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Em 3 de janeiro de 1521, o papa Leão X excomungava Martinho Lutero mediante a bula Decet Romanum Pontificem. Um texto que o agostiniano alemão responderia chamando o papa de Anticristo. Meio milênio depois, e ainda que uma excomunhão possa ser levantada apenas em vida, o papa Francisco poderia estar planejando revogar o castigo eterno para Lutero, a quem já prestou reconhecimento em numerosas ocasiões como “um reformador” que quis mudar a Igreja, e não a destruir.
 
A decisão seria um gesto histórico para o ecumenismo, e um chamado às consciências dos crentes de todo o mundo. Um “Sim, se pode” entre os seguidores de Jesus. Assim solicitou o “Grupo de discussão ecumênica de Altenberg”, no dia de Pentecostes. O coletivo de teólogas e teólogos ecumênicos também se dirigiu à Federação Luterana Mundial para que retire a declaração de “Anticristo” de Lutero ao pontífice que o excomungou.
 
Um ato simbólico, porém particularmente importante
 
“O ecumenismo vive de atos simbólicos e a retirada da condenação contra Lutero seria particularmente importante”, destacou a teóloga Johanna Rahner, ao portal katholisch.de, destacando que uma decisão assim “permitiria à Igreja Católica expressar seu apreço aos protestantes de hoje”. Dito de outro modo, a consequência de uma caminhada que iniciou com força no Concílio Vaticano II e que hoje é mais viável que nunca.
 
Algumas passagens do decreto conciliar “Unitatis redintegratio” poderiam ser interpretados como a abolição da excomunhão de Lutero, porém, dado que a bula (imagem abaixo) relaciona-se com o conteúdo dos ensinamentos do reformador, das quais depende parte das igrejas evangélicas hoje, a retirada da excomunhão seria de grande relevância.
 
 
O tempo, ademais, joga a favor da medida, uma vez que, em 2017, pelos 500 anos da Reforma – ou das 95 teses postas na porta da igreja de Wittemberg –, a Federação Luterana Mundial mostrou-se crítica com a condenação que Lutero fez a Leão X e sugeriu que fosse retirada. [Também em 2017, o CONIC enviou uma carta ao papa Francisco falando sobre o assunto. Leia aqui.]
 
Comemorar a separação unidos
 
Esse fato, unido à “cultura da memória” que vem se desenvolvendo desde 2017 e que culminará em 2030 – 500 anos da Confissão de Augsburgo, a ruptura definitiva e a criação da igreja luterana –, faz-se mais provável um avanço definitivo no “caso Lutero”.
 
De fato, tanto a Federação Luterana Mundial, quanto o Conselho Pontifício para a Promoção da Unidade dos Cristãos, estão planejando um evento conjunto para recordar a excomunhão de Lutero no próximo 3 de janeiro (2021). Um encontro que poderia ocorrer em Roma e cuja cereja do bolo poderia ser o levantamento das mútuas excomunhões.
 
E onde quer que Lutero e Leão X estejam (ou Adriano VI, ou Carlos V, ou Frederico da Saxônia, ou tantos que tinham muito a dizer naqueles tempos), a verdade é que todos nós, que cremos na fé de Jesus Cristo, estamos cada vez mais próximos.
 
*A reportagem é de Jesús Bastante, publicada por Religión Digital, 08-06-2020. A tradução é de Wagner Fernandes de Azevedo.
Obs.: o título foi adaptado.

 
Como organizações cristãs que trabalham nos campos da justiça e do cuidado pela criação, pedimos um repensar fundamental sobre o relacionamento da humanidade com a natureza, tendo em vista os efeitos da pandemia de Covid-19. Tal pandemia, fruto de uma crise ambiental, vem como uma tempestade que coloca em risco a todas e todos (ricos e pobres), mas que afeta diretamente os mais vulneráveis na cidade, no campo e nas florestas – muitas vezes, com maior letalidade. Se realmente cremos que no mundo criado por Deus temos a responsabilidade de usar os dons e os recursos de maneira sábia, cautelosa e sustentável, então é hora de levantarmos nossas vozes e agirmos contra toda injustiça socioambiental.
 
Apoiamos e ecoamos as palavras de Elizabeth Maruma Mrema, Secretária Executiva em Exercício da Convenção das Nações Unidas (ONU) sobre Diversidade Biológica:
 
“A contínua perda de biodiversidade em escala global representa ameaças diretas e indiretas à nossa saúde e bem-estar. A perda de biodiversidade e a mudança nos ecossistemas, inclusive através de mudanças no uso da terra, fragmentação e perda de habitats e mudança climática, podem aumentar o risco de surgimento de doenças e delas se espalharem entre pessoas, animais e outras espécies vivas.”
 
Denunciamos sistemas econômicos que colocam o lucro acima de todo tipo de vida. Em particular, observamos que tanto a destruição e fragmentação de habitats naturais, quanto o uso insustentável (muitas vezes, não regulamentado e frequentemente ilegal) de animais silvestres e de produtos provenientes deles contribuem para a ruptura de ecossistemas e para a probabilidade de patógenos serem transferidos para a humanidade a partir de animais selvagens. Portanto, é urgente a necessidade de interrompermos essa destruição contínua dos habitats, e isso só será possível se nos unirmos contra a causa de toda essa crise: sistemas econômicos exploradores e opressores, baseados na ganância, e que colocam o lucro acima de todo tipo de vida.
 
