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Organizações do movimento ecumênico manifestaram, nesta quinta-feira, 22 de agosto, preocupação com a explosão de queimadas em território amazônico. A nota, assinada pelo Fórum Ecumênico ACT Brasil (FE-ACT Brasil), traz um dado alarmante: "houve um aumento superior a 80% no número de incêndios florestais no Brasil, entre 1º de janeiro e 19 de agosto deste ano, em comparação com o mesmo período do ano passadoelas". 
 
Em outro trecho, o FE-ACT Brasil, do qual o CONIC faz parte, reitera que o compromisso ecumênico "é a proteção da sociobiodiversidade da Criação e a defesa das organizações da sociedade civil e movimentos sociais, que repudiam este projeto político de morte".
 
Leia o documento na íntegra:
 
Brasil, a Casa Comum em chamas
 
A Criação aguarda ansiosamente a manifestação das filhas e dos filhos de Deus.
Com a esperança de ser ela também libertada do cativeiro da corrupção.
Romanos 8.19;21
 
O Fórum Ecumênico ACT Brasil (FE-ACT Brasil) une-se a todas organizações ambientais, movimentos sociais, povos e comunidades tradicionais para expressar sua dor e sua extrema preocupação frente à política ambiental do atual governo, cujo resultado concreto é o aprofundamento do processo de devastação, visível nas extensas queimadas na região Amazônica, em níveis alarmantes.
 
Conforme dados do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe), houve um aumento superior a 80% no número de incêndios florestais no Brasil, entre 1º de janeiro e 19 de agosto deste ano, em comparação com o mesmo período do ano passado. Frente a isso, de maneira leviana e irresponsável, o presidente do país alega que as queimadas seriam “ação criminosa” de “ongueiros” para chamar a atenção contra o governo brasileiro e “a sua pessoa”.
 
A declaração do presidente não surpreende, pois uma de suas estratégias tem sido a criminalização das organizações da sociedade civil que defendem os direitos socioambientais, deslegitimando e buscando mecanismos para impedir a atuação destas organizações. Esta postura fica expressa no pronunciamento do presidente, ao dizer que: “A questão da queimada, no meu entender, pode ter sido potencializada por ONGs, pois perderam dinheiro.”
 
Sustentado em fundamentalismos religioso e econômico, fake news, opiniões irresponsáveis e de contestação a evidências científicas, em poucos meses, já temos um cenário socioambiental catastrófico: flexibilização da legislação ambiental, adesão irresponsável e incondicional aos interesses de mineradoras e do agronegócio, liberação sem critérios de centenas de agrotóxicos, aumento dos conflitos no campo, desmantelamento do sistema nacional de Unidades de Conservação e da fiscalização ambiental, desterritorialização e violação de direitos de povos indígenas e de povos e comunidades tradicionais, cortes no orçamento de áreas estratégicas e desrespeito a acordos internacionais e à política climática.
 
Em reação às pressões da sociedade civil e de pesquisadores e pesquisadoras que há anos atuam com pautas socioambientais, o ministro do Meio Ambiente, Ricardo Salles, afirma que tudo não passa de “sensacionalismo”.
 
Defendemos a soberania nacional e os direitos da terra, com suas florestas, rios e animais, povos e comunidade tradicionais.
 
Nosso testemunho ecumênico é a proteção da sociobiodiversidade da Criação e a defesa das organizações da sociedade civil e movimentos sociais, que repudiam este projeto político de morte.
 
Fórum Ecumênico ACT Brasil
22 de agosto de 2019
 
A seguir, confira a nota em Inglês ou Espanhol.
 
 

 
"A escalada arriscada de posições e atitudes assumidas pela presidência da República nas últimas semanas, aliada à revelação de uma rede de corrupção e fraudes envolvendo membros do Judiciário, fez acender, até em quem outrora apoiou o projeto político de Jair Bolsonaro, uma luz de alerta quanto aos caminhos que estão sendo trilhados pelo país". Assim começa a nota escrita por movimentos sociais pedindo a cassação da chapa do presidente Jair Bolsonaro.
 
"Se o impeachment não é um caminho a se considerar, há um outro bastante razoável: o julgamento de diversas ações ainda do processo eleitoral, especialmente as que versam sobre abuso do poder econômico que poderiam resultar na cassação da chapa, considerando que a chapa é una e indivisível – o que provocaria a posse temporária do presidente da Câmara", continua o posicionamento, que é assinado pela Plataforma dos Movimentos Sociais pela Reforma do Sistema Político.
 
Leia a íntegra:
 
Posicionamento da Plataforma dos Movimentos Sociais pela Reforma do Sistema Político diante da conjuntura atual
 
A escalada arriscada de posições e atitudes assumidas pela presidência da República nas últimas semanas, aliada à revelação de uma rede de corrupção e fraudes envolvendo membros do Judiciário, fez acender, até em quem outrora apoiou o projeto político de Jair Bolsonaro, uma luz de alerta quanto aos caminhos que estão sendo trilhados pelo país.
 
Ante a gravidade das denúncias que envolvem os procedimentos adotados por promotores e juízes à frente da Operação Lava Jato, os tradicionais aliados da mídia hegemônica, alguns militares e representantes do sistema financeiro entraram em ação para desacreditar os diálogos revelados. Estes apontam evidências de que a Lava Jato não respeitou o sistema legal brasileiro, violando a Constituição, o Código da Magistratura e o Código da Lei Penal. A seriedade destas denúncias exige uma resposta efetiva do Estado à sociedade brasileira.
 
Nas redes sociais e em debates, algumas pessoas começaram a levantar a possibilidade de impedimento do presidente por crimes de responsabilidade. Também no âmbito da Plataforma dos Movimentos Sociais Pela Reforma do Sistema Político refletimos sobre esta alternativa.
 
Compreendemos que o impedimento do presidente Jair Bolsonaro não resolve o sério processo de fragilização do sistema democrático, aprofundado nos últimos anos. É necessário analisar o papel do presidente Jair Bolsonaro em um contexto maior de disputas geopolíticas e de uma agressiva política de implementação de um projeto ultraneoliberal. Isso significa que o impedimento não resolve as questões estruturais que ameaçam a nossa soberania e democracia. A saída de Jair Bolsonaro apenas viabilizaria que seu lugar fosse ocupado por alguém um pouco mais cauteloso nos pronunciamentos públicos e no respeito aos ritos do cargo.
 
Não é de agora que as limitações do sistema político se manifestam em nosso país, e entendemos que qualquer saída efetiva só se dará em médio/longo prazo, por envolver rupturas profundas com nosso passado colonialista e autoritário. Sem ampliarmos a participação da sociedade nos processos decisórios, inclusive com a conquista de representação plurirracial e pluriétnica nas instâncias políticas, a democracia não se consolida.
 
Contudo, avaliamos que, paralelamente à construção cotidiana de novos paradigmas de democracia, é também preciso responder ao cenário preocupante que se apresenta. Não podemos assistir placidamente ao processo em curso de ameaça à soberania do país, ao total desmonte das políticas socioambientais, à retirada de mais direitos, além de episódios cada vez mais frequentes de recrudescimento da violência contra as chamadas minorias e ataques constantes do Estado à liberdade de expressão. 
 
