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Entre 2017 e 2018 houve uma explosão de violência contra as mulheres. A média mensal de agressões subiu 24%. Em 2018, 7.634 mulheres foram vítimas todos os meses, ante 6.139, no ano anterior. Os casos de tentativa de feminicídio, por exemplo, mais que dobraram e ultrapassaram sete mil registros. Há 25 anos, o Brasil tenta reverter esse quadro, sem sucesso. Entidades internacionais alertam para o enfraquecimento de políticas públicas para o setor.
 
Tentativas de feminicídio, violência moral, patrimonial, psicológica, sexual, obstétrica, institucional e tráfico de mulheres dispararam. Os dados fazem parte do balanço, obtido pelo Correio, do canal de denúncias do então Ministério dos Direitos Humanos — agora, Ministério da Mulher, da Família e dos Direitos Humanos. O cenário fica ainda mais grave quando se avalia outras seis violações que entraram no último ano na lista de denúncias do Ligue 180, como ameaça, violência doméstica, familiar, policial, virtual e contra a diversidade religiosa, além de um tópico que aglutina crimes como “outros registros”.
 
Os números foram avaliados por especialistas e militantes da causa da mulher. Eles foram incisivos: são dados alarmantes, e as investidas masculinas estão cada vez mais cruéis. A violência moral, quando se calunia, difama ou injuria a honra ou a reputação da mulher, subiu 114%: saltou de 1.849 em 2017 para 3.960 no último ano. A violência sexual cresceu 21,5%: saiu de 3.696 casos para 4.491. Já a violência patrimonial — quando há ato de violência que implique dano, perda, subtração, destruição ou retenção de objetos, documentos pessoais, bens e valores — passou de 892 episódios para 1.115, ou seja, 25% a mais no mesmo período.
 
Desde 1994, a Convenção Interamericana para Prevenir, Punir e Erradicar a Violência contra a Mulher, conhecida como Convenção de Belém do Pará, da qual o Brasil é signatário, caracteriza a violência contra o sexo feminino como “qualquer ato ou conduta baseada no gênero, que cause morte, dano ou sofrimento físico, sexual ou psicológico à mulher, tanto na esfera pública quanto na esfera privada”. Depois, a Lei Maria da Penha foi criada para endurecer a punição.
 
Chocante
 
O cotidiano violento para a mulher, de fato, persiste em 2019. Desde o início do ano, uma média de cinco ocorrências por dia foram registradas. Ao todo, 107 casos de feminicídio ou de tentativa foram denunciados, sendo que 68 acabaram consumados, e 39, tentados, até 24 de janeiro. O levantamento foi realizado pelo professor Jefferson Nascimento, doutor em direito internacional pela Universidade de São Paulo (USP). Há registros de ocorrências em pelo menos 94 cidades, distribuídas por 20 estados e o DF.
 
Na última semana, casos de todo tipo de violência chocaram o país. No DF, um homem matou a  mulher e atirou no filho, na 316 Norte. Ela foi enterrada na sexta-feira. Em Santa Catarina, balanço da Secretaria de Segurança Pública contabilizou cinco casos de feminicídio. No Espírito Santo, uma mulher foi agredida enquanto dormia — o marido a atacou a golpes de tesoura.  Em 2018, 7.036 foram vítimas de tentativa de feminicídio.
 
Para Raquel Marques, presidente da Associação Artemis, centro cultural feminista, essa é uma questão cultural. “Quando se fala em aumentar penas e tipificar crimes, estamos trabalhando com o que será feito após o acontecimento. Não estamos nos preocupando com o principal, que é o antes, com a prevenção. Temos de pensar que esse homem é comum. E que ele um dia se apaixonou, dividiu a casa, teve filhos, mas que, no inconsciente dele, a mulher é extensão do seu patrimônio”, critica.
 
A militante explica que é preciso estimular a intolerância social a qualquer violência. “Tudo começa com a desqualificação moral, com pequenas ofensas. Depois, vêm um empurrão, um tapa. A violência não é do dia para a noite. Ameaça, por exemplo, é registrada só por registrar, para se ter estatística. Na maior parte dos casos, nada é feito”, aponta.
 
Raquel acredita que falta estrutura social para a mulher sair do ciclo da violência, como creche e emprego. “Quando falta o básico, não adianta criar abrigo. A sociedade inteira precisa viabilizar isso em todos os aspectos. As mulheres se escondem porque são julgadas, ficam arredias para não aumentar o problema dentro de casa, não têm dinheiro para sair”, frisa.
 
Comentário do CONIC
 
Deus odeia todo tipo de violência (Pv 16:29); quando essa violência é voltada contra aqueles ou aquelas que são mais frágeis, e que deveriam ter a nossa proteção, Ele abomina! (Pv 31:8-9). O profeta Habacuque chegou a afirmar que Deus é "tão puro de olhos, que não podes ver o mal, e a opressão não podes contemplar" (Hc 1:13). Enquanto cristãos e cristãs, enquanto igreja brasileira, precisamos falar desse assunto nas nossas fileiras, nas nossas casas. 
 
Não podemos fazer "boca de siri". Ao contrário: é necessário que lideranças, membresia, todos e todas, estejam atentos e atentas à violência que não está só "lá fora", mas também - muitas vezes - ao nosso redor. Toda vítima de violência doméstica precisa de amor. Não ignore-a. E todo agressor precisa de punição. Denuncie-o! "Ah, mas ele é meu líder..." - pode dizer alguém. Não importa: Deus não compactua com o mal (Mq 2:1-11 e Mq 3:1-6). Não compactue você também. Denuncie, ligue 180! "Pois o Senhor é justo, e ama a justiça" (Salmos 11:7).
 
Com informações do Correio Braziliense
Foto: Reprodução / Antonio Cunha/CB/D.A Press

 
Os momentos de catástrofe exigem atitudes ecumênicas das igrejas. Atitudes individualizadas não são efetivas. Em situações de catástrofe as igrejas precisam se reunir e coordenar desde as primeiras ações, que no caso de Brumadinho foi organizar a doação de água, alimentos, roupas, artigos de higiene pessoal. Em menos de 48 horas já havia tanto material que não eram mais necessárias novas doações. Isso aconteceu por causa da enorme solidariedade, mas também porque as igrejas e a sociedade civil foram pressionando a Vale para assumir as necessidades econômicas por essa tragédia. 
 