Rejeitamos o modo de vida consumista. Vivemos em uma era em que o mercado e a propaganda têm impulsionado o consumo e, assim, acentuando as diferenças sociais, definindo um estilo de vida que propõe a satisfação de todas as necessidades. Como a obtenção de lucros é o principal objetivo do mundo dos negócios, interessa-lhe que todo cidadão mantenha-se no modelo atual de consumo, no qual se vive para consumir cada vez mais bens e serviços. Mas a Terra chegou ao seu limite, e desde 29 de julho de 2019, nosso padrão de consumo utiliza mais do que ela consegue renovar. Estamos vivendo no “vermelho”, e isso significa que todos os recursos usados para a sobrevivência (água, mineração, extração de petróleo, consumo de animais, plantio de alimentos com esgotamento do solo, entre outros pontos) entraram em uma espécie de “crédito negativo” para a humanidade. Esse modelo econômico dominante tem tornado insustentável a sociedade atual, forçando-a a caminhar na direção dos produtos descartáveis mais que os duráveis; para o global mais do que para o local; para o uso individual de produtos ao invés do compartilhado; para a quantidade mais do que para a qualidade; para o desperdício ao invés do necessário; para o excesso ao invés da moderação.
 
Exigimos plena implementação das leis de combate ao tráfico de fauna silvestre. Reconhecemos que muitas sociedades humanas, principalmente os povos indígenas e tradicionais, dependem do consumo de produtos da flora e fauna silvestre, tais como remédios e alimentos, e pedimos a plena implementação das leis nacionais e internacionais existentes contra o comércio ilegal de animais silvestres, bem como uma melhor regulamentação de seu comércio legal, para o bem da saúde humana e para o equilíbrio e florescimento da natureza.
 
Convocamos cristãs e cristãos a uma conversão urgente de estilo de vida. Reconhecemos a particularidade da atual crise e lamentamos tanto a rápida perda da biodiversidade em todo o mundo, quanto os consequentes problemas para a saúde humana e os meios de subsistência da vida. Diante de tantas mortes, somos chamados a uma conversão urgente de estilo de vida que force uma mudança também no modelo de produção vigente. Não podemos mais nos mantermos apáticos e continuarmos vivendo como se nossas decisões diárias não afetassem toda a Terra. Toda a criação geme e aguarda que nós, chamados filhos de Deus, tomemos a decisão diária pela manutenção, restauração e sobrevivência de toda vida criada pelo Pai.
 
Diante de todo este cenário, solicitamos que as comunidades cristãs de todo o mundo reconheçam e ensinem o valor inerente que todas as criaturas têm para Deus e fomentem a compaixão, a defesa e o cuidado para com a natureza. Faremos isso se verdadeiramente assumirmos agora, no presente século, um estilo de vida inspirado pela visão bíblica do que nos aguarda no futuro: um reino onde prevalecerá a justiça, a paz e a partilha.
 
Se você deseja assinar essa carta, clique AQUI.
 
Foto: Pixabay

 
Quem consegue ficar indiferente quando se depara com um belo vitral? Presente em igrejas católicas, anglicanas, luteranas, ortodoxas e até nas reformadas, esse elemento arquitetônico serviu, durante muito tempo, como ferramenta para os ensinamentos de muitas verdades espirituais. Mas você saberia dizer como surgiram os vitrais, e qual a ligação deles com os ensinos de Jesus? As respostas estão no artigo a seguir, que a equipe do CONIC encontrou no portal Aleteia.
 
Boa leitura!
 
A luz é um tema espiritual comum na teologia cristã. As primeiras palavras de Deus durante a criação foram: “Faça-se a luz!” E a luz foi feita. Deus viu que a luz era boa, e separou a luz das trevas” (Gênesis 1,3-4).
 
Jesus chegou, inclusive, a se identificar como luz, dizendo: “Eu sou a luz do mundo; aquele que me segue não andará em trevas, mas terá a luz da vida” (João 8,12).
 
Com isso em mente, era apropriado que os cristãos dedicassem muito tempo e energia para desenvolver o desenho das janelas das igrejas. As janelas canalizavam a luz do sol e dissipavam a escuridão das sombras. Os arquitetos enxergaram nelas uma oportunidade perfeita para destacar uma verdade espiritual, ao mesmo tempo em que serviam a um propósito funcional.
 
No entanto, os vitrais como os que conhecemos hoje em dia não existiam até o século X. Anteriormente, os egípcios e os romanos tinham criado uma técnica para desenvolver pequenos objetos de cristal colorido, mas não usaram a tecnologia para janelas em grande escala.
 
O vitral completo mais antigo está na catedral de Augsburg, na Alemanha. Foi construído no século XI como parte de um projeto para deixar as janelas maiores e mais bonitas. Essas janelas não serviam somente para sugerir a ideia de que a luz de Deus destrói nossa escuridão, mas também se mostraram uma ferramenta importante de catequese.
 
Foi durante o período medieval que esse elemento arquitetônico se transformou na principal forma de educar o leigo nas múltiplas histórias da Bíblia. Geralmente, as janelas, dependendo do tamanho da igreja, viajavam do Gênesis ao Apocalipse, destacando os momentos mais importantes da História da Salvação.
 
A história da Bíblia representada nessas janelas também estava ligada a uma breve representação da história da Igreja. Os santos eram retratados nos vitrais e funcionavam como uma inspiração diária para as pessoas com dificuldades na travessia cristã. As janelas também eram usadas para ilustrar a iluminação da mente e para mostrar como a graça penetra em nosso mundo.
 
À medida que a tecnologia foi melhorando ao longo do tempo, os vitrais cresceram cada vez mais e se tornaram extremamente complexos e cheios de simbolismo.
 
Devido a essa complexidade, eles eram os últimos elementos a ser instalados em uma igreja nova. Passavam-se muitos anos até que a última janela fosse preenchida. Os vitrais também tinham um custo alto de produção. Por isso, os nomes de patrocinadores eram gravados na parte de baixo, como uma estratégia para incentivar as doações.
 
Enfim, os vitrais são um dos mais belos tesouros das igrejas cristãs e estão aí para inspirar e educar os fiéis em muitas verdades espirituais. Eles continuam sendo parte essencial da arquitetura eclesiástica e seguem sendo utilizados em novas construções em todo o mundo.
 