As eleições de 2018, segundo a revelação das mensagens secretas feitas pelo The Intercept Brasil, foram fraudadas: o candidato com mais chance de ganhar foi afastado por um processo eivado de irregularidades, sem provas, pelo qual foi condenado e preso. A operação Lava Jato, longe de ser uma iniciativa para acabar com a corrupção no Brasil, perseguiu o PT e suas lideranças, em articulação com a grande mídia, criando a narrativa da “maior história de corrupção do país”. Foi a base para a campanha pelo impedimento da presidenta Dilma e a condenação de Lula.
 
Se o impeachment não é um caminho a se considerar, há um outro bastante razoável: o julgamento de diversas ações ainda do processo eleitoral, especialmente as que versam sobre abuso do poder econômico que poderiam resultar na cassação da chapa, considerando que a chapa é una e indivisível – o que provocaria a posse temporária do presidente da Câmara e novas eleições seriam convocadas, se isto ocorrer ainda antes do cumprimento de dois anos de mandato. Estes processos são AIJEs, Ações de Investigação Judicial Eleitoral, e dependem, portanto, de investigação. Matéria recente do jornal a Folha de S. Paulo relata que eles se encontram parados, enquanto outros mais recentes já andaram rapidamente.
 
Isto, porém, depende da celeridade da Justiça Eleitoral, que ainda vem julgando prefeitos eleitos em 2016 e não pode fugir de suas responsabilidades com os destinos do país, diante de tantos abusos e irregularidades, cassando a chapa como um todo e convocando novas eleições. Com a palavra, portanto, a Justiça Eleitoral. Para além disso, como acreditamos que um mandato não pertence apenas a quem foi eleito ou mesmo a quem o elegeu, mas a todos os eleitores, pensamos que possam ser adotados mecanismos como recall ou mandatos revogatórios: os eleitores podem tirar o eleito se não cumprir o prometido ou cometer atrocidades com o mandato.
 
Nós cobraremos e pressionaremos para que o país retome os seus rumos e se livre de qualquer viés autoritário que ameace o nosso ainda frágil Estado Democrático de Direito, e que a nossa democracia seja de fato construída livremente pelo povo!
 
Plataforma dos Movimentos Sociais pela Reforma do Sistema Político
 
Foto: Adriano Machado/Reuters

 
Com muito pesar, manifestamos nosso repúdio aos crimes de ódio cometidos contra três jovens músicos bolivianos da banda ‘Súper Explosión’ em pleno fim de tarde de domingo último (18/08/2019) que resultaram no assassinato de dois deles, Santiago Rodrigues e Roger Lipa Chambi – e ferimento de um terceiro que felizmente encontra-se fora de perigo. 
 
Obviamente estamos bastante preocupadas com essas demonstrações de violência xenofóbica, muito provavelmente incentivadas por ações recentes do Estado brasileiro, como a portaria 666, a proposta de emenda ao projeto de lei 1928/2019 do Senado Federal e as recentes expulsões de refugiados, as quais visam ampliar o controle migratório, por meio de uma ótica de criminalização das pessoas em mobilidade. 
 
Enxergamos que esta tragédia é resultado desse inadvertido incitamento ao ódio e preconceito, dois artistas jovens que após seu rotineiro ensaio de domingo realizado no espaço público próximo a uma escola dentro de um bairro com expressiva presença e contribuição de trabalhadores migrantes, conversavam sem fazer mal a ninguém usufruindo de seu merecido horário de lazer perderam suas vidas claramente pelo simples fato de existirem. 
 
Não podemos deixar esses crimes impunes, nos solidarizamos com os familiares e com nossas comunidades imigrantes, refugiadas e apátridas que sentem de perto o medo, porém demandamos firmemente investigação e apuração do ocorrido e prisão dos assassinos. 
 
Assinam:
 
Pela Frente de Mulheres Imigrantes e Refugiadas:
- Coletivo Sí, Yo Puedo
- Rede de Mulheres Imigrantes Lésbicas e Bissexuais
- Colectivo Feminista de Argentinxs em São Paulo
- Equipe de Base Warmis - Convergência das Culturas
 
Conselho Nacional de Igrejas Cristãs - CONIC
 
Presença da América Latina - PAL
 
Associação de Residentes Bolivianos - ADRB
 
Comitê de Migrações e Deslocamentos (da Associação Brasileira de Antropologia - ABA)
 
Centro de Apoio e Pastoral do Imigrante - CAMI
 
Centro de Estudos de Migrações Internacionais, IFCH/ UNICAMP - CEMI
 
Sarau das Américas
 
Movimento Humanista Internacional
 
Lakitas Sinchi Warmis
 
África do Coração
 
ProMigra
 

 
Os registros de intolerância religiosa são comuns Brasil afora, mas no Rio têm uma característica particular: passaram a envolver traficantes e evangélicos. Após ataques a terreiros de umbanda e candomblé na Baixada Fluminense, a polícia identificou o mandante e, na semana passada, prendeu oito traficantes acusados de integrar seu grupo, o chamado Bonde de Jesus.
 
Segundo a polícia, o mandante é Álvaro Malaquias Santa Rosa, o Peixão, do Terceiro Comando Puro (TCP), um dos criadores do Bonde de Jesus, vertente inédita da intolerância religiosa no Estado. Estima-se que existam hoje 200 terreiros sob ameaça. Os casos são investigados pela Delegacia de Crimes Raciais e Delitos de Intolerância (Decradi), criada em 2018. 
 
Investigações apontam que a peculiar relação entre religiosos e criminosos aconteceu depois que a cúpula do TCP foi convertida por uma igreja neopentecostal. Há informações, ainda não confirmadas, de que Peixão teria sido ordenado pastor. Trata-se de uma característica específica dessa facção, não sendo reproduzida nem pelos demais grupos de traficantes nem por milicianos.
 
“A situação de intolerância sempre existiu, mas tivemos uma piora quando indivíduos ligados à cúpula de uma facção resolveram se converter”, afirma o delegado da Decradi, Gilbert Stivanello. “Eles distorcem a doutrina religiosa e agridem outras religiões, sobretudo as de matriz africana.” As principais lideranças evangélicas do Rio condenam os ataques.
 
Conversão
 
Um dos primeiros a se converter foi Fernando Gomes de Freitas, o Fernandinho Guarabu, há cerca de quatro anos. Ele era o chefe do tráfico no Morro do Dendê, Ilha do Governador, até ser morto pela polícia em junho. Outros, como Peixão, se converteram depois.
 
“Alguns deles se converteram dentro do presídio”, diz Stivanello. “Eles viveram uma experiência distorcida da conversão, se tornando ‘bandido de Jesus’, como se isso fosse um ato de fé. Se pararmos para pensar, não é muito diferente do terrorismo islâmico. É difícil mesmo entender a lógica”, afirma.
 