As igrejas passaram então a atuar em outros espaços de solidariedade. Além de criar redes oração, foi importante levar as pessoas que queriam ajudar para mais perto da catástrofe. Desta forma, foram surgindo várias ações ecumênicas de apoio como, por exemplo, grupos de jovens que foram trabalhar com as crianças de familiares vítimas da tragédia, usando para isso o roteiro das Semanas Bíblicas de Férias. Alguns jovens músicos organizaram oficinas de música, onde ensinavam os jovens vitimados a cantar sua tragédia. Esse mesmo grupo, sob a orientação de um médico veterinário, passou a cuidar dos animais sobreviventes. Os adultos criaram uma lavanderia comunitária para lavar a roupa dos bombeiros militares e várias pessoas se colocaram à disposição como bombeiros voluntários durante o período de buscas de sobreviventes. Houve também um grupo de mulheres que passava de velório em velório, preparando café, água e algo de comer para as famílias enlutadas e, sobretudo, levando um abraço, ajudando as pessoas a se sentirem acompanhadas no momento de seu maior sofrimento. Tudo isso com o apoio financeiro de coletas de solidariedade das igrejas. 
 
Depois de duas semanas, os sobreviventes começam a pensar na reconstrução. Reconstruir não significa apenas levantar paredes. Significa também reconstruir vidas, reconstruir esperanças, tomar decisões em relação ao futuro. 
 
 
A empresa Vale começou a fazer doações de 100mil reais por cada funcionário morto ou desparecido. No entanto, essa generosidade da empresa pode ter o objetivo de individualizar as demandas por indenização, como aconteceu em Mariana, onde cada um tem seu advogado e passados já mais de 3 anos, ninguém foi indenizado. Por isso, o Ministério Público do Trabalho adverte que as demandas em casos de catástrofes como essa devem ser sempre coletivas. Essa é a maneira correta para lutar com as grandes empresas e conseguir resultados mais rápidos. Por isso, nesse momento da reconstrução é fundamental que as igrejas, no acompanhamento pastoral, também tenham condições de orientar corretamente as vítimas. 
 
Ecumenismo para ações transformadoras
 
As igrejas devem levantar a voz profética em relação a uma economia que tem por objetivo único o crescimento compulsivo e ilimitado - crescimento da produção, crescimento do consumo, crescimento da extração de recursos, crescimento da poluição, crescimento da catástrofe climática e ambiental. É importante que as empresas se instalam e tragam empregos. Mas devemos nos perguntar sobre os riscos humanos e ambientais dessas empresas.  Aqui em Minas Gerais há ainda 18 barragens de rejeitos de minério de ferro em situação de perigo de rompimento. São verdadeiros monstros que podem devorar pessoas e o meio ambiente a qualquer momento. Então, antes que as empresas se instalem, devemos perguntar pelos riscos e as medidas de prevenção para a proteção da vida humana e do meio ambiente.  
 
Porque servimos ao Deus da vida, isso significa resistir e procurar transformar todos os valores e sistemas destruidores da vida. Pois as consequências das catástrofes nos mostram que se o atual sistema econômico, os padrões atuais de pensamento e comportamento continuarem - como ocorre atualmente - as condições de vida do planeta serão destruídas. Que depois da ajuda emergencial, as igrejas possam continuar se reunindo dentro de um movimento ecumênico para avaliações críticas e ações transformadoras.
 
Na quarta-feira seguinte à catástrofe, dia 30 de janeiro, já no final da tarde, o céu escureceu e, por alguns instantes, o vento soprou forte derrubando árvores. Quase não choveu, mas o barulho de trovões foi intenso. Parecia que o Espírito de Deus estava pairando, desolado, sobre aquela destruição deixada pela catástrofe da Vale.
 
Texto: Pr. Nilton Giese - Comunidade Evangélica de Confissão Luterana em Belo Horizonte
Foto 1: Reprodução / Nilton Giese

 
O Palácio do Planalto quer conter o que considera um avanço da Igreja Católica na liderança da oposição ao governo Jair Bolsonaro, no vácuo da derrota e perda de protagonismo dos partidos de esquerda. Na avaliação da equipe do presidente, a Igreja é uma tradicional aliada do PT e está se articulando para influenciar debates antes protagonizados pelo partido no interior do País e nas periferias.
 
O alerta ao governo veio de informes da Agência Brasileira de Inteligência (Abin) e dos comandos militares. Os informes relatam recentes encontros de cardeais brasileiros com o papa Francisco, no Vaticano, para discutir a realização do Sínodo sobre Amazônia, que reunirá em Roma, em outubro, bispos de todos os continentes. 
 
Durante 23 dias, o Vaticano vai discutir a situação da Amazônia e tratar de temas considerados pelo governo brasileiro como uma “agenda da esquerda”. 
 
O debate irá abordar a situação de povos indígenas, mudanças climáticas provocadas por desmatamento e quilombolas. “Estamos preocupados e queremos neutralizar isso aí”, disse o ministro chefe do Gabinete de Segurança Institucional (GSI), Augusto Heleno, que comanda a contraofensiva.
 
Com base em documentos que circularam no Planalto, militares do GSI avaliaram que os setores da Igreja aliados a movimentos sociais e partidos de esquerda, integrantes do chamado “clero progressista”, pretenderiam aproveitar o Sínodo para criticar o governo Bolsonaro e obter impacto internacional. “Achamos que isso é interferência em assunto interno do Brasil”, disse Heleno.
 
Escritórios da Abin em Manaus, Belém, Marabá, no sudoeste paraense (epicentro de conflitos agrários), e Boa Vista (que monitoram a presença de estrangeiros nas terras indígenas ianomâmi e Raposa Serra do Sol) estão sendo mobilizados para acompanhar reuniões preparatórias para o Sínodo em paróquias e dioceses. 
 
O GSI também obteve informações do Comando Militar da Amazônia, com sede em Manaus, e do Comando Militar do Norte, em Belém. Com base nos relatórios de inteligência, o governo federal vai procurar governadores, prefeitos e até autoridades eclesiásticas que mantêm boas relações com os quartéis, especialmente nas regiões de fronteira, para reforçar sua tentativa de neutralizar o Sínodo. 
 
O Estado apurou que o GSI planeja envolver ainda o Itamaraty, para monitorar discussões no exterior, e o Ministério do Meio Ambiente, para detectar a eventual participação de ONGs e ambientalistas. Com pedido de reserva, outro militar da equipe de Bolsonaro afirmou que o Sínodo é contra “toda” a política do governo para a Amazônia – que prega a defesa da “soberania” da região. “O encontro vai servir para recrudescer o discurso ideológico da esquerda”, avaliou ele.
 
