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Em 2019 celebramos os 20 anos da Declaração Conjunta sobre a Doutrina da Justificação (JDDJ). O documento foi assinado em 31 de outubro de 1999 em Augusta (Alemanha) por representantes da Federação Luterana Mundial (FLM) e da Igreja Católica Romana; posteriormente foi adotada pelo Conselho Metodista Mundial (2006), pela Comunhão Mundial das Igrejas Reformadas (2017) e pela Comunhão Anglicana (2017). 
 
No dia 4 de setembro, o CONIC organizará uma Celebração Ecumênica na Comunidade Evangélica de Confissão Luterana de Brasília para comemorar esses 20 anos da Declaração - vide convite:
 
 
A seguir, confira a entrevista com o pastor Martin Junge, atual secretário-geral da FLM, sobre a importância da Declaração para a caminhada ecumênica mundo afora.
 
Qual é o conteúdo e a importância da Declaração Conjunta sobre Justificação pela Fé?
 
A Declaração Conjunta recompôs a maior controvérsia teológica que dividiu por séculos católicos e luteranos, no que diz respeito à doutrina da justificação pela graça através da fé. É claro que também houveram outros fatores políticos, econômicos e sociais que levaram à divisão do cristianismo ocidental no século XVI. No entanto, a questão de como a salvação alcance os seres humanos através de Jesus Cristo foi aquela em torno da qual a divisão foi mais claramente delineada. Com a JDDJ, luteranos e católicos encontraram uma base consensual e retiraram as condenações com as quais se acusaram reciprocamente no passado. Podemos afirmar que a JDDJ é um marco na jornada rumo à unidade dos cristãos.
 
No discurso que você proferiu durante a celebração ecumênica, também falou sobre o método de diálogo usado para redigir a JDDJ, o "consenso diferenciado". O que é isso?
 
O "consenso diferenciado" é um método de diálogo que permite definir um sólido consenso de base, sem, contudo, silenciar ou ignorar as diferenças que ainda subsistem. A JDDJ expressa o consenso de católicos e luteranos em torno de "verdades de base", cuja afirmação nos permite dizer que as condenações do passado não podem ser aplicadas ao atual ensino das duas confissões sobre a doutrina da justificação. Ao mesmo tempo, a JDDJ evidencia o que ainda divide as duas confissões sobre o mesmo tema, sem que isso comprometa o consenso alcançado. Quanto mais estivermos conscientes da amplitude da base comum sobre a qual repousa a nossa fé cristã, tanto mais é possível enfrentar a diversidade do outro como um desafio à nossa própria identidade e ao nosso modo de ser igreja.
 
Na sua opinião, vinte anos depois, quais são os resultados mais importantes alcançados por este documento?
 
Acredito que nenhum dos que assinaram há vinte anos imaginaria a incrível força motriz deste documento. Sem a JDDJ, por exemplo, nunca teria sido possível continuar o diálogo até a redação, em 2013, do documento "Do conflito à comunhão", no qual católicos e luteranos olham para sua história passada para deixar para trás os conflitos e progredir no caminho da unidade. Sem a JDDJnunca teríamos chegado à Comemoração conjunta dos 500 anos da Reforma Protestante, que viu junto em Lund (Suécia), em 2016, o Papa Francisco e os expoentes da FLM. No entanto, não é só isso, mas muito mais.
 
O que?
 
O fato de que este documento, nascido em 1999 como texto bilateral, hoje se tornou um documento multilateral que constitui a base teológica para o diálogo e testemunho comum de católicos, luteranos, metodistas, reformados e anglicanos. Essas cinco denominações cristãs se reuniram em março passado na Universidade de Notre Dame (EUA) para redigir uma declaração em que reafirmam "as verdades de base sobre a doutrina da justificação contida na JDDJ, enfatizando como a mensagem da graça de Deus é mais que é urgente e necessária no mundo em que vivemos”. Tenho esperança que os frutos que a JDDJ nos permitirá colher ainda sejam muitos.
 
CONIC com informações da IHU Unisinos/Riforma

 
Em maio deste ano, o CONIC ganhou uma nova diretoria. Com a mudança nos quadros de comando do Conselho, quem assumiu a presidência foi o Pr. Inácio Lemke. Esse catarinense de Jaraguá do Sul, casado com Margit Elfriede Lemke, com quem tem dois filhos, Thobias e Mathias, ficará à frente do CONIC até 2022.
 
Inácio é formado em Teologia pela Faculdade de Teologia – FACTEOL, atual EST, em São Leopoldo / RS, da Igreja Evangélica de Confissão Luterana no Brasil – IECLB, (1974 a 1980); entre janeiro a dezembro de 1977 foi estudante intercambista no Evang. Luth. Missions und Diasporaseminar em Neuendettelsau, Alemanha.
 
A seguir, confira o relato que ele escreveu especialmente para o nosso site! 
 
“Em 1981 fui enviado pela IECLB, juntamente com uma equipe de trabalho, integrada por enfermeira, médico, técnico agrícola e minha esposa, para a Região de Rolim de Moura, RO. Como Pastor, coube-me a missão de coordenar a equipe, além da responsabilidade dos trabalhos pastorais junto às famílias luteranas, era acolher os migrantes que estavam procurando novo espaço de vida.
 
As caravanas de migrantes eram constituídas em sua maioria por pessoas pobres, muito pobres, vindo sobre tudo dos Estados do Nordeste, do Sudeste (Espírito Santo e Minas Gerais e São Paulo) e do Sul (Paraná).
 
A casa pastoral tornou-se rapidamente uma casa de convivência, para a equipe de trabalho, bem como para estagiárias, estagiários; também uma casa de acolhida e passagem para pessoas que precisavam de cuidados de saúde, gestantes, pessoas acometidas de malária ou outras doenças típicas da Região Amazônica. Acolhíamos as pessoas que aguardavam vagas nos hospitais, ou as que esperavam para retornar às moradas que muitas vezes eram alcançadas após longas caminhas pelas linhas e picadas.
 
