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Após cinco dias de debates e manifestações em Brasília, as representantes de mais de 130 povos indígenas que participaram da I Marcha das Mulheres Indígenas divulgam o documento final da mobilização. “Somos totalmente contrárias às narrativas, aos propósitos, e aos atos do atual governo, que vem deixando explícita sua intenção de extermínio dos povos indígenas, visando à invasão e exploração genocida dos nossos territórios pelo capital”, afirmam no documento.
 
Salientando a relação que existe entre os territórios tradicionais dos povos indígenas, seus corpos e sua vida espiritual, as mulheres indígenas que realizaram sua primeira marcha nacional denunciam a violência de que são vítimas, mas apontam o machismo como “mais uma epidemia trazida pelos europeus” e defendem que, no combate a essas mazelas, as especifidades da organização social dos povos indígenas sejam levadas em conta.
 
Após realizar sua primeira marcha, na última terça-feira (13), e somar-se às cerca de cem mil mulheres que participaram da Marcha das Margaridas, na quarta-feira (14), elas afirmam que é necessário “fortalecer a potência das mulheres indígenas, retomando nossos valores e memórias matriarcais” nas lutas indígenas.
 
Leia na íntegra:
 
DOCUMENTO FINAL DA MARCHA DAS MULHERES INDÍGENAS:
“TERRITÓRIO: NOSSO CORPO, NOSSO ESPÍRITO”
 
Nós, 2.500 mulheres de mais de 130 diferentes povos indígenas, representando todas as regiões do Brasil, reunidas em Brasília (DF), no período de 10 a 14 de agosto de 2019, concebemos coletivamente esse grande encontro marcado pela realização do nosso 1º Fórum e 1ª Marcha das Mulheres Indígenas, queremos dizer ao mundo que estamos em permanente processo de luta em defesa do “Território: nosso corpo, nosso espírito”. E para que nossas vozes ecoem em todo o mundo, reafirmamos nossas manifestações.
 
Enquanto mulheres, lideranças e guerreiras, geradoras e protetoras da vida, iremos nos posicionar e lutar contra as questões e as violações que afrontam nossos corpos, nossos espíritos, nossos territórios. Difundindo nossas sementes, nossos rituais, nossa língua, nós iremos garantir a nossa existência.
 
A Marcha das Mulheres Indígenas foi pensada como um processo, iniciado em 2015, de formação e empoderamento das mulheres indígenas. Ao longo desses anos dialogamos com mulheres de diversos movimentos e nos demos conta de que nosso movimento possui uma especificidade que gostaríamos que fosse compreendida. O movimento produzido por nossa dança de luta, considera a necessidade do retorno à complementaridade entre o feminino e o masculino, sem, no entanto, conferir uma essência para o homem e para a mulher. O machismo é mais uma epidemia trazida pelos europeus. Assim, o que é considerado violência pelas mulheres não indígenas pode não ser considerado violência por nós. Isso não significa que fecharemos nossos olhos para as violências que reconhecemos que acontecem em nossas aldeias, mas sim que precisamos levar em consideração e o intuito é exatamente contrapor, problematizar e trazer reflexões críticas a respeito de práticas cotidianas e formas de organização política contemporâneas entre nós. Precisamos dialogar e fortalecer a potência das mulheres indígenas, retomando nossos valores e memórias matriarcais para podermos avançar nos nossos pleitos sociais relacionados aos nossos territórios.
 
Somos totalmente contrárias às narrativas, aos propósitos, e aos atos do atual governo, que vem deixando explícita sua intenção de extermínio dos povos indígenas, visando à invasão e exploração genocida dos nossos territórios pelo capital. Essa forma de governar é como arrancar uma árvore da terra, deixando suas raízes expostas até que tudo seque. Nós estamos fincadas na terra, pois é nela que buscamos nossos ancestrais e por ela que alimentamos nossa vida. Por isso, o território para nós não é um bem que pode ser vendido, trocado, explorado. O território é nossa própria vida, nosso corpo, nosso espírito.
 
Lutar pelos direitos de nossos territórios é lutar pelo nosso direito à vida. A vida e o território são a mesma coisa, pois a terra nos dá nosso alimento, nossa medicina tradicional, nossa saúde e nossa dignidade. Perder o território é perder nossa mãe. Quem tem território, tem mãe, tem colo. E quem tem colo tem cura.
 
Quando cuidamos de nossos territórios, o que naturalmente já é parte de nossa cultura, estamos garantindo o bem de todo o planeta, pois cuidamos das florestas, do ar, das águas, dos solos. A maior parte da biodiversidade do mundo está sob os cuidados dos povos indígenas e, assim, contribuímos para sustentar a vida na Terra.
 
A liberdade de expressão em nossas línguas próprias, é também fundamental para nós. Muitas de nossas línguas seguem vivas. Resistiram às violências coloniais que nos obrigaram ao uso da língua estrangeira, e ao apagamento de nossas formas próprias de expressar nossas vivências. Nós mulheres temos um papel significativo na transmissão da força dos nossos saberes ancestrais por meio da transmissão da língua.
 
Queremos respeitado o nosso modo diferenciado de ver, de sentir, de ser e de viver o território. Saibam que, para nós, a perda do território é falta de afeto, trazendo tristeza profunda, atingindo nosso espírito. O sentimento da violação do território é como o de uma mãe que perde seu filho. É desperdício de vida. É perda do respeito e da cultura, é uma desonra aos nossos ancestrais, que foram responsáveis pela criação de tudo. É desrespeito aos que morreram pela terra. É a perda do sagrado e do sentido da vida.
 
Assim, tudo o que tem sido defendido e realizado pelo atual governo contraria frontalmente essa forma de proteção e cuidado com a Mãe Terra, aniquilando os direitos que, com muita luta, nós conquistamos. A não demarcação de terras indígenas, o incentivo à liberação da mineração e do arrendamento, a tentativa de flexibilização do licenciamento ambiental, o financiamento do armamento no campo, os desmontes das políticas indigenista e ambiental, demonstram isso.
 
Nosso dever como mulheres indígenas e como lideranças, é fortalecer e valorizar nosso conhecimento tradicional, garantir os nossos saberes, ancestralidades e cultura, conhecendo e defendendo nosso direito, honrando a memória das que vieram antes de nós. É saber lutar da nossa forma para potencializar a prática de nossa espiritualidade, e afastar tudo o que atenta contra as nossas existências.
 