Bispos se opõem a políticos em evento
 
O grupo de bispos brasileiros que prepara o Sínodo sobre Amazônia, previsto para ocorrer em outubro, em Roma, critica a presença de representantes do governo federal no evento. O cardeal e arcebispo emérito de São Paulo, d. Cláudio Hummes, um dos mais próximos do papa Francisco, foi indicado pela Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB) para levar ao Vaticano o pedido do Planalto para participar do encontro, mas ele sugeriu à equipe do presidente Jair Bolsonaro buscar outro interlocutor. "Sugeri que o governo acionasse a Embaixada do Brasil na Santa Sé como contato, pois se trata de uma questão diplomática", disse ele ao Estado.
 
Presidente da Comissão Episcopal para a Amazônia da CNBB e prefeito emérito da Congregação para o Clero em Roma, Hummes afirmou que a Igreja Católica não pretende prejudicar Bolsonaro nem dar uma "resposta" a repressões sofridas nos tempos do regime militar. "Deve-se ter a preocupação de não olhar para o passado, mas para o futuro, pois não é a mesma coisa agora", disse, referindo-se a setores da Igreja que temem a repetição da conturbada relação do clero com a ditadura militar.
 
Um dos principais nomes da Igreja Católica em atividade na região Norte, o bispo emérito do Xingu (PA), d. Erwin Kräutler, reagiu com estranheza ao interesse do Planalto em influenciar o encontro religioso para tratar de temas como meio ambiente e índios. "Nós conhecemos a Amazônia muito melhor do que qualquer integrante do governo federal", afirmou. "Como vão contribuir quando falarmos da situação da floresta, que vivemos há tantos anos?", questionou.
 
Entre os integrantes do Planalto, estão ex-comandantes militares da Amazônia, como os generais Augusto Heleno Ribeiro, ministro do Gabinete de Segurança Institucional (GSI), e Eduardo Villas Bôas, assessor da pasta, além do vice-presidente, general Hamilton Mourão, cuja família é do Amazonas e comandou em São Gabriel da Cachoeira, interior do Estado.
 
Aos 79 anos, sendo 54 no Pará, d. Erwin disse que é incomum a participação de autoridades políticas nesses encontros globais promovidos pelo Vaticano. "Não, meu irmão. É um Sínodo de bispos!", disse à reportagem. "Nunca vi membro de governo de qualquer país convidado", acrescentou. "O que um representante do governo vai dizer quando estivermos tratando de novos caminhos da evangelização?"
 
D. Erwin foi um dos autores da Encíclica do Meio Ambiente, documento assinado pelo papa Francisco em 2015, que serviu de base para a decisão da Igreja em realizar o Sínodo. Ele afirmou que os representantes dos governos dos outros oito países da Amazônia - Bolívia, Peru, Equador, Colômbia, Venezuela, Guiana, Suriname e França (Guiana Francesa) - também deveriam ser convidados. "Se convidar alguém do Brasil, o papa terá de chamar também pessoas de outros países. Isso me parece até um absurdo."
 
'Responsabilidade'
 
Outro envolvido nos preparativos do Sínodo, o presidente do Conselho Indigenista Missionário (CIMI), d. Roque Paloschi, disse que o encontro focará uma "realidade" de "direitos negados" a índios, ribeirinhos, quilombolas e extrativistas. "Não estamos jogando culpa em ninguém, estamos assumindo uma responsabilidade histórica que exige de nós clareza", afirmou. "A Igreja tem de ficar do lado de quem? Ao lado de quem promove a morte ou de quem busca a vida?", questionou.
 
D. Roque discorda da visão do Planalto de que os religiosos agem por simpatia à esquerda e antipatia a Bolsonaro. "A missão da Igreja é viver o Evangelho", afirmou. "Não temos nada a esconder. Mas também não temos de nos encolher porque há uma preocupação do governo."
 
Fonte: Estadão
Foto: Thiago Leon / A12

 
Era uma sexta-feira, dia 25 de janeiro de 2019, quando o estado de Minas Gerais, mais uma vez, foi surpreendido pelo rompimento de uma barragem da empresa mineradora Vale. Desta vez as regiões atingidas foram cidade de Brumadinho e a reserva do Parque da Cachoeira, município da zona metropolitana de Belo Horizonte, capital mineira; e mais de 220 km ao longo do curso do rio Paraopeba.
 
As imagens divulgadas mostram como de repente um mar de lama avança, liberando mais de 12 bilhões de litros de fragmentos de resíduos minerais, com rejeitos da mineração de ferro. Há apenas 3 anos, outro desastre ambiental semelhante, fruto de negligências, acontecia na cidade Mariana, também Minas Gerais.
 
Ações concretas
 
Com este cenário, o Fórum Ecumênico Brasil (FEACT), membro da Aliança ACT, solicitou uma ajuda de emergência para suporte humanitário na região. A solicitação foi atendida e, nos próximos 3 meses, o Fórum vai atuar em conjunto com parceiros e lideranças comunitárias nos processos de coordenações da ação que visa, entre outras coisas:
 
• Apoio psicossocial para 760 famílias;
• Doação de água potável, alimentos suplementares de proteína;
• Materiais de higiene para mulheres e crianças.
 
Neste momento, há uma equipe de facilitadores, promotores e líderes locais que vai garantir a implementação adequada da resposta humanitária, estabelecendo comitês operacionais para uma gestão adequada da ajuda.
 
Duas semanas após o rompimento da barragem, os números do impacto são:
 
• 760 famílias despejadas afetadas diretamente (3.800 pessoas)
• 5400 famílias evacuadas de domicílios (27.000 pessoas) de Brumadinho
• 157 óbitos confirmados – 134 pessoas identificadas
• 192 pessoas resgatadas
• 182 pessoas desaparecidas
• 250 casas danificadas
• 25 casas totalmente destruídas.
 
#FeBrasil #FeAct #HopeInAction
 

 
Na tarde da última quinta-feira, 7 de fevereiro, a diretoria do CONIC-MG foi recebida por dom Walmor Oliveira de Azevedo, arcebispo metropolitano de BH, no palácio episcopal Cristo Rei, na capital mineira. A delegação do CONIC, que foi acompanhada pelo padre Nédio dos Santos Lacerda – vigário geral da Arquidiocese de Belo Horizonte – foi formada pelo reverendo Jorge Diniz (IPU), pastor Nilton Giese (IECLB) e irmã Janett Alves Teixeira (ICAR).
 
Após uma fraterna acolhida, o encontro foi pautado por assuntos doridos recorrentes da tragédia e do crime humano e ambiental na cidade de Brumadinho. A busca por aproximação entre o CONIC-MG, as igrejas-membros, outras diversas tradições cristãs ainda não membros do CONIC e a possibilidade de união de forças inter-religiosas na direção do cuidado dos vitimados do Vale do Paraopeba também estiveram entre os assuntos tratados. 
 
