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Por Josias de Souza*
 
Wilson Witzel teve um domingo assombrosamente normal. Plugou-se às redes sociais antes do nascer do Sol. Às 5h, postou um "parabéns" à cidade de São Gonçalo, que faz aniversário de 129 anos. Celebrou o Dia Mundial Sem Carro. "Eu apoio essa iniciativa por um mundo sem poluição." E pendurou nas redes uma foto na qual aparece de costas ao lado de sua caçula. "Minha filha, Beatriz, faz hoje a prova de ingresso para o Colégio Militar", anotou na legenda.
 
Beatriz Witzel, 11, é apenas três anos mais velha do que Ágatha Félix, 8, a menina que foi morta por um tiro de fuzil, quando estava com sua mãe numa Kombi, durante operação policial no Complexo do Alemão. Executada na noite de sexta-feira, Ágatha foi sepultada neste domingo. Embora já fossem decorridos quase três dias da tragédia, o governador fluminense manteve em relação ao tema um silêncio tumular.
 
Por uma trapaça do destino, Ágatha foi conduzida à cova por sua família no mesmo dia em que o pai de Beatriz levou-a para a escola. Produziu-se um incômodo contraste entre o domingo normal de Witzel e a anormalidade decorrente da política de segurança baseada no lema do "tiro na cabecinha". A execução de mais uma alma inocente, de fulgurante jovialidade, é um acontecimento do tipo que fere a rotina como uma lâmina fria, fazendo o cotidiano escapar do controle.
 
Ignore-se por um instante o tiro que matou Ágatha, e fixe-se a atenção no que aconteceu antes e depois do disparo. Antes, Witzel consolidou-se como narrador de uma nova era. Disse coisas assim: "A polícia vai fazer o correto: vai mirar na cabecinha e… fogo!" Ou assim: "Cova, a gente cava." Ou ainda: "Criminosos serão combatidos e caçados nas comunidades." Depois, o silêncio.
 
Banalizou-se o noticiário sobre policiais entrando em bairros onde moram pessoas pobres, confrontando-se com bandidos e matando "suspeitos". Em três casos extremos, abateram-se, por exemplo, suspeitos de portar armas e drogas. Um carregava uma furadeira. Outro, um guarda-chuva. Um terceiro levava na mochila um par de chuteiras, uma sandália de dedo e R$ 85,00. Tudo isso antes do tiro que transfixou o corpo de Ágatha. Depois, o silêncio de Witzel.
 
Pode-se imaginar que o governador não tenha perdido a loquacidade no ambiente familiar. Cercada de guarda-costas, Beatriz chegou da escola. E o pai-governador decerto perguntou: "Como foi a prova, minha querida?" A menina talvez tenha respondido: "Acho que fui bem, papai". Esse é um tipo de diálogo banal que os familiares de Ágatha jamais poderão travar.
 
Se a normalidade reinante no cotidiano de Wilson Witzel tem alguma serventia é para demonstrar que algo de muito anormal precisa acontecer no Rio de Janeiro e no Brasil.
 
*Josias de Souza é jornalista desde 1984. Nasceu na cidade de São Paulo, em 1961. Trabalhou por 25 anos na ''Folha de S.Paulo'' (repórter, diretor da Sucursal de Brasília, Secretário de Redação e articulista). É coautor do livro ''A História Real'' (Editora Ática, 1994), que revela bastidores da elaboração do Plano Real e da primeira eleição de Fernando Henrique Cardoso à Presidência da República. Em 2011, ganhou o Prêmio Esso de Jornalismo (Regional Sudeste) com a série de reportagens batizada de "Os Papéis Secretos do Exército". 
 
Fonte: Uol
Foto: Reprodução das Redes Sociais

 
O papa Francisco recebeu, na manhã do último domingo, 15 de setembro, na Casa Santa Marta, uma delegação da Fundação de direito Pontifício “Ajuda à Igreja que Sofre” (AIS), guiada pelo cardeal Mauro Piacenza, presidente internacional da entidade.
 
Na oportunidade, Francisco abençoou o ícone da “Virgem das Dores, consoladora dos Sírios”, criado por um artista greco-ortodoxo, por ocasião da campanha de oração “Consola meu povo”. No ícone, aparecem os dois arcebispos sírios sequestrados pelo Estado Islâmico em 2013, dom Gregorios Yohanna Ibrahim (Igreja Sírian Ortodoxa) e dom Paul Yazigi (Igreja Greco Ortodoxa).
 
Em 15 de agosto, o papa já havia demonstrado apoio à iniciativa (Consola meu povo), convidando excepcionalmente o diretor executivo internacional da AIS, Thomas Heine-Geldern, a aparecer na janela de seu escritório ao final do Angelus, para a bênção dos Rosários.
 
Um povo em oração
 
Esses rosários, feitos pelos artesãos cristãos de Belém e Damasco, foram distribuídos nas paróquias de todas as 34 dioceses sírias, tanto católicas como ortodoxas.
 
Além dos rosários, também foram distribuídas Bíblias em árabe, doadas pela AIS, e cruzes de madeira de oliveiras da Terra Santa, abençoadas pelo patriarca Mor Ignatius Aphrem II, da Igreja Sírian Ortodoxa.
 