Por tudo isso, e a partir das redes que tecemos nesse encontro, nós dizemos ao mundo que iremos lutar incansavelmente para:
 
  1. Garantir a demarcação das terras indígenas, pois violar nossa mãe terra é violentar nosso próprio corpo e nossa vida;
  2. Assegurar nosso direito à posse plena de nossos territórios, defendendo-os e exigindo do estado brasileiro que proíba a exploração mineratória, que nos envenena com mercúrio e outras substâncias tóxicas, o arrendamento e a cobiça do agronegócio e as invasões ilegais que roubam os nossos recursos naturais e os utilizam apenas para gerar lucro, sem se preocupar com a manutenção da vida no planeta;
  3. Garantir o direito irrestrito ao atendimento diferenciado à saúde a nossos povos, com a manutenção e a qualificação do Subsistema e da Secretaria Especial Saúde Indígena (SESAI). Lutamos e seguiremos lutando pelos serviços públicos oferecidos pelo SUS e pela manutenção e qualificação contínua da Política Nacional de Atendimento à Saúde a nossos povos, seja em nossos territórios, ou em contextos urbanos. Não aceitamos a privatização, a municipalização ou estadualização do atendimento à saúde dos nossos povos. Lutamos e lutaremos para que a gestão da SESAI seja exercida por profissionais que reúnam qualificações técnicas e políticas que passem pela compreensão das especificidades envolvidas na prestação dos serviços de saúde aos povos indígenas. Não basta termos uma indígena à frente do órgão. É preciso garantirmos uma gestão sensível a todas as questões que nos são caras no âmbito desse tema, respeitando nossas práticas tradicionais de promoção à saúde, nossas medicinas tradicionais, nossas parteiras e modos de realização de partos naturais, e os saberes de nossas lideranças espirituais. Conforme nossas ciências indígenas, a saúde não provém da somente da prescrição de princípios ativos, e a cura é resultado de interações subjetivas, emocionais, culturais, e fundamentalmente espirituais;
  4. Reivindicar ao Supremo Tribunal Federal (STF), que não permita, nem legitime nenhuma reinterpretação retrógrada e restritiva do direito originário às nossas terras tradicionais. Esperamos que, no julgamento do Recurso Extraordinário 1.017.365, relacionado ao caso da Terra Indígena Ibirama Laklanõ, do povo Xokleng, considerado de Repercussão Geral, o STF reafirme a interpretação da Constituição brasileira de acordo com a tese do Indigenato (Direito Originário) e que exclua, em definitivo, qualquer possibilidade de acolhida da tese do Fato Indígena (Marco Temporal);
  5. Exigir que todo o Poder Judiciário que, no âmbito da igualdade de todos perante a lei, faça valer nosso direito à diferença e, portanto, o nosso direito de acesso à justiça. Garantir uma sociedade justa e democrática significa assegurar o direito à diversidade, também previsto na Constituição. Exigimos o respeito aos tratados internacionais assinados pelo Brasil, que incluem, entre outros, a Convenção 169 da Organização Internacional do Trabalho (OIT), as Convenções da Diversidade Cultural, Biológica e do Clima, a Declaração da ONU sobre os Direitos dos Povos Indígenas e a Declaração Americana dos Direitos dos Povos Indígenas;
  6. Promover o aumento da representatividade das mulheres indígenas nos espaços políticos, dentro e fora das aldeias, e em todos os ambientes que sejam importantes para a implementação dos nossos direitos. Não basta reconhecer nossas narrativas é preciso reconhecer nossas narradoras. Nossos corpos e nossos espíritos têm que estar presentes nos espaços de decisão;
  7. Combater a discriminação dos indígenas nos espaços de decisão, especialmente das mulheres, que são vítimas não apenas do racismo, mas também do machismo;
  8. Defender o direito de todos os seres humanos a uma alimentação saudável, sem agrotóxicos, e nutrida pelo espírito da mãe terra;
  9. Assegurar o direito a uma educação diferenciada para nossas crianças e jovens, que seja de qualidade e que respeite nossas línguas e valorize nossas tradições. Exigimos a implementação das 25 propostas da segunda Conferência Nacional e dos territórios etnoeducacionais, a recomposição das condições e espaços institucionais, a exemplo da Coordenação Geral de Educação Escolar Indígena na estrutura administrativa do Ministério da Educação para assegurar a nossa incidência na formulação da política de educação escolar indígena e no atendimento das nossas demandas que envolvem, por exemplo, a melhoria da infraestrutura das escolas indígenas, a formação e contratação dos professores indígenas, a elaboração de material didático diferenciado;
  10. Garantir uma política pública indigenista que contribua efetivamente para a promoção, o fomento, e a garantia de nossos direitos, que planeje, implemente e monitore de forma participativa, dialogada com nossas organizações, ações que considerem nossas diversidades e as pautas prioritárias do Movimento Indígena;
  11. Reafirmar a necessidade de uma legislação específica que combata a violência contra a mulher indígena, culturalmente orientada à realidade dos nossos povos. As políticas públicas precisam ser pautadas nas especificidades, diversidades, e contexto social de cada povo, respeitando nossos conceitos de família, educação, fases da vida, trabalho e pobreza;
  12. Dar prosseguimento ao empoderamento das mulheres indígenas por meio da informação, formação e sensibilização dos nossos direitos, garantindo o pleno acesso das mulheres indígenas à educação formal (ensino básico, médio, universitário) de modo a promover e valorizar também os conhecimentos indígenas das mulheres;
  13. Fortalecer o movimento indígena, agregando conhecimentos de gênero e geracionais;
  14. Combater de forma irredutível e inegociável, posicionamentos racistas e anti-indígenas. Exigimos o fim da violência, da criminalização e discriminação contra os nossos povos e lideranças, praticadas inclusive por agentes públicos, assegurando a punição dos responsáveis, a reparação dos danos causados e comprometimento das instâncias de governo na proteção das nossas vidas.
 
Por fim, reafirmamos o nosso compromisso de fortalecer as alianças com mulheres de todos os setores da sociedade no Brasil e no mundo, do campo e da cidade, da floresta e das águas, que também são atacadas em seus direitos e formas de existência.
 