Coordenadora do Centro Nacional de Africanidade e Resistência Afro Brasileira, Célia Gonçalves Souza diz que o problema da intolerância é nacional, mas que, de fato, vem ganhando contornos específicos no Rio, sobretudo pela penetração de evangélicos no sistema carcerário. “No Rio, esse problema é muito escancarado e o narcopentecostalismo só tende a crescer. E passa pela questão das penitenciárias, onde há uma entrada muito grande dos neopentecostais.”
 
Na Baixada Fluminense, traficantes passaram a ditar regras dos terreiros, como horários das cerimônias e uso de fogos de artifício e fogueiras. Eles também proíbem as pessoas de andarem com roupas brancas ou de santo nas ruas. As invasões a terreiros são cada vez mais frequentes, com destruição de oferendas e imagens sagradas.
 
Há uma semana, o terreiro Ilê Axé de Bate Folha, em Duque de Caxias, foi invadido por traficantes – no 10.º caso da região. Eles quebraram todas as imagens e oferendas e ameaçaram de morte a mãe de santo, que está fora do Estado, na casa de parentes.
 
“O ataque aconteceu num sábado de casa cheia. Eles entraram com violência, mandando todo mundo sair e quebrando tudo”, contou uma testemunha. “O terreiro está fechado. Tiramos tudo de lá e não aconselhamos ninguém a voltar.” Segundo a mesma testemunha, outros religiosos fecharam os terreiros e se mudaram.
 
“Qualquer ataque com contornos de destruição do sagrado tem caráter de racismo religioso”, diz a defensora Livia Cásseres, do núcleo contra a desigualdade racial da Defensoria Pública. “À violência que já existe contra essas religiões – que têm uma série de direitos negados –, se soma agora a do varejo de drogas. Mas a violência contra elas é permanente desde a época colonial.” Por isso, para Livia, a solução passa por diferentes esferas.
 
Alerta
 
A gravidade da situação fez com que, em julho, fosse realizada uma reunião com membros da umbanda e do candomblé, lideranças evangélicas, e representantes da Polícia Civil, do Ministério Público e da Defensoria Pública.
 
O pastor Marcos Amaral, da Comissão Contra a Intolerância Religiosa, destaca que a denominação “evangélicos” abrange um segmento grande de religiosos, com posicionamentos diferenciados. Já o pastor Neil Barreto, da Igreja Batista Betânia, afirma que “a intolerância é o ápice da ignorância”. “E a única solução para a ignorância que produz intolerância é a educação. Precisamos de uma campanha de educação e conscientização em todas as comunidades de fé.”
 
Fonte: Estadão
Foto: Reprodução/Facebook

 
O arcebispo de Feira de Santana (BA), Dom Zanoni Demettino Castro, e bispo referencial da Pastoral Afro-Brasileira, no Convento São Francisco, na região central de São Paulo, que o povo brasileiro não pode perder a esperança, pois essa é a identidade e missão do cristão. “O lobo e o cordeiro comerão juntos e a criança de colo não vai ter medo de bichos, de cobra venenosa, porque um Menino nasceu para nós, um Filho nos foi dado. Como dizia o profeta Isaías, o povo andava nas trevas e viu uma grande luz. A bota do capataz, que pisa e massacra, e toda veste serão devoradas pelas chamas. Essa é a esperança, apesar do tempo difícil, de negação da vida, de fechamento da pluralidade, de uma mentalidade fascista presente no nosso meio, de negação da ciência, da democracia e da luta pela humanidade. Creio que é nesse momento de crise que devemos valorizar a resistência”, exortou D. Zanoni. Ele foi o presidente da Santa Missa, que teve como concelebrantes os bispos Dom Antônio Wagner da Silva, de Guarapuava (PR), e Dom Eduardo Viera dos Santos, de São Paulo.
 
Os três bispos se juntaram a padres e diáconos negros de diferentes dioceses brasileiras para participarem da 29ª Assembleia Geral do Instituto Mariama. Presentes na Celebração Eucarística estavam o guardião do Convento São Francisco, Frei Mário Tagliari; o presidente da Educafro, Frei David Raimundo dos Santos; e representantes da Pastoral Afro de diversas Paróquias de São Paulo. A liturgia foi animada pelas “Pastoras do Rosário”, um grupo musical conhecido da Comunidade do Rosário dos Homens Pretos do bairro Penha de França.
 
Segundo o arcebispo de Feira de Santana, presbíteros, diáconos e bispos assumem sua negritude com orgulho e compromisso e refletem sobre a Missão Evangelizadora da Igreja, tendo presente a vida concreta do povo, sobretudo o povo negro. “Como bispos e presbíteros negros, nos perguntamos sobre a maneira eficaz de sermos fiéis ao mandato evangelizador do Mestre Jesus”, explicou D. Zanoni, que fez a primeira conferência deste dia do Encontro partindo dos documentos das Conferências Episcopais e, sobretudo, a partir do ensinamento do Papa Francisco. O Pe. Benedito Ferraro, Professor Emérito da PUC, Campinas, enfocou o tema central sobre o ponto de vista cristológico.
 
Segundo D. Zanoni, ser cristão é acreditar que essa profecia, esse desejo de vida, de partilha, de solidariedade, não somente do povo de Israel mas de todas as nações, “realiza-se no caminho de Jesus, naquele que passou a vida fazendo o bem, naquele que não teve preconceito para com o estrangeiro, naquele que não quis impor a lei sobre as costas das pessoas, que amou sem impor condição”, acrescentou.
 
Comentando a parábola do joio e do trigo, lida no Evangelho desta Missa, o Arcebispo disse que a tentação é logo separar o joio do trigo. “Mas o ensinamento de Jesus nos aponta para uma realidade futura nova: o julgamento. Talvez nós tenhamos essa dificuldade de enfrentar, no momento, tanta diversidade e desrespeito à vida”, observou, lamentando a situação das comunidades indígenas com o atentado no Amapá, a morte “desses irmãos” no presídio Pará, a realidade de sofrimento que vive o povo brasileiro, o crescimento assustador do extermínio da juventude negra. “Nós vivemos nesse mundo de crise e como podemos plasmar uma nova sociedade? Quem vai construir um novo céu uma nota terra? O céu não vem pronto. Exige de nós uma resposta. E aqui está, meus irmãos e irmãs, a nossa missão como protagonistas dessa realidade, como nos ensina a Conferência de Aparecida: Sujeitos da gestação de um mundo novo de paz e de justiça”, assinalou. Para D. Zanoni, não são os youtubers, os jogadores milionários, os donos do mercado, aqueles que detêm a riqueza e o poder, que vão plasmar esse novo céu, mas “a nossa pertença à Igreja, que não é uma construção de pedra, uma ONG, nem somente a hierarquia, mas a comunidade daqueles que acreditam em Jesus, que diz que ‘o Espírito do Senhor está sobre mim porque Ele me ungiu para dar uma notícia boa aos pobres, libertar os prisioneiros, curar os doentes, recuperar a vista aos cegos’”. Essa é a missão da Igreja, enfatizou o Arcebispo.
 