Ecumenismo prático
 
Iniciativas como as que foram citadas acima demonstram um ecumenismo prático entre igrejas-irmãs que, unidas, ajudam a fortalecer a fé daqueles e daquelas que sofrem os traumas da guerra. #UnidadeNaDiversidade 
 
CONIC com agências
Foto: Reprodução

 
Por Rowan Williams*
 
É difícil compreender a escala da devastação provocada pelos incêndios que ainda assolam a Amazônia. Essa é uma floresta tropical que fornece um quinto do oxigênio do planeta. É difícil não sentir impotência e desespero diante do desastre que está acometendo a região.
 
Mas, por mais forte – e amargo – que seja o sentimento diante dessa catástrofe ambiental, não devemos jamais perder de vista o fato de que se trata, também, de uma tragédia humana.
 
Precisamos ouvir com atenção redobrada as vozes daquelas pessoas que chamam a floresta de lar – vozes, muitas vezes, deixadas de lado ou deliberadamente silenciadas, com histórias que figuram apenas na nota de rodapé das notícias nos meios internacionais. Não há desculpa para não escutá-las agora.
 
A preocupação com a sobrevivência e o bem-estar dessas comunidades deve vir antes da ânsia por “desenvolvimento” que só serve a uma sanha por consumo e conveniência. O fato de, aparentemente, isso não ser uma prioridade moral óbvia deveria nos encher de vergonha.
 
Há gerações, os povos indígenas da bacia amazônica são os guardiões das florestas. Alguns já pagaram por isso com a própria vida, literalmente, muito antes dos incêndios desta temporada de seca. Essas comunidades enfrentaram anos de ataques, invasões ilegais e desmatamento. Seus direitos foram ignorados diante da ganância de diferentes interesses econômicos, e suas histórias são um relato sobre a absoluta desigualdade econômica que contamina e corrompe tanto o nosso mundo, incluindo países como o Brasil.
 
A América Latina tem a mais alta concentração de terras do mundo. Apenas 1% dos proprietários de terras controlam metade da terra agricultável. Na Amazônia, a mineração e a exploração do petróleo estão expulsando comunidades da floresta onde elas vivem há séculos.
 
Existem cerca de 3 mil comunidades quilombolas, formadas por descendentes de pessoas escravizadas que fugiam, entre aquelas que mais sofrem com os interesses das grandes empresas. Poucas dessas comunidades conquistaram o reconhecimento e a posse clara da terra onde vivem. Aquelas que não conseguiram enfrentam a força total das políticas de desenvolvimento econômico do atual governo brasileiro, que incentiva ativamente a extração de madeira e a mineração em terras quilombolas.
 
Esse problema não é só do Brasil – nem só dos outros países amazônicos, como Bolívia e Colômbia, que também vêm sofrendo o impacto dos incêndios e da devastação ambiental. Todos nós temos responsabilidade sobre isso. Os padrões globais de crescimento econômico, incluindo os níveis inéditos de demanda por carne no mundo desenvolvido, representam muito da pressão sobre o uso da terra na região. E, com o desmatamento generalizado em outras partes do mundo, ficamos mais dependentes que nunca da região para garantir nosso equilíbrio ecológico global.
 
Os incêndios que estão assolando a Amazônia são uma metáfora visível para o efeito da nossa paixão desenfreada por um crescimento econômico ilimitado. É essa paixão que levou a grande parte do desmatamento registrado nos últimos anos. É a isso que se deve a maioria esmagadora dos incêndios que hoje acontecem na região. O Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais do Brasil divulgou dados que mostram um aumento de 278%** no desmatamento em julho deste ano em comparação com o mesmo mês do ano passado.
 
Parece cada vez mais provável que tenhamos atingido ou estejamos próximos de atingir um ponto crítico irreversível na crise ecológica global, uma crise gerada pelo desejo de maximizar, indefinidamente, o que podemos extrair do nosso meio ambiente, como se ele não fosse nada mais que um armário de despensa a ser saqueado. O poeta canadense Robert Bringhurst escreve que o complexo mundo “selvagem” e indomado ao nosso redor “não é um portfólio de recursos para nós ou para nossa espécie comprar e vender ou administrar ou desperdiçar a nosso bel-prazer. A natureza selvagem é a Terra vivendo a própria vida em plenitude”.
 
A compulsão por consumo que leva a esse prejuízo extremo que estamos vendo nos desumaniza e destrói nosso meio ambiente. O incêndio também atinge nossa alma.
 
A beleza de pertencer a um mundo que nos nutre é a solidariedade que podemos desfrutar com outros seres vivos e também entre nós, como seres humanos.
 
A partir desse senso de solidariedade, a Christian Aid – cujo conselho presido – se uniu a outras mais de 100 organizações religiosas para declarar apoio ao Sínodo dos Bispos para a Amazônia, que deve se reunir em Roma no próximo mês. Essa declaração, “Somos la Amazonia” (“Somos a Amazônia”), expressa o apoio pela visão do sínodo e delineia um caminho de ação para proteger tanto a floresta quanto as comunidades indígenas e ativistas de direitos humanos que arriscam a própria vida para preservar seu habitat.
 