Temos a responsabilidade de plantar, transmitir, transcender, e compartilhar nossos conhecimentos, assim como fizeram nossas ancestrais, e todos os que nos antecederam, contribuindo para que fortaleçamos, juntas e em pé de igualdade com os homens, que por nós foram gerados, nosso poder de luta, de decisão, de representação, e de cuidado para com nossos territórios.
 
Somos responsáveis pela fecundação e pela manutenção de nosso solo sagrado. Seremos sempre guerreiras em defesa da existência de nossos povos e da Mãe Terra.
 
Fonte: Cimi
Foto: Tiago Miotto/Cimi

 
O Sínodo para a Amazônia é uma realidade que já bate às portas. O processo vivido até aqui tem apontado muitas conquistas e despertado para diferentes frentes que apontam novas esperanças. 
 
Mas nem tudo são flores! O Sínodo tem sofrido ataques oriundos de várias direções. Tensões crescem a cada dia e é preciso unir forças para potencializar vozes e comunidades empenhadas na construção do Sínodo.
 
É por isso que o CONIC divulga, a partir de agora, materiais relacionados ao Sínodo e que estão sendo distribuídos por diferentes instituições no apoio a este grande momento da Igreja. 
 
Eis os links:
 
 
Dia Mundial de Oração pelo Cuidado com a Criação
 
No dia 1 de setembro, Dia Mundial de Oração pelo Cuidado com a Criação, será lançada a campanha relacionada ao Sínodo: #EuApoiooSinodo. Estão senso produzidos alguns materiais para divulgação e compartilhamento nas redes sociais. Acompanhe pelas redes sociais.
 
CONIC com informações da REPAM

 
A OAB Nacional sediou, nesta quinta-feira (15), o lançamento oficial da “Mesa Nacional de Diálogo contra a Violência”. A iniciativa, que foi abraçada pela Ordem, partiu da Comissão de Defesa dos Direitos Humanos Dom Paulo Evaristo Arns e contou com a presença e a participação de diversas entidades de proteção e organização da sociedade civil. O objetivo da ação é reunir forças das diferentes instituições em busca de soluções e propostas para enfrentar o problema da violência no Brasil.
 
Além da OAB e da Comissão Arns, participaram do evento representantes da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB), Associação Brasileira de Imprensa (ABI), Federação Nacional dos Jornalistas (Fenaj), Conselho Nacional de Igrejas Cristãs do Brasil (CONIC), Fórum Brasileiro de Segurança Pública, Centro Nacional de Africanidade e Resistência Afro-Brasileira (Cenarab), Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência (SBPC), Conselho Federal de Psicologia (CFP) e do Ministério Público Federal (MPF).
 
Romi Bencke (secretária-geral do CONIC)
 
O vice-presidente da OAB Nacional, Luiz Viana, afirmou que o propósito do grupo é construir e oferecer sugestões para uma nova política de segurança pública no país, já que os dados atuais revelam um enorme problema. Segundo o Atlas da Violência, o Brasil é um dos países mais violentos do mundo, com 65.602 homicídios registrados em 2017, 72,4% decorrentes de mortes por armas de fogo. Deste total, 75,5% dos mortos são negros.
 
“A mesa nacional de diálogo contra a violência, com a participação da Comissão Arns e de diversas outras entidades, vai apresentar à sociedade uma proposta de diálogo que possa unificar o discurso de combate à violência com uma política de segurança pública que signifique a cultura da paz e a preservação de diretos humanos”, afirmou Luiz Viana na abertura do ato.
 
“Não há nada mais anti-evangélico que a negação do direito do outro e da outra de viver com dignidade, exercendo livremente a sua fé, seja ela qual for, ou optando por não ter religião alguma. Não há nada mais anti-evangélico do que a misoginia, a LGBTfobia, o racismo. A liberdade cristã é uma consequência da fé. Esta liberdade nos torna livres para amar e praticar a justiça e nos impede a prática do ódio que é a negação da nossa liberdade conferida a nós pela fé em Jesus Cristo. A liberdade cristã não nos autoriza para a prática da violência”, lembrou a secretária-geral do CONIC, Romi Bencke (clique aqui e leia o discurso dela na íntegra).
 
O presidente da Comissão de Defesa dos Direitos Humanos Dom Paulo Evaristo Arns, José Carlos Dias, destacou que a organização desse grupo representa uma reação da sociedade civil em busca de uma melhor política de segurança pública e pela redução da violência no país.
 
“No instante em que a nossa história está sendo escrita com palavras, gestos e atos que destacam a supremacia da violência, é fundamental ler a Constituição Federal para observar quais são os direitos humanos que estão sendo violados. Reunidas as entidades convocadas, sinto que a sociedade se estrutura em defesa da democracia, escudeiros que somos dos direitos humanos”, afirmou José Carlos Dias.
 
Ao final do lançamento foi feita a leitura de uma carta, que foi assinada pelas entidades, defendendo a necessidade de buscar a cultura de paz, com respeito aos direitos humanos e a promoção da participação democrática. O documento diz ainda que as entidades se comprometem a levantar as bandeiras da tolerância profunda, do respeito ao direito do outro e da busca da união da diversidade. Serão esses os princípios que serão utilizados para se contrapor à violência.
 
 
Confira a íntegra da carta abaixo:
 
Por uma Mesa Nacional de Diálogo contra a Violência
 
O Brasil tem sofrido, com crescente horror, o recrudescimento de um dos piores traços da formação nacional: a violência incorporada ao cotidiano, especialmente das camadas de baixa renda. Segundo o Atlas da Violência, em 2017 houve uma taxa de 31,6 mortes violentas por 100 mil habitantes, a maior da história do país. Dos 65 mil assassinados, a maioria absoluta era composta de jovens e negros.
 
Às chacinas gratuitas, como a de Suzano (SP) no início deste ano, e aos morticínios planejados, como o de Altamira (PA) em julho passado, somam-se as balas, endereçadas e perdidas, que a cada dia ceifam o futuro e tornam infernal a vida dos indivíduos. Nada menos que 74% dos homicídios são cometidos por armas de fogo, um dos maiores indicadores do mundo. Propostas de facilitar o acesso a armas de fogo tornarão o quadro ainda mais grave. A escalada armamentista coloca em risco toda a população, e em particular a classe policial, que tem por dever estar na linha de frente dos conflitos.
 