A casa também era espaço de troca de experiência e sonhos com os dois Padres Espiritanos irlandeses e três Irmãs Combonianas, duas italianas e uma brasileira. A realidade local, com seus desafios que muitas vezes pareciam insuperáveis, nos uniam e fortaleciam nossos sonhos, transformando-os em realidades de gestos de solidariedade. Partilhávamos alegrias comuns, vendo as famílias receberem seus lotes de terra, cultivar, plantar e colherem os frutos dos seus trabalhos. Também acompanhamos a fundação dos Sindicatos dos Trabalhadores Rurais, a criação das Associações de Ajuda Mútua e outras melhorias.
 
Outro referencial em minha caminhada de igreja ecumênica foi o trabalho junto à Comissão Pastoral da Terra – CPT. Em Rondônia, a CPT nasce a partir da necessidade social de abandono em que se encontravam a população local. Já em 1978 surge a CPT/RO em harmonia ecumênica, envolvendo leigos/as e clérigos/as da IECLB e Igreja Católica Apostólica Romana (ICAR). Por uma decisão coletiva de lideranças, acompanhei os trabalhos da CPT/RO. Em 1985 fui eleito Vice-Presidente da CPT Nacional, juntamente com o Bispo Dom José Gomes, de Chapecó/SC. Tempo abençoado pela convivência ecumênica prática.
 
Em 1987 a CPT/RO solicita minha cedência junto à IECLB para assumir a coordenação regional de Rondônia, bem como acompanhar o Grande Regional Noroeste do Brasil que integrava os Estados do Acre, Amazonas, Mato Grosso, Rondônia e Roraima. Assim, pude conhecer a realidade amazônica nua e crua com as suas grandes diferenças etnoculturais. Assessorar e acompanhar as pessoas, os movimentos e grupos em suas diferenças eram desafio diário. Anunciar e levar esperança junto aos mais pobres era uma das metas na convivência. Ao mesmo tempo em que experimentava muita alegria neste trabalho, também aumentavam os riscos e as ameaças constantes. Assim, em março de 1992, minha família e eu aceitamos o desafio de aceitar um convite que veio da Igreja Evangélica Luterana da Baviera, Alemanha, onde fui incluído numa equipe de trabalho no Kirchlicher Endwicklungsdienst – KED – Bayern. 
 
1992, lembrando os 500 Anos da Conquista das Américas, quando na Europa se levanta a pergunta: “quem descobre ou conquista quem”? – Na instituição trabalhamos o tema através de uma exposição de painéis com textos, fotografias, gráficos, vídeos e filmes, com o título “O BRASIL – Eu ouvi o clamor do meu povo”. 
 
Cooperei com trabalhos no KED Bayern até setembro de 1999, quando construí muitas pontes entre comunidades, grupos e ONG na Alemanha, Europa, Brasil, América Latina. Tive a oportunidade fazer uma viagem de serviço para Moçambique... sempre tecendo ligações solidárias entre iniciativas religiosas, políticas ou grupos autônomos. Alguns destes contatos persistem até os dias atuais.
 
Retornando ao Brasil, novamente assumi trabalhos pastorais em Minas Gerais, Teófilo Otoni (outubro de 1999 a abril de 2001) e em Santa Catarina, Rio das Antas (2001 a dezembro de 2009). Em 2010 fui eleito para Pastor Sinodal no Sínodo Norte Catarinense, cargo que exerci até final de 2018. No período de 2014 a 2018 também fui eleito em Concílio para o exercício de Pastor 2º Vice-Presidente da IECLB.
 
Assim que cheguei em Santa Catarina passei a acompanhar os trabalhos do Conselho de Igrejas para Estudos e Reflexão – CIER e, assim, também fui me envolvendo com o CONIC. Na gestão passada, exerci a Vice-Presidência juntamente com Dom Flávio Irala, da Igreja Episcopal Anglicana do Brasil (IEAB).
 
Viver o ecumenismo hoje para mim é encontrar o outro, a outra pessoa ou instituição pelo caminho, descobrir o que nos une, mas ao mesmo tempo respeitar as nossas diferenças. Para isso é preciso desenvolver um grande sentimento de amor pelo outro/outra sem impor condições pré-estabelecidas. Um sentimento de “vamos caminhar juntos”, sem já de antemão impor nossas regras. Vamos encontrar um caminho comum de convivência.
 
Penso que o CONIC deve proporcionar espaços de diálogo e estar aberto para receber também outras igrejas cristãs que queiram caminhar juntas. Assumir o compromisso que Jesus de Nazaré ensina na caminhada com seus discípulos e discípulas. Sobretudo a prática do amor junto às pessoas mais pobres e excluídas: “Amai-vos uns aos outros, assim como eu os amei” (Ev. Jo. 13.34). Como representantes de igrejas comprometidas com o evangelho de Jesus Cristo não podemos entrar na onda do ódio, da destruição da criação que Deus nos confia como filhas e filhos a seu serviço nesta terra. Cabe-nos, sim, denunciar toda violência que é praticada, seja contra humanos, seja contra a criação. 
 
Ser presidente do CONIC foi e sempre será de muita responsabilidade diante das igrejas-membro, diante dos nossos parceiros, diante da sociedade e, sobretudo, de Deus. Recebi essa eleição com temor e tremor, consciente da responsabilidade. Diante de toda conjuntura que envolve o país hoje é preciso denunciar o mal com todas as suas mazelas e anunciar a esperança aos desalentados novamente. E é nesse sentido que o CONIC sente-se desafiado a não perder o equilíbrio, diante de tudo que vimos e ouvimos, não podemos nos calar. Precisamos ser a voz que pode fazer a diferença neste deserto que, por hora, passa o povo brasileiro; uma voz compromissada com a vida e vida em abundância para todos e todas (Ev. Jo. 10.10).
 