Fonte: Aleteia
Foto: Pixabay

 
Foi lançada na última segunda-feira, 29 de junho, em nível nacional, a campanha Brasil pela Democracia e pela Vida. O lançamento contou com a participação de mais de 70 entidades comprometidas com o Estado Democrático de Direito, entre elas, o CONIC (Conselho Nacional de Igrejas Cristãs do Brasil), a OAB (Ordem dos Advogados do Brasil), a ABI (Associação Brasileira de Imprensa) e o MNDH (Movimento Nacional de Direitos Humanos) – confira a lista completa aqui
 
De acordo com o coletivo de entidades, a campanha busca “congregar todos e todas que compreendem como indispensável a defesa da paz” e da democracia brasileira. No documento de lançamento, também reforça a importância de que é necessário assegurar, fortalecer e expandir os ainda insuficientes espaços de participação e intervenção social. “É a reunião de esforços para proteger a vida, favorecendo a solidariedade, a cooperação, a articulação e a coordenação entre governos, instituições, organizações, movimentos e cidadãos e cidadãs”.
 
A campanha, que até agora (1° de julho/2020) conta com a adesão de 76 instituições, foi uma iniciativa da OAB, ABI, SBPC, Centrais Sindicais, Comissão Arns e Pacto pela Democracia. A participação do CONIC se dará em várias frentes, entre elas, por meio da veiculação de materiais midiáticos, produção de artigos e matérias, e demais ações que forem propostas ao longo da caminhada.
 
Para entender melhor a importância de um organismo ecumênico, que é o caso do CONIC, fazer parte desse tipo de mobilização, conversamos com a secretária-geral do Conselho, pastora Romi Bencke.
 
 
Pastora Romi, qual a sua opinião sobre a posição do CONIC na campanha?
 
Romi Bencke: A posição do CONIC em relação à Campanha é que todos os esforços precisam ser dedicados para que a democracia se aprofunde cada vez mais. É no sistema democrático, que não é um processo acabado, mas em permanente transformação, que podemos fortalecer as pluralidades de sujeitos e de culturas. É na democracia que a diversidade religiosa pode ser respeitada. Nossa democracia é imperfeita, como todas as demais. Há muitas coisas que precisamos discutir em profundidade para estarmos dispostos e dispostas a superar. Entre elas eu cito o racismo, tanto indígena quanto em relação às pessoas negras. A desigualdade econômica é outro aspecto. No entanto, a partir do momento em que a democracia é fragilizada, o que se aprofunda são as perspectivas racistas, de combate ao inimigo ou à inimiga, e as posturas que tripudiam vidas.
 
Por que é importante que um organismo ecumênico participe?
 
Romi Bencke: É importante que um organismo ecumênico faça parte de uma campanha Pela Democracia e pela Vida, em primeiro lugar, por causa do nosso testemunho público de que a fé em Jesus Cristo é contrária a toda a forma de violência e de totalitarismos. 
 
Tudo o que nega a vida é contrário à fé em Jesus Cristo. Por exemplo, o racismo, as diferentes formas de preconceito, a exploração sem limites da natureza, a privatização dos recursos naturais, a intolerância religiosa, a cultura do ódio. Em segundo lugar, porque o ecumenismo tem um princípio que é a unidade na diversidade. Este é um princípio democrático, uma vez que não persegue a diversidade, mas reconhece nela um ambiente fundamental para a coexistência. Todos e todas somos um, mas valorizando a diversidade que é inerente à Criação.
 
Qual impacto você acha que uma ação como essa pode ter na sociedade?
 
Romi Bencke: Creio que uma ação como esta pode contribuir para que as pessoas reflitam sobre onde chegamos como País. Nós nos perdemos. Nosso tecido social está diluído. 
 
No contexto da pandemia, além das mortes provocadas pela Covid-19, ocorreram outras mortes evitáveis, como aquelas provocadas pelo racismo, pela cultura patriarcal... e parece que nada disso mais nos mobiliza. É como se estivéssemos vivendo um realidade paralela. O sofrimento do outro não compadece mais. 
 
Sabemos que as campanhas, sozinhas, não são capazes de transformar uma realidade, mas elas têm o papel fundamental de nos convidar para conversar sobre o que está nos dividindo, nos tornando inimigos e inimigas umas das outras e uns dos outros. É uma campanha que nos convida ao diálogo, a olharmos para nossa história colonialista, racista, patriarcal. A campanha nos chama também a encararmos as violências que estruturam o nosso País. Mais do que nunca, precisamos nos perguntar: será que queremos seguir assim?
 
Acesse www.brasilpelademocracia.org.br e veja como você pode somar forças conosco.
 

 
Grupos armados na Nigéria, que vêm atacando diversas minorias étnicas e religiosas, incluindo a comunidade cristã local, têm sido motivo de preocupação para o governo e a comunidade internacional. O assunto não é novo, e já foi noticiado por organizações como a Open Doors (evangélica) e a Ajuda à Igreja que Sofre (católica).
 
Um caso recente, que mais uma vez causou comoção, foi o do pastor da Igreja Cristã Reformada na Nigéria, morto com sua esposa há cerca de um mês. De acordo com o Vatican News, Emmanuel Saba Bileya e Julianna foram assassinados em 1º de junho por um grupo de homens armados enquanto estavam em sua fazenda em Taraba, no nordeste do país.  
 
Ainda segundo o portal de notícias oficial do Vaticano, um relatório publicado em 15 de maio apontou que mais de 600 cristãos foram mortos desde o início deste ano (2020). Em janeiro, quatro seminaristas católicos foram sequestrados no Seminário Bom Pastor em Kaduna e, um deles, Michael Nnadi, foi assassinado.
 