Para piorar, recentemente têm proliferado os discursos de ódio, ajudando a conformar subjetividades violentas e intolerantes, e declarações públicas que legitimam a letalidade de órgãos oficiais. Ativistas e profissionais que repudiam tais pontos de vista se encontram em situação de crescente insegurança.
 
Está na hora de gritar basta! As entidades representativas da sociedade civil precisam mobilizar pessoas e instituições para construir uma agenda propositiva de segurança que respeite os direitos humanos e uma cultura cidadã capaz de refazer os laços de sociabilidade em dissolução.
 
Imbuídos de tal espírito, convidamos de maneira ampla organizações, movimentos e associações de variados credos e ideologias para sentarem-se juntos e discutir o que fazer. Se nos perguntarem agora como iremos nos organizar e como faremos para reduzir os índices que hoje assustam e envergonham a cidadania, responderemos com honestidade que não sabemos. Porém, estamos convencidos que a paz só será alcançada com o respeito aos direitos humanos e a promoção da participação democrática. Acreditamos que a mobilização desde baixo saberá inventar os caminhos necessários para chegar lá.
 
Por isso, lançamos hoje a iniciativa de uma Mesa Nacional de Diálogo contra a Violência. A Mesa não tem definições prévias, que serão construídas pelos que a ela aderirem. A única função das entidades que aqui convidam as demais é a de levantar as bandeiras da tolerância profunda, do respeito entranhado ao direito do outro e da busca da união na diversidade. Apostamos que em torno destes princípios poderemos contrapor ao monstro da violência a energia viva da sociedade mobilizada.
 
Brasília, 15 de agosto de 2019.
 
Fonte: OAB
Foto: Reprodução

 
Acordadas desde cedo, centenas de milhares de mulheres levantaram o acampamento, montado no Pavilhão de Exposições do Parque da Cidade, e marcharam 6 quilômetros em direção ao Congresso Nacional, em Brasília.
 
Munidas de seus tradicionais chapéus de palha e trajes roxos de todos os tons, coloriram a esplanada dos ministérios sob o lema “Margaridas na luta por um Brasil com soberania popular, democracia, justiça, igualdade e livre de violência”. Organizada pela Confederação Nacional dos Trabalhadores na Agricultura (CONTAG) de quatro em quatro anos desde os anos 2000, essa edição contou com um número recorde de mulheres. As organizadoras estimam cerca de cem mil manisfestantes.
 
“Estamos em um momento difícil para as mulheres, porque muitos dos nossos direitos estão sendo retirados e nós, mulheres o campo, das águas e das florestas, estamos aqui unidas para mostrar não só para o governo e para o Congresso, mas para a sociedade como um todo, qual o modelo de desenvolvimento queremos”, disse a coordenadora geral da marcha, Mazé Morais, de 36 anos.
 
Organizações ecumênicas, representadas pelo Fórum Ecumênico ACT Brasil (FEACT), também marcaram presença em peso. O Conselho Nacional de Igrejas Cristãs (CONIC), que é membro do FEACT, foi representado pela secretária-geral Romi Bencke, acompanhada da secretária Leila Gomes. 
 
 
O nome da marcha presta homenagem à Margarida Maria Alves, ex-presidente do Sindicato dos Trabalhadores Rurais de Alagoana Grande, na Paraíba. Ela foi assassinada em 12 de agosto de 1983, a mando de latifundiários da região. Os responsáveis pela sua morte nunca foram punidos, mesmo com a repercussão internacional do caso, que chegou a ser denunciada à Comissão Interamericana de Direitos. Para manter viva a sua memória, sua casa foi transformada em museu. Nas paredes do lugar está cunhada a frase mais famosa de Margarida: "Da luta eu não fujo. É melhor morrer de luta do que morrer de fome".
 
 
Pela primeira vez, o protesto contou com a partipação das mulheres indígenas.
 
De acordo com o jornalista Paulo Moreira Leite, a Marcha traz "um sinal sinal forte da resistência a um governo que, pela primeira vez desde o fim da ditadura militar,  assume a defesa aberta e incondicional dos grandes proprietários de terra e seus interesses". 
 
"A partir da decisão de Jair Bolsonaro de paralisar a reforma agrária, anunciada logo depois da posse, áreas que há muito tempo eram ocupadas por famílias de pequenos agricultores podem ser devolvidas aos antigos proprietários. Só na região Sul e Sudeeste do Pará há pelo menos 20 areas que enfrentam este processo", acrescenta Paulo. 
 
Depoimentos:
 
Mazé Morais, 36 anos, coordenadora geral da Marcha das Margaridas, vive em Batalha, Piauí
 
“Quando a marcha de 2015 terminou, já começamos a organizar essa edição de 2019. Durante esses quatro anos realizamos um enorme processo de mobilização pela base, com inúmeros debates, ouvindo milhares de mulheres em centenas de municípios e mesmo aquelas que não participam, que não conseguiram vir para Brasília, se sentem muito representadas porque sabem o significado político dessa marcha e qual o impacto dessa ação em suas vidas.”
 
Eleonora Menicucci, ex-ministra da Secretaria de Políticas para as Mulheres
 
“Essa marcha tem hoje tem um significado mais do que simbólico, tem um significado político real: as mulheres como protagonistas na luta contra o estado de exceção, contra a perda de direitos e contra o fascismo que saiu do armário no Brasil.”
 
Deputada Federal Benedita da Silva
 
“Quando alguma coisa é danosa ao Brasil, é muito danosa para as mulheres, maioria da população. Essas mulheres que estão sendo massacradas todos dias estão demonstrando que não aceitam mais a crueldade e a negligência desse governo.”
 
Deputada Federal Maria do Rosário
 
“A organização das Margaridas é muito diferente, muito forte, muito feminina, mas muito feminista também, e une a todas nós, mulheres do campo da cidade, em uma grande demonstração de força.”
 
Cosma da Silva Barbosa, 72 anos, 6 filhos e 16 netos, agricultora, vive em Casinhas, Interior de Pernambuco
 
“Essa é terceira Marcha das Margaridas que eu participo. Vim pela primeira vez por curiosidade, em 2011 e achei lindo! Agora quero vir para as próximas enquanto eu viver.”
 