Para me equilibrar, cultivo como hobby um pequeno quintal, com horta, flores, árvores com liberdade de pássaros. É um pequeno espaço acolhedor para a diversidade da vida e pessoas diferentes. 
 
Onde fica isso? Em Pomerode, SC.
 
Caso alguém queira conhecer, será bem-vindo. E sempre sem preconceitos.
 

 
A defesa da soberania nacional é tema da série de seminários que acontecem nos dias 4 e 5 de setembro, na Câmara dos Deputados, em Brasília. O evento, organizado pela Frente Brasil Popular e Frente Povo Sem Medo, vai debater questões relativas ao patrimônio público, à produção científica e às riquezas naturais.
 
Um ato político na abertura do seminário lançará a Frente Parlamentar e Popular em Defesa da Soberania Nacional. No encerramento, haverá a divulgação do Manifesto em Defesa da Soberania Nacional.
 
Para os dois dias estão previstos os debates Desenvolvimento Econômico e Soberania Nacional; Privatizações: Bancos, Correios, Previdência, Eletrobrás e Petrobrás; Ambiental: Amazônia, Biodiversidade, Mineração e Água; e Ciência Tecnologia e Educação.
 
O evento acontece no Auditório Nereu Ramos e é aberto a todos os interessados.
 
Confira abaixo a programação completa:
 
4 de setembro
9h - Ato político em defesa da soberania nacional
11h30 - Desenvolvimento Econômico e Soberania Nacional 
14h30 - Privatizações: Bancos, Previdência, Correios, Eletrobrás e Petrobrás 
 
5 de setembro
9h - Ambiental: Amazônia, Biodiversidade, Mineração e Água
10h30 - Ciência Tecnologia e Educação
14h - Aprovação do Manifesto em Defesa da Soberania Nacional
Encaminhamentos práticos para a construção de um Movimento Nacional em Defesa da Soberania Nacional
 
Fonte: Brasil de Fato
Foto: Reprodução / CUT

 
Os incêndios que especialmente nos últimos dias têm consumido parte da vegtação natural da Amazônia são causa de preocupação para a Presidência do Conselho Episcopal Latino-Americano (Celam), que emitiu uma nota a respeito nesta quinta-feira, 22.
 
Com o título “Levantamos nossa voz pela Amazônia”, a nota é assinada pelos membros da Presidência do Celam:  Monsenhor Héctor Miguel Cabrejos Vidarte (Presidente),  Cardeal Odilo Pedro Scherer (Primeiro Vice-Presidente), Cardeal Leopoldo José Brenes (Segundo Vice-Presidente), Monsenhor Rogelio Cabrera López (Presidente do Conselho de Assuntos Econômicos) e Monsenhor Juan Carlos Cárdenas Toro (Secretário Geral).
 
Confira:
 
LEVANTAMOS NOSSA VOZ PELA AMAZÔNIA
 
Conscientes dos terríveis incêndios que consomem grandes proporções da flora e fauna do Alasca, Groenlândia, Sibéria, Ilhas Canárias, e, particularmente, na Amazônia, nós, bispos da América Latina e Caribe, queremos expressar nossa preocupação com a gravidade dessa tragédia que não só é de impacto local, nem mesmo regional, mas de proporções planetárias.
 
A esperança pela proximidade do Sínodo Amazônico, convocado pelo Papa Francisco, está manchada pela dor dessa tragédia natural. Aos irmãos povos indígenas que habitam este amado território, expressamos toda a nossa proximidade  e nos unimos às suas vozes para gritar ao mundo por solidariedade e por atenção imediata para acabar com essa devastação.
 
O Instrumento de Trabalho do Sínodo já adverte profeticamente: "Na floresta amazônica, de vital importância para o planeta, uma crise profunda foi desencadeada por uma prolongada intervenção humana, onde predomina uma ‘cultura do descarte’ (LS 16) e mentalidade extrativista. A Amazônia é uma região de rica biodiversidade, multiétnica, multicultural e multirreligiosa, espelho de toda a humanidade que, em defesa da vida, exige mudanças estruturais e pessoais de todos os seres humanos, Estados e da Igreja. Essa realidade vai além do campo estritamente eclesiástico da Amazônia, porque se concentra na Igreja universal e também no futuro de todo o planeta” (Instrumentum laboris para o Sínodo da Amazônia, preâmbulo).
 
É urgente que os governos dos países amazônicos, especialmente Brasil e Bolívia, as Nações Unidas e a Comunidade Internacional adotem medidas sérias para salvar os pulmões do mundo. O que acontece com a Amazônia não é apenas uma questão local, mas de alcance global. Se a Amazônia sofre, o mundo sofre.
 
Lembrando as palavras do Papa Francisco, gostaríamos de “pedir, por favor, a todos os que ocupam posições de responsabilidade no campo econômico, político e social, todos os homens e mulheres de boa vontade: [que] sejamos guardiões da criação, do desígnio de Deus inscrito na natureza, guardiães do outro, do meio ambiente; não deixemos que. os sinais de destruição e morte acompanhem o caminho deste nosso mundo” (Homilia do início do ministério Petrino, 19 de março de 2013)
 
Monsenhor Héctor Miguel Cabrejos Vidarte, OFM
Arcebispo de Trujilo, Peru - Presidente do Celam
 
Cardeal Odilo Pedro Scherer
Arcebispo de São Paulo, Brasil – Primeiro Vice-Presidente do Celam
 
Cardeal Leopoldo José Brenes
Arcebispo de Managuaá, Nicarágua – Segundo Vice-Presidente do Celam
 
Monsenhor Rogelio Cabrera López
Arcebispo de Monterrey, México - Presidente do Conselho de Assuntos Econômicos do Celam
 
Monsenhor Juan Carlos Cárdenas Toro
Bispo Auxiliar de Cali, Colômbia - Secretário Geral do Celam

 
Organizações do movimento ecumênico manifestaram, nesta quinta-feira, 22 de agosto, preocupação com a explosão de queimadas em território amazônico. A nota, assinada pelo Fórum Ecumênico ACT Brasil (FE-ACT Brasil), traz um dado alarmante: "houve um aumento superior a 80% no número de incêndios florestais no Brasil, entre 1º de janeiro e 19 de agosto deste ano, em comparação com o mesmo período do ano passadoelas". 
 