O primeiro-ministro [britânico, Boris Johnson] vem pedindo “mais ambição” no tratamento à crise climática e à perda de biodiversidade. Aceitamos a palavra dele: a Christian Aid lançou uma petição exigindo que ele e outros líderes globais enfrentem a pobreza e a desigualdade que alimentaram a crise ambiental. É hora de mostrar solidariedade às comunidades que vivem na linha de frente dessa crise, na Amazônia e no mundo.
 
*Artigo originalmente publicado no The Guardian 
Dr. Rowan Williams é ex-arcebispo de Canterbury
e presidente do Conselho da Christian Aid
 
**Os últimos dados sobre desmatamento divulgados pelo Inpe
revelam um aumento ainda maior no mês de agosto de 2019
 
Fonte: Brasil de Fato
Foto: João Laet/AFP
 

 
Romi Márcia Bencke nasceu com uma vocação. A menina gaúcha descendente de alemães já sabia que em seu futuro a religião ocuparia um papel maior do que o representado pelas idas aos cultos da Igreja Evangélica de Confissão Luterana no Brasil. Igreja esta que, como a família de Romi, veio ao Brasil por meio da migração alemã e se estabeleceu no sul do país.
 
Quando pequena, Romi certa vez perguntou ao pastor se mulheres também poderiam ser pastoras. Ao ouvir uma resposta afirmativa, ela decidiu: “então é isso que eu vou ser”. Aos 14 anos, Romi foi estudar em um internato da igreja em Ivoti, Rio Grande do Sul, para seguir o sonho que não era mais apenas dela, e sim de toda a comunidade que a abraçou. Lá, fez o curso de tradução, intérprete e pré-teológico, que era uma preparação para a faculdade de teologia. Ao terminar o curso, no entanto, mudou de planos e resolveu voltar para casa. “Eu decidi que eu não tinha maturidade, não me sentia preparada para ir para a teologia, aí eu voltei para casa, frustrando minha família e também a comunidade de fé”, diz.
 
Depois de pouco mais de dois anos trabalhando como professora em um colégio, sua vocação voltou a chamá-la e ela decidiu finalmente cursar teologia. Na Escola Superior de Teologia, em São Leopoldo, no Rio Grande do Sul, Romi entrou em contato não apenas com o estudo das diferentes religiões, mas com o papel social exercido por elas e pelas igrejas.
 
A partir do contato com a teologia da libertação, ela começou a se envolver em ações sociais e usou sua vocação para um propósito ainda maior: a defesa dos direitos humanos. O lema “unidade na diversidade”, repetido sempre que possível, não é apenas uma frase de efeito, mas um guia para sua atuação em um meio que, talvez contraditoriamente, é muitas vezes marcado por conflitos.
 
Na faculdade, no início dos anos 1990, Romi e seus colegas colocaram em prática a ideia de ação social e criaram um grupo de apoio às pessoas soropositivas da cidade de São Leopoldo. Na época, as informações sobre o HIV e a aids ainda eram muito incipientes no Brasil e, por isso, conta ela, “na igreja, o pessoal ficou maluco, porque é óbvio que tinha muito preconceito. Quando ficaram sabendo que tinha estudantes de teologia fazendo esse tipo de intervenção, teve muita reclamação, mas a gente encarou a briga”. A experiência que marcou sua vida também a apresentou a outras realidades como a das trabalhadoras do sexo e a discussão sobre sexualidade, que naquela época ainda era muito limitada.
 
Depois de formada, Romi estudou e trabalhou com o ecumenismo, tentando encontrar formas de unir as diferentes religiões em prol de um bem comum. Unidade na diversidade. Por sete anos, a questão ecumênica foi tratada diretamente com a comunidade por meio de sua atuação como pastora da igreja luterana em uma paróquia no interior do Rio Grande do Sul, até que ela foi escolhida a primeira mulher a assumir a Secretaria-Geral do Conselho Nacional de Igrejas Cristãs do Brasil (CONIC).
 
Talvez ela não soubesse, mas a pergunta que fez ao pastor quando jovem já demonstrava que ela possuía também uma outra vocação: a luta pelos direitos das mulheres. Romi não permitiu que o fato de ser mulher se colocasse como um empecilho para se tornar pastora ou atrapalhasse seu trabalho a favor de uma religiosidade mais tolerante.
 
A formação feminista faz com que hoje ela critique os valores patriarcais presentes nas relações de poder na sociedade brasileira e defenda discussões de gênero tanto nas escolas quanto nas igrejas. “As mulheres têm a sua dignidade, têm os seus direitos, e grupo religioso nenhum, seja ele qual for, pode negar a dignidade, a autonomia e o acesso aos direitos das mulheres”, defende.
 
Atualmente, são duas as linhas de atuação do CONIC: a promoção da vivência da comunhão e da espiritualidade ecumênica e inter-religiosa e a presença pública em diálogos sobre valores que fundamentam a perspectiva de equidade.
 
Romi ressalta que o primeiro ponto é fundamental porque hoje em dia vivemos em um contexto de muito fundamentalismo religioso, e a perspectiva ecumênica é necessária para que se difunda a ideia de que “religião não é para promover o ódio, nem pra dividir”. “A religião pode fortalecer valores que priorizem a construção de uma cultura de paz, de tolerância, de menos ódio, de mais aceitação mútua e assim por diante”, explica a pastora.
 
