas que acolhesse quem chega à cidade. Outras instituições e organizações populares também fazem trabalhos pontuais, como aulas de Língua Portuguesa, cursos profissionalizantes, assistencial e emergencial. 
 
“Muitas vezes, o serviço público encaminha os imigrantes para estas organizações, uma vez que não dá conta do atendimento por falta de políticas públicas”, relata a jornalista Lizandra Carpes, do Centro dos Direitos Humanos. 
 
Na cidade, um dos projetos realizados com os imigrantes é do Exército da Salvação (ES). Atualmente, eles dão aulas e assessoramento às famílias no Centro Integrado João de Paula. A Assistente Social do ES, Damaris Alves, explica que os cursos e o assessoramento são semanais. “O assessoramento, a defesa e garantia de direitos acontecem todos os sábados, durante todo o dia, por meio de cursos. Pela manhã, são ensinados o português básico e o intermediário, com duas horas de duração, e cursos de corte e costura, panificação, com duas horas e meia, além de inclusão digital”, conta. 
 
Os imigrantes que participam das atividades no Exército da Salvação recebem almoços gratuitos. Além disso, para quem tem filhos, há um espaço específico onde voluntários cuidam das crianças.
 
O trabalho do Exército da Salvação tem em sua essência o trabalho social sem discriminação, seja pela raça, cor, religião ou orientação sexual. Atualmente, também desenvolvem um trabalho em Roraima. “Temos o trabalho com nossos irmãos haitianos aqui e, da mesma forma, estamos lá em Boa Vista (RR) trabalhando com os venezuelanos. Além das necessidades básicas, levamos um pouco de alento, amor e esperança para aqueles que deixaram tudo para trás buscando uma vida melhor”, afirma a tenente de ES, Josiane Rodrigues. 
 
Um dos principais motivos para o CONIC desenvolver trabalhos de conscientização em Joinville é porque o município é muito visado por imigrantes. 
 
“Percebemos que um número significativo de imigrantes opta pelas regiões Sudeste e Sul por causa da possibilidade de trabalho em empresas e indústrias”, pontua Romi. Para a pastora, é importante desenvolver o tema, pois, o Brasil sempre foi visto como um país hospitaleiro. “Quando olhamos para as dificuldades enfrentadas por imigrantes e refugiadas em nosso país, percebemos que o espírito de hospitalidade não é tão real conforme propagado”, afirma. Romi acredita que o país é hospitaleiro dependendo do imigrante. “Somos bastante hostis com a pessoa estrangeira que vem para o país em busca de melhores condições de vida. A hostilidade aumenta quando estas pessoas vêm de países africanos”, explica.
 
Serviço:
 
Imigrantes e Refugiados – Desafios da Casa Comum
 
Oficina Imigrantes e Refugiados – Desafios da Casa Comum
Onde: Centro Universitário - Católica de Santa Catarina – Auditório H 18
Rua: Visconde de Taunay, 427, Centro.
Data: 22 e 23 de março
Horário: Das 18h às 22 horas – 22 de março
Das 8h às 17h – 23 de março
 
 
Com informações de Lizandra Carpes
Imagem: Reprodução / Mirian Reis

 
Nesta terça-feira, 26 de fevereiro, a Comunhão Anglicana celebrou a memória da primeira mulher a se tornar clériga na Igreja. A reverenda Florence Li Tim-Oi foi ordenada diácona em 22 de maio de 1941, em Hong Kong, em plena 2ª Guerra Mundial. Desde a Conferência de Lambeth, de 1920, havia um debate sobre a possibilidade de mulheres administrarem os Sacramentos, e a Guerra, agravada pelo conflito sino-japonês, levou a Hong Kong Sheng Kung Hui (Província Anglicana na China) a tomar uma decisão ousada e ordenar a primeira mulher.
 
Por ser mulher e ter liberdade de circulação nos territórios em guerra, ela recebeu licença para distribuir a Eucaristia em vários lugares e socorrer espiritualmente muitas comunidades assoladas pelo conflito. Em 25 de janeiro de 1944 ela foi ordenada presbítera, mas foi pressionada até ao ponto de entregar sua licença clerical em 1946, no pós-guerra, sem jamais renunciar às suas ordens.
 
 
A Conferência de Lambeth de 1948 (na Resolução nº 113) rejeitou um pedido do Sínodo Geral da China para um período experimental de 20 anos de ordenação sacerdotal feminina; a despeito da negativa, o Sínodo reinseriu Florence no seu quadro clerical e, em 1949, ela foi enviada para servir na Catedral de Nosso Salvador (atual Jingyi Church), em Guangzhou. 
 
