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As mulheres sejam submissas a seus maridos...

 
Numa sociedade historicamente injusta com as mulheres, onde vemos casos de violência doméstica se multiplicando, essa passagem de Efésios, capítulo 5 é, muitas vezes, referência para a legitimação à opressão do homem sobre a mulher. No entanto, um olhar atento para esse texto da escritura evidencia que tal conselho era condicional. É necessário, portanto, levantar algumas suspeitas sobre ele quando se tem por base o conjunto do Evangelho. 
 
Quando a carta aos Efésios foi escrita, a bíblia (como a conhecemos hoje) ainda estava sendo formada, portanto, é importante que este texto da bíblia não seja isolado do seu contexto e, muito menos, do conjunto do Evangelho. 
 
A carta em questão nasceu dentro de um contexto patriarcal. O patriarcado é um sistema social e cultural em que poucos homens têm poder sobre mulheres, crianças, escravos e povo colonizado. Naquele contexto, portanto, compreendia-se a família a partir de uma lógica hierárquica, na qual o homem era tido como o chefe da família ou do clã. No entanto, a pergunta a ser feita é se nas experiências das primeiras comunidades cristãs esta lógica era mantida ou se eram vividas experiências em que as mulheres eram lideranças e protagonistas. 
 
Se lermos outras cartas paulinas, identificaremos que nas igrejas fundadas por Paulo as mulheres ensinavam, profetizavam, dirigiam a oração e tinham postos de autoridade. Lembremos de Priscila (At 18:26); as filhas de Felipe (At 21:8-9); as profetizas de Corinto (11:2-16); e de Febe (Rm 16:1-2). 
 
A tensão entre compreensões diferentes de sociedade e igreja também existia no período bíblico. Por um lado, havia grupos e lideranças que queriam manter a ordem hierárquica e a submissão das mulheres ao sistema patriarcal. Por outro, vemos experiências totalmente novas, em que mulheres e homens exerciam seus papéis de liderança em igualdade. 
 
É exatamente por isso que Efésios 5 precisa ser lido em um contexto amplo. Neste sentido, não é possível aceitar que se utilize esta passagem ou qualquer outro texto bíblico para impor o silêncio e a submissão das mulheres. Não é vontade de Deus que mulheres sejam submetidas a situações de violência e silenciamento.
 
As mulheres são imagem e semelhança de Deus (Gn 1:31). Deus se alegra quando as mulheres nascem (Sl 127:3), assim como os homens.
 
Como Cristo amou a igreja
 
Logo que fala sobre submissão da esposa, o mesmo capítulo diz: “maridos, amai vossas mulheres, como também Cristo amou a igreja, e a si mesmo se entregou por ela” (Ef 5:25). Os homens cristãos precisam amar suas esposas assim como Cristo amou a igreja. Está claro! A proposta de Jesus talvez possa ser vista como um incentivo para que o homem viva uma nova experiência de masculinidade: uma masculinidade que não se baseia no uso do poder e da força, mas no amor e nas relações de igualdade. 
 
Submissão 
 
Exigir submissão da mulher ou de qualquer outra pessoa com base em um único versículo significa manipular a mensagem bíblica. 
 
Lembremos das passagens que negam veementemente qualquer tipo de submissão entre homem e mulher, como por exemplo: “não há judeu nem grego; não há servo nem livre; não há homem nem mulher; porque todos vós sois um em Cristo Jesus” (Gl 3:28). 
 
É bom reconhecer também que somos todas e todos, mulheres e homens, geração eleita e povo adquirido de Cristo (I Pe 2:5-9). O sacrifício de Jesus na cruz não foi 60% para os homens e 40% para as mulheres. Não há base bíblica para afirmar isso. Ao contrário, Ele se entregou para a redenção de todos, igualmente (1 Tm 2:6, Gl 1:4, Jo 3:16-17).
 
Harmonizar ou entender a submissão
 
O texto nos provoca a reflexão sobre as transformações necessárias para que relações de igualdade, companheirismo entre mulheres e homens sejam possíveis. Não é submissão que se quer, mas amor e respeito.  Essa lógica encontra respaldo em várias passagens, mas especialmente nesta aqui: “mas todo aquele que quiser entre vós fazer-se grande seja vosso serviçal; E, qualquer que entre vós quiser ser o primeiro, seja vosso servo; Bem como o Filho do homem não veio para ser servido, mas para servir” (Mateus 20:26-28).
 
Deus não quer que as relações entre casais seja de “um fala e o outro obedece”. Deus mesmo reprovou a dominação de uma pessoa para com a outra quando disse: “Vocês sabem que os governantes das nações as dominam, e as pessoas importantes exercem poder sobre elas” (Mt 20:25) – arrematando logo em seguida com a seguinte orientação – “Não será assim entre vós” (Mt 20:26).
 
Portanto, de agora em diante, quando você ouvir por aí esse papo de que as mulheres precisam ser submissas, suspeite e pergunte: se Deus é amor, porque Deus seria favorável à dominação de gênero? Se você desejar, pode imprimir esse artigo e compartilhar com quem pensa assim. Convide amigos e amigas para uma conversa aberta sobre o tema. Muitas injustiças têm sido perpetradas em função de interpretações bíblicas realizadas fora de contexto e com o interesse de manter relações de poder desiguais. A letra mata (2 Cor 3:6). E mata de verdade. Quantas não são as irmãs que, mesmo diante de um casamento opressor, ficam quietas e se resignam na condição de submissas “por que a bíblia diz que deve ser assim” e porque a liderança religiosa de sua comunidade de fé a orienta a aguentar a relação de dominação pelo bem da família? Muitas acabam mortas pelos companheiros (leia A igreja e a violência doméstica contra as mulheres).
 
Texto fora de contexto é pretexto para opressão. Vamos sempre nos atentar ao conselho que diz: “Porque virá tempo em que não suportarão a sã doutrina; mas, tendo comichão nos ouvidos, amontoarão para si doutores conforme as suas próprias concupiscências; E desviarão os ouvidos da verdade, voltando às fábulas” (2 Tm 4:3-4).
 
“Mas tu, sê sóbrio em tudo” (2 Tm 4:5).