Em outro trecho, o FE-ACT Brasil, do qual o CONIC faz parte, reitera que o compromisso ecumênico "é a proteção da sociobiodiversidade da Criação e a defesa das organizações da sociedade civil e movimentos sociais, que repudiam este projeto político de morte".
 
Leia o documento na íntegra:
 
Brasil, a Casa Comum em chamas
 
A Criação aguarda ansiosamente a manifestação das filhas e dos filhos de Deus.
Com a esperança de ser ela também libertada do cativeiro da corrupção.
Romanos 8.19;21
 
O Fórum Ecumênico ACT Brasil (FE-ACT Brasil) une-se a todas organizações ambientais, movimentos sociais, povos e comunidades tradicionais para expressar sua dor e sua extrema preocupação frente à política ambiental do atual governo, cujo resultado concreto é o aprofundamento do processo de devastação, visível nas extensas queimadas na região Amazônica, em níveis alarmantes.
 
Conforme dados do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe), houve um aumento superior a 80% no número de incêndios florestais no Brasil, entre 1º de janeiro e 19 de agosto deste ano, em comparação com o mesmo período do ano passado. Frente a isso, de maneira leviana e irresponsável, o presidente do país alega que as queimadas seriam “ação criminosa” de “ongueiros” para chamar a atenção contra o governo brasileiro e “a sua pessoa”.
 
A declaração do presidente não surpreende, pois uma de suas estratégias tem sido a criminalização das organizações da sociedade civil que defendem os direitos socioambientais, deslegitimando e buscando mecanismos para impedir a atuação destas organizações. Esta postura fica expressa no pronunciamento do presidente, ao dizer que: “A questão da queimada, no meu entender, pode ter sido potencializada por ONGs, pois perderam dinheiro.”
 
Sustentado em fundamentalismos religioso e econômico, fake news, opiniões irresponsáveis e de contestação a evidências científicas, em poucos meses, já temos um cenário socioambiental catastrófico: flexibilização da legislação ambiental, adesão irresponsável e incondicional aos interesses de mineradoras e do agronegócio, liberação sem critérios de centenas de agrotóxicos, aumento dos conflitos no campo, desmantelamento do sistema nacional de Unidades de Conservação e da fiscalização ambiental, desterritorialização e violação de direitos de povos indígenas e de povos e comunidades tradicionais, cortes no orçamento de áreas estratégicas e desrespeito a acordos internacionais e à política climática.
 
Em reação às pressões da sociedade civil e de pesquisadores e pesquisadoras que há anos atuam com pautas socioambientais, o ministro do Meio Ambiente, Ricardo Salles, afirma que tudo não passa de “sensacionalismo”.
 
Defendemos a soberania nacional e os direitos da terra, com suas florestas, rios e animais, povos e comunidade tradicionais.
 
Nosso testemunho ecumênico é a proteção da sociobiodiversidade da Criação e a defesa das organizações da sociedade civil e movimentos sociais, que repudiam este projeto político de morte.
 
Fórum Ecumênico ACT Brasil
22 de agosto de 2019
 
A seguir, confira a nota em Inglês ou Espanhol.
 
 

 
"A escalada arriscada de posições e atitudes assumidas pela presidência da República nas últimas semanas, aliada à revelação de uma rede de corrupção e fraudes envolvendo membros do Judiciário, fez acender, até em quem outrora apoiou o projeto político de Jair Bolsonaro, uma luz de alerta quanto aos caminhos que estão sendo trilhados pelo país". Assim começa a nota escrita por movimentos sociais pedindo a cassação da chapa do presidente Jair Bolsonaro.
 
"Se o impeachment não é um caminho a se considerar, há um outro bastante razoável: o julgamento de diversas ações ainda do processo eleitoral, especialmente as que versam sobre abuso do poder econômico que poderiam resultar na cassação da chapa, considerando que a chapa é una e indivisível – o que provocaria a posse temporária do presidente da Câmara", continua o posicionamento, que é assinado pela Plataforma dos Movimentos Sociais pela Reforma do Sistema Político.
 
Leia a íntegra:
 
Posicionamento da Plataforma dos Movimentos Sociais pela Reforma do Sistema Político diante da conjuntura atual
 
A escalada arriscada de posições e atitudes assumidas pela presidência da República nas últimas semanas, aliada à revelação de uma rede de corrupção e fraudes envolvendo membros do Judiciário, fez acender, até em quem outrora apoiou o projeto político de Jair Bolsonaro, uma luz de alerta quanto aos caminhos que estão sendo trilhados pelo país.
 
Ante a gravidade das denúncias que envolvem os procedimentos adotados por promotores e juízes à frente da Operação Lava Jato, os tradicionais aliados da mídia hegemônica, alguns militares e representantes do sistema financeiro entraram em ação para desacreditar os diálogos revelados. Estes apontam evidências de que a Lava Jato não respeitou o sistema legal brasileiro, violando a Constituição, o Código da Magistratura e o Código da Lei Penal. A seriedade destas denúncias exige uma resposta efetiva do Estado à sociedade brasileira.
 
Nas redes sociais e em debates, algumas pessoas começaram a levantar a possibilidade de impedimento do presidente por crimes de responsabilidade. Também no âmbito da Plataforma dos Movimentos Sociais Pela Reforma do Sistema Político refletimos sobre esta alternativa.
 
