
Café Teológico, em agosto de 2026, reuniu pesquisadoras, pesquisadores e lideranças religiosas para refletir sobre os desafios da fé e dos fundamentalismos na realidade digital.
O Conselho Nacional de Igrejas Cristãs do Brasil (CONIC) realizou, no dia 19 de agosto de 2026, mais uma edição do Café Teológico 2026, com o tema “Fé e Fundamentalismos: Cultura e Religião na Realidade Digital”. A atividade foi transmitida ao vivo pelo canal do CONIC no YouTube e propôs uma reflexão sobre as formas como a realidade digital tem transformado os modos de viver, comunicar e disputar sentidos sobre a fé.
A conversa reuniu Magali Cunha, doutora em Ciências da Comunicação, jornalista e editora-geral do Coletivo Bereia; David Mesquiati, pastor pentecostal e professor vinculado ao Programa de Pós-Graduação em Ciências da Religião da PUC-Campinas; Lorena Mochel, pesquisadora de pós-doutorado da UFRRJ e assessora de pesquisas na Casa Galileia; e Elias Wolff, doutor em Teologia, mestre em Filosofia, professor da PUCPR e membro da Comissão Teológica do CONIC, que realizou a mediação do encontro.
Na abertura, Edoarda Sopelsa Scherer, pela Coordenação Geral do CONIC, destacou a atualidade do tema e a importância de refletir sobre as novas formas de relação, comunicação e construção de identidades no ambiente digital. O encontro buscou observar como narrativas religiosas circulam nas redes, influenciam Comunidades de fé e impactam os caminhos do diálogo, da cooperação e da convivência democrática.
Em sua fala, Magali Cunha apresentou um panorama sobre a cultura digital e seus impactos nas relações sociais, políticas e religiosas. A pesquisadora lembrou que as tecnologias digitais não podem ser compreendidas apenas como ferramentas, pois transformaram profundamente os modos de relacionamento, trabalho, consumo, participação pública e vivência da fé.
“Depois da era digital, nada será como antes. A coisa se transforma com uma rapidez tão grande que um dia após o outro já é um dia diferente, já é um dia com uma novidade.” Magali Cunha
Magali também chamou atenção para os riscos associados à lógica algorítmica, à sobrecarga de informações e à circulação de conteúdos falsos ou enganosos. Segundo ela, as Comunidades de fé se tornam especialmente vulneráveis quando conteúdos de desinformação mobilizam medo, ameaça e insegurança em nome da religião.
A partir da Antropologia e de pesquisas sobre religião digital, Lorena Mochel refletiu sobre o digital como espaço de mudança, formação religiosa e surgimento de novas lideranças. Em sua contribuição, destacou que as redes não são ambientes neutros, mas também não devem ser vistas como espaços fechados em si mesmos, pois nelas também surgem resistências, rupturas e outros modos de viver a fé.
“A gente não pode enxergar o digital como um espaço fechado em si mesmo. Os espaços digitais são arenas públicas. Se eles estão compondo as experiências das pessoas, eles também são transformados por essas experiências.” Lorena Mochel
Em seguida, David Mesquiati trouxe uma leitura teológico-pastoral sobre os desafios da fé diante da cultura digital. O professor destacou que o ecossistema digital atravessa todas as dimensões da vida, inclusive o culto, a liturgia e as experiências religiosas. Para ele, não se trata de rejeitar a tecnologia, nem de se submeter a ela, mas de desenvolver uma postura crítica, dialogal e comprometida com o serviço.
“Não se trata de negá-lo e nem de submeter-se a ele, mas entrar num diálogo para, de fato, compreender. As novas gerações que já vêm nesse novo ambiente têm outra forma de processar, e a nossa teologia precisa dialogar com isso.” David Mesquiati
Durante o debate com o público, as pessoas convidadas refletiram sobre caminhos possíveis para enfrentar os fundamentalismos na cultura digital. Entre as propostas, foram destacadas a recuperação da cultura do diálogo, o fortalecimento de rodas de conversa nas Comunidades, a educação midiática, o letramento digital, a checagem de informações e a denúncia da desinformação e dos discursos de ódio.
No encerramento, Edoarda destacou que o debate mostrou a necessidade de pensar a comunicação de forma ética nas Comunidades religiosas e em rede, reconhecendo que o tema permanece aberto e exige novas oportunidades de diálogo.
“A comunicação tem que ser pensada do ponto de vista ético para nossas Comunidades religiosas, mas como algo que também se constrói em rede.” Edoarda Sopelsa Scherer
A atividade contou com a colaboração de Misereor, Núcleo Ecumênico Inter-religioso da PUC Paraná, Coletivo Bereia, Associação Mundial para a Comunicação Cristã (WACC), SIGNIS Brasil, Casa Galileia e Pastoral da Comunicação (PASCOM).
O Café Teológico 2026 reafirma o compromisso do CONIC com o diálogo Ecumênico e Inter-religioso, a promoção da dignidade humana, o enfrentamento aos fundamentalismos e a construção de espaços de escuta, cooperação e convivência em favor da vida.
A íntegra da conversa está disponível no canal do CONIC Brasil no YouTube.
Por CONIC Brasil