Diversidade
 
Mas o segundo pilar ganha destaque porque foi principalmente em função dele que o CONIC começou a atuar na questão da migração. Com o intenso fluxo de migrantes haitianos vindo para o Brasil a partir de 2010, o Conselho decidiu que era importante seu envolvimento no assunto, uma vez que esse é um tema tão caro às igrejas cristãs, já que se mistura até mesmo com a história de Jesus.
 
Em 2015, surgiu um projeto-piloto intitulado “Imigrantes e Refugiados: Desafios da Casa Comum”, no qual, mais uma vez, foi necessário olhar para dentro, para a religião em si. Em vez de oferecer assistência às pessoas que chegavam aqui – por considerar que o CONIC não tem o conhecimento necessário –, o Conselho escolheu trabalhar a aceitação e o acolhimento dos migrantes com comunidades religiosas para lutar contra o preconceito.
 
“Com isso, a gente colocou outros pontos que o tema da migração e do refúgio trazem. Por exemplo, a interculturalidade, a xenofobia, a inter-religiosidade, porque cada migrante vem com a sua experiência religiosa ou não, então a gente precisa trabalhar essa diversidade”, conta Romi. O projeto, no entanto, enfrentou dificuldades quando se deparou com casos de xenofobia dentro da própria comunidade. “A gente fez uma primeira experiência que durou um ano, e essa experiência contribuiu para comprovar a nossa suspeita, ou seja, o quão difícil é levar o tema da migração e do refúgio para dentro das igrejas”. “Por que é difícil?”, ela mesma pergunta. E responde: “porque as igrejas são muito autocentradas, então quando têm que se abrir para um trabalho externo, diferente daquilo que estão acostumadas a fazer, elas encontram resistência”.
 
Abrir as igrejas para a diversidade é a missão de Romi. Nessa tarefa árdua de lutar por um país mais diverso e, ainda assim, mais unido, sobram parceiros, que vão das próprias igrejas até o Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST), passando por várias outras iniciativas. “E por aí a gente vai, fazendo caminho ao andar”, resume Romi.
 
Fonte: Sur.Conectas
(Revista Internacional de Direitos Humanos)
Foto: Acervo pessoal

 
A 6ª Semana e Romaria do Cerrado, realizadas todos os anos na região Oeste da Bahia, ocorreu, nesta edição, em Coribe (BA), e teve início na sexta-feira (6), terminando com o ato religioso no Dia Nacional do Cerrado, 11 de setembro. Entre as atividades realizadas estavam: visitas missionárias, feiras, exposição de fotografias, exibição de filmes em escolas, missas e momentos culturais. 
 
Confira a Carta Final:
 
As Semanas e Romarias do Cerrado, na região Oeste da Bahia, já se tornaram eventos marcantes, em que as comunidades, pastorais, entidades populares, organizações, sindicatos, paróquias e movimentos sociais pautam os clamores do Cerrado e de seus povos. Em 2019 foi a vez de Coribe sediar sua 6ª edição, que contou com a realização de seminário formativo com professores; celebração de envio da Cruz Geraizeira; panfletagem na feira do município; visitas missionárias às comunidades rurais; trabalho informativo nas escolas; missa motivacional sobre a questão; noite cultural e exposição do documentário “Nas Corredeiras do Movimento”. 
 
Durante os dias 07 e 08 de setembro foram visitadas 24 comunidades rurais de Coribe que participaram de 17 reuniões, este trabalho abrangeu aproximadamente 1.500 famílias. Ao longo dessas atividades identificou-se o quanto é importante a Agricultura Camponesa para este município. Em todas as comunidades visitadas foi possível se deparar com hortas, plantio de roçados e criação de animais. O zelo com o campo mostra que Coribe é um grande produtor de alimentos e que há uma relação direta com os Gerais, denominação local para o bioma Cerrado, presente nos modos de vida e na ancestralidade comunitária, seja como oferta de frutos e ervas medicinais, seja como fonte de elementos culturais que só se encontram aqui. Não à toa, esta relação faz com que o Pequi seja um fruto simbólico de Coribe. 
 
Chamou-nos a atenção a questão da água que, assim como em outros municípios, está em condições extremas de escassez, e foi identificado um cenário de redução das águas e onde não há mais água, administrada de forma paliativa com o uso de carros pipas. Durante as reuniões, por meio de mapas, foi possível relacionar a atual situação de baixa vazão e o assoreamento do Rio Formoso e seus afluentes com o desmatamento de suas cabeceiras, realizado pelo agronegócio e agricultores sem consciência. Cabe ressaltar que o abastecimento hídrico da sede do município e de algumas comunidades rurais vem deste importante rio. É possível afirmar que, com o resultado deste trabalho, 41 veredas, córregos e rios secaram ou diminuíram seus volumes, exemplo disso são os rios: Alegre, Tolda e Tatu; os riachos: São José, de Fora, Infurnado, Malhada da Onça, Seco, Joaquim Bernardes, Deus me Livre, Jacu, dos Porcos, Camarada; e as veredas do Curralinho e do Bonito. No trabalho realizado nas escolas junto a crianças, adolescentes e jovens, a sensação é de perda e de saudade, pois segundo estes, o relato de seus avós e pais aponta para “riachos que morreram e que por isso, ali não se pode mais banhar”. 
 