“Dói constatar como continuam – particularmente no Burkina Faso, Mali, Níger e Nigéria – episódios de violência contra pessoas inocentes, entre as quais muitos cristãos perseguidos e mortos pela sua fidelidade ao Evangelho. Exorto a Comunidade Internacional a apoiar os esforços que estes países estão a fazer na luta para derrotar o flagelo do terrorismo, que está a cobrir de sangue partes cada vez mais extensas da África, bem como outras regiões do mundo. À luz destes acontecimentos, é necessário que se implementem estratégias que incluam intervenções não só no campo da segurança, mas também na redução da pobreza, na melhoria do sistema de saúde, no desenvolvimento e na assistência humanitária, na promoção da boa governança e dos direitos civis. Tais são os pilares dum real desenvolvimento social”, disse o papa Francisco.
 
Apesar das tentativa do governo local em tentar frear tais perseguições, que têm não apenas motivação religiosa, mas também econômica, o sucesso disso dependerá, em grande parte, de medidas como a universalização da educação, amplo acesso à saúde e oportunidades de ascensão social para todos. Ações de repressão dificilmente conseguirão deter a violência num país onde cerca de 30% das crianças não conseguem acesso à educação básica. Como se vê, a situação é mais complexa do que parece.
 
CONIC com Vatican News
Foto: AFP or licensors/Vatican News
 

 
Nesses últimos meses, muitas pessoas e grupos têm me perguntado qual a mensagem cristã especial frente a pandemia que assola todos os cantos do mundo. E quando fazem essa pergunta três conotações de fundo emocional e intelectual parecem emergir em busca de confirmação de expectativas. A primeira é que eu me oriente na linha da esperança presente na tradição cristã como se pudéssemos encontrar nela uma tábua de salvação segura que ao menos aliviaria nossos temores atuais e nos daria orientações imediatas de vida. Esperam que a religião entregue a segurança de que se necessita na certeza de que Deus não abandona seu povo.
 
A segunda é a de confirmar que a destruição do mundo e de nossas relações é obra de nossas mãos, de nossa ganância em querer acumular bens dos quais apenas uma minoria usufrui. E, indiretamente, por nossa escolha, estaríamos agindo contra a vontade de Deus que quer o bem de toda a humanidade.
 
A terceira tem a ver com uma flagrante afirmação de que estamos sendo castigados por Deus por conta de nossos pecados, nossos comportamentos desviacionistas quanto à sexualidade, à destruição da natureza, aos costumes e em consequência por falta de fé nos preceitos divinos. Portanto, por nossa culpa individual e coletiva estamos na pandemia, embora haja exceções de pessoas que tentam seguir a vontade divina. É interessante notar que o ‘personagem’ Deus entra nas três expectativas embora de formas diferentes. E o ‘personagem’ passa a ser a imagem e semelhança de nossas posturas sociais e até políticas, de nossa imaginação e de nossas ficções religiosas.
 
A pergunta que fica é a de saber quem é esse ‘personagem’ para cada grupo e para cada pessoa individualmente, quem é esse alguém que deve apaziguar nossas angústias diante da morte, nos julgar, perdoar, acolher e restaurar nossas vidas ameaçadas.
 
Confesso que algumas vezes tenho presenciado à frustração de algumas pessoas quando meu parecer não coincide com as expectativas que têm em relação à minha resposta. Sinto-as incomodadas, quase decepcionadas porque minha reflexão não coincidiu com os argumentos delas e com suas expectativas. Se fosse apenas a discussão de argumentos não me importaria, mas o fato é que as emoções e reflexões presentes nas perguntas expressam reais sofrimentos em busca de alguém que os/as compreenda e que possa confirmar que após este turbilhão algo de bom possa advir dessa situação. Por isso muitas vezes me calo e respondo: ‘não sabemos’!
 
Haveria uma única mensagem central que seria uma espécie de antidoto à desesperança ou até mesmo ao desespero no qual vivemos diante das atuais múltiplas ameaças à vida do planeta e à nossa vida nele? O que se pode dizer quando esse vírus parece não só ter atingido corpos humanos impedindo-os de respirar e asfixiando-os até a morte, mas atingiu nas suas outras formas governos, polícias, religiões, igrejas que à maneira do vírus embora com outras metodologias reproduzem pandemias mortais de ações e sentidos, mesmo que afirmem estar na luta de combate ao vírus.
 
De fato, o vírus planetário, o Covid-19, não poupa ninguém, visto que tem formas de expansão ainda não controláveis, o que por um lado nos assegura a interdependência comum e por outro nos dá um atestado de ignorância sobre nós e o mundo em que vivemos. Embora muitas vezes acreditemos no poder da ciência de responder a quase todas as questões da humanidade, frustra-nos constatar que o que se desconhece é muito mais do que o que se conhece.
 
Cada pessoa vai encontrar ou não em suas crenças sociais, políticas e religiosas alguma resposta ou falta de resposta às questões que o momento atual tem levantado. Entretanto, o que se pode observar hoje é uma experiência comum de impotência e de desconhecimento de nossa própria vida. Mesmo os mais dogmáticos e convictos de suas posições têm se enfrentado ao vírus da dúvida ou a alguma suspeita em relação às suas certezas. De certa forma junto com a Covid-19 espalhou-se também a dúvida sobre a vida humana e os rumos da história. É como se essa pandemia nos convocasse a sermos diferentes, como se ela manifestasse uma suspeita coletiva de que todos estamos juntos à beira de um abismo e no ‘tribunal da vida’ a perguntar-nos como nos redimiremos de tantas mortes, de tanto desarranjos em tantas vidas. Por isso muitas pessoas se perguntam se sobreviverão e caso positivo como serão quando a pandemia acabar? Como nos organizaremos? Em que e em quem vamos acreditar? Como vamos costurar nossas crenças passadas aos desafios do mundo presente?
 