Compreendemos que o impedimento do presidente Jair Bolsonaro não resolve o sério processo de fragilização do sistema democrático, aprofundado nos últimos anos. É necessário analisar o papel do presidente Jair Bolsonaro em um contexto maior de disputas geopolíticas e de uma agressiva política de implementação de um projeto ultraneoliberal. Isso significa que o impedimento não resolve as questões estruturais que ameaçam a nossa soberania e democracia. A saída de Jair Bolsonaro apenas viabilizaria que seu lugar fosse ocupado por alguém um pouco mais cauteloso nos pronunciamentos públicos e no respeito aos ritos do cargo.
 
Não é de agora que as limitações do sistema político se manifestam em nosso país, e entendemos que qualquer saída efetiva só se dará em médio/longo prazo, por envolver rupturas profundas com nosso passado colonialista e autoritário. Sem ampliarmos a participação da sociedade nos processos decisórios, inclusive com a conquista de representação plurirracial e pluriétnica nas instâncias políticas, a democracia não se consolida.
 
Contudo, avaliamos que, paralelamente à construção cotidiana de novos paradigmas de democracia, é também preciso responder ao cenário preocupante que se apresenta. Não podemos assistir placidamente ao processo em curso de ameaça à soberania do país, ao total desmonte das políticas socioambientais, à retirada de mais direitos, além de episódios cada vez mais frequentes de recrudescimento da violência contra as chamadas minorias e ataques constantes do Estado à liberdade de expressão. 
 
As eleições de 2018, segundo a revelação das mensagens secretas feitas pelo The Intercept Brasil, foram fraudadas: o candidato com mais chance de ganhar foi afastado por um processo eivado de irregularidades, sem provas, pelo qual foi condenado e preso. A operação Lava Jato, longe de ser uma iniciativa para acabar com a corrupção no Brasil, perseguiu o PT e suas lideranças, em articulação com a grande mídia, criando a narrativa da “maior história de corrupção do país”. Foi a base para a campanha pelo impedimento da presidenta Dilma e a condenação de Lula.
 
Se o impeachment não é um caminho a se considerar, há um outro bastante razoável: o julgamento de diversas ações ainda do processo eleitoral, especialmente as que versam sobre abuso do poder econômico que poderiam resultar na cassação da chapa, considerando que a chapa é una e indivisível – o que provocaria a posse temporária do presidente da Câmara e novas eleições seriam convocadas, se isto ocorrer ainda antes do cumprimento de dois anos de mandato. Estes processos são AIJEs, Ações de Investigação Judicial Eleitoral, e dependem, portanto, de investigação. Matéria recente do jornal a Folha de S. Paulo relata que eles se encontram parados, enquanto outros mais recentes já andaram rapidamente.
 
Isto, porém, depende da celeridade da Justiça Eleitoral, que ainda vem julgando prefeitos eleitos em 2016 e não pode fugir de suas responsabilidades com os destinos do país, diante de tantos abusos e irregularidades, cassando a chapa como um todo e convocando novas eleições. Com a palavra, portanto, a Justiça Eleitoral. Para além disso, como acreditamos que um mandato não pertence apenas a quem foi eleito ou mesmo a quem o elegeu, mas a todos os eleitores, pensamos que possam ser adotados mecanismos como recall ou mandatos revogatórios: os eleitores podem tirar o eleito se não cumprir o prometido ou cometer atrocidades com o mandato.
 
Nós cobraremos e pressionaremos para que o país retome os seus rumos e se livre de qualquer viés autoritário que ameace o nosso ainda frágil Estado Democrático de Direito, e que a nossa democracia seja de fato construída livremente pelo povo!
 
Plataforma dos Movimentos Sociais pela Reforma do Sistema Político
 
Foto: Adriano Machado/Reuters

 
Com muito pesar, manifestamos nosso repúdio aos crimes de ódio cometidos contra três jovens músicos bolivianos da banda ‘Súper Explosión’ em pleno fim de tarde de domingo último (18/08/2019) que resultaram no assassinato de dois deles, Santiago Rodrigues e Roger Lipa Chambi – e ferimento de um terceiro que felizmente encontra-se fora de perigo. 
 
Obviamente estamos bastante preocupadas com essas demonstrações de violência xenofóbica, muito provavelmente incentivadas por ações recentes do Estado brasileiro, como a portaria 666, a proposta de emenda ao projeto de lei 1928/2019 do Senado Federal e as recentes expulsões de refugiados, as quais visam ampliar o controle migratório, por meio de uma ótica de criminalização das pessoas em mobilidade. 
 
Enxergamos que esta tragédia é resultado desse inadvertido incitamento ao ódio e preconceito, dois artistas jovens que após seu rotineiro ensaio de domingo realizado no espaço público próximo a uma escola dentro de um bairro com expressiva presença e contribuição de trabalhadores migrantes, conversavam sem fazer mal a ninguém usufruindo de seu merecido horário de lazer perderam suas vidas claramente pelo simples fato de existirem. 
 
Não podemos deixar esses crimes impunes, nos solidarizamos com os familiares e com nossas comunidades imigrantes, refugiadas e apátridas que sentem de perto o medo, porém demandamos firmemente investigação e apuração do ocorrido e prisão dos assassinos. 
 
Assinam:
 
Pela Frente de Mulheres Imigrantes e Refugiadas:
- Coletivo Sí, Yo Puedo
- Rede de Mulheres Imigrantes Lésbicas e Bissexuais
- Colectivo Feminista de Argentinxs em São Paulo
- Equipe de Base Warmis - Convergência das Culturas
 
Conselho Nacional de Igrejas Cristãs - CONIC
 
Presença da América Latina - PAL
 
Associação de Residentes Bolivianos - ADRB
 
Comitê de Migrações e Deslocamentos (da Associação Brasileira de Antropologia - ABA)
 
Centro de Apoio e Pastoral do Imigrante - CAMI
 
Centro de Estudos de Migrações Internacionais, IFCH/ UNICAMP - CEMI
 
Sarau das Américas
 
Movimento Humanista Internacional
 
Lakitas Sinchi Warmis
 
África do Coração
 
ProMigra
 

 
Os registros de intolerância religiosa são comuns Brasil afora, mas no Rio têm uma característica particular: passaram a envolver traficantes e evangélicos. Após ataques a terreiros de umbanda e candomblé na Baixada Fluminense, a polícia identificou o mandante e, na semana passada, prendeu oito traficantes acusados de integrar seu grupo, o chamado Bonde de Jesus.
 