“Também em pauta esteve um breve relato de ações já realizadas e outras que estão em andamento e algumas possibilidades de parceria em prol do povo sofrido, incluindo principalmente a situação da tribo Pataxó Hã-hã-hãe, que divide espaço com o Acampamento Pátria livre do MST, localizados às margens do Rio Paraopeba, na cidade de São Joaquim de Bicas”, declara o presidente do CONIC-MG, Jorge Diniz. 
 
O acampamento, que agrega mais de 600 famílias que dependiam da água do Rio Paraopeba para a irrigação de hortas, extração de alimentos e rentabilização da comunidade com a comercialização dos peixes do rio teve todas as atividades interrompidas pelo tsunami de lama proveniente do rompimento da barragem. “Eles agora sofrem com a falta de informação e com o descaso da mineradora Vale e do poder público. Os relatos que tivemos dão conta de que o acampamento ainda não recebeu nenhum alimento nem água”, completa Diniz.
 
Vigília Inter-Religiosa
 
Diante desse contexto de tanto sofrimento, os presentes decidiram convocar uma reunião com diversas tradições cristãs e de outras matrizes religiosas com o objetivo de convidar a todos para participarem de uma Vigília Solidária, que acontecerá nas comunidades locais das diversas tradições e religiões, planejada os dias 23 e 24 de fevereiro. Também nesta reunião se organizará uma Celebração Ecumênica de Solidariedade que acontecerá na segunda-feira, dia 25 de fevereiro, na cidade de Brumadinho, com representatividade das diversas tradições cristãs e religiões, no trigésimo dia após o rompimento da barragem. 
 
Encontro com autoridades locais
 
O CONIC-MG foi convidado a participar de uma reunião com deputados mineiros, agendada para a próxima quarta-feira (13), às 8h30, no Palácio Cristo Rei, com o objetivo de solicitar aos parlamentares que lutem por maior rigidez na legislação para as mineradoras em Minas Gerais.
 
Dom Walmor também convidou o CONIC-MG para se fazer presente em outra reunião, desta vez com o SERVAS (Serviço Voluntário de Assistência Social), ligado ao Governo de Minas, e a liderança religiosa católica romana em Brumadinho. O objetivo é somar forças para ações concretas no cuidado com famílias sofridas da região. 
 
“O CONIC-MG agradece a Deus, o Senhor de todos e todas, por uma reunião tão acolhedora e fraterna com dom Walmor, agradece também ao padre Nédio por ter intermediado encontro tão significativo e roga ao Senhor para que cada uma das ações, por pequena que possa parecer, se torne em imensa força construtora do bem comum, do cuidado para com a criação e do estabelecimento do Reino d’Ele”, conclui o presidente do CONIC-MG.
 

 
Algumas lideranças cristãs e membros de comunidades “torcem o nariz” quando ouvem o termo Ecumenismo. Na visão deles, o Ecumenismo tem por objetivo juntar as igrejas e, no fim, formar uma Única Igreja, mesclando ritos, costumes, hinos, diaconias e tudo mais, de modo que não exista mais tantas denominações cristãs como hoje, mas sim uma única e Toda Poderosa Igreja.
 
Quem pensa assim precisa urgentemente rever os conceitos.
 
Dentro do movimento ecumênico não há qualquer interesse parecido com isso. Muito pelo contrário! Enfatiza-se que as diferenças enriquecem a prática cristã do diálogo. Por exemplo: se na sua igreja as pessoas cantam mais animadamente e na minha tudo é mais formal, a ideia não é criarmos um “meio termo” para juntar ambas; mas sim que você compreenda que Deus está tanto nas “coisas formais”, quanto nas “coisas mais animadas”. E assim caminhamos – ecumenicamente – com a consciência de que Deus se manifesta nessa diversidade.
 
Para criticar o ecumenismo, alguns citam documentos antigos, muitas vezes escritos por um grupo de religiosos que não falavam em nome de toda a denominação, nos quais defendiam que o objetivo do ecumenismo era “promover conversões para a religião dominante”.
 
Além de equivocado, esse argumento está ultrapassado. 
 
No movimento ecumênico, a ideia é que católicos, evangélicos, protestantes, ortodoxos, anglicanos e muitos outros grupos cristãos se sentem à mesa para debater sobre temas que a eles são comuns, por exemplo: o testemunho cristão em terras distantes; os trabalhos sociais que se podem fazer juntos; a produção acadêmica; liberdade religiosa; entre outros.
 
Tendo um pouco de boa vontade, fica fácil perceber que todo cristão pode – e deve – praticar mais o diálogo ecumênico. O objetivo nunca será “mostrar que a sua igreja está mais certa do que a minha”. Se começar assim, é melhor nem começar! O objetivo primaz do diálogo ecumênico é ver “o que temos em comum” e, a partir disso, caminhar lado a lado em questões que podem envolver desde temas teológicos até serviços voluntários.
 
Maior é o que nos une do que aquilo que nos separa – diz um adágio popular. 
 
Jesus nos une em torno de uma certeza: “eu vim para que tenham vida, e a tenham com abundância” (João 10:10). E essa certeza é comum a todos os grupos cristãos, do Oriente ao Ocidente. De Norte a Sul. Sem exceções! Portanto, aqueles argumentos de que “não podemos nos sentar com eles” em função de pontos secundários da fé cristã pode, em última análise, ser um pouco de vaidade. Ou medo de perder “mercado”. Sim, pois enquanto as igrejas se comportarem como “concorrentes” umas das outras, daí realmente será difícil estabelecer diálogos.
 
Tem uma passagem bíblica que fala sobre isso. Ela é muito significativa e deveria ser melhor estudada, compreendida e vivida dentro das igrejas. Trata-se de Marcos 9:38-41:
 
38 - Mestre, vimos um que em teu nome expulsava demônios, o qual não nos segue; e nós lho proibimos, porque não nos segue.
 
39 - Jesus, porém, disse: Não lho proibais; porque ninguém há que faça milagre em meu nome e possa logo falar mal de mim.
 
40 - Porque quem não é contra nós, é por nós.
 
41 - Porquanto, qualquer que vos der a beber um copo de água em meu nome, porque sois discípulos de Cristo, em verdade vos digo que não perderá o seu galardão.
 
Veja a sutileza com que Jesus lida com a situação! 
 
