
Simpósio realizado em Brasília reuniu pesquisadoras, pesquisadores, lideranças religiosas e organizações da sociedade civil para debater os desafios do ultraconservadorismo religioso para a democracia.
O Simpósio Religião e Política em tempos de ultraconservadorismo: desafio para a democracia foi realizado nos dias 25 e 26 de agosto de 2026, no Auditório do IPOL/UnB, em Brasília (DF). O encontro reuniu pesquisadoras, pesquisadores, lideranças religiosas, organizações da sociedade civil, estudantes e pessoas interessadas em compreender as relações entre religião, política, democracia e direitos fundamentais.
A atividade teve como objetivo refletir sobre a articulação e as narrativas do ultraconservadorismo religioso no Brasil e seus ecossistemas transnacionais de comunicação, analisando os impactos desse fenômeno sobre a garantia dos direitos fundamentais e a convivência democrática.
Na abertura, a reitora da Universidade de Brasília, Rozana Reigota Naves, Francisco Botelho, da Comissão Brasileira Justiça e Paz (CBJP), João Décio Passos, da PUC-SP e do Núcleo de Estudos Democracias e Fundamentalismos (NEDEF), Bianca Daebs (CESE e FE ACT) destacaram a importância de articular pesquisa, compromisso público e ação coletiva diante dos desafios colocados pelos fundamentalismos. Pela Coordenação Geral do CONIC, Edoarda Sopelsa Scherer ressaltou a necessidade de construir espaços seguros de reflexão crítica, escuta e defesa da democracia, dos direitos e da vida.
O painel “Radicalização política e juventude no Brasil: a formação de identidade coletiva nas comunidades gamers no Discord”, foi conduzida por João Victor Ferreira (IPOL/ UnB). A partir da pesquisa com jovens hiperconectados, a fala ajudou a compreender como ambientes digitais podem se tornar espaços de sociabilidade, pertencimento, circulação de discursos e radicalização política.
Ainda no primeiro dia, “Afinidades entre política e religião na era digital” reuniu Magali Cunha (ISER/FEACT) e Jocimar Souza Silva (IPOL/UnB), sob mediação de Andréa Laís Barros Santos (Casa Galileia). A conversa trouxe elementos sobre a presença de grupos religiosos e políticos nas mídias digitais, a circulação de discursos de guerra cultural, a desinformação em ambientes religiosos e os desafios de comunicação para o campo democrático.
À tarde, “A hermenêutica fundamentalista: gramática, transformações e politizações” contou com contribuições de Petterson Bray (Grupo Religião e Política do Programa de Ciência da Religião da PUC-SP) e Claudete Beise Ulrich ( Grupo de Pesquisa REGEVIDHE - Faculdade Unida, CJP - Arquidiocese de Vitória), com mediação de Bianca Deabs (CESE e FEACT). As reflexões trataram do fundamentalismo como modo de produzir certezas, interpretar textos sagrados e organizar visões de mundo, apontando também seus impactos sobre as mulheres, os direitos, a política e a ocupação do espaço público.
O primeiro dia foi encerrado com “Teologia do domínio e a questão do poder”, com João Décio Passos e Samuel Araújo ambos do (Grupo Religião e Política do Programa de Ciência da Religião da PUC-SP/ NEDEF), sob mediação de Moema Miranda (RIM/CBJP/NEDEF). A discussão buscou conceituar essa postura político religiosa, observando como ela mobiliza medo, crise, inimigos e disputas por poder, além de indicar a necessidade de uma leitura crítica, teológica e acadêmica desse fenômeno.
No segundo dia, foi apresentada a pesquisa “Ecossistema de comunicação religiosa”, com a condução de Daniel Seidel (CBJP/NEDEF). A apresentação tratou da construção de redes de influência, da circulação transnacional de narrativas religiosas e dos rastros públicos deixados por atores em plataformas digitais, contribuindo para compreender como determinados discursos se organizam, se conectam e alcançam a vida política.
A programação seguiu com “Alianças entre católicos e evangélicos”, em diálogo com Romero Venâncio (UFS) e Romi Márcia Bencke (NEDEF), sob mediação de Rebecca Abers (UnB). A conversa analisou aproximações entre setores cristãos no campo político, observando redes digitais, megaeventos religiosos, linguagens carismáticas e pentecostais e formas de mobilização pública atravessadas por pautas conservadoras.
A crise climática e as leituras religiosas sobre o fim do mundo também estiveram no centro das reflexões. A mesa “Negacionismo climático e fim do mundo: apocalipse e utopias escatológicas” reuniu Leon Souza (Casa Galileia) e Moema Miranda (RIM/CBJP/ITF) com mediação de Edoarda Sopelsa Scherer (CONIC). A discussão partiu de experiências concretas de territórios atingidos por eventos climáticos extremos, como o Vale do Taquari, no Rio Grande do Sul, para refletir sobre discursos apocalípticos, desinformação religiosa e responsabilidade coletiva diante do cuidado com a Criação.
Na mesa de encerramento, “Desafios e possibilidades”, representantes das organizações participantes e realizadoras do evento apontaram caminhos de continuidade para as reflexões iniciadas no simpósio. Entre os encaminhamentos, estiveram a importância de fortalecer redes de pesquisa e ação, aproximar academia, Igrejas e organizações baseadas na fé, investir em comunicação, formação de lideranças, produção de materiais e novas estratégias de enfrentamento aos fundamentalismos.
O simpósio foi realizado pelo CONIC e Misereor em parceria com a Comissão Brasileira Justiça e Paz (CBJP), IPOL/UnB, Grupo Religião e Política do Programa de Ciência da Religião da PUC-SP e Núcleo de Estudos Democracias e Fundamentalismos (NEDEF). A atividade contou com apoio do Grupo de Pesquisa Religião, Gênero, Violências, Direitos Humanos e Educação (REGEVIDHE), da Faculdade Unida, Comissão Justiça e Paz da Arquidiocese de Vitória, Coordenadoria Ecumênica de Serviço (CESE), Fórum Ecumênico ACT Brasil, Casa Galileia e Instituto de Estudos da Religião (ISER).
A realização reafirma o compromisso do CONIC com o diálogo Ecumênico e Inter-religioso, a defesa da democracia, dos direitos humanos, da justiça social e da convivência plural, reconhecendo a importância de compreender criticamente os fundamentalismos e construir respostas coletivas em favor da vida.
Por CONIC Brasil