Esse modelo de desenvolvimento alicerçado no agronegócio traz para Coribe uma série de desmatamentos e outorgas hídricas de grandes volumes, como exemplos podem-se citar: as Fazendas Nova Esperança e Boqueirão, que via Portaria INEMA no 18.571, de junho de 2019, receberam autorização para desmatamento de 1.115 hectares, equivalentes a 1.115 campos de futebol, onde se encontram as cabeceiras do Rio Alegre; e a Fazenda Triunfo, que por meio da Portaria INEMA no 12.925, de novembro de 2016, recebeu autorização de outorga para a captação superficial de 11.000 m3/dia, durante 17 horas/dia, água equivalente a 687 cisternas de captação de água de chuva, de 16.000 litros. Tais números traz a seguinte indagação: tudo que é legal é correto? 
 
Outro impacto perceptível durante as missões foi o uso indiscriminado de agrotóxicos e a sua relação com casos de Câncer, identificados em mais de cinco comunidades. Esses severos impactos coloca a população camponesa de Coribe em uma condição de migração, seja pela perda do estímulo de se manter na terra, seja pela dificuldade de garantir trabalho para os jovens, e consequentemente à sucessão rural. 
 
No momento em que a Amazônia arde em chamas, fazendo com que seus povos e toda a biodiversidade sofram com os impactos do desmatamento e das queimadas, a população mundial volta seus olhares para o Brasil. Vêm à tona os preceitos expressos pelo Papa Francisco e sua Encíclica Laudato Sí, onde está explícita sua análise, baseada na ecologia profunda, de que todos os seres vivos habitam uma “Casa Comum”. 
 
Diante dos ataques conservadores de políticos como o presidente Jair Bolsonaro (PSL) e seu ministro do Meio Ambiente Ricardo Salles (NOVO), desprezando os severos impactos vividos na Amazônia, numa perspectiva negacionista das mudanças climáticas. Conceitos como o de Rios Voadores, da relação reguladora do ambiente com o clima, e eventos como o Sínodo da Amazônia ganham novo sentido e passam a ser mais do que fundamentais na conjuntura atual. 
 
Com esta 6ª Semana e Romaria do Cerrado e com uma conjuntura de adversidades dos tempos atuais, surge o questionamento: O que podemos fazer? Mas, diante de um conjunto de incertezas e inseguranças, o trabalho realizado nas escolas com crianças, adolescentes e jovens e o diálogo com os educadores (as) nos fazem pensar que ainda há esperanças. Há um provérbio de autoria dos povos indígenas americanos, que diz: “Nós não herdamos a terra de nossos antecessores, nós a pegamos emprestada de nossas crianças”. Este foi o sentimento que esteve presente durante os dias de trabalho: somos corresponsáveis pelo cuidado e à defesa do Cerrado e de tudo que esse importante bioma representa para nós e as futuras gerações. 
 
Importantes ações, iniciativas e campanhas estão sendo realizadas, a exemplo da entrega na tarde de 11 de setembro, na Câmara Federal da PEC-504/2010, que solicita o reconhecimento dos biomas Cerrado e Caatinga como Patrimônio Nacional, e está acompanhada de uma Petição Pública com mais de meio milhão de assinaturas, e que ainda pode ser assinada. Por tudo isso, acreditamos que devemos continuar a gritar “SEM CERRADO: SEM ÁGUA, SEM VIDA” e que “Ninguém morrerá de sede nas margens de nossos rios”. 
 
Coribe-BA, 11 de setembro de 2019, Dia Nacional do Cerrado. 
 
Com informações da Comissão Pastoral da Terra
Foto: Marcos Rogério

 
No dia 16 de setembro, teve início uma longa Agenda de Incidência Internacional da qual o PAD – Processo de Articulação e Diálogo Internacional faz parte.
 
Um Conjunto de organizações da Sociedade Civil Brasileira está na Sede das Nações Unidas para acompanhar o 42º Período de Sessões do Conselho de Direitos Humanos. Momento que o Brasil também apresenta o relatório de meio período da Revisão Periódica Universal.
 
A Sociedade Civil fará também seu relatório sombra fazendo as críticas à situação e também uma série de atividade junto à Sociedade Civil para denunciar a situação dos Direitos Humanos no Brasil.
 
O momento é importante para dar visibilidade para as violações de direitos que acontecem em nosso país.
 
Mais informações, em breve, em nosso site ou no site do PAD: www.pad.org.br
 
Com informações da Comunicação PAD
Foto: Reprodução

 
Dom Roque Paloschi, arcebispo de Porto Velho (RO), foi reconduzido à missão de presidir o Conselho Indigenista Missionário (Cimi) pelos próximos quatro anos. Os delegados e delegadas da XXIII Assembleia Geral da entidade, que se encerrou na manhã desta sexta-feira (13), elegeram também a nova vice-presidente, Lúcia Gianesini, e o novo secretário executivo, Antônio Eduardo C. Oliveira.
 