Trazendo para os dias de hoje, podemos fazer um exercício rápido e transformar o texto da seguinte maneira:
 
38 - Jesus, vimos um que em teu nome um pastor/padre/reverendo expulsava demônios, mas esse líder religioso não é da nossa igreja; e nós lho proibimos, porque não frequenta nosso templo, não canta nossos hinos, não comunga como nós.
 
Qual seria a resposta de Jesus? 
 
Não lho proibais, “porque quem não é contra nós, é por nós”.
 
Muitas vezes, o diálogo cristão (ecumenismo) não acontece porque os grupos tendem a querer fazer valer suas verdades (práticas e doutrinas) em detrimento das verdades do outro. Quando compreendemos que o mais importante é o nosso testemunho seja UNO (João 17:21), daí podemos dar um passo a mais para “caminhar a segunda milha” com aquele meu irmão e com aquela minha irmã que pensa diferente de mim, canta e cultua diferente de mim, mas dá o mesmo testemunho do que eu: porque Deus amou o mundo de tal maneira... (João 3:16).
 
A caminhada ecumênica (de unidade cristã) não quer, nem nunca quis, formar uma Supra-Religião. É engano daqueles que não compreenderam o ecumenismo. O ecumenismo pressupõe que você permaneça na sua igreja e eu na minha. Mas que possamos, juntos, caminhar no testemunho de Cristo e fazer com que esse testemunho se transforme em algo de útil para a sociedade.
 
Imagine, por exemplo, católicos e evangélicos organizando juntos grandes campanhas de doação de sangue? Ou realizando momentos de reflexão e diálogo sobre fé e caridade? Imagine o poder que isso não teria frente aos desafios que um país como o Brasil tem? Poderia ser transformador. Mas para isso – repito – as igrejas precisam se despir da ideia de “concorrência”. Atividades como a citada acima já até ocorrem, mas ainda bastante timidamente.
 
No último ano, 2018, a Semana de Oração pela Unidade Cristã (SOUC) em Divinópolis reuniu membros da Igreja Quadrangular e da Igreja Católica local. O bispo diocesano, dom José Carlos, proferiu sermão na Quadrangular e, depois, assistiu a um belíssimo culto com louvores e adorações a Deus. Foi lindo. Entre os membros de ambas as igrejas prevaleceu a cordialidade. Nada de proselitismos ou apontamentos. O amor cristão deu o tom da comemoração. No último dia da SOUC, o grupo de louvor da Quadrangular foi na sede de uma comunidade católica e “tirou todo mundo do chão” com hinos pra lá de animados. Mais uma vez, prevaleceu a harmonia.
 
 
E depois? Os membros da Quadrangular continuaram na Quadrangular. E os membros da Igreja Católica continuaram na Igreja Católica. Sabe o que mudou? É que a partir daquele momento todos passaram a se olhar com muito mais carinho e respeito, tal como irmãos e irmãs.
 
Isso é ecumenismo.

 
A Pastoral Carcerária Nacional vem, por meio desta nota oficial, manifestar seu repúdio ao pacote de alterações na legislação anunciado nesta segunda-feira (4) pelo ministro da justiça Sérgio Moro.
 
O pacote propõe a alteração de 14 pontos do Código Penal, Código de Processo Penal, Lei de Execução Penal, Lei de Crimes Hediondos e Código Eleitoral. Ele será enviado ao Congresso Nacional, para debate e votação.
 
O ministro alega que tais mudanças têm como objetivo “combater crimes violentos, organizações criminosas e a corrupção” no país; no entanto, o resultado desse pacote seria o aumento do encarceramento em massa, do endurecimento penal e da letalidade policial.
 
Uma das propostas do ministro é formalizar as prisões em segunda instância, que ignoram o conceito da presunção da inocência e colocam atrás das grades muitas pessoas que não tiveram sua sentença definida. Dados do CNJ revelam que cerca de 40% da população prisional é composta por presos provisórios, e essa medida só vai agravar este cenário, superlotando ainda mais as prisões.
 
É sempre bom lembrar que o Brasil é atualmente o terceiro país do mundo que mais encarcera, e a violência não deixa de aumentar por conta disso, pois o cárcere em si é alimentador do círculo de violência.
 
Também a alteração do artigo 25 do Código Penal é extremamente preocupante. A proposta considera como legítima defesa que agentes policiais ou de segurança pública previnam agressões em conflitos armados.
 
Esse “excludente de ilicitude” irá diminuir as investigações de mortes cometidas por policiais, dando margem para o aumento da letalidade policial, que já é uma das maiores do mundo: segundo o Anuário Brasileiro de Segurança Pública, 5144 pessoas foram mortas pela polícia brasileira em 2017, o que correspondeu a 8% de todos os assassinatos do país.
 
A Pastoral Carcerária, aliada com outras organizações sociais, enxerga que, para combater a violência efetivamente, é preciso combater o cárcere. Se faz necessário revisar princípios e conceitos sobre o sistema prisional e compreender que é uma questão de injustiça e desigualdade social, onde os mais vulneráveis são responsabilizados.
 
Temos como horizonte a Agenda Nacional pelo Desencarceramento, que propõe o desencarceramento, a desmilitarização e formas alternativas de resolução de conflitos. Sendo assim, não podemos concordar com o pacote de medidas do ministro da justiça, que contradiz em sua raiz o conceito cristão de não violência e amor à vida, pois temos a certeza de que mais encarceramento, punição e mortes por agentes do estado irão apenas gerar mais violência.
 
A Campanha da Fraternidade deste ano tem como tema “Fraternidade e Políticas Públicas”. A maioria da população carcerária é composta de jovens, negros e pobres, que em sua maioria só conhecem uma política pública do estado: a prisão.
 
Enquanto esse cenário não mudar e se pensarem políticas públicas favoráveis ao desencarceramento e ao fim da desigualdade social, a violência em todo o país só tende a crescer.
 
Pastoral Carcerária Nacional

 
Na fileira audaciosa daqueles e daquelas que, com temor e tremor, buscam sentir e pensar Deus (teologia) a partir das grandes dores, desgraças e perplexidades humanas (como a de Auschwitz, por exemplo), a tragédia criminosa produzida pela Empresa Vale em Brumadinho traz, como tantos outros infortúnios, interrogações à fé, que pode, inclusive, chegar ao ponto de comprometer a imagem de Deus. Uma pergunta emerge a não poucos crentes (e descrentes): ONDE ESTAVA DEUS QUANDO A LAMA DESCIA?
 
Outra indagação pertinente aparece com legitimidade no âmago da fé cristã: DEUS (onisciente, onipresente e todo poderoso) não quis ou não pode intervir cessando o horror a céu aberto?
 