Sem dúvida, talvez até a maioria das pessoas aspire voltar ao ‘tudo como antes’, embora o contágio da dúvida chegue a tocar mesmo que minimamente na vida de todos. Não temos ainda nenhuma resposta às nossas perguntas fora as pequenas aspirações afetivas de rever amigos e familiares, celebrar aniversários, ir aos shoppings ou outras atividades e comemorações coletivas.
 
Como as respostas da ciência ainda estão em fase de experimentação muitas pessoas acreditam encontrar uma resposta nas religiões. Elas parecem dar algumas seguranças pois parecem lidar com poderes para além das ciências, poderes invisíveis, mais invisíveis do que o Covid-19. Por isso multiplicam-se os cultos pela internet, as orações implorando a Deus a salvação do mundo, as bênçãos em caminhões abertos ou helicópteros reavivando velhas devoções consideradas ‘poderosas’.
 
Mas o que significa a salvação do mundo? Será apenas da Covid-19 que estamos querendo salvar-nos? Que dizer dos excessos de racismo que estamos verificando a cada dia? Que dizer das agressões às mulheres, ‘nas prisões domiciliares’? Que dizer do extermínio das pessoas que vivem nas periferias, de sua exposição às loucuras dos exterminadores, dos puristas, dos justiceiros que imaginam a possibilidade de fazer justiça com as próprias mãos armadas ou não? Que dizer dos transgressores, dos que não creem na pandemia, que a afrontam como se quisessem medir forças com ela? Que respostas dão as religiões na sua diversidade crescente?
 
Na realidade não penso que as religiões na sua diversidade têm alguma resposta eficaz aos problemas atuais da humanidade apesar de sua importância para muitos. São formas institucionais de consolo e intentos de ‘proteção metafísica’ que se desenvolvem no interior de nossas culturas misturadas a emoções e problemas cotidianos. Embora não negue seu valor para muitas pessoas, na realidade elas entram tanto quanto outras ações de ‘auto ajuda’ ou de benemerência na linha do auxílio que damos uns aos outros nos momentos críticos da vida. Este auxílio é no fundo para além das religiões e é a ele que gostaria de me apegar como uma precária ‘boia’ quando parecemos estar nos afundando num dilúvio coletivo. É como se nas nossas entranhas humanas, a desses humanos que somos agora, houvesse boias não apenas individuais, mas boias coletivas. A pandemia acorda as entranhas coletivas e as religiões são apenas um instrumento entre outros para fazer valer a força coletiva de sustentação dessa boia.
 
A dor comum parece acordar a solidariedade comum, sobretudo porque ninguém está ao abrigo das dores pandêmicas. Por mais que alguns sejam mais protegidos que outros a situação atual revela a vulnerabilidade de todos. E talvez nessa situação algo para além de uma religião determinada precisaria ser reforçado e desenvolvido. Seria como a constituição de uma irmandade para além dos credos religiosos, um pacto, uma aliança entre nós para além de nossos deuses e deusas, para além dos locais de culto de uns e outros, para além dos velhos credos. Nossos deuses e deusas correm o risco de serem sectários, de exigirem leis e sacrifícios segundo suas peculiaridades e especialidades. Nossos deuses têm o vírus da competição entre eles na medida em que se tornaram a nossa imagem e semelhança. Precisamos por um tempo dar-lhes folga, talvez deixá-los em sua ‘quarentena’ até que a nossa própria quarentena possa passar e possamos ver claro o caminho pessoal/coletivo da humanidade.
 
Nossos deuses já não conseguem dar-nos as soluções porque seus desejos sobre nós são múltiplos e contraditórios e hoje até eles brigam entre si tornando nossas brigas aparentes conflitos reais entre deuses. Da mesma forma os ministros de nossos deuses são movidos por interesses privados e usam dos deuses e da fragilidade dos crentes como armas para manterem seu poder e privilégio.
 
Estaria eu exagerando? Estaria eu fugindo da acolhida e da ternura de nossos deuses ou de nossos santos? Estaria negando a importância das tradições religiosas? Estaria duvidando do amor divino e do sacrifício de Cristo por nós? Ouso dizer que sim e que não, visto que estou convencida que somos nós que entregamos poderes aos nossos deuses, somos nós que lhes construímos altares, genuflexórios nos quais nos ajoelhamos acreditando adorá-los e obedecê-los incondicionalmente. Somos nós que lhes acendemos velas, ofertamos incenso e sacrificamos nossos corpos. Somos nós que os vestimos e nos vestimos para eles como se nossas vestes sacerdotais ou outras indicassem nossa pertença a essa ou aquela divindade que não necessariamente se alia às vontades de outras do mesmo Olimpo ou de outros. A diversidade de deuses/as e Olimpos é bem presente e conhecida. Acompanha a diversidade dos grupos humanos, seus conflitos e suas invenções.
 
Nessa pandemia nossas divindades são também vítimas de nós mesmos/as. Sem nos dar-nos conta as fazemos objeto de nossas vontades muitas vezes contraditórias. Em nome delas atacamos, defendemos, matamos e morremos. Em nome delas nos enriquecemos e nos empobrecemos.
 
Será que em tempos de pandemia todos temos os mesmos pedidos às nossas divindades, todos/as agimos em vista de um bem maior? Cada um vai sem dúvida puxar a sardinha para sua brasa. Entretanto, talvez haja um ponto em comum a ser reconhecido. Este é o de livrar-nos da pandemia ou proteger-nos e proteger nossos próximos dela. Porém, já o fato de estarmos numa pandemia já estamos numa ameaça e numa efetivação real de mortes. Então se desesperadamente pedimos para viver, para sermos liberados dessa doença nossos pedidos vem acompanhados de muitos outros que têm a ver com um durante e um pós pandemia. E esses pedidos sem dúvida vão favorecer primeiro os mais próximos de nós. Isto é sem dúvida uma característica de nossa animalidade. A galinha protege antes seus pintinhos do que os gatinhos da gata da casa. A leoa seus leõezinhos e assim por diante. Num incêndio de uma escola salvo primeiro o meu filho e depois o da vizinha.
 