Para D. Zanoni, a tentação é querer trabalhar só para os bons. “Esse não presta, aquele não tem jeito. Temos que perceber que o Espírito de Deus age não somente na nossa estrutura, na nossa organização, mas onde existe a paz, o amor, a fraternidade, a preocupação com a pessoa humana e que o critério da salvação não se limita ao espaço religioso”, disse, recordando que Jesus ensina ser solidário com os irmãos necessitados: ‘Vinde benditos de meu Pai, pois eu estava com fome e me destes de comer; eu estava com sede e me destes de beber; eu era estrangeiro e me recebestes em casa; eu estava nu e me vestistes; eu estava doente e cuidastes de mim; eu estava na prisão e fostes me visitar’.
 
Dom Zanoni contou que participou recentemente de um encontro de jovens, a maioria de negros, e que teve como tema: “Negritude e Resistência”. “Isso é importante perceber a caminhada e resistência. Nós somos chamados, como um povo negro, a sermos protagonistas da gestação de um novo mundo”, reforçou.
 
DESIGUALDADE ENTRE POPULAÇÃO NEGRA E POPULAÇÃO BRANCA
 
Segundo D. Zanoni, citando o papa João Paulo II, há mais de trinta anos, os ricos estão cada vez mais ricos às custas dos pobres e os pobres cada vez mais pobres. “E essa realidade só se agravou. Tem crescido por demais a desigualdade. E a nossa preocupação é quando se prioriza políticas de endeusamento do lucro  e se esquece das pessoas. E à Igreja – creio que é sua missão – cabe aliar-se e se comprometer com toda a luta que resgate a vida das pessoas, que restaure vidas, que gere ações afirmativas. Creio que esse é o caminho, justamente com o povo negro, com a juventude negra, com esse povo que passou 300 anos de escravidão, esse crime de lesa humanidade. É aquilo que o Papa Francisco tem insistido: Precisamos pensar uma nova economia, uma nova ordem mundial de solidariedade e paz”, ressaltou.
 
Segundo dados do IBGE, 53% da população brasileira é formada por negros e negras, sendo que 70% dessa população vive na extrema pobreza. “A população negra tem três vezes mais o número de assassinatos entre os jovens negros. Somos a terceira população carcerária, onde a maioria é de negros. São consequências da escravidão que não restaurou, não repartiu a riqueza”, lamenta D. Zanoni, lembrando que a Pastoral Afro, assim como a Pastoral Carcerária, têm como missão ser cuidadores e zeladores, como o Bom Pastor. “Então, evangelizar, como nos ensina o Papa Paulo Vi, não é oferecer um verniz superficial, mas ter presente a concretude da vida.  Estar bem presente com  seus sonhos, suas alegrias, suas expectativas, suas angústias, dores, mas sobretudo a esperança. A Pastoral Afro tem que estar presente em toda a ação da Igreja de maneira transversal”, indicou.
 
A população negra também sofre, hoje também, com a intolerância religiosa. Segundo dados da Comissão de Combate à Intolerância Religiosa do Rio de Janeiro, o número de ataques contra religiões de matizes africanas subiu 70% no Estado. “Nós, de fato, observamos uma demonização das coisas do negro. Da religião do negro. Por que só a cultura dos nórdicos, a cultura europeia, é tida como boa? Um franciscano que foi meu professor, Hugo Fragoso, perguntava por que na liturgia se pode tocar os órgãos que se tocavam nos cabarés europeus, e não pode tocar os atabaques? Hoje, nós percebemos essa intolerância, esse racismo, essa visão distorcida da fé e do cristianismo. A compreensão da evangelização passa necessariamente pelo encontro com outro, pela valorização da pessoa humana. Não há referência outra que não seja Jesus. Ele não teve preconceito para com o estrangeiro, sentou-se com a samaritana, passou a vida fazendo o bem, amou sem condição. Então, essa intolerância é a negação da fé cristã e do cristianismo”, lamentou. “Assumir a concretude da vida do nosso povo, a realidade sofrida da nossa gente, é o grande desafio da ação evangelizadora da Igreja neste mundo pluralista e secularizado”, completou.
 
A Associação de Bispos, Presbíteros e Diáconos Negros se constitui como sociedade civil de direito privado, de âmbito nacional, sem fins não econômicos e sem vínculos político-partidários. O Instituto foi criado há 29 anos e nasceu a partir da necessidade de recuperar as tradições, a religiosidade, a fé cristã vivida e celebrada na comunidade negra.
 
Fonte: Franciscanos
Foto: Reprodução

 
No dia 28 de setembro será lançada a 19ª campanha Primavera para a Vida, que esse ano terá como tema: ‘’ Águas da Resistência – “…porque tive sede e me deste de beber!” (Mt. 25,35b). A campanha abordará a água como uma dádiva divina e como um direito que não pode ser reduzido a uma mercadoria ou a um bem particular.
 
A escolha do tema
 
O Brasil é um dos países mais ricos em água doce. Tem grandes bacias hidrográficas que constituem 12% da água doce existente no mundo. É o único país de dimensões continentais onde chove em todo o seu território. Entretanto, a situação de nossas águas é uma lástima. Aproximadamente, 70% dos rios brasileiros estão contaminados por esgoto industrial, doméstico, metais pesados, agrotóxicos etc. Do ponto de vista do consumo, 20% da população brasileira (35 milhões) não tem acesso à água potável; 40% da água de nossas torneiras não serve para beber (atingindo perto de 70 milhões de pessoas); 80% do esgoto coletado é jogado in natura nos rios brasileiros. Cerca de 105 milhões de brasileiros vivem em estado de insegurança quanto à água que consomem. Uma outra situação que desperta a nossa indignação é quando sabemos que um “bem comum” como a água está sendo privatizado em diversos lugares, ou seja, o que era para ser “gratuidade” virou comércio onde algumas pessoas estão “autorizadas” a usufruir dela como se fosse propriedade exclusiva e não um bem comum a que todas as pessoas devem ter direito. Como igrejas cristãs, estamos sendo desafiadas a nos posicionarmos profeticamente diante deste grave atentado a nossa Casa Comum. Muitas pessoas estão sedentas de água para beber e de vozes proféticas que saciem a sua sede de justiça.
 
O lançamento
 
Igrejas locais e nacionais, entidades parceiras em âmbito nacional, pessoas da rede de amigos e representantes de projetos apoiados participarão do lançamento, que acontecerá no dia 28 de setembro no estacionamento do MAB – Museu de Arte da Bahia (Av. Sete de Setembro, 2340 – Corredor da Vitória, Salvador).
 
O dia começará às 12h com a tradicional feijoada da primavera (no valor de R$ 30), com a apresentação de percussão dos jovens do ICMA – Instituto Comunitário de Iniciação Musical & Arteeducação e depois com o show do Grupo ABC do Samba, formado por Dinha Dórea, Iara Canuto e Rayra Maierá e músicos. Elas prometem fazer o público cantar e dançar com repertório base dos clássicos imortalizados por Clara Nunes, Beth Carvalho e Alcione, três grandes intérpretes brasileiras. O evento contará com a venda de bebidas e sobremesas, bazar com roupas e acessórios a preços populares e produtos de organizações populares apoiadas pela CESE.
 