Pelo breve exposto, podemos dizer que se a fé cristã questiona a vida, essa mesma fé é também questionada pelos mais diversificados contextos de dor, sobretudo diante de grandes calamidades, mesmo quando são produzidas pelo desejo insano e voraz de um grupo abastado cujo único deus é o Capital. Em outros termos, Brumadinho questiona nossa imagem sobre Deus. Nesse horizonte, o grito do Cristo sofredor na cruz (“Pai, Pai, por que me abandonaste?”) nos leva à compreensão de um Deus que compartilha de todos os gritos e sofrimentos humanos, inclusive do sentir-se abandonado por Ele. Não é desse assombro que fala Castro Alves quando indaga ao “Senhor Deus dos desgraçados”? Para Ariano Suassuna a questão do sofrimento é a pergunta mais séria que um não crente pode fazer a quem crê. A propósito, não é de dentro da dor que Jó duela com Deus? Suassuna cita o rei da poesia do sertão, Leandro Gomes de Barros, que confessa: “Se eu conversasse com Deus, eu iria perguntar: Por que é que sofremos tanto quando viemos pra cá?[…] Por que existem uns felizes e outros que sofrem tanto?[…] Quem foi temperar o choro e acabou salgando o pranto?”. No rastro das indagações do poeta, poderíamos também perguntar no contexto de Brumadinho: teria Deus perdido a medida? Ou mais radicalmente: Deus se compraz com o sofrimento humano? Ou ainda: É Deus sádico ou insensível? São, pois, questionamentos que brotam da dor extrema, do assombro e do desespero ante o caos irremediável. Nessas horas escabrosas, palavras prontas, ditas inadvertidamente por muitos cristãos, do tipo: “já deu tudo certo”, “Deus já deu a vitória” ou “Deus está no controle”, constituem, no mínimo, um insulto ao sofrimento alheio. Melhor seria que tais cristãos seguissem o exemplo do sambista Paulinho da Viola que diante de um corpo estendido no chão toma respeitosa atitude. Narra o sambista na canção “Coisas do mundo, minha nega”: “Não tirei minha viola. Parei, olhei, fui-me embora. Ninguém compreenderia um samba naquela hora”.
 
Considerando, pois, o Cristo crucificado, podemos pensar e sentir Deus como um Deus soterrado em Brumadinho, Deus com lama dos pés à cabeça. Essa face de Deus captada a partir dos vitimizados da história não traz a notícia de um Deus super-homem ou sempre vitorioso (como nas “missas da vitória”), mas traz, sim, o Evangelho de um Deus enlameado que grita, exige justiça e, identificado, desde as entranhas, com os sofredores, dá sua vida para salvar outras vidas; e quando a lama encobre seu corpo, esse Deus solidário sequer tem boca livre para dar o grito derradeiro… Deus está enlameado, não há sequer um José de Arimatéia para pedir seu corpo; não se vê corpo…só LAMA. O céu se abriu em intraduzíveis exéquias e Deus foi quem mais trabalhou. Fez-se a um só tempo: oficiante, corpo e sepulcro.
 
Deus ama tão engajadamente que está onde estão os soterrados, os desgraçados pela Vale da Lama, Vale do lamaçal, Vale do Capital – Lama sujado do mal.
 
O Deus enlameado faz-Se, pois, protesto contra essa lama infernal. E do silêncio ensurdecedor desse Deus enlameado e “desaparecido”, desse Deus agarrado às centenas de corpos, igualmente submergidos, transparece a face de um Deus solidário. Desse modo, por debaixo das lamas de Brumadinho aparece um Deus, desconcertante e profundamente diferente do Deus anunciado pelo status quo. O Deus “desaparecido” redime assumindo, sem preocupação asséptica ou profilática, os enlameados da história. Esse rosto de Deus que se esvazia de si torna-Se não só um convite, mas, sobretudo, uma exigência à Igreja para que também ela, deixando uma possível compulsão à pureza, seja capaz de enlamear-se com os enlameados, chorar com os que choram, morrer com os que morrem e lutar esperançosa com os que lutam.
 
Desse modo, Brumadinho, à luz da fé cristã, converte-se em “lugar teológico”, isto é, lugar/situação a partir da qual podemos refletir em que Deus somos crentes e em que Deus somos ateus. Brumadinho teve sua sexta-feira da paixão antecipada e nela está o Cristo, enlameado e agarrado aos soterrados: homens, mulheres, águas, plantas e animais. Do Cristo, também soterrado pela Vale da lama, sequer se pode avistar os cabelos de sua cabeça. Deus “desapareceu”; desceu com os seus à mansão dos mortos. O Verbo se fez carne e a carne fez-se lama… E essa descida de Deus (“descensus ad inferos”) é EVANGELHO!
 
Deus não larga a mão de ninguém!!!
 
Mas, esse anuncio não pode ser dado pela boca de uma Igreja apática, ensimesmada, insensível e triunfalista. Somente uma Igreja humanizada, sensível, engajada, agônica, martirial e enlameada (como o Cristo), pode, no Espírito, proferir em terra devastada uma mensagem tão cheia de consolo e esperança pascais.
 
Então, pensando a Páscoa, a partir de Brumadinho, podemos dizer que ela já está sendo gestada desde as profundezas da terra. Aquele que modelou no oculto, no oculto realiza a obra de resgate. E a Páscoa não se dará sem que o Cristo traga em suas mãos o último soterrado e com ele as águas ofendidas, os peixes apavorados e as árvores generosas. Nem o latido inocente do último cachorro soterrado será esquecido por Deus. Conforme crê Adélia Prado: “…nunca nada está morto. O que não parece vivo, aduba, O que parece estático, espera!
 
Mas, vale dizer que a mensagem pascal não nos tira da história, tampouco das diversificadas trincheiras que nos fazem dizer não a um tipo de Vale que não vale a pena, porque ancorada num modelo político e econômico que privatiza o “rio do doce” como o mel e socializa a lama mais amarga que o fel. Podemos, pois, dizer, à luz da fé, que o Deus enlameado é o já ressuscitado é o já ressuscitado é o ainda enlameado no romper das sinistras barragens do capital.
 