E se por um momento aceitássemos o fato de que ter religião deveria ser algo diferente do que fomos habituados/as a ter? Se por um momento colocássemos entre parêntesis as vontades divinas, as leis promulgadas por Deus, as elaborações teológicas de seus ministros, os prêmios e castigos prometidos. Se por um instante nos sentíssemos nus uns diante dos outros: sem deuses, sem santos e sem armas de guerra. Se não houvesse mais Templos e nem pregadores. Se não houvesse mais escolas de teologias e de ministérios. Se não houvesse mais dízimos e contas bancárias para benemerência. O que seria de nossa história religiosa?
 
Uma das funções das religiões desde os tempos mais antigos foi chamar a nossa atenção para o fechamento à nossa animalidade individual, à nossa coletividade mais próxima, à família animal à qual pertencemos. Por isso, ir ao encontro dos caídos nas estradas da vida, porque sempre haverá caídos/as, ‘sempre’ criaremos caídos, faz parte de todas as religiões e sabedorias. E, nessa mesma perspectiva, a luta contra o acumulo de bens, contra a avareza, a gula em todos os seus sentidos, enfim contra os excessos que nos tornam escravos de nossas vis paixões foi uma constante.
 
Assim, do momento em que somos capazes de romper com essa individualidade animal exacerbada estamos também nos distanciando da espontaneidade animal ególatra para nos tornarmos um ‘humus transformado’, humus espécie capaz de aproximar-se de seus semelhantes diferentes. Tal conquista foi e é fruto de milhares de anos de socialização e ainda não atingimos o lugar que intuímos dever chegar, ou seja, o lugar de sermos capazes de amar nosso próximo como a nós mesmos.
 
Para provarmos algo desse objetivo comum há que exercitar-se, há que lutar contra as tendências espontâneas individualistas egoístas que nos habitam, há que ceder um lugar aos enjeitados à nossa mesa, há que saber dividir o pão e os peixes que escondemos em nossas bolsas, o vinho que deixamos envelhecer nos nossos odres, há que descer dos sicômoros e devolver ao povo o que roubamos para benefício nosso. Não basta apenas um único Jesus de Nazaré, um só Francisco de Assis, um só Maomé, um só Moisés para fazer isso. Não basta uma só Sara e uma Agar, uma só Maria ou Madalena, uma Khadija ou uma Mãe Menininha que queiramos imitar. É preciso que muitas/os entrem nessa lógica a partir de nosso tempo e contexto até que ela seja uma prática, até que ela seja ‘etos’, comportamento ético das maiorias, sabendo bem de sua fragilidade real.
 
Para provarmos de algo dessa finalidade comum temos que ser capazes de aprender cada dia a controlar as forças de destruição que nos habitam, forças sem dúvida mais potentes que as carícias amorosas ou o cuidado que temos uns com os outros. A força do eu fechado em si mesmo, se tornando seu próprio império, querendo sempre mais expandir-se para si mesmo é destruidora não só de seu pequeno mundo, mas de muitos outros pequenos mundos que giram em torno de si mesmo. E, essa destruição tem força de expansão e capacidade de transformar o bom fermento em algo ‘pedrado’, incapaz de levedar a massa e torna-la pão saboroso para todos. E as pedras então são atiradas contra mulheres, adolescentes, crianças, indígenas, negros, mendigos, homossexuais. E o dinheiro é guardado em bancos de pedra que de repente um raio fulminante e fumegante poderá ser capaz de queimar e reduzir a cinzas.
 
De que serve a religião se ela afasta, se ela isola, se ela julga e mata, se ela acumula, se ela se torna pedra? De que servem os deuses do céu quando já não têm nenhum poder sobre os deuses humanos da terra? De que serve a religião quando deixa de ser ligação, conexão, interdependência vital, poesia de vida? É melhor tentar começar a religar de novo, a comer apenas o pão de cada dia, a perdoar dívidas, a andar a pé, a não cair nas tentações da egolatria que nos rodeia e nos habita.
 
Religião em tempos de Covid-19 é sentir e saber que o mesmo vírus nos habita de muitas formas, a mesma mortalidade nos espreita, a mesma fome e a mesma sede habitam nossos corpos, a mesma falta de ar nos desfalece e que é preciso abrir as mãos para que os corações se abram e deixem o Covid desaparecer. Talvez assim ele tenha cumprido sua missão, a missão de nos lembrar o que havíamos esquecido, a de ‘ser irmanados/as’ pela mesma vida e pela mesma morte. Não se foge a essa condição esse é o segredo escondido em nós, gravado em todas as células de nosso ser, tatuagem perene e ao mesmo tempo provisória. É essa condição que nos identifica, que nos torna o que de fato somos: um caniço frágil que hoje respira e se move, mas que amanhã será estrume na renovação da terra/vida. Por isso os antigos gostavam de meditar sobre a morte, a minha e a dos outros para indicar a necessidade de agir sabendo que o mundo não me pertence e que essa breve ou longa vida entregará à terra seu último respiro para que a vida se renove e siga adiante.
 
Morte? Que esperança pode vir da morte quando o que queremos é fugir dela? Na realidade, precisamos estar integramente e integralmente vivos para pensar sobre a morte. Não se pensa na morte quando se está morrendo cada dia de fome, sede ou de falta de habitação. Nessa situação já se vive o prenúncio e o anuncio cotidiano da morte. Porém, em vida há que pensar a morte na economia, na política, na ciência, na religião também como ameaças. E isto porque pensar na morte, é pensar na relatividade absoluta dos seres humanos e por isso mesmo na necessidade de respeito absoluto a todas as vidas hoje. Todas devem provar do prazer de estar vivo, de nutrir-se de vida, de reproduzir-se, de atrair-se e amar-se nesse instante evolutivo único, nesse momento passageiro em que nos encontramos e fazemos história juntos. Pensar na morte é o fiel da balança da história, o prumo de nossas construções, o óculos que ajuda a enxergar a medida das coisas, das situações e das pessoas. Não é louvor barato a morte, não é necrofilia, mas é sua acolhida nos recônditos de nossas buscas, de nossos processos sociais, políticos e religiosos para exaltar ou valorizar a frágil vida de cada dia. Talvez ela possa fazer-nos religar nossos corpos a outros corpos, religar como se fôssemos um só corpo, como se cada corpo fosse o corpo e o ar comum na casa comum, na autonomia e na interdependência mútuas.
 