Nilza Leonise da Silva, 39 anos, Missionária, vive em Alagoa Grande, Paraíba
 
“Nasci e moro na mesma terra em que Margarida Alves lutou pelos seus direitos até ser assassinada e vim continuar essa luta para que o povo se conscientize.”
 
Deisiane Maiane da Conceição Pereira, funcionária pública, 25 anos, vive em Paço do Lumiar, Maranhão
 
“Sou de uma família de agricultores que sempre trabalhou muito e através do Bumba-meu-boi eu consigo representar as minhas raízes para as outras margaridas.”
 
Ioana Louise, 27 anos, e Ioná Pereira, 48 anos, ambas vivem em Juazeiro do Norte, Ceará
 
“Esse é um momento importante de empoderamento do nosso povo e viemos aqui defender a nossa religiosidade e demarcar a presença das mulheres do terreiro, pois nós somos Margaridas também.”
 
Carolina Santos, 23 anos, vive em Ubatuba, São Paulo
 
“Sem território a gente não consegue desenvolver nossa cultura e as nossas tradições, então a gente resiste, como jovens, pela manutenção cultural dos povos tradicionais.”
 
Luiza Canuto, índigena, etnia Tabajara, 60 anos, vive em Serra das Matas, Monsenhor Tabosa, Ceará
 
“As mulheres indígenas também são agricultoras familiares. O território, a terra, são fundamentais para os nossos povos. Temos a mesma luta que as mulheres do campo.”
 
 
CONIC com informações da Marie Claire e Brasil 247
Fotos: CESE / CONIC

 
“Por que razão me mostras a iniquidade, e me fazes ver a opressão? Pois que a destruição e a violência estão diante de mim, havendo também quem suscite a contenda e o litígio. Por esta causa a lei se afrouxa, e a justiça nunca se manifesta; porque o ímpio cerca o justo, e a justiça se manifesta distorcida” (Habacuque 1:3,4)
 
O Brasil está em crise ou o Brasil é uma crise permanente?
 
O Conselho Nacional de Igrejas Cristãs do Brasil (CONIC) está preocupado com: o aprofundamento da violência; o racismo religioso que se materializa na intolerância religiosa; as ameaças à soberania nacional; a expansão da mineração em reservas indígenas e áreas de proteção; a desconfiguração das políticas de proteção ambiental; a liberação exacerbada de agrotóxicos; a violação de direitos; as prisões políticas; as privatizações de setores estratégicos; o aumento do desemprego; a precarização das relações de trabalho aprofundadas a partir da Reforma Trabalhista; o desmonte de políticas educacionais, em especial, no ensino superior; as intimidações e perseguições de profissionais da saúde e da educação; mudanças no sistema previdenciário que afetam as populações mais vulneráveis; as invasões a territórios indígenas; as agressões contra camponeses e camponesas sem-terra; os sinais evidentes de violação da Constituição, do Código da Magistratura e da Lei Penal; a mudança na Comissão Nacional da Verdade e o total desrespeito à memória das pessoas mortas e desaparecidas...
 
Somam-se a isso declarações públicas dos mandatários do país que destoam de todo bom senso, deixando perplexos políticos das mais diferentes linhas ideológicas. No âmbito internacional, o cenário também não é diferente: temos um Brasil que perde credibilidade dia após dia, em especial por causa do ataque ao saber histórico-científico que colocam em xeque, por exemplo, a questão do aquecimento global.
 
História
 
É possível que o Brasil nunca tenha sido confrontado tanto com as mazelas que persistem ao longo de sua história: escravização dos povos indígenas e africanos, autoritarismo, colonialismo, violência social e religiosa. Historicamente, iniciativas de avanço civilizatório são sistematicamente bloqueadas, entre elas, a inclusão e bem-estar social, a participação democrática, as relações entre capital e trabalho, o acesso universal aos bens públicos de habitação, transporte, educação e saúde. Soma-se a isso sistemática destruição da memória nacional, impedindo reparações às vítimas da escravidão e das ditaduras.
 
Religião
 
Tal crise afeta também a religião, em especial, o cristianismo, que tem sido instrumentalizado para justificar e legitimar a violência, o racismo, a misoginia, a intolerância... o mesmo cristianismo que tem sido utilizado para legitimar o capitalismo em seu viés mais cruel e nada humanizado.
 
Por anos, a teologia ecumênica latino-americana proclamou o compromisso e o testemunho públicos de fé em favor de transformações estruturais de nosso continente, caracterizado por diversos tipos de desigualdades. Esta teologia provocou as Igrejas a viverem a sua responsabilidade social e, por isso, sofreu perseguições e foi sistematicamente silenciada.
 
No entanto, não se fazem perguntas e nem questionamentos às teologias subordinadas à lógica do mercado que proclamam e vociferam moralismos e exclusivismos religiosos, que aceitam estabelecer relações pouco evangélicas com a política representativa e, ao mesmo tempo, aprisionar a fé em Jesus Cristo em jaulas de ouro, abstendo-se em denunciar os rostos atuais do Cristo crucificado, revelados na terra ferida, na violência da especulação financeira, na ausência de direitos.
 
Esperançar
 
Enquanto cristãos e cristãs, temos o compromisso de não perder a esperança! Não podemos tolerar que nossos cultos sejam articulados para sustentar políticas contrárias aos direitos humanos. Deus não suporta “maldade com festa religiosa” (Is 1:13).
 
Rogamos a Deus por sabedoria, bom senso e capacidade de compaixão e diálogo, afinal, no Brasil que queremos, todos e todas poderão, com liberdade e respeito às diferenças, trabalhar por uma sociedade mais justa. #VamosEsperançar

 
Patriarcas cristãos tiveram um encontro, no início deste mês de agosto, no Mosteiro Mor Aphrem, em Maaret Saidnaya, zona rural de Damasco. Uma das igrejas-membro do CONIC, a Sírian Ortodoxa de Antioquia (ISOA), esteve representada na atividade.
 