Mas, no interior das contradições e atrocidades humanas (pessoais e estruturais), Deus diz em “noites traiçoeiras” aos sobreviventes de Brumadinho: “Coragem, eu vencia o mundo”! E aos insepultos, o mesmo Deus revela: Lá aonde o bombeiro mais bravo não chegou, lá onde a mão humana mais solidária não alcançou, Eu (igualmente, enlameado) vos encontrei… Estarei convosco até o fim… Não vos deixarei órfãos… Hoje mesmo estareis comigo no paraíso… Eu vencia a lama do mundo – Sou vossa PÁSCOA! Eis o Evangelho do Cristo enlameado! “Humano assim só sendo Deus mesmo”. Por isso, apesar dos pesares, Brumadinho, conforme o “Credo” da afropoetisa Elisa Lucinda, é possível crer “na ressurreição da tarde e na vida bela. Amém!”
 
Padre Gegê é mestre em teologia (PUC-RJ) e doutorando em ciência da religião (PUC-SP)
Foto: Washington Alves/Reuters

 
A Consulta Internacional de Liturgia Anglicana (CILA) esteve reunida em Hong Kong, de 21 a 25 de janeiro de 2019, sendo calorosamente recebida pela Hong Kong Sheng Kung Hui. O Escritório da Comunhão Anglicana foi representado na reunião pelo Rev. Neil Vigers, Executivo do Programa para Unidade, Fé e Ordem. Também havia membros representantes de 21 Igrejas da Comunhão. Metade dos participantes estavam se juntando à Consulta pela primeira vez. 
 
Durante a semana, o ofício diário foi oficiado por equipes das várias regiões da Comunhão. A Consulta teve a honra de ser convidada pelo Primaz, Arcebispo Paul Kwong, para uma celebração da Eucaristia presidida por ele. O ofício celebrou a memória da Rev. Florence Li Tim-oi, na véspera do aniversário de sua ordenação, em 25 de janeiro de 1944. Ela foi a primeira mulher a ser ordenada ao sacerdócio na Comunhão Anglicana. A reunião também teve o prazer de se juntar à congregação da Catedral de São João e à comunidade cristã mais ampla de Hong Kong em uma liturgia para a Semana de Oração pela Unidade Cristã.
 
Relatórios das Igrejas e Províncias
 
Os relatórios provinciais indicaram um movimento significativo em várias províncias no tocante à revisão de livros de oração, hinários e textos litúrgicos, que enfatizaram a importância da CILA em relação ao compartilhamento de conhecimento, recursos e processos. No contexto da revisão de calendários, várias províncias têm considerado maneiras de incorporar santos, santas e mártires locais e indígenas.
 
Várias Igrejas relataram sobre o trabalho que estavam realizando em relação a referências de gênero para Deus, particularmente em textos em línguas neolatinas. A partir desses relatos de contextos muito diferentes, reconheceu-se que as questões levantadas pela linguagem inclusiva e pelas linguagens de gênero exigiam respostas cuidadosas e contextualmente apropriadas sobre as quais trabalho adicional seria necessário.
 
A Consulta também recebeu um relatório da Rede Litúrgica Anglicana da Ásia Oriental, que havia sido estabelecida em 2017 na Coréia e se reuniu para sua primeira conferência em 2018 no Japão.
 
Trabalho quanto a orações pela unidade na Comunhão
 
A pedido do Grupo de Trabalho dos Primazes, a reunião se empenhou em preparar recursos e material litúrgico relative ao conceito de unidade da Comunhão Anglicana. Esse trabalho foi realizado durante a semana de oração pela unidade das pessoas cristãs, reconhecendo que, como anglicanos(as), nossos próprios ‘laços afetivos’ foram testados nas últimas décadas.
 
A unidade, no entanto, não pode significar uniformidade, já que as muitas culturas, idiomas e formas de incorporar e ampliar as tradições anglicanas que herdamos, crescem cada vez mais diversificadas. O Grupo de Trabalho dos Primazes pediu à CILA material que pudesse ser incluído tanto na celebração eucarística como nos ofícios da palavra. A reunião não forneceu ofícios completos de nenhum tipo.
 
Declarações anteriores da CILA, especialmente as de Praga e Dublin, oferecem diretrizes para a estrutura litúrgica e para elementos típicos que podem ser incluídos em liturgias eucarísticas e outras. Em vez disso, a reunião desenvolveu uma série de recursos litúrgicos de diferentes tipos, havendo também a sugestão de leituras bíblicas e sentenças das Escrituras para uso em liturgias onde a unidade, e a unidade da Comunhão em particular, é o tema.
 
Formação litúrgica e educação teológica
 
Na Consulta de Montreal, em 2015, os relatórios das províncias expressaram preocupação com o treinamento e formação litúrgica inadequados do clero e lideranças leigas, e que a educação litúrgica não era mais vista como prioridade em muitos seminários e esquemas de treinamento ministerial. Levando em consideração essas preocupações, uma parte significativa do trabalho em Hong Kong foi destinada a fim de considerar os elementos centrais e o contexto da formação litúrgica para o ministério.
 
A Consulta começou seu trabalho em ouvir os diferentes contextos em que a formação litúrgica está ocorrendo. A partir desses diferentes contextos, a reunião identificou as principais competências teológicas e práticas que são essenciais em todas as Igrejas da Comunhão Anglicana. Parte deste trabalho está sendo relatado para a Educação Teológica para a Comunhão Anglicana (TEAC), uma vez que eles dão mais atenção a requisitos das grades de várias formas de ministério e discipulado cristão nas Igrejas da Comunhão Anglicana.
 
Levar a palavra adiante
 
O trabalho da reunião foi, agora, passado ao Comitê Diretivo, que apresentará declarações completas para apresentação ao Conselho Consultivo Anglicano (ACC) em sua reunião em Hong Kong no final deste ano.
 
Reunião Diretiva
 
A reunião aceitou uma resolução do Comitê Diretivo a fim de clarificar regras da rede e confirmar que o Comitê Diretivo pode cooptar indivíduos para ajudar em temas específicos de trabalho, ou na coordenação e planejamento de uma reunião da Consulta. A reunião também aceitou uma resolução adicional que obriga o(a) Presidente(a) que está no final de seu mandato da CILA a continuar, ex-officio, como membro do Comitê Diretivo por um curto período de tempo, a fim de garantir que o trabalho realizado em uma reunião seja concluído e relatado. A reunião também elaborou uma resolução para o ACC sobre o compartilhamento de material litúrgico entre as Igrejas da Comunhão. A reunião elegeu quatro novos membros para o Comitê Diretor.
 