“Me coloco novamente a serviço do Cimi na perspectiva da solidariedade e do compromisso com a causa indígena”, disse dom Roque Paloschi. Para o presidente reeleito do Cimi, o testemunho deve falar mais do que as palavras. “Temos de ter coragem nesse momento de aflição no país, a coragem dos povos indígenas, inclusive na espiritualidade”, afirmou. “No processo de escuta sinodal (Sínodo da Amazônia) ouvimos muitos clamores. Façamos com que a presença do Cimi nas aldeias seja uma presença de esperança, alento e comunhão”.
 
Para a vice-presidente do Cimi, Irmã Lúcia, catequista franciscana, com atuação junto ao Cimi Regional Sul – Equipe São Paulo, a Assembleia Geral ocorre em um dos períodos mais obscuros da política nacional, com repercussões extremamente negativas aos povos indígenas, além de muitas incertezas e dor. No entanto, acredita que “é um momento também de renascimento da esperança. Os missionários e missionárias se fortalecem junto aos povos indígenas”.
 
 
O encontro foi, sobretudo, a ocasião em que os missionários e missionárias debateram o projeto de transformação social do Cimi. “Nesses cinco dias de Assembleia fomos despertados pelo testemunho dos povos indígenas e motivados a partir das nossas lutas e sonhos. O objetivo foi um só: estabelecer um projeto de vida plena para todos e todas. Saímos com muita disposição para continuar com a nossa caminhada”, afirmou o novo secretário executivo do Cimi, Antônio Eduardo C. Oliveira, que já coordenou o Cimi Regional Leste e atualmente trabalha na região de Itabuna.
 
No final do evento, o documento final da XXIII Assembleia Geral do Cimi foi lido e aprovado pelos presentes. Leia na íntegra:
 
 
 
Documento Final da XXIII Assembleia Geral do Conselho Indigenista Missionário
 
 
Tiraram nossas folhas, cortaram nossos galhos, cortaram nossos troncos,
mas não arrancaram nossas raízes, por isso resistimos e estamos lutando por nossos direitos.
[Mensagem proferida por lideranças indígenas durante o evento]
 
O Conselho Indigenista Missionário (Cimi) realizou, de 09 a 13 de setembro de 2019, em Luziânia, Goiás, a sua XXIII Assembleia Geral, que teve como tema “Em defesa da Constituição, contra o roubo e devastação dos territórios indígenas” e o lema “Alto lá! Esta terra tem dono!”. Esse importante momento de encontro, espiritualidade, análise e reflexão da realidade socioeconômica, política e indigenista contou com a participação de missionárias, missionários, lideranças indígenas, bispos, superioras de congregações religiosas e representantes da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB), Conferência dos Religiosos do Brasil (CRB), de entidades aliadas, movimentos sociais, pastorais do campo e Ministério Público Federal (MPF).
 
O Cimi avalia com imensa preocupação a realidade brasileira e denuncia que está em curso um processo de corrosão das políticas públicas, especialmente daquelas destinadas aos mais pobres e aos grupos populacionais historicamente massacrados e discriminados. O governo de extrema direita, conduzido por Jair Bolsonaro, associa-se às grandes corporações transnacionais do capital para organizar o desmantelamento da Constituição Federal de 1988 e a aniquilação de direitos conquistados por meio da luta, da mobilização e da articulação social.
 
As manifestações públicas do atual governo, com seus discursos de ódio, associadas às suas políticas de desmonte, têm gerado ondas de violência contra os povos, desmatamentos, queimadas, invasões de territórios e a promessa de que não se demarcará nenhum centímetro de terras para os indígenas. Combinado a isso, o governo promoveu a desestruturação da Fundação Nacional do Índio (Funai) deixando-a sem recursos orçamentários para a realização de suas ações de proteção e fiscalização dos territórios. Em pequenas áreas ou acampamentos de comunidades Guarani, Kaiowá, Kaingang e outros povos existe fome em função da paralisação de todos os programas assistenciais. Ou seja, o governo não demarcará as terras e promove a antipolítica indigenista no país.
 
Há também os retrocessos em relação aos direitos trabalhistas e previdenciários, de acesso à saúde e à educação. Está em curso o dilaceramento da educação universitária pública, o corte drástico no desenvolvimento de pesquisas acadêmicas e científicas, especialmente nas ciências humanas, causando um atraso irreversível do Brasil no concerto das nações. Este (des)governo tem combatido veementemente as políticas de ações afirmativas, as reservas de vagas para pobres, negros e indígenas, além do ingresso e a permanência destes nas universidades.
 
Essas políticas já estão causando a devastação quase irreversível da natureza, o aniquilamento de comunidades rurais, ribeirinhas, pescadoras, quilombolas, caiçaras e o genocídio de povos indígenas. A expectativa do governo e das empresas exploradoras, que com ele se aliam, é de obtenção de lucros fartos a qualquer custo, e com desastrosas consequências ambientais e humanas. Promove-se a abertura de um novo ciclo de acumulação capitalista, no qual os empresários estão desobrigados de responsabilidades sociais, como a promoção e a proteção da dignidade da pessoa humana e de todos os seres da natureza. Como estratégia, estimula-se a violência, a criminalização e encarceramento de líderes sociais, ambientalistas, indígenas, indigenistas e de políticos que fazem oposição a proposta de governo.
 