Com o fechamento de todas as igrejas chinesas pelo regime comunista entre as décadas de 1950 e 1970, ela foi enviada como trabalhadora numa fazenda. Há relatos de que Florence se deslocava às escondidas até uma montanha próxima para orar e chegou a pensar em suicídio. Oficiais da Guarda Vermelha a forçaram a rasgar suas vestes litúrgicas com tesouras e ela só pode se aposentar do trabalho na fazenda em 1974.
 
Apenas em 1968 a Conferência de Lambeth (Resoluções 34 a 39) autorizou as Províncias a estudarem a ordenação de mulheres, e a 11ª Conferência de Lambeth, em 1978, com a resolução 21 (aprovada por 316 votos a favor, 37 contra e 17 abstenções) tornou amplamente possível o acesso de mulheres ao Ministério Ordenado na Comunhão Anglicana. 
 
A reverenda Florence só pôde retomar seu ministério em 1979, e se refugiou no Canadá dois anos depois. Ela faleceu em Toronto, em 26 de fevereiro de 1992, aos 84 anos.
 
 
Foto: Reprodução

 
O papa Francisco realizou um emocionante discurso contra os abusos sexuais a crianças e adolescentes ao final da concelebração eucarística neste final de semana no Vaticano, na Itália.
 
Durante o encontro ‘A Proteção dos Menores na Igreja’, o pontífice da Igreja Católica reconheceu a gravidade dos abusos cometidos dentro do ambiente familiar, educacional e religioso. Mas celebrou, por outro lado, o fato dos casos estarem vindo à tona - e julgados em diversos âmbitos.
 
“Apenas em tempos relativamente recentes, se tornou objeto de estudos sistemáticos, graças à mudança de sensibilidade da opinião pública sobre um problema considerado tabu no passado, ou seja, todos sabiam da sua existência, mas ninguém falava nele. [...] De fato, as vítimas raramente desabafam e buscam ajuda. Por trás desta relutância, pode estar a vergonha, a confusão, o medo de retaliação, os sentimentos de culpa, os condicionalismos culturais e sociais, mas também a falta de informação sobre os serviços e as estruturas que podem ajudar. Infelizmente, a angústia leva à amargura, e mesmo ao suicídio, ou por vezes a vingar-se, fazendo o mesmo. A única coisa certa é que milhões de crianças no mundo são vítimas de exploração e de abusos sexuais”, explicou Francisco.
 
Em relação aos recentes casos denunciados dentro da Igreja, Francisco explicou que está diante do ‘mistério do mal’ e que medidas disciplinares e processos civis e canônicos devem ser aplicados aos abusadores. “A desumanidade do fenômeno, a nível mundial, torna-se ainda mais grave e escandalosa na Igreja, porque está em contraste com a sua autoridade moral e a sua credibilidade ética. O consagrado, escolhido por Deus para guiar as almas à salvação, deixa-se subjugar pela sua fragilidade humana ou pela sua doença, tornando-se assim um instrumento de satanás. Nos abusos, vemos a mão do mal que não poupa sequer a inocência das crianças. Não há explicações suficientes para estes abusos contra as crianças. Com humildade e coragem, devemos reconhecer que estamos perante o mistério do mal, que se encarniça contra os mais frágeis, porque são imagem de Jesus. É por isso que atualmente cresceu na Igreja a consciência do dever que tem de procurar não só conter os gravíssimos abusos com medidas disciplinares e processos civis e canônicos, mas também enfrentar decididamente o fenômeno dentro e fora da Igreja. Sente-se chamada a combater este mal que atinge o centro da sua missão: anunciar o Evangelho aos pequeninos e protegê-los dos lobos vorazes”, disse. 
 
O papa considerou uma ‘monstruosidade’ os abusos cometidos e vê a ira de Deus como reflexo. “Quero repetir aqui claramente: ainda que na Igreja se constatasse um único caso de abuso – o que em si já constitui uma monstruosidade –, tratar-se-á dele com a máxima seriedade. Irmãos e irmãs: na ira justificada das pessoas, a Igreja vê o reflexo da ira de Deus, traído e esbofeteado por estes consagrados desonestos. O eco do grito silencioso dos menores, que, em vez de encontrar neles paternidade e guias espirituais, acharam algozes, fará abalar os corações anestesiados pela hipocrisia e o poder. Temos o dever de ouvir atentamente este sufocado grito silencioso”, explicou. 
 
Para julgar e evitar os novos casos de abuso, a Igreja passará a adotar as ‘Boas Práticas’ formuladas pela Organização Mundial da Saúde, que aprovou um pacote de medidas chamado INSPIRE, que são estratégias para acabar com a violência contra as crianças. “Valendo-se destas diretrizes, a Igreja, no seu percurso legislativo, graças também ao trabalho feito nos últimos anos pela Comissão Pontifícia para a Tutela dos Menores e à contribuição deste nosso Encontro, concentrar-se-á sobre as dimensões: 1) A tutela das crianças; 2) Seriedade impecável; 3) Uma verdadeira purificação; 4) A formação; 5) Reforçar e verificar as diretrizes das Conferências Episcopais; 6) Acompanhar as pessoas abusadas; 7) O Mundo digital; 8) Turismo sexual”, pontuou.
 