Toda renda obtida com a atividade será revertida para apoiar projetos recebidos pela CESE. Os convites para a Campanha estão disponíveis na CESE (Rua da Graça, 150). Mais informações podem ser esclarecidas em: (71) 2104-5457.
 
Histórico da Campanha
 
Realizada desde o ano 2000, a Campanha Primavera para a Vida tem o objetivo de mobilizar recursos para as atividades da CESE em todo o país (fortalecendo os grupos populares nas suas lutas por direitos, por meio do apoio a projetos) e estreitar e ampliar a articulação com as bases das Igrejas.
 
A CESE foi fundada por igrejas com apoio da cooperação ecumênica internacional que assumiu o compromisso com os direitos humanos e o fortalecimento dos movimentos sociais. Nos últimos anos, os recursos dessa cooperação vêm diminuindo, o que afeta a realização das propostas da CESE, principalmente a manutenção do apoio a pequenos projetos.
 
SERVIÇO:
 
O QUE: CESE: Campanha Primavera para a Vida 2019
QUANDO: 28/09/2019, a partir das 12h
ONDE:  MAB – MUSEU DE ARTE DA BAHIA – Av. Sete de Setembro, 2340 – Vitória, Salvador
VALOR: R$ 30 (feijoada) – Convite disponível na sede da CESE – Rua da Graça, 150 – Graça
 

 
Após cinco dias de debates e manifestações em Brasília, as representantes de mais de 130 povos indígenas que participaram da I Marcha das Mulheres Indígenas divulgam o documento final da mobilização. “Somos totalmente contrárias às narrativas, aos propósitos, e aos atos do atual governo, que vem deixando explícita sua intenção de extermínio dos povos indígenas, visando à invasão e exploração genocida dos nossos territórios pelo capital”, afirmam no documento.
 
Salientando a relação que existe entre os territórios tradicionais dos povos indígenas, seus corpos e sua vida espiritual, as mulheres indígenas que realizaram sua primeira marcha nacional denunciam a violência de que são vítimas, mas apontam o machismo como “mais uma epidemia trazida pelos europeus” e defendem que, no combate a essas mazelas, as especifidades da organização social dos povos indígenas sejam levadas em conta.
 
Após realizar sua primeira marcha, na última terça-feira (13), e somar-se às cerca de cem mil mulheres que participaram da Marcha das Margaridas, na quarta-feira (14), elas afirmam que é necessário “fortalecer a potência das mulheres indígenas, retomando nossos valores e memórias matriarcais” nas lutas indígenas.
 
Leia na íntegra:
 
DOCUMENTO FINAL DA MARCHA DAS MULHERES INDÍGENAS:
“TERRITÓRIO: NOSSO CORPO, NOSSO ESPÍRITO”
 
Nós, 2.500 mulheres de mais de 130 diferentes povos indígenas, representando todas as regiões do Brasil, reunidas em Brasília (DF), no período de 10 a 14 de agosto de 2019, concebemos coletivamente esse grande encontro marcado pela realização do nosso 1º Fórum e 1ª Marcha das Mulheres Indígenas, queremos dizer ao mundo que estamos em permanente processo de luta em defesa do “Território: nosso corpo, nosso espírito”. E para que nossas vozes ecoem em todo o mundo, reafirmamos nossas manifestações.
 
Enquanto mulheres, lideranças e guerreiras, geradoras e protetoras da vida, iremos nos posicionar e lutar contra as questões e as violações que afrontam nossos corpos, nossos espíritos, nossos territórios. Difundindo nossas sementes, nossos rituais, nossa língua, nós iremos garantir a nossa existência.
 
A Marcha das Mulheres Indígenas foi pensada como um processo, iniciado em 2015, de formação e empoderamento das mulheres indígenas. Ao longo desses anos dialogamos com mulheres de diversos movimentos e nos demos conta de que nosso movimento possui uma especificidade que gostaríamos que fosse compreendida. O movimento produzido por nossa dança de luta, considera a necessidade do retorno à complementaridade entre o feminino e o masculino, sem, no entanto, conferir uma essência para o homem e para a mulher. O machismo é mais uma epidemia trazida pelos europeus. Assim, o que é considerado violência pelas mulheres não indígenas pode não ser considerado violência por nós. Isso não significa que fecharemos nossos olhos para as violências que reconhecemos que acontecem em nossas aldeias, mas sim que precisamos levar em consideração e o intuito é exatamente contrapor, problematizar e trazer reflexões críticas a respeito de práticas cotidianas e formas de organização política contemporâneas entre nós. Precisamos dialogar e fortalecer a potência das mulheres indígenas, retomando nossos valores e memórias matriarcais para podermos avançar nos nossos pleitos sociais relacionados aos nossos territórios.
 
Somos totalmente contrárias às narrativas, aos propósitos, e aos atos do atual governo, que vem deixando explícita sua intenção de extermínio dos povos indígenas, visando à invasão e exploração genocida dos nossos territórios pelo capital. Essa forma de governar é como arrancar uma árvore da terra, deixando suas raízes expostas até que tudo seque. Nós estamos fincadas na terra, pois é nela que buscamos nossos ancestrais e por ela que alimentamos nossa vida. Por isso, o território para nós não é um bem que pode ser vendido, trocado, explorado. O território é nossa própria vida, nosso corpo, nosso espírito.
 
Lutar pelos direitos de nossos territórios é lutar pelo nosso direito à vida. A vida e o território são a mesma coisa, pois a terra nos dá nosso alimento, nossa medicina tradicional, nossa saúde e nossa dignidade. Perder o território é perder nossa mãe. Quem tem território, tem mãe, tem colo. E quem tem colo tem cura.
 
Quando cuidamos de nossos territórios, o que naturalmente já é parte de nossa cultura, estamos garantindo o bem de todo o planeta, pois cuidamos das florestas, do ar, das águas, dos solos. A maior parte da biodiversidade do mundo está sob os cuidados dos povos indígenas e, assim, contribuímos para sustentar a vida na Terra.
 
A liberdade de expressão em nossas línguas próprias, é também fundamental para nós. Muitas de nossas línguas seguem vivas. Resistiram às violências coloniais que nos obrigaram ao uso da língua estrangeira, e ao apagamento de nossas formas próprias de expressar nossas vivências. Nós mulheres temos um papel significativo na transmissão da força dos nossos saberes ancestrais por meio da transmissão da língua.
 
Queremos respeitado o nosso modo diferenciado de ver, de sentir, de ser e de viver o território. Saibam que, para nós, a perda do território é falta de afeto, trazendo tristeza profunda, atingindo nosso espírito. O sentimento da violação do território é como o de uma mãe que perde seu filho. É desperdício de vida. É perda do respeito e da cultura, é uma desonra aos nossos ancestrais, que foram responsáveis pela criação de tudo. É desrespeito aos que morreram pela terra. É a perda do sagrado e do sentido da vida.
 