Ao fim do encontro, foi emitida uma declaração:
 
Declaração do Encontro dos Chefes das Igrejas Cristãs 
 
Após o convite de Sua Santidade Mor Inácio Aphrem II, Patriarca de Antioquia e todo o Oriente e Supremo Chefe da Igreja Sirian Ortodoxa de Antioquia, e com a participação de suas Beatitudes Patriarca João X, Patriarca Ortodoxo Grego de Antioquia e Todo o Oriente, e Patriarca Joseph Absi Patriarca católico-melquita de Antioquia e todo o Oriente, Alexandria e Jerusalém, os chefes das igrejas cristãs de Damasco reuniram-se no mosteiro de Mor Aphrem em Maarat Saydnaya - Síria, na presença de Sua Eminência Cardeal Mario Zenari, Núncio Apostólico em Síria. 
 
Os padres presentes discutiram a situação geral na região e os efeitos dos últimos anos de crise sobre os povos da região em geral, e os cristãos em particular cujo número está diminuindo em um ritmo alarmante devido à migração. 
 
Os cristãos são um componente essencial dos tecidos nacionais da região. Ao longo dos séculos, eles mantiveram presença contínua e desempenharam um modelo de cidadãos ativos que observam plenamente seus deveres e responsabilidades. Os participantes afirmaram a necessidade de permanecerem firmemente ligados à terra dos antepassados, apesar das terríveis circunstâncias, para que permaneçam o sal desta terra e sua luz. 
 
Eles rezaram pelo retorno seguro dos dois arcebispos raptados de Aleppo: Boulos Yaziji e Mor Gregorius Youhanna Ibrahim. No que diz respeito à situação na Síria, os pais aclamaram a vitória da liderança, do exército e do povo da Síria sobre o terrorismo, que visa enfraquecer e dividir a Síria; eles enfatizaram a unidade do povo sírio e sua solidariedade com seu estado e suas instituições legítimas. 
 
Destacaram a importância da participação de todos os componentes do povo sírio na elaboração de uma visão comum para o futuro de seu país, dentro de um Estado estabelecido sobre os fundamentos da democracia, o Estado de Direito, a cidadania igual e o respeito à diversidade. 
 
Eles também enfatizaram a unidade da Síria, seu povo e sua integridade territorial, do Golã Sírio à Jazira Síria. Sua Santidade, Bem-aventuranças e Eminências parabenizaram seus irmãos e irmãs muçulmanos por ocasião do Eid Al-Adha, e oraram pela paz na Síria para que todos os cidadãos sírios vivam em paz, segurança e prosperidade.
 
 
Fotos: ISOA

 
O dia 20 de fevereiro foi instituído pela ONU como o Dia Mundial da Justiça Social. A instituição da data tem como objetivo reconhecer e consolidar os esforços no domínio da erradicação da pobreza e no que se refere a promover o pleno emprego e o trabalho digno, a igualdade de gênero e o acesso ao bem-estar social e à justiça para todos. A campanha Renovar Nosso Mundo tem como fundamento bíblico viver na justiça e procurar a justiça. Acreditamos que é preciso renovar o jeito do mundo funcionar para que nenhuma pessoa mais seja oprimida pela pobreza. É preciso renovar a criação para que ela continue a cuidar da gente e renovar a esperança de cada pessoa para que elas também possam ter o suficiente.
 
Confira, a seguir, o artigo do pastor Elben César sobre a atuação profética de Amós – o agropecuarista que abriu o verbo contra a injustiça social praticada em Israel. Suas denúncias são precisas e frontais.
 
Agropecuarista põe a boca no trombone
 
Na metade do século sétimo antes de Cristo, um agropecuarista chamado Amós, nascido perto da cidade de Belém, abriu o verbo contra a berrante injustiça social que era praticada em Israel na época do rei Jeroboão (do ano 793 a 753 a.C.). Suas denúncias são precisas e frontais:
 
Vocês “vendem por prata o justo, e por um par de sandálias o pobre” (Am 2.6).1 Em outras palavras: Vocês recebem dinheiro por fora (suborno) para condenar o inocente e estão vendendo os pobres como escravos por não terem eles como pagar a dívida irrisória (“um par de sandálias”).
 
Vocês “pisam a cabeça dos necessitados como pisam o pó da terra, e negam a justiça ao oprimido” (Am 2.7).
 
Vocês “não sabem agir com retidão” e “acumulam em seus palácios o que roubaram e saquearam” (Am 3.10).
 
“Vocês estão transformando o direito em amargura e atirando a justiça ao chão” (Am 5.7). Em outras palavras: Vocês estão corrompendo os tribunais, transformando-os em instrumento da injustiça.
 
“Vocês odeiam aquele que defende a justiça no tribunal e detestam aquele que fala a verdade” (Am 5.10). Em outras palavras: Vocês não se conformam com o trabalho dos reformadores sociais nem com o testemunho daquele que não faz uso da mentira.
 
“Vocês oprimem o pobre e o forçam a dar-lhes o trigo” (Am 5.11). Em outras palavras: Vocês fazem o que Faraó fez com seus pais — retiram dos trabalhadores braçais certos benefícios e exigem a mesma produção (Êx 5.6-9).
 
“Vocês oprimem o justo, recebem suborno e impedem que se faça justiça ao pobre nos tribunais” (Am 5.12). Em outras palavras: Vocês mesmos não praticam justiça nem deixam praticar aqueles que gostariam de fazê-lo (Mt 23.13).
 
“Vocês bebem vinho em grandes taças e se ungem com os mais finos óleos, mas não se entristecem com a ruína de José” (Am 6.6). Em outras palavras: Vocês usufruem do bom e do melhor, têm cada vez mais, e os outros passam fome e têm cada vez menos.
 
“Vocês transformaram o direito em veneno, e o fruto da justiça em amargura” (Am 6.12). Em outras palavras: Vocês estão de tal modo corrompidos que são capazes de fazer coisas absurdas, como lavrar os rochedos com uma junta de bois e transformar o fruto da justiça (paz, tranquilidade e confiança, segundo Isaías 32.17) em amargura. É o mesmo que transformar pão em pedra, vinho em água, ovo em serpente, santidade em perversão.
 
Vocês comercializam o trigo, “diminuindo a medida, aumentando o preço, enganando com balanças desonestas e… vendendo até palha com o trigo” (Am 8.5,6).
 