De fato, escrever isso pode parecer muita poesia inútil, mas estou segura de que é ela que em parte nos salvará, que nos devolverá algo de ternura e apreciação da doce brisa em uma tarde de verão. É ela que ensinará aos soberbos que somos a humildade, aos gananciosos a importância do limite, aos orgulhosos a necessidade da interdependência. Por isso no século XII alguém em Assis chamou ‘a morte’ de irmã, talvez irmã gêmea da vida, irmãs absolutamente inseparáveis. E essa irmandade não pode ser esquecida em todos os momentos de nossas vidas, desde o amanhecer ao entardecer, como uma sinfonia que começa e tem que acabar, como um momento único e original que precisa ser vivido e amado.
 
Fonte: IHU Unisinos
Imagem/Recorte: Jovem triste, por Marcel Duchamp (1887-1968)

 
Imigrantes do Brasil, Argentina, Bolívia, Chile e Peru iniciaram na última sexta-feira, 26 de junho, uma mobilização nas redes sociais pela regularização migratória de pessoas indocumentadas no esforço de combate à pandemia de Covid-19. 
 
Além das ações virtuais, o grupo está mobilizado para pedir o cumprimento da Resolução 04/19 da Comissão Interamericana de Direitos Humanos, aprovada em dezembro de 2019. Ela prevê, entre outros pontos, que “os Estados devem incentivar a regularização da migração evitando, em especial, a precariedade das condições de trabalho e outras consequências da situação migratória irregular”.
 
“É necessário e urgente que os Estados-nação garantam o acesso à regularização migratória nos países que residimos, já que, em muitos casos, a situação irregular impede e/ou dificulta o acesso aos serviços de saúde, de educação, ao trabalho e/ou aos serviços de assistência social, fazendo com que as famílias tenham que romper com as medidas preventivas de isolamento social por força maior”, diz comunicado coletivo da campanha.
 
Uma vez regularizados, os imigrantes tendem a ter acesso facilitado aos serviços públicos de saúde, dando a estes a possibilidade de buscar tratamento contra o vírus. Em consequência, desta forma colaboram mais para o combate à pandemia junto com o restante da sociedade.
 
PL e mobilizações no Brasil
 
A regularização migratória por fins humanitários e como parte do esforço de combate à pandemia de coronavírus é também o foco de um Projeto de Lei na Câmara dos Deputados.
 
Protocolado em 15 de maio, o PL 2699/2020 “institui medidas emergenciais de regularização migratória no contexto da pandemia de Covid-19 e dá outras providências”.
 
A proposta parte do princípio da regularização migratória por fins humanitários, previsto na atual Lei de Migração, e se insere no esforço de combate à pandemia de coronavírus e seus efeitos.
 
Uma petição online foi lançada pedindo a aprovação urgente do PL 2699/2020 pelo Congresso Nacional.
 
Com a petição, o objetivo dos coletivos é pressionar os parlamentares para uma apreciação e aprovação céleres do projeto. De acordo com o portal da Câmara dos Deputados, o PL ainda aguarda despacho do presidente da Casa, Rodrigo Maia — o que inicia oficialmente a tramitação do texto.
 
Organizações envolvidas na campanha
 
  • Argentina: Bloque de Trabajadores Migrantes, Ni Una Migrante Menos, Campaña Migrar No Es Delito, Consejería Migrante Nuevo Perú en Nuevo Perú Buenos Aires;
  • Bolívia: Ni Una Migrante Menos;
  • Brasil: Equipe de Base Warmis – Convergência das Culturas, Projeto Canicas, Presença da América Latina – PAL, CEMIR, Coletivo Sí, yo puedo!, Magdas Migram, Coletivo Diásporas Africanas, Conselho Nacional de Igrejas Cristãs (CONIC), Comunidade cubana no Brasil, Rede MILBI, CDHIC, Coletivo Cio da Terra, ProMigra, Fórum Internacional Fontié ki Kwaze – Fronteiras Cruzadas;
  • Chile: Coordinadora Nacional de Inmigrantes, Integración Migrante Antofagasta, Colectividad de Colombianos Residentes en Antofagasta, Organización de Colombianos Refugiados en Chile (OCORCH), Raíces de Resistencia, Fundación Huellas, Féminas Latinas, Quilicura a color, SINDUCAP, Secretaría de Mujeres Inmigrantes, Colectivo Amauta, Agrupación Intercultural Miranda, Invisibles por la Paz
 
CONIC com informações do MigraMundo

 
“Bem-aventurados os mortos que desde agora morrem no Senhor.
Sim, diz o Espírito, para que descansem dos seus trabalhos, e as suas obras os seguem.”
(Apocalipse 14:13)
 
É com pesar que nós, da Diretoria do CONIC, recebemos a informação do falecimento do querido Jether Pereira Ramalho, aos 98 anos. Nome conhecido no movimento ecumênico, Jether destacou-se pela coerência de uma vida cristã totalmente comprometida com a causa do Reino, a defesa dos Direitos Humanos e o amor por aqueles a quem Jesus chamou de “meus pequeninos irmãos”.
 
Hoje é um dia triste não só para nós, religiosos, crentes, mas para todos e todas que, como o amigo Jether, aprenderam o significado sublime do serviço em favor daqueles e daquelas que mais necessitam de cuidado e amparo.
 