Assim, tudo o que tem sido defendido e realizado pelo atual governo contraria frontalmente essa forma de proteção e cuidado com a Mãe Terra, aniquilando os direitos que, com muita luta, nós conquistamos. A não demarcação de terras indígenas, o incentivo à liberação da mineração e do arrendamento, a tentativa de flexibilização do licenciamento ambiental, o financiamento do armamento no campo, os desmontes das políticas indigenista e ambiental, demonstram isso.
 
Nosso dever como mulheres indígenas e como lideranças, é fortalecer e valorizar nosso conhecimento tradicional, garantir os nossos saberes, ancestralidades e cultura, conhecendo e defendendo nosso direito, honrando a memória das que vieram antes de nós. É saber lutar da nossa forma para potencializar a prática de nossa espiritualidade, e afastar tudo o que atenta contra as nossas existências.
 
Por tudo isso, e a partir das redes que tecemos nesse encontro, nós dizemos ao mundo que iremos lutar incansavelmente para:
 
  1. Garantir a demarcação das terras indígenas, pois violar nossa mãe terra é violentar nosso próprio corpo e nossa vida;
  2. Assegurar nosso direito à posse plena de nossos territórios, defendendo-os e exigindo do estado brasileiro que proíba a exploração mineratória, que nos envenena com mercúrio e outras substâncias tóxicas, o arrendamento e a cobiça do agronegócio e as invasões ilegais que roubam os nossos recursos naturais e os utilizam apenas para gerar lucro, sem se preocupar com a manutenção da vida no planeta;
  3. Garantir o direito irrestrito ao atendimento diferenciado à saúde a nossos povos, com a manutenção e a qualificação do Subsistema e da Secretaria Especial Saúde Indígena (SESAI). Lutamos e seguiremos lutando pelos serviços públicos oferecidos pelo SUS e pela manutenção e qualificação contínua da Política Nacional de Atendimento à Saúde a nossos povos, seja em nossos territórios, ou em contextos urbanos. Não aceitamos a privatização, a municipalização ou estadualização do atendimento à saúde dos nossos povos. Lutamos e lutaremos para que a gestão da SESAI seja exercida por profissionais que reúnam qualificações técnicas e políticas que passem pela compreensão das especificidades envolvidas na prestação dos serviços de saúde aos povos indígenas. Não basta termos uma indígena à frente do órgão. É preciso garantirmos uma gestão sensível a todas as questões que nos são caras no âmbito desse tema, respeitando nossas práticas tradicionais de promoção à saúde, nossas medicinas tradicionais, nossas parteiras e modos de realização de partos naturais, e os saberes de nossas lideranças espirituais. Conforme nossas ciências indígenas, a saúde não provém da somente da prescrição de princípios ativos, e a cura é resultado de interações subjetivas, emocionais, culturais, e fundamentalmente espirituais;
  4. Reivindicar ao Supremo Tribunal Federal (STF), que não permita, nem legitime nenhuma reinterpretação retrógrada e restritiva do direito originário às nossas terras tradicionais. Esperamos que, no julgamento do Recurso Extraordinário 1.017.365, relacionado ao caso da Terra Indígena Ibirama Laklanõ, do povo Xokleng, considerado de Repercussão Geral, o STF reafirme a interpretação da Constituição brasileira de acordo com a tese do Indigenato (Direito Originário) e que exclua, em definitivo, qualquer possibilidade de acolhida da tese do Fato Indígena (Marco Temporal);
  5. Exigir que todo o Poder Judiciário que, no âmbito da igualdade de todos perante a lei, faça valer nosso direito à diferença e, portanto, o nosso direito de acesso à justiça. Garantir uma sociedade justa e democrática significa assegurar o direito à diversidade, também previsto na Constituição. Exigimos o respeito aos tratados internacionais assinados pelo Brasil, que incluem, entre outros, a Convenção 169 da Organização Internacional do Trabalho (OIT), as Convenções da Diversidade Cultural, Biológica e do Clima, a Declaração da ONU sobre os Direitos dos Povos Indígenas e a Declaração Americana dos Direitos dos Povos Indígenas;
  6. Promover o aumento da representatividade das mulheres indígenas nos espaços políticos, dentro e fora das aldeias, e em todos os ambientes que sejam importantes para a implementação dos nossos direitos. Não basta reconhecer nossas narrativas é preciso reconhecer nossas narradoras. Nossos corpos e nossos espíritos têm que estar presentes nos espaços de decisão;
  7. Combater a discriminação dos indígenas nos espaços de decisão, especialmente das mulheres, que são vítimas não apenas do racismo, mas também do machismo;
  8. Defender o direito de todos os seres humanos a uma alimentação saudável, sem agrotóxicos, e nutrida pelo espírito da mãe terra;
  9. Assegurar o direito a uma educação diferenciada para nossas crianças e jovens, que seja de qualidade e que respeite nossas línguas e valorize nossas tradições. Exigimos a implementação das 25 propostas da segunda Conferência Nacional e dos territórios etnoeducacionais, a recomposição das condições e espaços institucionais, a exemplo da Coordenação Geral de Educação Escolar Indígena na estrutura administrativa do Ministério da Educação para assegurar a nossa incidência na formulação da política de educação escolar indígena e no atendimento das nossas demandas que envolvem, por exemplo, a melhoria da infraestrutura das escolas indígenas, a formação e contratação dos professores indígenas, a elaboração de material didático diferenciado;
  10. Garantir uma política pública indigenista que contribua efetivamente para a promoção, o fomento, e a garantia de nossos direitos, que planeje, implemente e monitore de forma participativa, dialogada com nossas organizações, ações que considerem nossas diversidades e as pautas prioritárias do Movimento Indígena;
  11. Reafirmar a necessidade de uma legislação específica que combata a violência contra a mulher indígena, culturalmente orientada à realidade dos nossos povos. As políticas públicas precisam ser pautadas nas especificidades, diversidades, e contexto social de cada povo, respeitando nossos conceitos de família, educação, fases da vida, trabalho e pobreza;
  12. Dar prosseguimento ao empoderamento das mulheres indígenas por meio da informação, formação e sensibilização dos nossos direitos, garantindo o pleno acesso das mulheres indígenas à educação formal (ensino básico, médio, universitário) de modo a promover e valorizar também os conhecimentos indígenas das mulheres;
  13. Fortalecer o movimento indígena, agregando conhecimentos de gênero e geracionais;
  14. Combater de forma irredutível e inegociável, posicionamentos racistas e anti-indígenas. Exigimos o fim da violência, da criminalização e discriminação contra os nossos povos e lideranças, praticadas inclusive por agentes públicos, assegurando a punição dos responsáveis, a reparação dos danos causados e comprometimento das instâncias de governo na proteção das nossas vidas.
 
Por fim, reafirmamos o nosso compromisso de fortalecer as alianças com mulheres de todos os setores da sociedade no Brasil e no mundo, do campo e da cidade, da floresta e das águas, que também são atacadas em seus direitos e formas de existência.
 