Segundo a polícia, o mandante é Álvaro Malaquias Santa Rosa, o Peixão, do Terceiro Comando Puro (TCP), um dos criadores do Bonde de Jesus, vertente inédita da intolerância religiosa no Estado. Estima-se que existam hoje 200 terreiros sob ameaça. Os casos são investigados pela Delegacia de Crimes Raciais e Delitos de Intolerância (Decradi), criada em 2018. 
 
Investigações apontam que a peculiar relação entre religiosos e criminosos aconteceu depois que a cúpula do TCP foi convertida por uma igreja neopentecostal. Há informações, ainda não confirmadas, de que Peixão teria sido ordenado pastor. Trata-se de uma característica específica dessa facção, não sendo reproduzida nem pelos demais grupos de traficantes nem por milicianos.
 
“A situação de intolerância sempre existiu, mas tivemos uma piora quando indivíduos ligados à cúpula de uma facção resolveram se converter”, afirma o delegado da Decradi, Gilbert Stivanello. “Eles distorcem a doutrina religiosa e agridem outras religiões, sobretudo as de matriz africana.” As principais lideranças evangélicas do Rio condenam os ataques.
 
Conversão
 
Um dos primeiros a se converter foi Fernando Gomes de Freitas, o Fernandinho Guarabu, há cerca de quatro anos. Ele era o chefe do tráfico no Morro do Dendê, Ilha do Governador, até ser morto pela polícia em junho. Outros, como Peixão, se converteram depois.
 
“Alguns deles se converteram dentro do presídio”, diz Stivanello. “Eles viveram uma experiência distorcida da conversão, se tornando ‘bandido de Jesus’, como se isso fosse um ato de fé. Se pararmos para pensar, não é muito diferente do terrorismo islâmico. É difícil mesmo entender a lógica”, afirma.
 
Coordenadora do Centro Nacional de Africanidade e Resistência Afro Brasileira, Célia Gonçalves Souza diz que o problema da intolerância é nacional, mas que, de fato, vem ganhando contornos específicos no Rio, sobretudo pela penetração de evangélicos no sistema carcerário. “No Rio, esse problema é muito escancarado e o narcopentecostalismo só tende a crescer. E passa pela questão das penitenciárias, onde há uma entrada muito grande dos neopentecostais.”
 
Na Baixada Fluminense, traficantes passaram a ditar regras dos terreiros, como horários das cerimônias e uso de fogos de artifício e fogueiras. Eles também proíbem as pessoas de andarem com roupas brancas ou de santo nas ruas. As invasões a terreiros são cada vez mais frequentes, com destruição de oferendas e imagens sagradas.
 
Há uma semana, o terreiro Ilê Axé de Bate Folha, em Duque de Caxias, foi invadido por traficantes – no 10.º caso da região. Eles quebraram todas as imagens e oferendas e ameaçaram de morte a mãe de santo, que está fora do Estado, na casa de parentes.
 
“O ataque aconteceu num sábado de casa cheia. Eles entraram com violência, mandando todo mundo sair e quebrando tudo”, contou uma testemunha. “O terreiro está fechado. Tiramos tudo de lá e não aconselhamos ninguém a voltar.” Segundo a mesma testemunha, outros religiosos fecharam os terreiros e se mudaram.
 
“Qualquer ataque com contornos de destruição do sagrado tem caráter de racismo religioso”, diz a defensora Livia Cásseres, do núcleo contra a desigualdade racial da Defensoria Pública. “À violência que já existe contra essas religiões – que têm uma série de direitos negados –, se soma agora a do varejo de drogas. Mas a violência contra elas é permanente desde a época colonial.” Por isso, para Livia, a solução passa por diferentes esferas.
 
Alerta
 
A gravidade da situação fez com que, em julho, fosse realizada uma reunião com membros da umbanda e do candomblé, lideranças evangélicas, e representantes da Polícia Civil, do Ministério Público e da Defensoria Pública.
 
O pastor Marcos Amaral, da Comissão Contra a Intolerância Religiosa, destaca que a denominação “evangélicos” abrange um segmento grande de religiosos, com posicionamentos diferenciados. Já o pastor Neil Barreto, da Igreja Batista Betânia, afirma que “a intolerância é o ápice da ignorância”. “E a única solução para a ignorância que produz intolerância é a educação. Precisamos de uma campanha de educação e conscientização em todas as comunidades de fé.”
 
Fonte: Estadão
Foto: Reprodução/Facebook

 
O arcebispo de Feira de Santana (BA), Dom Zanoni Demettino Castro, e bispo referencial da Pastoral Afro-Brasileira, no Convento São Francisco, na região central de São Paulo, que o povo brasileiro não pode perder a esperança, pois essa é a identidade e missão do cristão. “O lobo e o cordeiro comerão juntos e a criança de colo não vai ter medo de bichos, de cobra venenosa, porque um Menino nasceu para nós, um Filho nos foi dado. Como dizia o profeta Isaías, o povo andava nas trevas e viu uma grande luz. A bota do capataz, que pisa e massacra, e toda veste serão devoradas pelas chamas. Essa é a esperança, apesar do tempo difícil, de negação da vida, de fechamento da pluralidade, de uma mentalidade fascista presente no nosso meio, de negação da ciência, da democracia e da luta pela humanidade. Creio que é nesse momento de crise que devemos valorizar a resistência”, exortou D. Zanoni. Ele foi o presidente da Santa Missa, que teve como concelebrantes os bispos Dom Antônio Wagner da Silva, de Guarapuava (PR), e Dom Eduardo Viera dos Santos, de São Paulo.
 