Que o bom Deus console os familiares enlutados.
 
Biografia:
 
A vida de Jether Ramalho foi contada no livro UMA PRESENÇA NO TEMPO. A obra mostra os diversos momentos da sua atuação na Igreja e na sociedade.
 
A primeira parte inclui uma extensa autobiografia dele e de Lucília, sua esposa, mostrando os momentos na Igreja Congregacional de Bento Ribeiro, no Abrigo Evangélico de Pedra Guaratiba e de sua vida profissional como dentista no Rio de Janeiro. Conta ainda como foi o rompimento dele com a profissão de dentista, quando procura outros caminhos mais adequados a sua visão de vida e de seu compromisso social.
 
Esse rompimento levou Jether a prestar vestibular para a faculdade Nacional de Filosofia da Universidade Federal do Rio de Janeiro – UFRJ, onde passa a estudar no curso de Ciências Sociais. 
 
Ainda como estudante, é convidado pelo Profº Evaristo de Moraes para substituí-lo em uma de suas matérias. Inicialmente os alunos da faculdade tiveram muita desconfiança dele, pois tratava-se de uma pessoa bem mais idosa e que ainda era um estudante. Em certo momento há uma grave situação entre a turma e uma professora e para a surpresa dela e para alegria dos colegas, Jether assume a posição de estar ao lado dos alunos. Aí a desconfiança cai. Ele passa a ser muito apreciado pelos colegas e faz todo o curso envolvido nos movimentos sociais e políticos da época. Foi um grande salto na sua vida.
 
Na parte religiosa, Jether envolve-se com o movimento ecumênico, que também era tido com um elemento suspeito em quase todas as igrejas evangélicas do Brasil. É contratado pela Confederação Evangélica do Brasil para dirigir o departamento de Ação Social e se envolve fortemente com a problemática social brasileira. Foi um dos organizadores e participantes da chamada Conferência do Nordeste, que causou uma cisão na própria Confederação. Nesse momento a situação política do Brasil era grave. Acabava de acontecer o golpe militar e havia sido lançado o AI 5, que reprimia todas as manifestações contrárias à ditadura.
 
Jether e Lucília já tinham quatro filhos, sendo que dois eram estudantes do curso secundário e participavam ativamente do movimento estudantil. Isso mostra que houve uma mudança radical do Jether dentista de Bento Ribeiro, para o Jether professor da UFRJ.
 
Jether foi editor da revista Tempo e Presença – editada pelo Centro Ecumênico de Documentação e Informação (Cedi) e posteriormente por Koinonia Presença Ecumênica e Serviço – por 15 anos. A revista Tempo e Presença se constituiu como porta voz de uma nova visão da situação política e religiosa no Brasil e na América Latina.
 
Na área internacional, Jether foi convidado a ir para Genebra e ficou encarregado pelo Conselho Mundial de Igrejas (CMI) de formar uma rede de organismos ecumênicos na América Latina. Sua tarefa junto ao Conselho era de visitar todos os países da América Latina, prestando assessoria aos movimentos ecumênicos, principalmente na área de juventude.
 
O que caracterizou toda a vida de Jether Ramalho, e que o livro mostra amplamente, foi sua presença nos acontecimentos e nas mudanças realizadas nas igrejas e na sociedade. Daí o título do livro “UMA PRESENÇA NO TEMPO”, mostrando a sua sensibilidade quanto à vida das igrejas, do movimento ecumênico e da sociedade em geral.
 
Obs.: as informações da Biografia foram compiladas do site de Koinonia
 

 
Nesta sexta-feira, 26 de junho, o mundo celebra os 75 anos da assinatura da Carta de São Francisco, documento que criou a Organização das Nações Unidas (ONU). Após os horrores da II Guerra Mundial, autoridades, lideranças religiosas e boa parte da comunidade internacional passou a buscar um mundo mais plural, em oposição aos nacionalismos exacerbados que geraram sistemas políticos opressores, que não só ceifavam liberdades, mas vidas humanas.
 
A data precisa ser relembrada com toda força nestes dias em que discursos “antiglobalistas” encontram ecos em outras frentes até então relegadas ao ambiente do hilário, como o terraplanismo e a anticiência. Porém, essa história não tem nada de comédia, mas boas doses de tragédia, sobretudo quando vem amparada por discursos religiosos fundamentalistas que, sem o menor pudor, usam os meios de comunicação para pedir a volta de regimes ditatoriais. Uma contradição e tanto, já que ditaduras não dialogam bem com a mídia.
 
Como cristãos e cristãs, precisamos estar atentxs a todo e qualquer movimento que atente contra as liberdades fundamentais do ser humano. Por isso, um mundo onde as decisões não fiquem nas mãos de um ou dois tiranos, mas no conjunto das nações, é imprescindível. Mais do que nunca, é preciso reforçar nosso apoio a organismos como a ONU, não apenas por seu trabalho em décadas passadas, mas também pela sua importância nesses contextos de ódio.
 
Seja você homem, mulher, preto, branco, pardo, amarelo, indígena, quilombola, camponês, camponesa, bancário, operária, população LGBTQI+, criança, adolescente, idoso, família convencional ou novas configurações familiares, todxs merecem respeito, todxs merecem representação, e nenhum grupo tem o direito de oprimir o outro em nome de uma moral supostamente superior; em nome de um padrão de conduta supostamente melhor. 
 
A Carta de São Francisco, citada acima, faz alusão ao santo de Assis, pessoa que, com seu exemplo e desprendimento, deixou grandes ensinamentos. Recuperar o que Francisco apregoava é a chave para entendermos que apenas com diálogo teremos uma sociedade melhor. E numa sociedade plural, os nacionalismos dão lugar à cultura de paz. E a justiça se torna algo perene, acessível para todos e todas, e não apenas para uma minoria (Am 5:24).
 

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