 
Nota: Conteúdo publicado originalmente na Revista Ultimato,
sob o título “Agropecuarista põe a boca no trombone”.
 
Foto: Reprodução

 
O governo da Suíça soa seu alerta diante da situação de direitos humanos no Brasil. Durante o Conselho de Direitos Humanos das Nações Unidas, diplomatas de Berna incluíram o caso brasileiro numa lista de países que mereceriam atenção. 
 
“Pedimos ao governo brasileiro reconhecer o papel positivo das organizações não-governamentais na proteção dos direitos humanos e a se engajar pelos direitos das minorias, em especial dos povos indígenas da Amazônia”, declarou a delegação suíça diante da plenária da ONU. 
 
Além do Brasil, os diplomatas de Berna também citaram situações preocupantes no Mali, Chade e Vietnã. 
 
O alerta vem em um momento em que diversas ongs e entidades internacionais apontam para os riscos de decisões do governo brasileiro relacionadas aos direitos humanos. 
 
A decisão do governo suíço em destacar o Brasil na ONU ainda ocorre semanas depois que o país recebeu o cacique Raoní. Em sua passagem por Genebra, o líder indígena brasileiro apelou para que as autoridades estrangeiras, entre elas a Suíça, pressionassem o governo brasileiro a garantir a proteção aos povos autóctones e à floresta.  
 
Ao longo dos últimos seis meses, a cidade de Genebra se transformou ainda em um ponto incontornável de ativistas, defensores de direitos humanos e ambientalistas brasileiros, preocupados com decisões tomadas pelo governo de Jair Bolsonaro.
 
Tortura
 
Outro suíço que está preocupado com a situação brasileira é Nils Melzer, atual relator especial da ONU para o combate à tortura. 
 
Nesta semana, em entrevista a swissinfo, ele cobrou o estado brasileiro diante da decisão do presidente Bolsonaro de exonerar os onze integrantes do Mecanismo Nacional de Prevenção e Combate à Tortura.
 
O grupo criado em 2013 pelo governo federal tinha como objetivo monitorar violações de direitos humanos e prevenir a prática de tortura em instituições como penitenciárias. Sua criação responde a uma obrigação do estado brasileiro diante dos compromissos internacionais que assumiu. De acordo com o novo decreto do governo, porém, o grupo agora passa a ser formado apenas por participantes não remunerados, o que na prática desmonta a capacidade de atuação e a independência do órgão.
 
“O que estou muito preocupado é com a retirada de recursos do Mecanismo de Prevenção da Tortura. Formalmente, isso ainda existe. Mas, ao retirar recursos num país da dimensão do Brasil, significa que não se pode trabalhar“, diz Melzer, que é professor de Direito Internacional na Universidade de Glasgow e chefe da Cátedra de Direitos Humanos na Geneva Academy of International Humanitarian Law and Human Rights. Ele também foi um dos delegados do Comitê Internacional da Cruz Vermelha. 
 
Segundo ele, relatores que já ocuparam o seu cargo no passado estiveram no Brasil e relataram situações alarmantes no que se refere à tortura nas prisões e maus-tratos. “Isso é ainda é parte do país hoje. Não vejo nenhuma indicação que não seja parte”. 
 
“Se você quer que a prevenção à tortura funcione, você precisa de um mecanismo bem financiado, independente e nacional”, disse Melzer. “Sem monitoramento, essa prevenção não funciona", insistiu. 
 
“Na prática, se não houver um controle, é como se o limite de velocidade fosse retirado das estradas”, explicou. “O que ocorre? Cada um vai dirigir em sua própria velocidade. Portanto, se não se tem monitoramento do combate a tortura, você terá a tortura, já que haverá impunidade”, alertou.
 
Melzer reconheceu que o conjunto de transformações adotadas no Brasil no setor de direitos humanos está levando a uma “mudança de paradigmas”. Para ele, ao esvaziar o mecanismo de combater à tortura, o Brasil revela que não está “levando  a questão do combate à tortura como algo simples”. 
 
Nas diferentes reuniões da ONU, o governo brasileiro tem insistido que seu compromisso com os direitos humanos se mantém intacto e, prova disso, é que o país é candidato para um novo mandato de dois anos no Conselho de Direitos Humanos da entidade.
 
A eleição ocorre em outubro, em Nova Iorque. 
 
Fonte: swissinfo.ch
Foto: Reprodução (Keystone / Sebastiao Moreira)

 
No período de 1º de setembro a 4 de outubro, cristãos de todo o mundo se unem para orar e cuidar da criação de Deus. Denominado de Tempo da Criação, essa comemoração global teve início em 1989, com o reconhecimento do Dia de Oração pela Criação, celebrado em 1º de setembro.
 
O Tempo da Criação é um convite a todos os cristãos para celebrarem a boa dádiva da criação, reconhecendo que ela foi entregue às pessoas como um presente, juntamente com a responsabilidade de proteger toda a biodiversidade da Terra. Neste período, a comunidade cristã é chamada a refletir sobre como habitar o planeta de forma mais sustentável e fazer ouvir sua voz na esfera pública.
 
No Brasil, a iniciativa é promovida pela campanha Renovar Nosso Mundo, em parceria com várias organizações, denominações e igrejas cristãs. A intenção é alcançar o maior número possível de igrejas evangélicas. Existem diversas formas de se envolver: organizar um culto temático, promover um tempo de oração ao ar livre, participar em alguma campanha, reunir um grupo para fazer a limpeza de um local público, adotar hábitos sustentáveis, compartilhar nas redes sociais os cartões de oração e os desafios diários preparados para o Tempo da Criação, entre outros.
 
Todas as orientações, recursos e ferramentas da campanha, com link para download, estão no Guia de Celebração, que oferece sugestões de liturgias, orientações sobre como organizar um tempo de oração, dicas de hinos, músicas e poemas, e uma tabela com textos bíblicos para criação de sermões, tudo voltado para a temática da criação. Também há um Guia Infantil, com conteúdo adaptado para trabalhar com crianças. (Acesse o Guia em anexo.)
 