Os três bispos se juntaram a padres e diáconos negros de diferentes dioceses brasileiras para participarem da 29ª Assembleia Geral do Instituto Mariama. Presentes na Celebração Eucarística estavam o guardião do Convento São Francisco, Frei Mário Tagliari; o presidente da Educafro, Frei David Raimundo dos Santos; e representantes da Pastoral Afro de diversas Paróquias de São Paulo. A liturgia foi animada pelas “Pastoras do Rosário”, um grupo musical conhecido da Comunidade do Rosário dos Homens Pretos do bairro Penha de França.
 
Segundo o arcebispo de Feira de Santana, presbíteros, diáconos e bispos assumem sua negritude com orgulho e compromisso e refletem sobre a Missão Evangelizadora da Igreja, tendo presente a vida concreta do povo, sobretudo o povo negro. “Como bispos e presbíteros negros, nos perguntamos sobre a maneira eficaz de sermos fiéis ao mandato evangelizador do Mestre Jesus”, explicou D. Zanoni, que fez a primeira conferência deste dia do Encontro partindo dos documentos das Conferências Episcopais e, sobretudo, a partir do ensinamento do Papa Francisco. O Pe. Benedito Ferraro, Professor Emérito da PUC, Campinas, enfocou o tema central sobre o ponto de vista cristológico.
 
Segundo D. Zanoni, ser cristão é acreditar que essa profecia, esse desejo de vida, de partilha, de solidariedade, não somente do povo de Israel mas de todas as nações, “realiza-se no caminho de Jesus, naquele que passou a vida fazendo o bem, naquele que não teve preconceito para com o estrangeiro, naquele que não quis impor a lei sobre as costas das pessoas, que amou sem impor condição”, acrescentou.
 
Comentando a parábola do joio e do trigo, lida no Evangelho desta Missa, o Arcebispo disse que a tentação é logo separar o joio do trigo. “Mas o ensinamento de Jesus nos aponta para uma realidade futura nova: o julgamento. Talvez nós tenhamos essa dificuldade de enfrentar, no momento, tanta diversidade e desrespeito à vida”, observou, lamentando a situação das comunidades indígenas com o atentado no Amapá, a morte “desses irmãos” no presídio Pará, a realidade de sofrimento que vive o povo brasileiro, o crescimento assustador do extermínio da juventude negra. “Nós vivemos nesse mundo de crise e como podemos plasmar uma nova sociedade? Quem vai construir um novo céu uma nota terra? O céu não vem pronto. Exige de nós uma resposta. E aqui está, meus irmãos e irmãs, a nossa missão como protagonistas dessa realidade, como nos ensina a Conferência de Aparecida: Sujeitos da gestação de um mundo novo de paz e de justiça”, assinalou. Para D. Zanoni, não são os youtubers, os jogadores milionários, os donos do mercado, aqueles que detêm a riqueza e o poder, que vão plasmar esse novo céu, mas “a nossa pertença à Igreja, que não é uma construção de pedra, uma ONG, nem somente a hierarquia, mas a comunidade daqueles que acreditam em Jesus, que diz que ‘o Espírito do Senhor está sobre mim porque Ele me ungiu para dar uma notícia boa aos pobres, libertar os prisioneiros, curar os doentes, recuperar a vista aos cegos’”. Essa é a missão da Igreja, enfatizou o Arcebispo.
 
Para D. Zanoni, a tentação é querer trabalhar só para os bons. “Esse não presta, aquele não tem jeito. Temos que perceber que o Espírito de Deus age não somente na nossa estrutura, na nossa organização, mas onde existe a paz, o amor, a fraternidade, a preocupação com a pessoa humana e que o critério da salvação não se limita ao espaço religioso”, disse, recordando que Jesus ensina ser solidário com os irmãos necessitados: ‘Vinde benditos de meu Pai, pois eu estava com fome e me destes de comer; eu estava com sede e me destes de beber; eu era estrangeiro e me recebestes em casa; eu estava nu e me vestistes; eu estava doente e cuidastes de mim; eu estava na prisão e fostes me visitar’.
 
Dom Zanoni contou que participou recentemente de um encontro de jovens, a maioria de negros, e que teve como tema: “Negritude e Resistência”. “Isso é importante perceber a caminhada e resistência. Nós somos chamados, como um povo negro, a sermos protagonistas da gestação de um novo mundo”, reforçou.
 
DESIGUALDADE ENTRE POPULAÇÃO NEGRA E POPULAÇÃO BRANCA
 
Segundo D. Zanoni, citando o papa João Paulo II, há mais de trinta anos, os ricos estão cada vez mais ricos às custas dos pobres e os pobres cada vez mais pobres. “E essa realidade só se agravou. Tem crescido por demais a desigualdade. E a nossa preocupação é quando se prioriza políticas de endeusamento do lucro  e se esquece das pessoas. E à Igreja – creio que é sua missão – cabe aliar-se e se comprometer com toda a luta que resgate a vida das pessoas, que restaure vidas, que gere ações afirmativas. Creio que esse é o caminho, justamente com o povo negro, com a juventude negra, com esse povo que passou 300 anos de escravidão, esse crime de lesa humanidade. É aquilo que o Papa Francisco tem insistido: Precisamos pensar uma nova economia, uma nova ordem mundial de solidariedade e paz”, ressaltou.
 
Segundo dados do IBGE, 53% da população brasileira é formada por negros e negras, sendo que 70% dessa população vive na extrema pobreza. “A população negra tem três vezes mais o número de assassinatos entre os jovens negros. Somos a terceira população carcerária, onde a maioria é de negros. São consequências da escravidão que não restaurou, não repartiu a riqueza”, lamenta D. Zanoni, lembrando que a Pastoral Afro, assim como a Pastoral Carcerária, têm como missão ser cuidadores e zeladores, como o Bom Pastor. “Então, evangelizar, como nos ensina o Papa Paulo Vi, não é oferecer um verniz superficial, mas ter presente a concretude da vida.  Estar bem presente com  seus sonhos, suas alegrias, suas expectativas, suas angústias, dores, mas sobretudo a esperança. A Pastoral Afro tem que estar presente em toda a ação da Igreja de maneira transversal”, indicou.
 