Temos a responsabilidade de plantar, transmitir, transcender, e compartilhar nossos conhecimentos, assim como fizeram nossas ancestrais, e todos os que nos antecederam, contribuindo para que fortaleçamos, juntas e em pé de igualdade com os homens, que por nós foram gerados, nosso poder de luta, de decisão, de representação, e de cuidado para com nossos territórios.
 
Somos responsáveis pela fecundação e pela manutenção de nosso solo sagrado. Seremos sempre guerreiras em defesa da existência de nossos povos e da Mãe Terra.
 
Fonte: Cimi
Foto: Tiago Miotto/Cimi

 
O Sínodo para a Amazônia é uma realidade que já bate às portas. O processo vivido até aqui tem apontado muitas conquistas e despertado para diferentes frentes que apontam novas esperanças. 
 
Mas nem tudo são flores! O Sínodo tem sofrido ataques oriundos de várias direções. Tensões crescem a cada dia e é preciso unir forças para potencializar vozes e comunidades empenhadas na construção do Sínodo.
 
É por isso que o CONIC divulga, a partir de agora, materiais relacionados ao Sínodo e que estão sendo distribuídos por diferentes instituições no apoio a este grande momento da Igreja. 
 
Eis os links:
 
 
Dia Mundial de Oração pelo Cuidado com a Criação
 
No dia 1 de setembro, Dia Mundial de Oração pelo Cuidado com a Criação, será lançada a campanha relacionada ao Sínodo: #EuApoiooSinodo. Estão senso produzidos alguns materiais para divulgação e compartilhamento nas redes sociais. Acompanhe pelas redes sociais.
 
CONIC com informações da REPAM

 
A OAB Nacional sediou, nesta quinta-feira (15), o lançamento oficial da “Mesa Nacional de Diálogo contra a Violência”. A iniciativa, que foi abraçada pela Ordem, partiu da Comissão de Defesa dos Direitos Humanos Dom Paulo Evaristo Arns e contou com a presença e a participação de diversas entidades de proteção e organização da sociedade civil. O objetivo da ação é reunir forças das diferentes instituições em busca de soluções e propostas para enfrentar o problema da violência no Brasil.
 
Além da OAB e da Comissão Arns, participaram do evento representantes da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB), Associação Brasileira de Imprensa (ABI), Federação Nacional dos Jornalistas (Fenaj), Conselho Nacional de Igrejas Cristãs do Brasil (CONIC), Fórum Brasileiro de Segurança Pública, Centro Nacional de Africanidade e Resistência Afro-Brasileira (Cenarab), Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência (SBPC), Conselho Federal de Psicologia (CFP) e do Ministério Público Federal (MPF).
 
Romi Bencke (secretária-geral do CONIC)
 
O vice-presidente da OAB Nacional, Luiz Viana, afirmou que o propósito do grupo é construir e oferecer sugestões para uma nova política de segurança pública no país, já que os dados atuais revelam um enorme problema. Segundo o Atlas da Violência, o Brasil é um dos países mais violentos do mundo, com 65.602 homicídios registrados em 2017, 72,4% decorrentes de mortes por armas de fogo. Deste total, 75,5% dos mortos são negros.
 
“A mesa nacional de diálogo contra a violência, com a participação da Comissão Arns e de diversas outras entidades, vai apresentar à sociedade uma proposta de diálogo que possa unificar o discurso de combate à violência com uma política de segurança pública que signifique a cultura da paz e a preservação de diretos humanos”, afirmou Luiz Viana na abertura do ato.
 
“Não há nada mais anti-evangélico que a negação do direito do outro e da outra de viver com dignidade, exercendo livremente a sua fé, seja ela qual for, ou optando por não ter religião alguma. Não há nada mais anti-evangélico do que a misoginia, a LGBTfobia, o racismo. A liberdade cristã é uma consequência da fé. Esta liberdade nos torna livres para amar e praticar a justiça e nos impede a prática do ódio que é a negação da nossa liberdade conferida a nós pela fé em Jesus Cristo. A liberdade cristã não nos autoriza para a prática da violência”, lembrou a secretária-geral do CONIC, Romi Bencke (clique aqui e leia o discurso dela na íntegra).
 
O presidente da Comissão de Defesa dos Direitos Humanos Dom Paulo Evaristo Arns, José Carlos Dias, destacou que a organização desse grupo representa uma reação da sociedade civil em busca de uma melhor política de segurança pública e pela redução da violência no país.
 
“No instante em que a nossa história está sendo escrita com palavras, gestos e atos que destacam a supremacia da violência, é fundamental ler a Constituição Federal para observar quais são os direitos humanos que estão sendo violados. Reunidas as entidades convocadas, sinto que a sociedade se estrutura em defesa da democracia, escudeiros que somos dos direitos humanos”, afirmou José Carlos Dias.
 
Ao final do lançamento foi feita a leitura de uma carta, que foi assinada pelas entidades, defendendo a necessidade de buscar a cultura de paz, com respeito aos direitos humanos e a promoção da participação democrática. O documento diz ainda que as entidades se comprometem a levantar as bandeiras da tolerância profunda, do respeito ao direito do outro e da busca da união da diversidade. Serão esses os princípios que serão utilizados para se contrapor à violência.
 
 
Confira a íntegra da carta abaixo:
 
Por uma Mesa Nacional de Diálogo contra a Violência
 
O Brasil tem sofrido, com crescente horror, o recrudescimento de um dos piores traços da formação nacional: a violência incorporada ao cotidiano, especialmente das camadas de baixa renda. Segundo o Atlas da Violência, em 2017 houve uma taxa de 31,6 mortes violentas por 100 mil habitantes, a maior da história do país. Dos 65 mil assassinados, a maioria absoluta era composta de jovens e negros.
 
Às chacinas gratuitas, como a de Suzano (SP) no início deste ano, e aos morticínios planejados, como o de Altamira (PA) em julho passado, somam-se as balas, endereçadas e perdidas, que a cada dia ceifam o futuro e tornam infernal a vida dos indivíduos. Nada menos que 74% dos homicídios são cometidos por armas de fogo, um dos maiores indicadores do mundo. Propostas de facilitar o acesso a armas de fogo tornarão o quadro ainda mais grave. A escalada armamentista coloca em risco toda a população, e em particular a classe policial, que tem por dever estar na linha de frente dos conflitos.
 
Para piorar, recentemente têm proliferado os discursos de ódio, ajudando a conformar subjetividades violentas e intolerantes, e declarações públicas que legitimam a letalidade de órgãos oficiais. Ativistas e profissionais que repudiam tais pontos de vista se encontram em situação de crescente insegurança.
 
Está na hora de gritar basta! As entidades representativas da sociedade civil precisam mobilizar pessoas e instituições para construir uma agenda propositiva de segurança que respeite os direitos humanos e uma cultura cidadã capaz de refazer os laços de sociabilidade em dissolução.
 