Os discursos e as políticas do presidente da República propagam o ódio e a falsa política associado ao enraizamento, no interior do Poder Executivo, do fundamentalismo ideológico que gera preconceitos, individualismos e alienação, colocando em curso um projeto de aniquilação de direitos individuais e coletivos dos povos originários e tradicionais, de sem terras, sem tetos, mulheres, negros, LGBTQIs e migrantes. Deflagrou-se um processo de perseguição, ameaças e criminalizações de todos os sujeitos que visam construir um mundo plural e democrático, onde os direitos humanos sejam respeitados.
 
O Cimi, fiel ao Evangelho, se solidariza com todas e todos que estão sendo perseguidos e que têm seus direitos desrespeitados. Se solidariza com os familiares de Maxciel Pereira dos Santos, colaborador da Funai assassinado a tiros em Tabatinga (AM), no Dia da Independência. Ele trabalhava na base de operação indigenista do Vale do Javari, atacada quatro vezes desde 2018, e fiscalizava a ação de invasores à Terra Indígena habitada, inclusive, por povos livres. Da mesma forma, repudia os sucessivos ataques sofridos pelos indígenas Guarani Kaiowá do tekoha – lugar onde se é – Nhu Vera, em Dourados, que na madrugada do dia 12 de setembro foram atacados a tiros, deixando vários feridos, inclusive com armas de fogo. Segundo informações dos indígenas, são capangas de pequenos sítios localizados próximos a retomada, que estão agindo contra a comunidade.
 
O Cimi se solidariza com os povos, comunidades e suas lideranças e aliados que sistematicamente sofrem ataques contra seus corpos e têm seus territórios devastados pelos agrotóxicos que envenenam as terras, rios e lagos, pela invasão de fazendeiros, grileiros, madeireiros, garimpeiros, pelas hidrelétricas, pelo hidronegócio ou quando suas matas são consumidas por incêndios criminosos. As terras indígenas são bens da União e, portanto, cabe a ela protegê-las. E se há qualquer iniciativa de violação da soberania, com a entrega de terras indígenas para países ou empresas estrangeiras, essa violação é do governo e não dos povos que têm, pela Constituição Federal, o direito ao usufruto exclusivo das áreas demarcadas.
 
Vive-se um tempo de Kairós, depois do anúncio do Sínodo da Amazônia, momento profícuo de profunda reflexão acerca da defesa dos povos, das culturas e da natureza de toda aquela vasta região e que se constitui num patrimônio do mundo. Em encontro recente com líderes das comunidades amazônicas, o papa Francisco os lembrou: “se, para alguns, sois considerados um obstáculo ou um estorvo, a verdade é que vós, com a vossa vida, sois um grito lançado à consciência de um estilo de vida que não consegue medir seus custos. Vós sois memória viva da missão que Deus nos confiou a todos: cuidar da Casa Comum” (Papa Francisco, dia 19/01/2018, em Puerto Maldonado).
 
Na XXIII Assembleia Geral se reafirmou o compromisso com as lutas dos povos indígenas pela garantia de seus territórios, a Pacha Mama, e no apoio às suas estratégias de resistência, através de autodemarcações e autoproteção para a manutenção de seus direitos originários, do indigenato, que não foi revogado ao longo dos séculos. Há comprometimento do Cimi com a defesa de suas culturas, línguas, crenças, tradições e organizações sociais.  E, nesse sentido, aprovou como prioridades de ação para os próximos dois anos: terra, água e território; a defesa da Constituição Federal de 1988, com particular atenção à defesa dos direitos originários dos povos indígenas; e apoio aos povos e comunidades que vivem em contextos urbanos.
 
No entender do Cimi é imperioso que se promovam campanhas no sentido de responsabilizar o governo brasileiro pelas violências que promoveu ao longo dos últimos meses contra os povos indígenas, mas de modo gravíssimo coloca em risco a existência de grupos que vivem em situação de isolamento, numa dolorosa realidade de que povos venham a ser exterminados, configurando-se prática de genocídio. O governo brasileiro incorre em crimes contra a humanidade e contra o meio ambiente, comumente chamado de “ecocídio”. Por tudo isso, o Cimi apoia as iniciativas, em âmbito internacional, no sentido de que se façam sanções aos produtos brasileiros quando produzidos ilegalmente em terras indígenas e a base de práticas criminosas como as queimadas, invasões, arrendamentos e grilagens.
 
Apesar de todas as violências praticadas contra os povos indígenas, vivemos tempos de discernimento e esperança. Apesar da política de corrosão de direitos e territórios, haverá o tempo de sua retomada e consolidação. Apesar das cinzas da devastação, os povos hão de regar a terra, plantar e colher os seus frutos.
 
Pela demarcação, proteção e fiscalização dos territórios indígenas, pela titulação dos territórios quilombolas e reforma agrária, por uma agricultura camponesa, em defesa da Constituição Federal e da Vida, seguiremos em marcha, proclamando a Boa Nova da Justiça e Solidariedade universal.
 
Somos sementes teimosas.” (Rosa Guarasugwe)
 
Luziânia, Goiás, 13 de setembro de 2019.
 