A população negra também sofre, hoje também, com a intolerância religiosa. Segundo dados da Comissão de Combate à Intolerância Religiosa do Rio de Janeiro, o número de ataques contra religiões de matizes africanas subiu 70% no Estado. “Nós, de fato, observamos uma demonização das coisas do negro. Da religião do negro. Por que só a cultura dos nórdicos, a cultura europeia, é tida como boa? Um franciscano que foi meu professor, Hugo Fragoso, perguntava por que na liturgia se pode tocar os órgãos que se tocavam nos cabarés europeus, e não pode tocar os atabaques? Hoje, nós percebemos essa intolerância, esse racismo, essa visão distorcida da fé e do cristianismo. A compreensão da evangelização passa necessariamente pelo encontro com outro, pela valorização da pessoa humana. Não há referência outra que não seja Jesus. Ele não teve preconceito para com o estrangeiro, sentou-se com a samaritana, passou a vida fazendo o bem, amou sem condição. Então, essa intolerância é a negação da fé cristã e do cristianismo”, lamentou. “Assumir a concretude da vida do nosso povo, a realidade sofrida da nossa gente, é o grande desafio da ação evangelizadora da Igreja neste mundo pluralista e secularizado”, completou.
 
A Associação de Bispos, Presbíteros e Diáconos Negros se constitui como sociedade civil de direito privado, de âmbito nacional, sem fins não econômicos e sem vínculos político-partidários. O Instituto foi criado há 29 anos e nasceu a partir da necessidade de recuperar as tradições, a religiosidade, a fé cristã vivida e celebrada na comunidade negra.
 
Fonte: Franciscanos
Foto: Reprodução

 
No dia 28 de setembro será lançada a 19ª campanha Primavera para a Vida, que esse ano terá como tema: ‘’ Águas da Resistência – “…porque tive sede e me deste de beber!” (Mt. 25,35b). A campanha abordará a água como uma dádiva divina e como um direito que não pode ser reduzido a uma mercadoria ou a um bem particular.
 
A escolha do tema
 
O Brasil é um dos países mais ricos em água doce. Tem grandes bacias hidrográficas que constituem 12% da água doce existente no mundo. É o único país de dimensões continentais onde chove em todo o seu território. Entretanto, a situação de nossas águas é uma lástima. Aproximadamente, 70% dos rios brasileiros estão contaminados por esgoto industrial, doméstico, metais pesados, agrotóxicos etc. Do ponto de vista do consumo, 20% da população brasileira (35 milhões) não tem acesso à água potável; 40% da água de nossas torneiras não serve para beber (atingindo perto de 70 milhões de pessoas); 80% do esgoto coletado é jogado in natura nos rios brasileiros. Cerca de 105 milhões de brasileiros vivem em estado de insegurança quanto à água que consomem. Uma outra situação que desperta a nossa indignação é quando sabemos que um “bem comum” como a água está sendo privatizado em diversos lugares, ou seja, o que era para ser “gratuidade” virou comércio onde algumas pessoas estão “autorizadas” a usufruir dela como se fosse propriedade exclusiva e não um bem comum a que todas as pessoas devem ter direito. Como igrejas cristãs, estamos sendo desafiadas a nos posicionarmos profeticamente diante deste grave atentado a nossa Casa Comum. Muitas pessoas estão sedentas de água para beber e de vozes proféticas que saciem a sua sede de justiça.
 
O lançamento
 
Igrejas locais e nacionais, entidades parceiras em âmbito nacional, pessoas da rede de amigos e representantes de projetos apoiados participarão do lançamento, que acontecerá no dia 28 de setembro no estacionamento do MAB – Museu de Arte da Bahia (Av. Sete de Setembro, 2340 – Corredor da Vitória, Salvador).
 
O dia começará às 12h com a tradicional feijoada da primavera (no valor de R$ 30), com a apresentação de percussão dos jovens do ICMA – Instituto Comunitário de Iniciação Musical & Arteeducação e depois com o show do Grupo ABC do Samba, formado por Dinha Dórea, Iara Canuto e Rayra Maierá e músicos. Elas prometem fazer o público cantar e dançar com repertório base dos clássicos imortalizados por Clara Nunes, Beth Carvalho e Alcione, três grandes intérpretes brasileiras. O evento contará com a venda de bebidas e sobremesas, bazar com roupas e acessórios a preços populares e produtos de organizações populares apoiadas pela CESE.
 
Toda renda obtida com a atividade será revertida para apoiar projetos recebidos pela CESE. Os convites para a Campanha estão disponíveis na CESE (Rua da Graça, 150). Mais informações podem ser esclarecidas em: (71) 2104-5457.
 
Histórico da Campanha
 
Realizada desde o ano 2000, a Campanha Primavera para a Vida tem o objetivo de mobilizar recursos para as atividades da CESE em todo o país (fortalecendo os grupos populares nas suas lutas por direitos, por meio do apoio a projetos) e estreitar e ampliar a articulação com as bases das Igrejas.
 
A CESE foi fundada por igrejas com apoio da cooperação ecumênica internacional que assumiu o compromisso com os direitos humanos e o fortalecimento dos movimentos sociais. Nos últimos anos, os recursos dessa cooperação vêm diminuindo, o que afeta a realização das propostas da CESE, principalmente a manutenção do apoio a pequenos projetos.
 
SERVIÇO:
 
O QUE: CESE: Campanha Primavera para a Vida 2019
QUANDO: 28/09/2019, a partir das 12h
ONDE:  MAB – MUSEU DE ARTE DA BAHIA – Av. Sete de Setembro, 2340 – Vitória, Salvador
VALOR: R$ 30 (feijoada) – Convite disponível na sede da CESE – Rua da Graça, 150 – Graça