Foto: Reprodução / Getty Images

 
O Senado aprovou um projeto de lei que impede, em qualquer caso, o casamento de pessoas menores de 16 anos (PLC 56/2018). Mas a proposta mantém a possibilidade de pais ou responsáveis de jovens com 16 e 17 anos autorizarem o casamento.
 
O PLC já havia sido aprovado pela Câmara e agora segue para a sanção do presidente, Jair Bolsonaro. A autoria do projeto é da ex-deputada federal Laura Carneiro (MDB-RJ).
 
Atualmente o Código Civil (artigo 1.520), mudado pelo projeto, permite o casamento de menores de 16 anos para se evitar imposição ou cumprimento de pena criminal, ou em caso de gravidez. A proposta aprovada exclui essa previsão.
 
O casamento para evitar pena criminal prevê pena de reclusão de 8 a 15 anos para pessoas maiores de 18 anos que tenham relações sexuais ou que pratiquem outro ato libidinoso com um menor de 14 anos.
 
Essa medida atende às recomendações da Organização das Nações Unidas (ONU). Segundo dados do Fundo das Nações Unidas para a Infância (Unicef), somente na última década foram evitados 25 milhões de casamentos de menores de idade.
 
De acordo com o relatório ‘Fechando a Brecha: Melhorando as Leis de Proteção à Mulher Contra a Violência’, divulgado em 2017 pelo Banco Mundial, a cada ano 15 milhões de meninas em todo o mundo se casam antes de completar 18 anos.
 
E o Brasil ocupa uma posição alarmante na lista: em números absolutos, é o primeiro país no ranking de casamentos infantis da América Latina e está em quarto lugar no pódio mundial.
 
Texto: Isabela Alves
Foto: Getty Images

 
A Igreja da Inglaterra, anglicana, convocou uma reunião, na última semana, com investidores do ramo da mineração. Na pauta, medidas que precisam ser tomadas, em todo o mundo, com relação à segurança de barragens de rejeitos. A coalizão exigiu um sistema de classificação pública independente  para barragens de rejeitos, que contêm subprodutos da mineração.
 
O pedido para a realização do encontro veio depois do rompimento da barragem da Vale em Brumadinho, no Brasil. Pelo menos 169 pessoas morreram no desastre; 141 ainda não foram encontradas.
 
Houve questionamentos sobre a segurança dessas barragens, pois suas paredes são geralmente construídas de resíduos enlameados ao invés de material sólido.
 
Os investidores presentes fizeram a seguinte proposta: que o novo sistema de classificação seja independente e requeira auditorias anuais de todas as barragens de rejeitos, bem como a verificação de que os mais altos padrões de segurança estão sendo implementados. 
 
O bispo de Birmingham, David Urquhart, presidirá uma reunião de investidores, especialistas de renome e líderes da indústria em Londres, no dia 4 de abril, para determinar os próximos passos.
 

 
Uma pintura religiosa que acredita-se ter sido feita por um cristão japonês há cerca de 400 anos foi descoberta na província de Kanagawa, no Japão.
 
A pintura foi encontrada em um museu memorial na cidade de Oiso. A instalação é conhecida por sua coleção de itens históricos relacionados aos cristãos japoneses.
 
Representantes de um museu de história e especialistas examinaram a pintura e disseram que ela foi feita com tinta chinesa em um pergaminho de 22cm de diâmetro por 3m de comprimento de papel japonês washi.
 
A obra retrata 15 cenas relacionadas a Jesus e Maria, incluindo a Anunciação e o Pentecostes.
 
A pintura também exibe algumas partes escritas. Uma análise mostra que os escritos são orações latinas que alguém transcreveu de uma forma verbal.
 
As palavras “o ano de 1592” aparecem no fim do pergaminho. Segundo especialistas, é altamente provável que a pintura foi feita naquele ano. O Cristianismo chegou ao Japão 40 anos antes. Especialistas acreditam que cristãos japoneses da época reproduziram pinturas da religião ocidental para uso em suas orações.
 
Essa é a primeira descoberta de uma pintura religiosa feita em estilo tradicional japonês.
 
O vice-diretor do museu de história que analisou a pintura, Osamu Inoue, disse que o trabalho é considerado uma das pinturas mais antigas feitas por um japonês cristão.
 
Ele também acredita que essa seja a primeira a ser encontrada que inclui orações e que é uma descoberta significativa a qual diz muito sobre a vida religiosa de pessoas comuns na época.
 
Fonte: NHK World
Foto: Reprodução NHK World