Imbuídos de tal espírito, convidamos de maneira ampla organizações, movimentos e associações de variados credos e ideologias para sentarem-se juntos e discutir o que fazer. Se nos perguntarem agora como iremos nos organizar e como faremos para reduzir os índices que hoje assustam e envergonham a cidadania, responderemos com honestidade que não sabemos. Porém, estamos convencidos que a paz só será alcançada com o respeito aos direitos humanos e a promoção da participação democrática. Acreditamos que a mobilização desde baixo saberá inventar os caminhos necessários para chegar lá.
 
Por isso, lançamos hoje a iniciativa de uma Mesa Nacional de Diálogo contra a Violência. A Mesa não tem definições prévias, que serão construídas pelos que a ela aderirem. A única função das entidades que aqui convidam as demais é a de levantar as bandeiras da tolerância profunda, do respeito entranhado ao direito do outro e da busca da união na diversidade. Apostamos que em torno destes princípios poderemos contrapor ao monstro da violência a energia viva da sociedade mobilizada.
 
Brasília, 15 de agosto de 2019.
 
Fonte: OAB
Foto: Reprodução

 
Acordadas desde cedo, centenas de milhares de mulheres levantaram o acampamento, montado no Pavilhão de Exposições do Parque da Cidade, e marcharam 6 quilômetros em direção ao Congresso Nacional, em Brasília.
 
Munidas de seus tradicionais chapéus de palha e trajes roxos de todos os tons, coloriram a esplanada dos ministérios sob o lema “Margaridas na luta por um Brasil com soberania popular, democracia, justiça, igualdade e livre de violência”. Organizada pela Confederação Nacional dos Trabalhadores na Agricultura (CONTAG) de quatro em quatro anos desde os anos 2000, essa edição contou com um número recorde de mulheres. As organizadoras estimam cerca de cem mil manisfestantes.
 
“Estamos em um momento difícil para as mulheres, porque muitos dos nossos direitos estão sendo retirados e nós, mulheres o campo, das águas e das florestas, estamos aqui unidas para mostrar não só para o governo e para o Congresso, mas para a sociedade como um todo, qual o modelo de desenvolvimento queremos”, disse a coordenadora geral da marcha, Mazé Morais, de 36 anos.
 
Organizações ecumênicas, representadas pelo Fórum Ecumênico ACT Brasil (FEACT), também marcaram presença em peso. O Conselho Nacional de Igrejas Cristãs (CONIC), que é membro do FEACT, foi representado pela secretária-geral Romi Bencke, acompanhada da secretária Leila Gomes. 
 
 
O nome da marcha presta homenagem à Margarida Maria Alves, ex-presidente do Sindicato dos Trabalhadores Rurais de Alagoana Grande, na Paraíba. Ela foi assassinada em 12 de agosto de 1983, a mando de latifundiários da região. Os responsáveis pela sua morte nunca foram punidos, mesmo com a repercussão internacional do caso, que chegou a ser denunciada à Comissão Interamericana de Direitos. Para manter viva a sua memória, sua casa foi transformada em museu. Nas paredes do lugar está cunhada a frase mais famosa de Margarida: "Da luta eu não fujo. É melhor morrer de luta do que morrer de fome".
 
 
Pela primeira vez, o protesto contou com a partipação das mulheres indígenas.
 
De acordo com o jornalista Paulo Moreira Leite, a Marcha traz "um sinal sinal forte da resistência a um governo que, pela primeira vez desde o fim da ditadura militar,  assume a defesa aberta e incondicional dos grandes proprietários de terra e seus interesses". 
 
"A partir da decisão de Jair Bolsonaro de paralisar a reforma agrária, anunciada logo depois da posse, áreas que há muito tempo eram ocupadas por famílias de pequenos agricultores podem ser devolvidas aos antigos proprietários. Só na região Sul e Sudeeste do Pará há pelo menos 20 areas que enfrentam este processo", acrescenta Paulo. 
 
Depoimentos:
 
Mazé Morais, 36 anos, coordenadora geral da Marcha das Margaridas, vive em Batalha, Piauí
 
“Quando a marcha de 2015 terminou, já começamos a organizar essa edição de 2019. Durante esses quatro anos realizamos um enorme processo de mobilização pela base, com inúmeros debates, ouvindo milhares de mulheres em centenas de municípios e mesmo aquelas que não participam, que não conseguiram vir para Brasília, se sentem muito representadas porque sabem o significado político dessa marcha e qual o impacto dessa ação em suas vidas.”
 
Eleonora Menicucci, ex-ministra da Secretaria de Políticas para as Mulheres
 
“Essa marcha tem hoje tem um significado mais do que simbólico, tem um significado político real: as mulheres como protagonistas na luta contra o estado de exceção, contra a perda de direitos e contra o fascismo que saiu do armário no Brasil.”
 
Deputada Federal Benedita da Silva
 
“Quando alguma coisa é danosa ao Brasil, é muito danosa para as mulheres, maioria da população. Essas mulheres que estão sendo massacradas todos dias estão demonstrando que não aceitam mais a crueldade e a negligência desse governo.”
 
Deputada Federal Maria do Rosário
 
“A organização das Margaridas é muito diferente, muito forte, muito feminina, mas muito feminista também, e une a todas nós, mulheres do campo da cidade, em uma grande demonstração de força.”
 
Cosma da Silva Barbosa, 72 anos, 6 filhos e 16 netos, agricultora, vive em Casinhas, Interior de Pernambuco
 
“Essa é terceira Marcha das Margaridas que eu participo. Vim pela primeira vez por curiosidade, em 2011 e achei lindo! Agora quero vir para as próximas enquanto eu viver.”
 
Nilza Leonise da Silva, 39 anos, Missionária, vive em Alagoa Grande, Paraíba
 
“Nasci e moro na mesma terra em que Margarida Alves lutou pelos seus direitos até ser assassinada e vim continuar essa luta para que o povo se conscientize.”
 
Deisiane Maiane da Conceição Pereira, funcionária pública, 25 anos, vive em Paço do Lumiar, Maranhão
 
“Sou de uma família de agricultores que sempre trabalhou muito e através do Bumba-meu-boi eu consigo representar as minhas raízes para as outras margaridas.”
 
Ioana Louise, 27 anos, e Ioná Pereira, 48 anos, ambas vivem em Juazeiro do Norte, Ceará
 
“Esse é um momento importante de empoderamento do nosso povo e viemos aqui defender a nossa religiosidade e demarcar a presença das mulheres do terreiro, pois nós somos Margaridas também.”
 
Carolina Santos, 23 anos, vive em Ubatuba, São Paulo
 
“Sem território a gente não consegue desenvolver nossa cultura e as nossas tradições, então a gente resiste, como jovens, pela manutenção cultural dos povos tradicionais.”
 
Luiza Canuto, índigena, etnia Tabajara, 60 anos, vive em Serra das Matas, Monsenhor Tabosa, Ceará
 
“As mulheres indígenas também são agricultoras familiares. O território, a terra, são fundamentais para os nossos povos. Temos a mesma luta que as mulheres do campo.”
 
 
CONIC com informações da Marie Claire e Brasil 247
Fotos: CESE / CONIC