O tema de 2019 é “A teia de vida: a biodiversidade como bênção de Deus”, baseando em Gênesis 9:12-13: “Deus disse: ‘Eis o sinal da aliança que eu faço convosco e com todos os seres vivos que vos cercam, por todas as gerações futuras. Ponho o meu arco nas nuvens, para que ele seja o sinal da aliança entre mim e a terra’.” De acordo com o comitê gestor do Tempo da Criação, esse tema foi escolhido porque ajuda a refletir sobre dois fatores essenciais acerca da criação: ela vem de Deus e a igreja tem um papel a desempenhar nela.
 
Por que proteger a biodiversidade
 
Hoje, a ação e o estilo de vida humanos estão destruindo a criação de Deus em um ritmo nunca visto antes. Houve um declínio de 60% nas populações selvagens em todo o mundo entre 1970 e 2014, de acordo com o Living Planet Report 2018. As razões são diversas: desmatamento, destruição de habitats, mudanças climáticas e poluição do solo, da água e do ar, incluindo a poluição de plástico nos oceanos.
 
O testemunho bíblico nos mostra que a teia de vida – isto é, a biodiversidade – não importa apenas porque o bem-estar humano depende de ecossistemas estáveis e dos serviços que estes têm a nos oferecer, tais como água limpa, alimentos, oxigênio, roupas e controle climático, além de todos os “recursos” que usamos da natureza. A biodiversidade importa porque Deus dá valor a cada espécie criada e por uma questão de justiça. São os grupos mais pobres que mais dependem da saúde dos ecossistemas, e são eles os mais gravemente afetados pela degradação dos sistemas naturais que sustentam a vida.
 
Para mais informações, clique aqui.
 
Fonte: IECLB
Imagem: Reprodução

 
No mês de maio, o Conselho Nacional de Igrejas Cristãs do Brasil (CONIC) ganhou uma nova diretoria que, pela primeira vez, passou a contar com a presença de um batista: Mayrinkellison Peres Wanderley. Paraibano com orgulho, ligado à Aliança de Batistas do Brasil, ele agora ocupa a tesouraria do Conselho.
 
Formação
 
Teólogo e mestre em Missiologia, Wanderley também tem formação em História e é bacharel em Direito. Além disso, possui especializações nas áreas de Direito Societário, Direito da Saúde e Gestão de Pessoas. Atualmente, encontra-se como mestrando em Direito da Regulação pela Fundação Getúlio Vargas e é professor de Ensino Religioso na rede estadual de educação do Rio de Janeiro.
 
Pastor batista desde 1999, o novo tesoureiro já atuou como coordenador de missões da Junta de Missões Mundiais da Convenção Batista Brasileira (2006-2013) e presidiu a Convenção Batista Norte-Rio-Grandense (1999-2006).
 
A seguir, confira a entrevista que fizemos com ele.
 
Pra você, o que é ecumenismo?
 
É a essência da religiosidade, a porta da tolerância e o desafio dos seres humanos em conviver com a espiritualidade de cada um de forma respeitosa. Deus é, em sua essência, plural. A divindade nos brinda com a diversidade para que possamos superar nossas diferenças pelo amor ao próximo, à natureza e a Deus. 
 
Como vê o papel do CONIC no fomento do diálogo entre igrejas cristãs?
 
Como braço do Conselho Mundial de Igrejas, o CONIC tem um papel preponderante na difusão da abertura de diálogo entre as religiões naquilo que mais intriga o ser humano: sua experiência com o Divino. A experiência espiritual é praticamente inata, e dentro de diferentes perspectivas religiosas, há que se ter um espaço para a conexão, a conversa, o despir-se da arbitrariedade de uma religião voltada para si mesma para a aprendizagem com o que é diferente. O CONIC é a expressão da alteridade.
 
Como você recebeu a sua eleição para a Diretoria do CONIC?
 
Com muita responsabilidade e temor pude representar a Aliança de Batistas do Brasil na Diretoria do CONIC. Por ser uma organização que tem conexões internacionais, o dever de mordomia deve ser redobrado e a prestação de contas deve ser não apenas ao próprio CONIC, mas a todos os que interagem no ambiente ecumênico.
 
Qual é, na sua opinião, o maior desafio do movimento ecumênico hoje?
 
Vencer a barreira entre os próprios cristãos. No momento, vemos cristãos que não se entendem dentro de uma mesma denominação. O pós-denominacionalismo não veio com roupagem de pluralidade, mas como isolamento de grupos que se sentem donos da verdade. Sem o reconhecimento verdadeiro e sincero de que somos diferentes e, mesmo assim, precisamos andar juntos, o simples discurso de que aceitamos o outro não passa de cinismo. É reconhecendo as diferenças que o ecumenismo cresce, não procurando não vê-las.
 
E para o CONIC, quais são os desafios que você vislumbra... e quais são as esperanças?
 
Vivemos tempos de intolerância em todos os níveis da sociedade: na família, no trabalho, nas organizações sociais, na política, no país. Não seria diferente no ambiente religioso. Aparentemente, o maior desafio é vencer os problemas domésticos. Dentre as igrejas-membro do CONIC deve haver um profundo e intencional trabalho de horizontalização das relações no sentido de diálogos e mais diálogos superarem diferenças seculares. Temas como a hospitalidade eucarística e o rebatismo devem ser revisitados, pois voltam à tona em algumas igrejas um fundamentalismo que não é saudável para o movimento ecumênico. Por outro lado, acredito que em tempos difíceis como o atual, aqueles que estão verdadeiramente comprometidos com a causa ecumênica, antes fragmentados em várias igrejas, tendem a encontrar-se e somar forças por um bem comum.
 
Gostaria de acrescentar algo? Falar mais de você?
 
Sou casado e tenho um filho. Sou atualmente advogado e frequento no Rio de Janeiro a Igreja da Praia, que está em fase de revitalização. Minha vida cristã começou em lar plural: pai kardecista e mãe católica, aos 14 anos visitei uma Igreja Batista, quando decidi seguir o Evangelho. A partir daí, toda a vida foi envolvida com o trabalho missionário. Pelas visitas a diversos países, pude constatar que a diferença é a essência da vida. Desde as comunidades isoladas na Mongólia, até as tribos de pigmeus e os grupos andinos na América Latina, reconhecer que meus irmãos são diferentes e ao mesmo tempo pó do mesmo chão me ajudou a encarar a vida de outra forma: há muitas visões de mundo, mas somos todos moradores dessa grande casa comum, que é nosso planeta.