Os membros integrais do Comitê de Direção nomeado para servir a CILA a partir desta reunião são:
 
Christine Benoit (nova) – Igreja Anglicana do Oceano Índico
Luiz Coelho (novo) – Igreja Episcopal Anglicana do Brasil
Dane Courtney – Igreja Anglicana da Austrália
Keith Griffiths – Igreja Anglicana do Sul da África
Simon Jones (novo) – Igreja da Inglaterra
Chun Wai Lam (novo) – Hong Kong Sheng Kung Hui
Lizette Larson-Miller – Igreja Anglicana do Canadá (ex-officio)
Cynthia Botha – Igreja Anglicana do Sul da África (Secretária)
Neil Vigers- Escritório da Comunhão Anglicana
Participantes da Consulta
Fereimi Cama – Igreja Anglicana em Aotearoa, Nova Zelândia e Polinésia
Chris Chataway – Igreja Anglicana da Austrália
Doug Morrison-Cleary – Igreja Anglicana da Austrália
Elizabeth Smith – Igreja Anglicana da Austrália
Dane Courtney – Igreja Anglicana da Austrália
Luiz Coelho – Igreja Episcopal Anglicana do Brasil
Douglas Fenton – Igreja Anglicana do Canadá
Lizette Larson-Miller – Igreja Anglicana do Canadá
Brighton Malasa – Igreja da Província da África Central
Lakshman Daniel – Igreja do Ceilão
Harvey Howlett – Igreja da Inglaterra
Simon Jones – Igreja da Inglaterra
Chun Wai Lam – Hong Kong Sheng Kung Hui
Christine Benoit – Igreja Anglicana do Oceano Índico
Gilbert Rateloson – Igreja Anglicana do Oceano Índico
Gerald Field – Igreja da Irlanda
Alan Rufli – Igreja da Irlanda
Nak-Hyon Joseph Joo – Igreja Anglicana da Coréia
Stephen Ofo-Ob – Igreja Episcopal nas Filipinas
Shintaro Ichihara – Nippon Sei Ko Kai (Comunhão Anglicana no Japão)
Ryo Nagatani – Nippon Sei Ko Kai (Comunhão Anglicana no Japão)
Saya Ojiri Nippon – Sei Ko Kai (Comunhão Anglicana no Japão)
John Davies – Igreja Episcopal Escocesa
Moses Chin – Igreja da Província do Sudeste Asiático
Bismark Avokaya – Igreja Episcopal do Sudão do Sul
Cynthia Botha – Igreja Anglicana do Sul da África
Keith Griffiths – Igreja Anglicana do Sul da África
Daniel Musa – Igreja Episcopal do Sudão
Bruce Jenneker – Igreja Episcopal
Jason Lucas – Igreja Episcopal
Ruth Meyers – Igreja Episcopal
Catherine Haynes – Igreja no País de Gales
Neil Vigers  – Escritório da Comunhão Anglicana
 
Fonte: IEAB
Foto: Reprodução

 
Em nota sobre o crime ambiental de Brumadinho, Minas Gerais, a Igreja Presbiteriana Unida (IPU), que integra o CONIC, manifesta "apoio e solidariedade às vítimas e famílias enlutadas" e lamenta profundamente "que grupos econômicos venham a pleitear, junto ao Congresso Nacional, a flexibilização das regras do licenciamento ambiental, protetor da vida humana, animal e vegetal no entorno de obras e projetos das mineradoras que atuam no Brasil". 
 
O posicionamento da IPU é muito oportuno, pois, apesar de ser consenso que precisamos cuidar das pessoas e do meio ambiente com mais zelo do que temos feito até agora, ainda há grupos que colocam o lucro acima de tudo, fazendo do dinheiro um verdadeiro “deus” (leia Mateus 6:24 e 1 Timóteo 6:10). Infelizmente, tais grupos parecem não ter conseguido compreender o valor da vida humana e a importância da rica biosfera que nos foi confiada (leia Apocalipse 11:18). 
 
A seguir, veja a nota da IPU.
 
SOBRE O CRIME AMBIENTAL EM BRUMADINHO-MG
 
“Os céus proclamam a glória de Deus, e o firmamento anuncia a obra das suas mãos”
(Salmo 19:1)
 
“O Senhor odeia mãos que derramam sangue inocente…”
(Provérbios 6:17)
 
A Igreja Presbiteriana Unida do Brasil vem a público manifestar seu apoio e solidariedade às vítimas e famílias enlutadas na recente tragédia em Brumadinho-MG, elevando ao Deus Criador da vida humana, animal e vegetal as suas orações e intercessões, a fim de que pela ação do Espírito Santo de Deus, as famílias das pessoas atingidas pela catástrofe sejam consoladas e confortadas com a bênção da esperança, do amor e da paz a fim de superarem esta nova fase de suas vidas.
 
Igualmente, conclamamos as nossas comunidades, igrejas irmãs parceiras, cristãs e cristãos, no entorno citadino de Brumadinho, a que se empenhem em estender a mão solidária e fraterna a todas e todos que ali passam por dificuldades e necessidades, bem como apresentar ao Senhor da história e da vida, suas orações e intercessões pelas irmãs e irmãos de humanidade, atingidos pela catástrofe ambiental.
 
A Igreja Presbiteriana Unida do Brasil junta-se às demais igrejas e organismos que vêm a público denunciar este novo desastre com barragens de rejeitos de minérios, em Brumadinho (MG), que poderia ter sido evitado, constatando-se mais uma vez a inépcia do Estado brasileiro e das mineradoras responsáveis por diversos projetos em MG e outros locais, em não atentar para o fato que minérios são um recurso finito e que, portanto, as mineradoras deveriam ter uma política de exploração estratégica, priorizando-se a reciclagem e o reaproveitamento de seus rejeitos.
 
Lamenta-se profundamente que grupos econômicos venham a pleitear, junto ao Congresso Nacional, a flexibilização das regras do licenciamento ambiental, protetor da vida humana, animal e vegetal no entorno de obras e projetos das mineradoras que atuam no Brasil. A não proteção do meio ambiente, tão necessário à vida, torna acidentes na biosfera ambiental em crimes ambientais que devem ser investigados, punidos e reparados pelas autoridades ambientais, pelo Estado e pelas Empresas que os causaram.
 
Impactados e consternados com os acontecimentos, clamamos ao Senhor da Igreja, para que a justiça seja implementada e realizada, a fim de que o direito, a promoção da vida e do bem se concretizem em nossa sociedade brasileira.
 
CONSELHO COORDENADOR DA IGREJA PRESBITERIANA UNIDA DO BRASIL – IPU
 
ANITA SUE WRIGTH TORRES – Moderadora
WISLANILDO FRANCO – Vice Moderador
SERGIO MIRANDA – 1º Secretário
DANIEL CASTRO – 2º Secretário
DAVI NATAL – Tesoureiro