Fonte: Cimi
Fotos: Tiago Miotto/Cimi

 
A Caminhada em Defesa da Liberdade Religiosa, realizada neste domingo, 15 de setembro, chegou à sua décima segunda edição, reunindo na Praia de Copacabana representantes de todos os segmentos religiosos. Este ano, o evento contou com a participação de pastores afro-americanos da Igreja Luther King, de Atlanta, Estados Unidos, e de Arabá Agbaye Olu Isese de Ilè Ifè, considerado o sacerdote supremo de Ifá na Nigéria.
 
A caminhada é organizada pela Comissão de Combate à Intolerância Religiosa (CCIR) e o Centro de Articulação de Populações Marginalizadas (CEAP) e levou a mensagem de “respeito à democracia, ao Estado laico, aos direitos humanos e às liberdades”. Segundo o babalaiô Ivanir dos Santos, presidente da CCIR e conselheiro do CEAP, o Brasil está vivendo um momento muito ruim, onde cresceu a intolerância religiosa, o racismo, a homofobia, “que são uma ameaça à diversidade”.
 
Essa é a maior mensagem do evento, que pretende levar às autoridades o pleito de que sejam tomadas medidas contra os ataques que os templos do candomblé sofrem nas comunidades carentes do estado e do país. “A nossa esperança também está nessa direção. E acordar a sociedade, que precisa se posicionar, dizer que não aceita isso, que está junto conosco em um momento como esse”. 
 
Novo desenho
 
Ivanir dos Santos destacou que o evento deste domingo tem um desenho diferente dos anteriores porque “a maçonaria se mobilizou, os escoteiros estão trazendo uma delegação grande”. Além disso, as escolas de samba Estação Primeira de Mangueira e Grande Rio também têm representantes, uma vez que o enredo das duas gremiações tem a ver com intolerância. “Todo mundo envolvido”.
 
Também aderiram setores populares, como a cultura. Outra novidade deste ano foi que adeptos do candomblé usaram cocares de penas na abertura da caminhada, remetendo aos animais da Amazônia que devem ser preservados. “Porque, para nós, a natureza é sagrada. Somos religiões que reverenciamos a natureza”, disse o babalaiô. 
 
União
 
Na avaliação de Patricia Carvalho, da organização budista Brahma Kumaris, a principal lição que a caminhada dá é mostrar, através de ações concretas, que é necessário ir além das diferenças e eleger e trabalhar por aquilo que todas as religiões têm em comum, que são os valores humanos, entre os quais a paz, a liberdade e a união. “Porque afinal de contas, a religião, na prática, é isso. É ir além dos dogmas, da filosofia, das diferenças, e juntar as mãos e trabalhar por aquilo que todos nós temos em comum”.
 
O pastor evangélico Vitor Louredo, da Igreja GAE – Missões, observou que o país está vivendo um momento crítico em relação à intolerância religiosa, principalmente contra as religiões de matriz africana, que vêm sofrendo ataques. “É importante essa luta para que o respeito e o amor prevaleçam na sociedade, que é o que tem faltado”. De acordo com Louredo, tem muita onda de intolerância vinda de evangélicos.
 
Por isso, afirmou que sua participação é também para mostrar que nem todos os evangélicos abraçam esses ataques. “Muitos evangélicos ainda estão lutando pelo amor, pelo respeito; são contra essa onda. Acho que o Estado laico e o direito religioso não são só para o outro. São para mim também. Ao mesmo tempo que eu não gostaria de ser perseguido, também não quero que outros sejam perseguidos”. Deixou claro que o seu direito termina quando começa o direito do outro. “Não posso querer só liberdade para mim e não querer do outro; querer só privilégios, porque eu não gostaria que fosse o contrário”.
 
Todos iguais
 
Uma das faixas carregadas pelos religiosos deixava bem claro: “Somos todos iguais perante Cristo”. O diácono Nelson Águia levou a mensagem do cardeal do Rio de Janeiro, Dom Orani Tempesta, para a caminhada, cuja importância disse ser muito grande. “Porque hoje nós temos, mais do que nunca, no passado, agora, no presente, nós temos que nos respeitar. Cada um tem o direito de seguir a religião que quer, do modo que quer e se relacionar com Deus como quer. Deus é Deus e se manifesta da maneira que quer, onde ele quer e com quem ele quer”.
 
O diácono da igreja católica destacou que nenhuma religião é proprietária de Deus. “Ele é compartilhado por todos”. Recomendou que se deve ver sempre o que o outro tem de bom, e não aquilo que tem de ruim. “Nós temos que construir pontes e não elevar barreiras. É importante que essa manifestação hoje aqui possa mostrar à sociedade o que as religiões pensam e que querem caminhar juntas. Nós queremos respeito por parte da sociedade, por parte da política, por parte do governo, do Estado. Nós queremos respeitar e sermos respeitados”, disse.
 
Na avaliação da pastora da igreja luterana Lusmarina Garcia, a importância dessa caminhada é enorme. “Porque, na verdade, nós estamos vivendo uma situação de tanta violência religiosa que precisamos dar um testemunho positivo de que é possível conviver, é possível se respeitar e entender que as diferenças fazem parte de uma sociedade democrática e que tem muitas religiões, como a sociedade brasileira”. Lusmarina considerou que o evento dá o testemunho positivo de que, todo mundo junto, se faz uma sociedade melhor.
 
Com informações da Agência Brasil / Dom Total
Foto: Tânia Rêgo/ABr

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